terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Poeta

-O POETA


O Poeta caminha, só,
verde prado,
numa tarde de Verão calma
margaridas ponteiam o campo.
Orgíacas revoluções com doces papoilas
e o zunir melífero das abelhas
no silêncio vespertino anuncia
a memória de dias nunca vãos
que o Esquecimento se esqueceu de levar.

Ao longe, negras, sobem as montanhas
trazendo-lhe à visão desavisada
seus ombros perfumados e desnudos…
o suave toque de sua excelsa pele

Suavemente, o rio beija as margens
onduladas, onde descansam ulmeiros
junto a um castanheiro milenar.
O poeta se senta e sente
na corrente melodiosa, a sua vida que passa.
Aproxima-se de seu espelho
serpenteante, mira seu rosto calado.
E como o rio, seus pensamentos flúem livres
entre as margens de um sonho inebriante.


«Onde te escondeste todo este tempo?
Levantei todas as pedras,
perscrutei cavernas e bosques frondosos
percorri todos os trilhos e caminhos do mundo
para te encontrar, aqui, descoberta,
a razão última de meu ansioso devir»

Aqui, local ermo e terno
onde o homem não pode entrar
senão em Sonho ou Morte,
transportado por valquírias, ninfas ou sílfides
e tão raro por seu próprio pé,
calcando firme a terra fértil e escura
da sua imaginação desmedida.

«Eu sou aquela casa», murmura
no monte perdida,
isolada, perene, pousada
sobre a colina calcária.
Recortada fora do tempo,
porque escondida onde o tempo não pára.

Sou essa casa.
Mesmo velha e arejada.
Pedra por pedra erguida.
Vida por vida vivida.
Sou a brisa que atravessa, firme,
as janelas sombrias e tristes,
os estilhaços vítreos aguçados.
E faço tremer as cortinas cansadas
com as histórias do meu soprar.

Sou esse telhado de colmo e barro
de xisto recortado na noite.
O telheiro sobre o madeiro que no solo o afirma

A validade de ser também este rio,
fugidio à perseverante corrente do ser.
Atento às sombras tremeluzentes de verde
que as árvores derramam sobre meu corpo.
Adormecido e embalado pelos badalos
surdos dos rebanhos lanudos.

E que em si a corrente o leva
Sensações, emoções, palavras
sentimentos, pensamentos e acções
jorram da mesma fonte interna
que por vezes galgam as margens, fronteiras…
a margem da Vida e a da Morte
Pela sua identidade de fluir
E correr sempre livre
Mesmo represado e seu curso alterado
Com regos abertos a jusante
Em diques e barragens
Nada o impede de decorrer.



O Poeta sabe que, como o rio
É límpido e cristalino, turbulento e calmo
E seu corpo serpenteante advoga
O que no seu íntimo deseja e quer
Rumando até à foz do seu sentir.

O Poeta diverge e divaga,
acompanhando visualmente
os disparados arrojos das andorinhas.
E sente em si esse impulso marcado
do apelo pelas terras novas e novos céus.
E vendo-as desaparecer entre plátanos,
sonha em suas viagens migratórias,
atento ao desabrochar suave de um lírio.

Diz, melro, canta-me a tua sina,
Preenchida no negro nocturno da plumagem
És contudo a alegria incontida da Primavera
A sua promessa florida que de Inverno afina
Canta-me, dá-me o código da tua mensagem
Desvenda os segredos maduros das tuas penas

O Poeta ainda se recorda
Da inicial ocasião
Em que ousou penetrar
Naquele espaço vibrante.
Atravessando o Anel de pedras erectas
Em órbita sustidas
De um altar deitado e reverberante

Viu a dança das luzes
Cantou com fadas e elfos
E ruminando a sua música ecoar
Dançou à volta das rochas falantes
Na função antiga e sábia
De os percorrer,
E ao percorrê-los curar a terra .
E rodopiou sobre os calcanhares
E sentiu o tacto frio da laje
Esqueceu o tempo que voou
E dançou enquanto música havia.



Descobriu, então
Esse caminho secreto no seu coração
quando no cromlech da sua alma
Trauteava essa mágica melodia.


Nisto, a noite avança, rápida.
Insinuam-se as estrelas no índigo.
O poeta decide quedar-se mais um pouco.
Observa a treva a sobrepor-se
à luz líquida em movimento do rio.
Como a Morte chega todas as noites
para se dissipar, silenciosa,
de aurora em aurora.
E compreendi, que, em si,
apenas existe esse vazio negro e sombrio
continuamente preenchido
…e esvaziado.

Em cada pulsar do coração.
Em cada momento de respiração.
Tudo somado num suspiro surdo
na calma e bucólica tarde
que naquele momento, assim findava.
Reservava-se então o direito
de, em repouso, se manter.
Qual flor que sabe e sente
que a Primavera ainda tarda
e que os suaves toques solarengos.
que sobre a terra sente
são apenas arautos da Vida que quer renascer.

O Poeta levanta-se.
E saúda a pedra que o sustinha.
E o rio que conversara com ele.
E partilhara a sua sabedoria.
Com o vento que lhe traz as respostas,
sopradas como folhas amarelecidas.
Subtilmente arrancadas das árvores,
soltas nos Outonos da vida.




Ele sabe, sente e ri…
As memórias não se perdem.
Antes se miniaturizam , leves,
e se encaixam em recônditos locais
onde moram as morais mentais.
Por vezes se visitam, em sonhos
ou em tardes secas de verão.

Ao convite de uma rocha sentada.
À beira de um rio, borbulhante.

Enquanto sobe, célere, a colina,
o poeta ouve o murmúrio da Lua.
Terá sido apenas ele a ouvi-la?

Dizia que, lá do Alto,
os céus nova vida ganhavam.
Despidos do Azul, lá no alto,
as estrelas brilhavam mais perto,
e é mais frio o calor do Sol.

Projecta sobre a Terra a sua sombra
em dias de eclipse solar
para ver o que mais se esconde
quando ela não está à espreita.
A Lua, pensa o poeta,
nobre e alvo astro,
conhece os segredos que se fiam na noite
presos por sonhos inconscientes
como papagaios ao vento
subindo pelas chaminés das casas tristes.

A Lua sente-lhes o sabor, ouve-lhes o cheiro.
Odor a sonho quente e húmido,
fecundo, agitado e quedo.
A Lua sabe a que o Homem almeja,
pois todas as noites se deita a ouvi-lo.
O poeta, sabe que, como a Lua
sua vida é mutável, e, por vezes,
desaparece, desprende-se e foge.
Vaga no limbo, esquecimento
despertando até ficar preenchida.





«Sou como o rio que nasce
além, da Rocha Mãe.
Percorro-me para algo maior que eu.
Por vales e belas aldeias,
até à foz em que me desaguo.
Eu sou aquela casa e este rio.
Sou também esta terra,
e o mar que, adivinho,
se estende, escondido atrás da serra.
Sou as estradas que rasgo as montanhas
dilaceradas em pedreiras e minas.
Sou essas montanhas, seu pico e seu seio
e escancaro túneis no meu ventre.»

Sob o manto de estrelas faíscantes
estendo meu sedoso versar,
aparelhando longínquas galáxias,
em rimas de ver e pasmar.

E até onde minha imaginação alcança
canto a órbita de planetas distantes…
Difusos, obtusos… férteis esferas…
Aponto o meu telescópio à noite
e deixo as nebulosas cantarem-me
em verso cuidado e esgrimido
as histórias que se escondem
por entre a escuridão reinante.

Às estrelas que apontam diversas direcções
que desenham motivos antigos e mitológicos
desfio num lamento de flauta de cristal.
Ao desafio com as dedilhadas cordas
de uma harpa de penas de cisne:








«Longos trilhos caminhei
por estes vales e montes
e pelo caminho, bem sei,
bebi de todas as fontes.
Discorri por aldeias e vilas,
atravessei suas antigas pontes.
Por suas muralhas trepei
as acções a fazer, fi-las

Por esses campos me perdi,
sempre para me encontrar.
E nesses tempos, eu vi,
no que me iria tornar.
Qual rei sem trono, sou
como a águia a planar.
E de todas essas vezes senti
o que sempre em mim voou.

Qual a medida,
Valor da realidade?
O significado, esquivo
obliterado e escuro,
encontra-se, dúbio,
sobre o horizonte cálido
que se me acerca,
acerca e ribomba…
Trovoada sobre o mar


Rompo com meus dedos nus
os sonhos semeados na aurora.
E trago das dóceis planícies da Consciência
as recordações floridas da Memória.

Do Caos se forma o Cosmos
calma e acuradamente.
E se por vezes aleatórios,
os pólos se invertem e absorvem,
fazem-no como quem sente
que não há momentos inglórios.




Lenta e inexorável, a Ordem avança
para um desfecho que não calcula
segue o traçado do Destino
e sabe que nunca se cansa
que para sempre vincula
o seu Princípio pelo caminho

Semeia, então, generosa
em largas braçadas ao vento.
os sonhos líricos que hão-de vir.
Por vezes canta, proveitosa,
canções tristes ao Tempo
que acorda para o porvir.

Pequenos trechos
impolutos, impulsivos
se denotam nas claras pinceladas
no céu que o Outono pinta
fiapos voando no vento
que atravessa as ruas molhadas
da adormecida cidade.
Esparsos no Universo
por trás de estrelas insondáveis,
invioladas e incautas.

Para além do horizonte
estende-se o desconhecido.
Diz quem com sonhos povoa
as espirais do pensamento.

Posso saber e conhecer
o que há para lá do sonho.
Quando na vida tudo soçobra,
a ignorância é a que primeiro cai.

Enchi os sonhos com Amor
insuflei-os com minha própria alma.
Para, quando prestes a descobrir
o sentido que me movia,
acordo em sobressalto,
acossado por sombras e ruídos
que ao abrir olhos não sinto.»


O cavalo, malhado sobre a planície, galopa
No céu escarlate da aurora
O veado, na verde clareira da floresta,
sob o carvalho antigo e musgoso
faz a corte a uma cerva branca
e o javali, na serra, com os deuses
percorre as matas, em tropel
Saltam coelhos e lebres das tocas de Inverno,
Acorda o urso do sono frio da caverna
E delicia-se na beira de um rio.
A águia espirala e escolhe sua presa
O falcão mira o couto quedo
como os ramos do loureiro
A coruja, negra e alva, revela-se nocturna
Na copa secreta de um cedro.

A voz da Natureza percutida em sinapses
Revela-se-lhe em subtis pinceladas
Num quadro abrangente com o Universo
Em todos os seres ele se revê.
----------------------------------------------------------------------

O Poeta passa pela porta escancarada
O chão madeira range ante seus passos
Nos reflexos prateados das paredes
Vê e ouve as vidas que se desenrolaram
Ao sabor das estações
Ao sabor salutar da labuta diária

Sente o sol em arco sobre as telhas
A visitar o interior sombrio
Enternecido com os habitantes
Na solidão das serranias,
onde o Tempo se esquece de passar

Aqui e ali, refulgem quartzitos
Entre blocos de granito claro
E figurinhas em carvão vão dançando
Com as labaredas da lareira acesa
E a Lua ouve o gemido surdo na coberta
Quando o silêncio se instala sobre os campos

O Poeta reconhece aí a simplicidade da vida
Atravessando gerações, séculos e milénios
Sente o apego à terra mãe que respira como ele
Vê os rebanhos partirem, lanudos, de matina
Atravessando vaus e colinas, livre
E chegando, à noitinha, cansados mas alegres

Sai da casa que lhe susteve o caminhar.
E no céu, caem estrelas de Leão
Riscando, lápis de diamante,
A ardósia virgem da noite
Passando o cerro que se ergue à sua frente
O Poeta sente já a luz amarela
Vibrante e morta da cidade

Lá onde os homens se acotovelam
Em balcões pintados de fresco
E encostados bebem as suas memórias
Frustrações e alegrias
Com o mesmo travo inebriante
Com que festejam vitórias
Ou choram os mortos.

Lá, o Poeta passa silencioso
Alheio aos cães que farejam em seu redor.
Alheio às mulheres que lhe segredam pelo caminho,
Alheio aos homens trauteando os passos
E o chilreio metálico dos eléctricos que passam
Sobre as negras calçadas molhadas

Aguarda um pouco ainda na noite,
Centrado na Fonte de Vénus, mármore rosado,
Numa praça oval, num bairro antigo
Em seu redor zunem enxames de pessoas sem rosto
Trespassando à luz amarela dos candeeiros
Suas vidas inglórias e sonhos destruídos.

O poeta, só e sempre único,
Ondula suavemente as águas da fonte
Acordando, ao de leve, a Afrodite
De seu sono empedernido
E o poeta louva esse amor
Líquido e calmo, alvo…
Que jorra de seus seios rotundos

Segue a rua imerso na imensidão da noite
E na sua própria e acanhada insignificância
Chegado aos degraus que marcavam sua porta
Olha, meio a medo, para as janelas cerradas
É o silêncio que mora em todas aquelas casas
O incómodo e ruidoso zunido do nada.


Sobe até ao seu patamar e na porta deposita a chave
Se tudo no Mundo e na vida assim se abrisse
E tivéssemos nós as chaves para tudo,
Todas as portas se pudessem abrir e explorar
A chave mestra da Existência.

Pousa na mesa nua o chapéu cansado
E, frente à janela aberta para a cidade
E pela cidade sufocada
Despeja num copo o tinto sangue da terra
Pois sabe, pensa e reconhece
Que ali a poesia fenece, entre as paredes que o rodeiam
Morre e expira entre as negras retumbâncias,
Frestas rotas nas paredes forradas
Num suspiro reverberado de cor seca e triste.

O Poeta, no seu quarto, fechado,
Janela sonhada sobre o rio
A cama a um canto posta,
O apoio de uma cadeira desengonçada e tosca
A Lua, companheira, reflexa no espelho
deitado, olhando as parcas estrelas
reflecte nos seus comos e porquês
sonha acordado dias que hão-de vir.

Nas paredes ermas, memórias expostas
Dão as mãos e , em cor, cantam
Melopeias à noite suada,
Com os gatos que assomam à janela
E os cães que longe em vão ladram

Adormece, então, o Poeta,
Como que morto, expira
E entrega-se às mãos de Orfeu
Cambiando a Arte de Sonhar
Com a Realidade entreposta
Deitado nos braços da Madrugada.