Benvindo à nossa leitaria
aqui se explora todo o dia
Retenha à porta a sua alegria...
aqui não reside sabedoria.
Se quiser leite de Literatura
saiba que se pratica a usura
Se quiser queijo de poema:
a escravatura é o lema.
Da História,
parca memória.
Da Filosofia...
até um burro se ria
Do ditador, a glória
nós, apenas escumalha e escória.
Já se espremem biografias
de quem vida só teve uns dias
Crónicas... que não te fies
mete a canga e não pies.
Isto, a um nível antropológico
digamos, de caril etnológico
com nuance simbólica
de índole pouco católica.
No âmbito da inética sociologia
não há ponta de pedagogia
Haverá coágulo de demagogia?
iogurte psicológico, esoteriológico?
Natas... ajudem-se a si mesmas
que o Direito se encha de lesmas
E um batido de comunicação
de quem tem os grupos na mão
poderá encontrar ralações internacionais
no pasto da política
e se a nossa História não é semítica
estende-se as cartas, códigos e sinais
ah! Vaca memória de viagens
que não se me apaguem as imagens
Tudo isto porque a quem é leiteiro
não lhe pedem para ser livreiro
E se não perceberes daquilo que fazes
nada mais és que papagaio de ocas frases.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
terça-feira, 11 de junho de 2013
À soleira
À soleira,
desalmado,
flutua.
Desanimado...
inanimado...
vazio de sentido,
vácuo de força
anímica.
Um líquido suspiro,
esgar rochoso.
A vida inteira...
pedaços de momentos
colados em caminho
sob os tijolos das opções.
E, os cacos, varre-os a mente
enrolados no cotão de sua insignificância.
A dor é aqui!
Não cai... desfalece.
perante respostas imunitárias.
Não te propensa o comprimido
tormento de oprimido.
À janela, olhos de gato... espreitam
sem runa, sem rumo
ronrona à Lua que pinga
destilando suas crateras
envelhecidas.
Range o corpo
nas esquinas iluminadas
da consciência.
Rege a alma, presa...
ilha de si mesma.
A solução, reage, alcalina.
tom cien que se demarca
matiz que o céu reflecte
das ondas que batem no mar.
Ondas, partículas
ou tão só a noção do observador
Se observa a dor,
como não lhe dói?
A prova da alma
o ânimo das consubstâncias
empaladas no corpo crú
emolumentos de sinapse
fractal semeando quântica evolução
espelhadas no cosmos, as forças primordiais
iniciam-se na ausência de matéria.
Sem massa.
Sem analepse.
E todo o dia, ruír
E tons de células erguer,
nascendo e morrendo
no intervalo de uma unidade
a que chamam tempo
o grande Deus que ensina:
«Tudo passa...»
desalmado,
flutua.
Desanimado...
inanimado...
vazio de sentido,
vácuo de força
anímica.
Um líquido suspiro,
esgar rochoso.
A vida inteira...
pedaços de momentos
colados em caminho
sob os tijolos das opções.
E, os cacos, varre-os a mente
enrolados no cotão de sua insignificância.
A dor é aqui!
Não cai... desfalece.
perante respostas imunitárias.
Não te propensa o comprimido
tormento de oprimido.
À janela, olhos de gato... espreitam
sem runa, sem rumo
ronrona à Lua que pinga
destilando suas crateras
envelhecidas.
Range o corpo
nas esquinas iluminadas
da consciência.
Rege a alma, presa...
ilha de si mesma.
A solução, reage, alcalina.
tom cien que se demarca
matiz que o céu reflecte
das ondas que batem no mar.
Ondas, partículas
ou tão só a noção do observador
Se observa a dor,
como não lhe dói?
A prova da alma
o ânimo das consubstâncias
empaladas no corpo crú
emolumentos de sinapse
fractal semeando quântica evolução
espelhadas no cosmos, as forças primordiais
iniciam-se na ausência de matéria.
Sem massa.
Sem analepse.
E todo o dia, ruír
E tons de células erguer,
nascendo e morrendo
no intervalo de uma unidade
a que chamam tempo
o grande Deus que ensina:
«Tudo passa...»
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Papagaio Cavalo ou O Investimento do Jumento
Papagaio Cavalo,
Robot de Farmácia,
camisola, bandeira,
ou só camelo?
Serviço Gourmet
atascado...
De smoking
ou esfarrapado.
Humano
ou animal
em que ficamos, afinal?
Vendedor vendido
consumidor consumido
escalpado, esculpido,
escravo assumido
«em busca do tempo perdido»
O investimento do jumento,
sua vida, seu tempo,
dedicação, honra, esforço,
tudo não mais
que saque de corso.
Maço de tabaco/hora
treze destas fora do ninho,
corrente que estica mas prende.
Sem água,
de cauda aparada...
Moço de fretes e mais nada!
pontapés no cú, porta fechada.
Que neste prado rarefeito
nem sequer se dá o respeito.
Papagaio cavalo
camelo, jumento,
o teu juramento,
inútil e chulo.
E tantas as dores
de apanhar en el culo...
tantas vis mentiras...
corruptelas e aldrabices...
Tanta manipulação...
Filhos de meretrizes
de rédeas estultas na mão.
Puxam-me a crina
arrancam-me as penas
cortam-me o bico
ferram-me os cascos
e, à noitinha,
de corpo e mente acicatados,
não se passam bons bocados.
Fazem-se contas ao que não há,
lambem-se as feridas purulentas
morre-se para esquecer o porvir.
O foco... o foco...
O foco gosta é de foca,
mas não da badalhoca.
Alavanca-me o dito
montado no manguito
que eu não sei
por onde anda, que não tenho,
Huguito
ou sementes de girassol
Robot de Farmácia,
camisola, bandeira,
ou só camelo?
Serviço Gourmet
atascado...
De smoking
ou esfarrapado.
Humano
ou animal
em que ficamos, afinal?
Vendedor vendido
consumidor consumido
escalpado, esculpido,
escravo assumido
«em busca do tempo perdido»
O investimento do jumento,
sua vida, seu tempo,
dedicação, honra, esforço,
tudo não mais
que saque de corso.
Maço de tabaco/hora
treze destas fora do ninho,
corrente que estica mas prende.
Sem água,
de cauda aparada...
Moço de fretes e mais nada!
pontapés no cú, porta fechada.
Que neste prado rarefeito
nem sequer se dá o respeito.
Papagaio cavalo
camelo, jumento,
o teu juramento,
inútil e chulo.
E tantas as dores
de apanhar en el culo...
tantas vis mentiras...
corruptelas e aldrabices...
Tanta manipulação...
Filhos de meretrizes
de rédeas estultas na mão.
Puxam-me a crina
arrancam-me as penas
cortam-me o bico
ferram-me os cascos
e, à noitinha,
de corpo e mente acicatados,
não se passam bons bocados.
Fazem-se contas ao que não há,
lambem-se as feridas purulentas
morre-se para esquecer o porvir.
O foco... o foco...
O foco gosta é de foca,
mas não da badalhoca.
Alavanca-me o dito
montado no manguito
que eu não sei
por onde anda, que não tenho,
Huguito
ou sementes de girassol
sábado, 1 de junho de 2013
Branca Rosa
Rosa d'Alba,
pura, calma
sedosa na brisa.
Alma
Desenlaça pétalas
doces,
belas,
estrelas.
Essência sedenta,
presença...
cedência
entreaberta.
E no rosado de teus beijos,
gineceus castos e impolutos,
brincam nas partículas
que a luz pinga,
nas imaginações cálidas,
sobre seu néctar,
desejado elixir,
poção dos amores virginais,
cálice por quem se finaram heróis,
e reis afogaram seus povos.
Decompondo pólenes
na aurora boreal,
o alquimista
Constrói a rosa
minério tangível
humores celestiais
Funde-a por oito noites
sob as viagens da lua estia
Por alambiques a destila
devassa sépalas,
reduz, reanima, formula
para ser rosa, no fundo
que a rosa alva
de puro perfume
toque borboletáceo
e convite esbelto
não se acha atrás do que resta.
Assume-a o pensamento
coreolado pela compaixão maior
ser de si e de si dar-se
de botão selado
ao desabrochar erótico e belo
aurora floral
de ser a si mesma igual
uma rosa branca,
uma rosa franca,
uma rosa que se levanta
que com o tentilhão canta
uma rosa infanta.
pura, calma
sedosa na brisa.
Alma
Desenlaça pétalas
doces,
belas,
estrelas.
Essência sedenta,
presença...
cedência
entreaberta.
E no rosado de teus beijos,
gineceus castos e impolutos,
brincam nas partículas
que a luz pinga,
nas imaginações cálidas,
sobre seu néctar,
desejado elixir,
poção dos amores virginais,
cálice por quem se finaram heróis,
e reis afogaram seus povos.
Decompondo pólenes
na aurora boreal,
o alquimista
Constrói a rosa
minério tangível
humores celestiais
Funde-a por oito noites
sob as viagens da lua estia
Por alambiques a destila
devassa sépalas,
reduz, reanima, formula
para ser rosa, no fundo
que a rosa alva
de puro perfume
toque borboletáceo
e convite esbelto
não se acha atrás do que resta.
Assume-a o pensamento
coreolado pela compaixão maior
ser de si e de si dar-se
de botão selado
ao desabrochar erótico e belo
aurora floral
de ser a si mesma igual
uma rosa branca,
uma rosa franca,
uma rosa que se levanta
que com o tentilhão canta
uma rosa infanta.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Aquimetendes
Aqui estando
e, no entanto,
como se não estivesse.
Como se um corpo de vento
me transportasse,
em asas de firmamento
até aos limites da consciência,
esse horizonte incalculável.
Vivendo
e, contudo,
como se não vivesse.
Atravessando a vida
num rio sem pontes
como se fosse sombra
da lua passeando na terra
deixando mais memória que sinal.
Existindo,
não obstante
o não existir.
Caravela de sonho e vertigem,
naufrágio de aportar,
como uma língua
de terra no mar,
sem maré para navegar.
E nesta inacção,
que o corpo prende
mas a mente liberta,
me encontro, pequeno eu,
nas raízes de minhas ilusões.
Utopia reinante e Justiça
arrastar-se, exangue,
perseguindo sonambulismos.
Largar o passado
sem ver futuro
esse sim, o desafio
brumosos passos me levarão
onde minha vontade aprouver
Aqui, já não
há força para caminhar
que este trilho é jocoso.
Aqui, sentindo...
como podia eu não sentir?
Se na garganta se cala o peito?
E vejo estarolas esgrimir
lições de quem as não aprendeu,
não poderei seguir eu,
pois, que as provadas,
ainda as espero plasmadas.
e, no entanto,
como se não estivesse.
Como se um corpo de vento
me transportasse,
em asas de firmamento
até aos limites da consciência,
esse horizonte incalculável.
Vivendo
e, contudo,
como se não vivesse.
Atravessando a vida
num rio sem pontes
como se fosse sombra
da lua passeando na terra
deixando mais memória que sinal.
Existindo,
não obstante
o não existir.
Caravela de sonho e vertigem,
naufrágio de aportar,
como uma língua
de terra no mar,
sem maré para navegar.
E nesta inacção,
que o corpo prende
mas a mente liberta,
me encontro, pequeno eu,
nas raízes de minhas ilusões.
Utopia reinante e Justiça
arrastar-se, exangue,
perseguindo sonambulismos.
Largar o passado
sem ver futuro
esse sim, o desafio
brumosos passos me levarão
onde minha vontade aprouver
Aqui, já não
há força para caminhar
que este trilho é jocoso.
Aqui, sentindo...
como podia eu não sentir?
Se na garganta se cala o peito?
E vejo estarolas esgrimir
lições de quem as não aprendeu,
não poderei seguir eu,
pois, que as provadas,
ainda as espero plasmadas.
domingo, 28 de abril de 2013
As 10 regras que um livreiro não deve acordar sem ler
1- «Repôr é vender mais», não é uma simples frase propangandística do comércio avícola. A grande diferença entre um livreiro e uma galinha é que a galinha continua a pôr porque as contas nunca lhe dão certo, e o livreiro volta a botar o livro apenas e porque o mesmo se vende uma vez, logo poderá repetir a façanha. A arte da reposição defende a capacidade multiplicativa da presença sobre o vácuo indefeso ou a substituição desconsiderada. Apologia da repetição activa, demonstra as suas qualidades indexadamente à procura de sua essência desmascarada Ou, como dizia o Noddy: «Melhor que dar uma é dar uma, dar duas, dar três.».
2- Tenho para mim, que «um livro não é um livro». Direi melhor... não é apenas um livro. Se, por um lado, como objecto, poderemos reconhecer as tendências estéticas e a identidade gráfica, por outro lado, um livro não é uma cadeira. Também não é apenas um dispensário de letras enfabuladas narrativamente, ou em moto poético. Uma revista ou um jornal colecciona igualmente teses e intermináveis disposições comunicacionais, mas não se acendem lareiras com livros, embora, neste caso, também tenha grassado por aí que o livro, a seguir à madeira e ao ser humano é um material que arde de bom grado, mas de tal duvido. Considero o Homem surdo para o sofrimento do livro, ou nunca vi criaa nenhuma Associação de defesa dos direitos do livro, que não passam só pelos de autor, mas afundam-se nas sacagens editoriais.
O livro é uma experiência. Uma aventura, viagem imagética, uma donte de riqueza incalculável e não apenas um bom calço para a mesa torta ou travão de porta. O livro deixa-se ler, não grita nem chora, embora se possam reconhecer os traços de sofrimento atroz inculcado nos leitores dos dramas intemporais da Humanidade.
O que faz do leitor, não só um cientista, como um descobridor, um pioneiro, navegador oceânico que dirime suas naus em correntes desconhecidas, buscando um qualquer paraíso que na Terra não se conhece mas que se sabe ainda respirar nas lendas e mitos de quem tem inocência para os tecer, nas longas noites vazias de bulício.
3- «O leitor não é um torresmo», não se trata de uma publicidade enganosa aos benefícios da introdução equídea nos snacks desportivos. Acerque-se dele, abeire-se dele. O que nunca, repito, nunca poderá fazer é abordá-lo. Pela primeira porque o cliente não é um galeão espanhol carregado de ouro das américas, nem um turista sexual. O que se pretende é um livro, não uma aventura com uma bibliotecária (também as há), mas deixaremos tal item para outras núpcias. Quem lê quer ler o que gosta, precisa, deseja, o que tintile as abas de sua imaginação, quer voar, planar ou embicar. O leitor é, acima de tudo, alguém. Denoto a utilização deste termo, pois que há quem prefira negligenciar este facto, há quem queira dissociar a pessoa do leitor, o eleitor do cidadão, o contribuinte do beneficiário, mas tal não resultará melhor, quando separamos a clara da gema, não se pode dizer que continuamos com um ovo..
4- A organização dos diversos exemplares editados é uma temática que absorve muitos estudiosos e bibliógrafos. O tema: «como organizar a sua livraria» poderia contar com dezenas de edições e contam-se entre nós nenhuma dedicada a uma teoria arrumativa da questão. Há quem prefira fazê-lo por editora, o que nos autores inexclusivos poderá significar uma dilatação momentânea, poderemos igualmente fazê-lo, por autor e alfabeticamente, mas cria um grave problema para quem não reconhece a ordem e o alfabeto e considera a arrumação aleatória. Também podemos fazê-lo por colecções, como se entrássemos num valente volume de fascículos, em que a disciplina gráfica editorial é posta à prova (ou em Xeque). Há ainda pioneiros que se dedicam a arrumar os livros por dimensões, em fase crescente, como a Lua, ou decrescente (espelho de uma conta bancária narcísica). Por mim, prefiro por cores, pois que dá ao espaço livreiro uma conotação estética pós-moderna, com laivos surrealistas de expressionismo do dealbar do século. Existem ainda alguns tolos que preferem relembrar subtemáticas e ir decantando as publicações dentro de seu género e ordem, que pode ir dos escritores que fumavam cachimbo aos misóginos que só escreviam com um vestido de noite vermelho com lantejoulas, um turbante rosa e uma garrafa de whisky.
5- «A arrumação de livros é como o sexo, nunca está bom demais.» Senão, vejamos. O livro deve estar apertadinho como o rabinho, mas sem estragar, cabem sempre mais dois ou três, podemos pô-los por cima ou por baixo, à frente ou atrás. Há posições que não são benéficas porque arriscamo-nos a dar um jeito nas costas (humanamente) e os livros podem ficar à rasca das lombadas. (sinceramente). Embora se devam casr, nas últimas décadas tem-se preferido a união de facto por motivos fiscais. Os livros, não tendo essa sorte tributária, podem ser bem mais promíscuos, podendo até, em certos locais estarem orgíacamente aprealtados. Uns gostam de meiguice, outros gostam mais à bruta, há, às páginas tantas, os que preferem umas palmadinhas, mas não são sintomáticos de alguma opção maracdamente dominatrix..
6- «Uma livraria não é um talho», ou uma papelaria. Também não conste que seja tabacaria. Aqui não se vendem automóveis nem frigoríficos e não temos secção de mercearia. Passes sociais, não há (nem aqui, nem lá fora) e não prestamos serviços de manutenção doméstica ou canalização. Sem cavalos ou avestruzes, férias pagas ou leite. Não tendo arsenal nuclear, a livraria é um espaço pacifista, não obstante poder ser atacado por um livro-suicida (por sorte não reunem condições tecnológicas para fabricar cintos ou coletes bombistas, mas se fores atingido por uma edição encadernada de 1575 páginas (fora preâmbulo, epílogo e índice remissivo) no dedinho mindinho do pé, saberás quão perigosos estes exemplares são. Uma livraria não é uma gelataria, uma charcutaria, talho ou retrosaria. Não há-de encontrar, decerto, livros de mortalhas, nem de cheques. E embora possa encontrar suficientes lunáticos, nunca pense que entrou num hospício. os livros emprestam uma saudável aura de loucura a quem com eles priva intimamente os diversificados espisódios da vida.
7- «Um livro é um bom amigo». Acompanha-nos ao longo da vida, é fiel à palavra escrita (pelo menos à palavra que o tradutor utilizar). Nos bons e maus momentos encontrará sempre um livro ao seu lado. Livro de memórias, album fotográfico, recordações de infante, no baptismo, casório, divórcio ou óbito, No livro de alunos de uma escola, num arquivo empoeirado de identidades-sombra, espero que não no livro de calotes. A coisa boa do livro é que ouve sem nada contar, pudera, não pode falar, podemos nele mergulhar e voar, encetar explorações espeleológicas ou submarinas, pode simular diversos comportamentos mentalmente enquanto folheia as páginas que estalam quando novas. A coisa boa das folhas de um livro é que são tendencialmente perenes, não caducando senão quando se trata o livro como há muito a sociedade teima em tratar o ser humano. Sem respeito. Por sinal, paralelamente aos humanos, também os livros se encontram nos itens de fácil combustão, como se pode ainda observar em certos livros de História.
8- A pergunta que nunca deve abandonar um Livreito é: «Que livro és tu?». E é fácil apreender o porquê. Todos nós nos podemos identificar, conscientemente ou não, com um livro, parte ou excerto, podemos identificar-nos muitas vezes com os personagens de um romance, numa paisagem fantástica de Ficção Científica. Podemos até, por vezes, considerar viver dentro de um livro de zoologia. Podendo ser principal ou secundária, podendo até ser apenas um figurante. Nunca se sentiu uma aventura de capa e espada no mundo? Todos nós, secretamente, sabemos viver dentro de um livro que temos a sensação de ir escrevendo, dia a dia. Por vezes, até parece que os capítulos são escritos propositadamente por um mau argumentista. Outras vezes, o nosso papel assenta-nos como uma luva da Ulysses. Esta questão, após ter sido convenientemente respondida, acarreta um único senão. Cedo se cria uma curiosidade atroz de saber qual é o livro dos outros. Mas não podemos ser peremptórios em relação à técnica utilizada. A mesma resulta de uma simbiose entre a identidade própria do terceiro e o modo como o observamos e apenas se adquire empiricamente.
9- «Se gostou do filme, leia o livro» é uma regra dicotómica pois que faz depender de uma adaptação facciosa de uma obra escrita. Compreendida e analisada, a versão cinematográfica ou de mini-série televisiva pode nem sempre despertar em nós esse desejo. Há quem leia um livro e o veja verde, há realizadores que o querem azul... e como é que fica o amarelo? Resumido, talvez, à banda sonora. Mas tendo em consideração que a música cega dos livros não ecoa senão nas notas mnemónicas que a nossa criatividade faz percutir e ressoar na nossa cavidade craniana. Serão, de facto, os realizadores tão confiáveis que possam até adulterar toda uma obra tendo em vista a prossecução de uma visão própria sobre um determinado tema? Assim como o lorde do castelo perceber tanto da vida como da matéria lunar, também o livreiro não se imiscui em matérias cinéfilas. No filme de sua vida as páginas passam, quotidianas, e acenam lá de fora, convidando a viver, e o livreiro tem ânsias de asas e por vezes ressalta de suas ocultas guelras outros universos que se desprendem das páginas perfumadas de um bom livro que lêem na companhia dos espíritos que habitam certas casas de cultura, que não dos ratos e baratas.
10- «Em caso de dúvida, pergunte a um livreiro». O seu livreiro vem equipado com uma mescla extensiva de súmulas do conhecimento vulgar e extraordinário. Não só lhe pode indicar aquele livro que tanto procurava ou que lhe dá senso à existência como pode igualmente aconselhá-lo no seu destino de férias, qual o melhor restaurante de peixe ou o consumo do seu veículo aos 100. Tendo em seu redor uma ampla e até vastíssima rede de conhecimento plasmado em seu redor, está melhor informado para lhe confidenciar as novas leis do mercado, em que economia emergente investir ouq ual o vestido de noite que lhe fará realçar os seus lindos verdes olhos enquanto reune os elementos que lhe permitirão fazer uma omolete e mudar um pneu. Qualquer manual de instruções que se preze vem acompanhado de um. Faz sempre incidir sua atenção sobre aquele elemento que faz falta em qualquer casa de bem, aí está... o livreiro. Pode cantar-lhe serenatas, pode dançar o tango. Consegue pintar uma casa e ainda pagar o seu ordenado com o esforço de seu laborioso ofício. O seu, o dele e de tantos outros quanto uma criteriosa gestão não autorizaria. E tudo isso sem vender um único livro de cheques.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Lys
Nos termos fendidos
dos confins do mundo
o cerne abissal, profundo,
por entre rios fundidos,
metais e rocha líquida
num caudal de forno
diluem em sua voracidade bífida
os materiais sem retorno.
Nesse poço aberto, ferida ardente,
das caves do Inferno vapores eruptem
anões martelos percutem
na forja penosa, a vontade, premente,
dessas obscuras forças que impelem
revoltas correntes ascendentes
cuspindo fogo por entre dentes
... as fornalhas, a enxôfre fedem.
Antes que nascesse poema
e o homem a pedra esculpisse
não houvera deus que não risse
modelando na rocha líquida arte plena.
E por túneis e galerias, labirintos,
grutas e bocais dos diabos e infernos
vão rectifivcando aprendizes a jacintos
os pináculos de templos quasiternos.
Ganhou raízes na trincheira suja
inglória valeta que sonhos enterra
e na lama de sua identidade de terra
óbuses cantam na noite, a vida, que fuja...
essa malvada traidora, mastiga,
farpada, a vida, doente, demente,
antes clemente quando a esperança miga
e nos engole, mesmo à nossa frente.
Desses céus prenhes de dor mas sem cor,
que traem os mecanismos da memória
Apenas recordo o pungente terror
da macabra ópera da História
O fósforo rasgando a carne quente,
os rastos municiais cortando o crepúsculo,
os olhos virados, o corpo tremente
os deuses de costas para o opúsculo.
O veu, tão belo quanto mortal
da névoa branca e sepulcral se desprende
fantasmas de cores garridas, um farrapal
nuvens verdes e amarelas a noite acende
Na lama se perdem os membros e o medo
caem como tordos, os homens, que não é tarde nem cedo
sobram capacetes ao amanhecer
faltam corpos para a parada encher
Soltam-se genidos em oração
E o céu incendiado explode
ao deus do vento e do trovão
Em cada deflagração a terra sacode
é um zumbido surdo que cala a voz do canhão
é o arco mortal que atravessa o horizonte,
os mortos que se contam em canção,
e que caídos ficam, ao monte.
E as estrelas iluminam a ignorância humana
acesa esta em matizes mortais
o veneno cobre a terra insana
a morte carrega as almas banais
Uma neblina putrefacta se levanta
sobre as entranhas depositadas
e é a humanidade que se desencanta
entre os escombros de cidades destroçadas.
No fim, quando a poeira se dilui
nos sonhos das vésperas estropiados
em espasmos neuróticos o povo rui
na guerra, todos saem derrotados
E se lições aprendeste, homem, na verdade,
na memória não inscreves a sua importância
e logo montas outro conflicto cobarde
tendo por base apenas a vontade da ganância
E velhos generais rodeando mapas cartográficos
Voltam a sonhar campanhas de glória e conquista
onde os jovens fenecem sem esperança
De novo as nações gemem peste e fome
Cheia de ódios e tráficos
A guerra aniquila a vida, egoísta
e suas asas negras abre e lança
o ódio que a terra come.
dos confins do mundo
o cerne abissal, profundo,
por entre rios fundidos,
metais e rocha líquida
num caudal de forno
diluem em sua voracidade bífida
os materiais sem retorno.
Nesse poço aberto, ferida ardente,
das caves do Inferno vapores eruptem
anões martelos percutem
na forja penosa, a vontade, premente,
dessas obscuras forças que impelem
revoltas correntes ascendentes
cuspindo fogo por entre dentes
... as fornalhas, a enxôfre fedem.
Antes que nascesse poema
e o homem a pedra esculpisse
não houvera deus que não risse
modelando na rocha líquida arte plena.
E por túneis e galerias, labirintos,
grutas e bocais dos diabos e infernos
vão rectifivcando aprendizes a jacintos
os pináculos de templos quasiternos.
Ganhou raízes na trincheira suja
inglória valeta que sonhos enterra
e na lama de sua identidade de terra
óbuses cantam na noite, a vida, que fuja...
essa malvada traidora, mastiga,
farpada, a vida, doente, demente,
antes clemente quando a esperança miga
e nos engole, mesmo à nossa frente.
Desses céus prenhes de dor mas sem cor,
que traem os mecanismos da memória
Apenas recordo o pungente terror
da macabra ópera da História
O fósforo rasgando a carne quente,
os rastos municiais cortando o crepúsculo,
os olhos virados, o corpo tremente
os deuses de costas para o opúsculo.
O veu, tão belo quanto mortal
da névoa branca e sepulcral se desprende
fantasmas de cores garridas, um farrapal
nuvens verdes e amarelas a noite acende
Na lama se perdem os membros e o medo
caem como tordos, os homens, que não é tarde nem cedo
sobram capacetes ao amanhecer
faltam corpos para a parada encher
Soltam-se genidos em oração
E o céu incendiado explode
ao deus do vento e do trovão
Em cada deflagração a terra sacode
é um zumbido surdo que cala a voz do canhão
é o arco mortal que atravessa o horizonte,
os mortos que se contam em canção,
e que caídos ficam, ao monte.
E as estrelas iluminam a ignorância humana
acesa esta em matizes mortais
o veneno cobre a terra insana
a morte carrega as almas banais
Uma neblina putrefacta se levanta
sobre as entranhas depositadas
e é a humanidade que se desencanta
entre os escombros de cidades destroçadas.
No fim, quando a poeira se dilui
nos sonhos das vésperas estropiados
em espasmos neuróticos o povo rui
na guerra, todos saem derrotados
E se lições aprendeste, homem, na verdade,
na memória não inscreves a sua importância
e logo montas outro conflicto cobarde
tendo por base apenas a vontade da ganância
E velhos generais rodeando mapas cartográficos
Voltam a sonhar campanhas de glória e conquista
onde os jovens fenecem sem esperança
De novo as nações gemem peste e fome
Cheia de ódios e tráficos
A guerra aniquila a vida, egoísta
e suas asas negras abre e lança
o ódio que a terra come.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
O Boi
Ainda o sol, cedo, se erguia,
saudando, tímido, o solo frio,
e já a canga pesa,
pensa o boi, para si, mugindo
enquanto que seu par, mais novo, vai seguindo.
e pela leira a terra fresa,
enquanto o tordo aquece o pio
e a lua, calma, se despedia.
Sua rala cama, rala palha
cedo se esfria
e a colheita não dá ração.
O cimento fere, o cimento mata.
Mais parece bravata
tal boi, tal nação,
do buraco se diz pátria
quando o povo a si mesmo ralha.
O boi, alheio à alegria,
segue a vida por um fio
o trabalho, sua dignidade lesa
quando vê o que vai auferindo
na hora em que o mês é findo
já nada se vê à mesa.
Pois mesmo feito com brio
trabalha-se para a caresia.
O boi bem sabe que o homem se baralha
Por vezes, só faz tonteria
e diz-se dono da razão
Lá por usar gravata
e ter uma grande lata
mais depressa furta o pão
que o distribui com sabedoria
dando o justo a quem trabalha.
E labuta, o boi, todo o dia
ouvindo, ao longe, o cantar do rio
trazendo, em si, a canção acesa
sacode a canga e segue, mugindo
como à morte se vai fugindo
quem não tem outra defesa
ou quem a morte nunca viu
diz que o trabalho não enfastia
E se a memória me não falha,
ri-se como há muito se não ria
sempre o homem foi ladrão,
e vindo bem vestido, de batina, toga ou bata
Simula vitória até quando empata
o homem, esse valente cabrão
que com tanta roubaria
não vê que tudo sufoca em sua malha
saudando, tímido, o solo frio,
e já a canga pesa,
pensa o boi, para si, mugindo
enquanto que seu par, mais novo, vai seguindo.
e pela leira a terra fresa,
enquanto o tordo aquece o pio
e a lua, calma, se despedia.
Sua rala cama, rala palha
cedo se esfria
e a colheita não dá ração.
O cimento fere, o cimento mata.
Mais parece bravata
tal boi, tal nação,
do buraco se diz pátria
quando o povo a si mesmo ralha.
O boi, alheio à alegria,
segue a vida por um fio
o trabalho, sua dignidade lesa
quando vê o que vai auferindo
na hora em que o mês é findo
já nada se vê à mesa.
Pois mesmo feito com brio
trabalha-se para a caresia.
O boi bem sabe que o homem se baralha
Por vezes, só faz tonteria
e diz-se dono da razão
Lá por usar gravata
e ter uma grande lata
mais depressa furta o pão
que o distribui com sabedoria
dando o justo a quem trabalha.
E labuta, o boi, todo o dia
ouvindo, ao longe, o cantar do rio
trazendo, em si, a canção acesa
sacode a canga e segue, mugindo
como à morte se vai fugindo
quem não tem outra defesa
ou quem a morte nunca viu
diz que o trabalho não enfastia
E se a memória me não falha,
ri-se como há muito se não ria
sempre o homem foi ladrão,
e vindo bem vestido, de batina, toga ou bata
Simula vitória até quando empata
o homem, esse valente cabrão
que com tanta roubaria
não vê que tudo sufoca em sua malha
quarta-feira, 6 de março de 2013
Sandyce
Sacros Zénites,
das bases tentaculares da realidade
somos desterrados oblíquos
exilados, em terra de ninguém.
Avançamos, trémulos,
confusos e cegos,
antecépticos tardozes,
herdeiros de impérios estelares,
filhos de cúpulas douradas,
esculpidos em diamante.
Apontam o caminho
cartógrafos dementes,
parcas sombras truncadas
do que ontem era heroísmo.
E carregam, em semblante sisudo,
desavisadas diversas acções,
praticadas por beneplácito,
ante doutos loucos e infames.
Bebe o vinho amargo,
que sou doce,
perfumado com aromáticas ervas
colhidas sob outras luas.
Bons são os tempos,
irmão,
de escalar montanhas cerradas,
mergulhar em selvas ocultas
inperscrutáveis mistérios
insondáveis surpresas e fantasias.
No rescaldo da batalha
gemem e berram os feridos,
coxeiam herois, exangues,
vomitam tripas pelo chão,
como outro qualquer,
e seu sangue, quente, rubro, também
escorre e é bebido pelo solo.
Mistura-se o arisco e o prudente,
o tolo, o vilão e o covarde.
Num momento, em pó,
condensado dançando, no vento,
que súbito, sopra,
morta essência corta,
e, como mel,
se amaina e embala,
como um sono sem dôlo,
pálido, de mortos.
As vozes que se ouviam,
sons lancinantes que inundavam
a areia e o sangue,
fundaiam-se na vida pulsante
do sol da manhã
E em festins, os fardos,
nas bodas do saque,
as primícias dos expoliados
enchem mesas dos lautos conquistadores.
Bebem o vinho, engolem o sangue,
banqueteiam-se sobre os corpos lancinados,
cantam das mentes extropiadas,
das crianças e viúvas violentadas,
às essências escravizadas
em salões macabros,
envoltos em melodias ilógicas.
E hinos se tecem, dissertando,
sobre massacres heroicos
e critérios divinos.
Este é o olvidado clamor
das massas esfaimadas.
De pé, nús, no asfalto ardente,
Nos seus melhores trapos,
refugo recolhido d'outrém,
se arrastam no piso duro e crú.
O escalpe de natureza inesgotável.
Desertificando o solo,
rasgando na terra expectante
brumosas fronteiras de vida,
todo o dia, até que o sol se ponha,
e os senhores e seus cavalos, perdão, vassalos,
em sonhos de cetim,
em seus cartões urinados,
sejam reis e senhores,
escravos ansiosos,
de seus sonhos mais profundos
e secretos.
das bases tentaculares da realidade
somos desterrados oblíquos
exilados, em terra de ninguém.
Avançamos, trémulos,
confusos e cegos,
antecépticos tardozes,
herdeiros de impérios estelares,
filhos de cúpulas douradas,
esculpidos em diamante.
Apontam o caminho
cartógrafos dementes,
parcas sombras truncadas
do que ontem era heroísmo.
E carregam, em semblante sisudo,
desavisadas diversas acções,
praticadas por beneplácito,
ante doutos loucos e infames.
Bebe o vinho amargo,
que sou doce,
perfumado com aromáticas ervas
colhidas sob outras luas.
Bons são os tempos,
irmão,
de escalar montanhas cerradas,
mergulhar em selvas ocultas
inperscrutáveis mistérios
insondáveis surpresas e fantasias.
No rescaldo da batalha
gemem e berram os feridos,
coxeiam herois, exangues,
vomitam tripas pelo chão,
como outro qualquer,
e seu sangue, quente, rubro, também
escorre e é bebido pelo solo.
Mistura-se o arisco e o prudente,
o tolo, o vilão e o covarde.
Num momento, em pó,
condensado dançando, no vento,
que súbito, sopra,
morta essência corta,
e, como mel,
se amaina e embala,
como um sono sem dôlo,
pálido, de mortos.
As vozes que se ouviam,
sons lancinantes que inundavam
a areia e o sangue,
fundaiam-se na vida pulsante
do sol da manhã
E em festins, os fardos,
nas bodas do saque,
as primícias dos expoliados
enchem mesas dos lautos conquistadores.
Bebem o vinho, engolem o sangue,
banqueteiam-se sobre os corpos lancinados,
cantam das mentes extropiadas,
das crianças e viúvas violentadas,
às essências escravizadas
em salões macabros,
envoltos em melodias ilógicas.
E hinos se tecem, dissertando,
sobre massacres heroicos
e critérios divinos.
Este é o olvidado clamor
das massas esfaimadas.
De pé, nús, no asfalto ardente,
Nos seus melhores trapos,
refugo recolhido d'outrém,
se arrastam no piso duro e crú.
O escalpe de natureza inesgotável.
Desertificando o solo,
rasgando na terra expectante
brumosas fronteiras de vida,
todo o dia, até que o sol se ponha,
e os senhores e seus cavalos, perdão, vassalos,
em sonhos de cetim,
em seus cartões urinados,
sejam reis e senhores,
escravos ansiosos,
de seus sonhos mais profundos
e secretos.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
À Marreca
Já a badalhoca
se diz baronesa
(lá por parecer foca),
não o será, com certeza
que a Nobreza não toca
em gente de tal vileza.
De língua, espada,
mas desde já aviso:
mesmo muito afiada,
e de crocodilo sorriso,
tua espada vale nada
ante a força de meu siso.
No tempo em que os animais falavam
e as galinhas tinham dentes,
bichos como tu grasnavam,
e eram mais inteligentes
os peidos que davam
que as palavras que mentes
Pura pérola da flor d'esgoto,
rez sarnosa e defecável,
pior que uma infecção no escroto.
És a besta irrazoável,
o animal mais roto,
perfeitamente dispensável.
Não és, senão, megera,
porca contaminada,
com a mania que és bera,
de razão obstipada.
Adianto, de forma vera,
que não prestas para nada!
E tens-te da verdade dona
destroço esboçado de merda
retrato perfeito de bardajona
não te ver, não é perda
vai mas é apanhar na sanfona!
Arre mula, estrada fora,
por caminhos que ninguém viu,
vai andando, sem demora
faça calor ou faça frio
pode ir indo, já agora,
para a puta que a pariu!
se diz baronesa
(lá por parecer foca),
não o será, com certeza
que a Nobreza não toca
em gente de tal vileza.
De língua, espada,
mas desde já aviso:
mesmo muito afiada,
e de crocodilo sorriso,
tua espada vale nada
ante a força de meu siso.
No tempo em que os animais falavam
e as galinhas tinham dentes,
bichos como tu grasnavam,
e eram mais inteligentes
os peidos que davam
que as palavras que mentes
Pura pérola da flor d'esgoto,
rez sarnosa e defecável,
pior que uma infecção no escroto.
És a besta irrazoável,
o animal mais roto,
perfeitamente dispensável.
Não és, senão, megera,
porca contaminada,
com a mania que és bera,
de razão obstipada.
Adianto, de forma vera,
que não prestas para nada!
E tens-te da verdade dona
destroço esboçado de merda
retrato perfeito de bardajona
não te ver, não é perda
vai mas é apanhar na sanfona!
Arre mula, estrada fora,
por caminhos que ninguém viu,
vai andando, sem demora
faça calor ou faça frio
pode ir indo, já agora,
para a puta que a pariu!
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Elevador Aleatório
Era um elevador
aleatório.
Mais parecia motor
de suspensório.
Não lhe interessa
para onde queres ir
se tens pressa
para entrar ou saír
o botão que carregas
teu destino, ou caminho
para ele são bodegas
dá para rir um bocadinho
Ele só pára quando quer
no piso que entender.
Entra quem quiser,
mas sai sem preceber
E nem sempre é líquido,
e pouco se faz por compreender
não tem pendor límpido
que te possas aperceber.
Podes apontar para o sexto
E umas vezes ires parar ao terceiro
como ficares pelo qurto, ou, sem pretexto
ficares fechado o dia inteiro.
À vizinha do quarto
deixa-a bem trancada no segundo
e, se de brincar fica farto
vai sem parar até ao fundo
De luzes acesas e espelho impecável
por vezes sobe e desce
de modo imparável
como quem cresce
E tentares descortinar a última razão
para tão estranho episódio
reconhecerás com estupefacção
serás colocado no pódio
No anúncio, pode-se ler,
em letras cuidadosamente desenhadas
em letras de igual forma e côr
se quiser subir e descer
utilize as escadas
que não há ascensor
aleatório.
Mais parecia motor
de suspensório.
Não lhe interessa
para onde queres ir
se tens pressa
para entrar ou saír
o botão que carregas
teu destino, ou caminho
para ele são bodegas
dá para rir um bocadinho
Ele só pára quando quer
no piso que entender.
Entra quem quiser,
mas sai sem preceber
E nem sempre é líquido,
e pouco se faz por compreender
não tem pendor límpido
que te possas aperceber.
Podes apontar para o sexto
E umas vezes ires parar ao terceiro
como ficares pelo qurto, ou, sem pretexto
ficares fechado o dia inteiro.
À vizinha do quarto
deixa-a bem trancada no segundo
e, se de brincar fica farto
vai sem parar até ao fundo
De luzes acesas e espelho impecável
por vezes sobe e desce
de modo imparável
como quem cresce
E tentares descortinar a última razão
para tão estranho episódio
reconhecerás com estupefacção
serás colocado no pódio
No anúncio, pode-se ler,
em letras cuidadosamente desenhadas
em letras de igual forma e côr
se quiser subir e descer
utilize as escadas
que não há ascensor
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
rocambolesco
De facto, rocambolesco,
já parcos se recordavam...Fora vento, fora tempo,
fora maré invejosa,
que varreu o jardim da terra
para esvaziar o mar
E trinava, gozão, o tentilhão,
e tremiam os prédiosem seus alicerces...
E soava um ribombar.
Surdo, não mudo.
Seco, forte, troar assustado.
Que pendurava a morte,
em estendais, pingando,às janelas rendilhadas.
E labaredas lambiam edifícios,
esecavam, nos parques, as fontes.Benzia-se o povo descrente,
desabituado de temer.
Choravam, mendigos,
pela salvação, imploravam,carregando suas âncoras pesadas
que não conseguiam suportar
Leva-te a ti e parte!
Este pedaço de terra afundar-se-ápara dar testemunho
se sua semente.
Pelas ruinas
Pelas ruinas, toca o vento
Pedras que escoam História,
Vales por onde ecoa a memória
Enclausurada na raíz do tempo
Guardam o fruto de seus segredos
Sussurrados pelos rochedos
Erigidas no seu transacto longínquo,
Testemunharam vicissitudes
Viram o povo profíquo
Perder-se em latitudes
Repousam ainda, à espera
De serem engolidos pela terra
No fundo, tudo são manhãs
Prenhes de instante rubor
Fértil dos céus a clarear
Perfume da vida a acordar
O Futuro, sempre presente,
Espelha o passado
Instantâneo e real
Palpável como a nuvem
Que permeia o sol
Mesmo sabendo que, à tardinha,
Tão suave quanto breve,
Amanhã também o é
E mesmo ao anoitecer
Como um início
Constante e explosivo
Aurora incansável
Iluminando o mundo
Como um só
Como a manhã, o universo,
Mutação perene e endémica
Definida por constantes osmoses
No tranquilo fluir do Tempo.
In nu endo
A decomposição de fracções racionais, geralmente, chama-se
dilaceração e posterior putrefacção, resposta óbvia do cérebro orgânico face à
sistematização normativa da compreensão matemática, quando a mesma é encarada
como um bloco de cimento, ao invés de a podermos abraçar como uma lei viva
traduzida musicalmente e equiparável à religião.
Os autocarros, ruidosos e fumarentos, sofrem de solavancos crónicos, um nível de Parkinson que actua ao nível dos amortecedores em contacto com as crateras na calçada, por vezes assemelhando-se a uma manteigueira avariada, ou uma batedeira, e os passageiros, os ovos. De facto, há autocarros bastante simpáticos, por vezes mais que certos condutores, ainda hoje me arrepio e me espinho com a memória do terrível, assustador e bigodudo que todas as manhãs ouvia as 24 rosas numa cama. Pelo menos não guinchavam como os sub sub nos seus túneis labirínticos, onde se põe o sol sempre e não se levanta, metálico e betumado, uma paisagem despida da noção de paisagem, um faiscar de cores que se fundem vaga e inutilmente na escuridão abocanhada, apressado num passo assalariado para o trabalho.
Como se a liberdade fosse morrendo esmorecendo de dia para dia, sequestrada, oprimida e escrava. Pelas mentiras do dinheiro. Pff! Primata superior. Símio avançado, semente de luz, filho virgem de constelações dispersas, valente pedaço de merda cósmico., que se alimenta das grilhetas que impõem convencionalismos condicionais juntando carneiros para a tosquia. Grande cabrito no forno me estás a saír…
Por vezes , doem-me os pés e o coração, vagueando, só, na noite, em busca de mim, incorruptível, inabalável, um tom som de luz e cor. Um sonho.
A existência do. O. é uma dimensão irreal contudo visível, no qual o seu signo é coligado intersisticiamente com biliões de essências pontuais, particularmente moleculares , a cola que as une e o agrega, ao sublime e sincero.
Imóvel, no vácuo, absorto, cru e fixo, nodal e visível, o cerne oculto dá início ao Princípio. No Espaço, minúsculas estrelas explodem silenciosamente no Tempo. Há sempre planetas a nascer, algures, numa bordadura floreada de um sol.
E a brisa percorria teus cabelos, cascatas consagradas a deuses perdidos nos fenos.
Como uma asa de amor jovem é eterno, e a morte um sonho tenebroso e desconhecido, bailando no fino ar que só aos outros atravessa.
Os autocarros, ruidosos e fumarentos, sofrem de solavancos crónicos, um nível de Parkinson que actua ao nível dos amortecedores em contacto com as crateras na calçada, por vezes assemelhando-se a uma manteigueira avariada, ou uma batedeira, e os passageiros, os ovos. De facto, há autocarros bastante simpáticos, por vezes mais que certos condutores, ainda hoje me arrepio e me espinho com a memória do terrível, assustador e bigodudo que todas as manhãs ouvia as 24 rosas numa cama. Pelo menos não guinchavam como os sub sub nos seus túneis labirínticos, onde se põe o sol sempre e não se levanta, metálico e betumado, uma paisagem despida da noção de paisagem, um faiscar de cores que se fundem vaga e inutilmente na escuridão abocanhada, apressado num passo assalariado para o trabalho.
Como se a liberdade fosse morrendo esmorecendo de dia para dia, sequestrada, oprimida e escrava. Pelas mentiras do dinheiro. Pff! Primata superior. Símio avançado, semente de luz, filho virgem de constelações dispersas, valente pedaço de merda cósmico., que se alimenta das grilhetas que impõem convencionalismos condicionais juntando carneiros para a tosquia. Grande cabrito no forno me estás a saír…
Por vezes , doem-me os pés e o coração, vagueando, só, na noite, em busca de mim, incorruptível, inabalável, um tom som de luz e cor. Um sonho.
A existência do. O. é uma dimensão irreal contudo visível, no qual o seu signo é coligado intersisticiamente com biliões de essências pontuais, particularmente moleculares , a cola que as une e o agrega, ao sublime e sincero.
Imóvel, no vácuo, absorto, cru e fixo, nodal e visível, o cerne oculto dá início ao Princípio. No Espaço, minúsculas estrelas explodem silenciosamente no Tempo. Há sempre planetas a nascer, algures, numa bordadura floreada de um sol.
E a brisa percorria teus cabelos, cascatas consagradas a deuses perdidos nos fenos.
Como uma asa de amor jovem é eterno, e a morte um sonho tenebroso e desconhecido, bailando no fino ar que só aos outros atravessa.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Cantares
Para Peres Metêlo, a coisa não era fácil.
Apesar de tudo, a manhã abriu de par em par os braços e correu a abraçar o oceano que agora se levantava, em marés de pureza.
Da pereira, expectantes, quatro flores irrompiam, brancas, como brancos os sonhos acordados das crianças, povoados de civilizações inteiras de personagens que os mitos desenham em tons mais sombrios.
Em todo o caso, pensava, o país fechara-se sobre si mesmo, auscultando as dores que teimava em esconder. Declarara-se a falência obrigacionista do jugo social sobre pactos mal formulados. o povo, nascente máxima e última da soberania que lhe assiste, cansado de entregar em sujas mãos a construção de um porvir radioso, descrente de todas as soluções apresentadas, tantas vezes em nome de ocultos senhores, a mando de faustosas empresas, abraçava o abstencionista anarca que o temperava, esperançoso que a voz sobrasse para chegar à rua, à polis, à praça.
Mas a voz, cujo contexto estava já claramente deficitário, vendida a altos preços nos mercados bolsistas das grandes nações, só chegava, roufenha e monocórdica, desinteressante, mas hipnótica, para soltar uns miados mal amanhados e praticamente inaudíveis, para lá do silêncio introspecto que a angústia estendia em seu redor, por onde reinavam os bulícios de uma sociedade da desinformação, limitava-se a sussurrar, que o medo da censura espreita já aqui, que a liberdade tinha sido adquirida em leasing e que estava na hora de se deixar de ilusões, direitos e pressupostos, a vida estava crua e aldrabona e não havia lugar para a ética ou honestidade. Mesmo que contra o mundo lutasse, de escudo tinha apenas a sua seriedade. Como esta não teria pendor de vendável, era inútil e aberta a desvalorizações indexadas ao valor de referência aproximado, valor esse que seria utilizado, em seguida, para efectuar taxas de cálculo e rumos de esforço expoliando e extorquindo sem piedade o sangue e a vida aos demais cidadãos.
A Europa constroi-se, não em tijolos, mas colada a cuspo, e as clientelas fazem fila nos corredores de Estrasburgo, como uma sopa dos pobres que são ricos, cheia e pulsante, contrabalançando com as mitras fechadas pela ASAE e as sombras humanas que dormitam pela cidade, entre cartões, dependentes de cidadãos avulsos e de seu pendor solidário, abandonados às sortes desnutridas que povoam os recantos escondidos das urbes adormecidas, levantando-se, entre trapos e remendos, antes de raiar o dia, expulsos por jactos que visam limpar as ruas dos dejectos humanos e, na sua robótica missão, acabando por limpar os humanos que, como restos de refeições lançadas aos cães, ainda dormitam, que o medo não deixa dormir e apenas o valor anestésico do alcoól lhes empresta uma solidez que faz lembrar o sono, mas é apenas o adiamento da morte.
«Exijo que no Parlamento, os valores da cantina sejam revistos como as leis do arrendamento o são. Precisam de spreads mais altos nos pratos de tremoços, mais água no porto, menos whisky e mais gelo.»
O serviço pode ser exercido por um taxista de bigode engraxado e o prato do dia seriam rojões e/ou tripas, que a ciência da cozinheira deve ser razoável.»- resmungava, entredentes e duas goladas d'água.
«Que aluguem carroças, que andem de bicicleta, que substituam a frota por artigos de higiene para as crianças carenciadas, que substituam flores naturais por artificiais e comprem pão para os pobres. Que se deixem de discursos vãos e que declinem a imunidade parlamentar.», rematava para os companheiros.
«Onde anda a justiça? A aldrabar nos pesos, como uma feirante fajuta. Os juízes, apoiados nas cábulas em exames, digladiam-se com bandos de salteadores militarizados que, nas estradas portuguesas equivalem aos bandoleiros de outrora, atacando as diligências no Oeste selvagem, desta feita com ATM´s portáteis, perseguindo o cidadão automobilizado como um criminoso recalcitrante e assobiando para o lado ao passar por um meliante profissional. Vendidos, no fundo, que com uma única manifestaçãozeca sacaram 10% de aumento salarial, isto num país que tem como lema financeiro «corta em tudo o que mexe», e , dia seguite, já garantida a maquia, corre a matraquear, sem dó e em qualquer lugar, as costas e cabeças de quem os sustenta, afinal.» era uma dó que se levantava, uma dó que, como mó, girava em nó e reduzia a fina farinha qualquer grão que da engrenagem ia cuspido, dislates e análises eram todas minuciosamente desagregadas e cientificamente desconstruídas até se assemelharem a uma mole pasta de argumentos falaciosos e vazios. Uma técnica que lhe proporcionava dar um rating quase imediato a qualquer locução ouvida ou transcrita, tendo em conta a aldrabice natural do orador e a camada envernizada de populismo qb para fazer passar um camelo por um perú, um pavão por um modesto pardal, enfim, destruía diligentemente qualquer efabulação política que se erguesse ao horizonte, como um sniper bem treinado na arte do assassínio político de esplanada.
Num país de desempregados, Passos assume as portagens, Portas a travessia do Tejo em submarino. Crato fixa-se no continente americano e escreve crónicas para o jornal, a Macedo, dê-lhe um AVC de todo o tamanho e o INEM escreve-lhe a biografia e o requiem antes de enviar ambulâncias.
Os cidadãos, reféns do seu Estado, amordaçados pelo hábito de, calados, se quedarem ante as dificuldades, resignados e estóicos, até comem as solas dos sapatos, para não deixar caír seus familiares na lama, mas ainda hoje os lançam para o Catano em troco de uns tostões...
O Caetano agradece, mas confessa que não é o ramo dele, pessoas.
Durante décadas, mantidos num limbo que os aglomerava na mesma propriedade vedada e lhes lançava magotes de areia para os olhos enquanto que, sem pá ou picareta, abria buracos por todo o lado. O contribuinte, mesclado com o consumidor e o cidadão, cada um acotovelando os outro, e os grupos de pressão compartimentados em lobbys coloridos debatendo os melhores meios de saque, acumulavam os dividendos que cada indivíduo, sendo três pagadores, largava, usufruindo, quanto muito, de apenas uma faceta do proposto, arrastando-se a cumprir contractos falidos de início. A terra conquistada ao uso comum, acumulada pelas instituições do Estado é agora previsivelmente distribuída por quem tem poder de compra para as alienações estatais, acimentando as desigualdades, afunilando as oportunidades. Sempre chamado a pagar, o contribuinte nada recebe. O mercado assim decide:
menos condições para o trabalhador + menos direitos para o consumidor + mais apoios pagos pelo cidadão = maior lucro financeiro - distribuição por accionistas = 0
Isto é de boa vontade... Assim falavra Zara a Truta, capitã da equipa de volley do Bairro da Boavista, durante três anos voluntária para o serviço militar, desistiu sem casar, ainda era Cabo dos trabalhos, embora andasse enrabichada por um sargento e dois tenentes, foi um aspirante a sem abrigo, Caetano de sua graça, na altura, corrector da bolsa, que é coisa que até precisa de muitas correcções, que a conquistou, carregando-a, a galope no seu passo apertado, até a um aeroporto agora comparticipado por capital oleoso e desértico, que voar era o mais perto do céu que a podia levar.
«Boa tarde! Este é o vosso capitão a brincar com o intercomunicador, à vossa esquerda poderão observar manadas de vacas au naturel, enquanto que os passageiros à direita poderão disfrutar de uma visão exclusiva de campos de cultura de esferas rosa e violetas de algodão doce, cultivado por beneficiários do RSI, e, é bom de dizer, a custo zero. Espero que tenha uma viagem tão boa como a de um iaque nos desfiladeiros tibetanos. Over and Out!» Sempre gostava de dizer aquilo, dava ao taxismo um novo panache! Hilário tinha nas nádegas vinte anos de condução nas ruas cada vez mais apinhadas de Lisbos, dizia, «vinte em cada nalga, bem contados, como as chineladas da minha avó, professora primária em tempos que já lá vão e, ah! como eu sabia fazer contas... corrigia em ar zombeteiro.
Após o intervalo insano, enquanto contava em numeração romana os arcos da Velha Aliança que os raios solares iam postando no azul coralino do céu, demarcava-se mentalmente a solução para tantos dos problemas que afligiam as metódicas mentes dos economistas que, fazendo juz ao nome, economizavam tudo menos na estupidez natural, manancial abundante e sempre disponível na verborreia com que nos presenteiam, tendo sempre tanto para dizer menos o que é importante ou significativo, para nos baloiçarem em triviais considerações até que as mentes se aquietem e adormeçam, voluntariosas, à tereceira rotunda..
O homem, de barba composta e chapéu de feltro polido, continuava a observar a traça antiga, intermitentemente, enquanto atravessava a avenida. Chovia copiosamente e as gotas deslizavam como meteoritos límpidos na gabardina escura. Uma bacoca baforada no cachimbo anunciava que se desprendia de algum neurónio indiscreto, uma sinapse incriminatória. O homem abriu um pequeno bloco negro e apontou algumas linhas, não sem antes se certificar que nenhuma gota borrasse o aspecto impecável das folhas virgens. Levantou os olhos duas vezes, devagar, esbarrando sempre com a minha resposta gélida e, no entanto, curiosa.
O que levaria um estranho a tecer considerações acerca daquele local, que poucas vezes se dirige a quem passa por esta zona da cidade? Seria essa a razão? Porventura teriam ressuscitado os velhos mestres da Gestapo e feito um curso de formação para reactivação dos PIDE. Seria este cavalheiro um dos interlocutores que a Guarda preparava, colector de informações avulsas mas incriminatórias a todos quantos levantem sobre si suspeitas ínfimas de alienação social ou parca pertença? Aí, estacou o passo e dirigiu-se para a esquina, onde o distinto cavalheiro mantia a sua escrevinhisse, tão alheado do que o rodeava e confiante de me encontrar já numa outra quadrícula urbana, acabava a sua ilacção e arrancava à caneta um sonoro ponto.
Acercou-se no momento certo, enquanto tacteava com os dedos o bolso para depositar a caneta e o bloco. Sentia-o a arrepiar-se, de surpresa, e duas gotas de receio riscarram-lhe a linha do rosto.
«O que pretende? Porque me observa? Quem é o senhor?» perguntas em catadupas, e ele, calado, ofegava:
«Não, eu... quero dizer, não, eu...»
E aquilo parecia um carrossel, repetitivo e estonteante, e dali não arrancava. Mas , na altura em que estava para pegar-lhe pelos colarinhos e fazer uma carantonha intimidatória, o sujeito é invadido, entre soluços, de um ataque peremptório de riso desalmado e simultaneamente nervoso , o que deixou Peres desarmado.Pois fora através de seu riso puro e singular que a sua memória o reconheceu. Não lhe conseguindo atribuir nome ou faceta mais visual, era o timbre luminoso da sua risada que me transportou aos recreios indefinidos da escola primária, um páteo interno pejado de putos e, mesmo reconhecendo o timbre que o tempo empresta às condições iniciais de cada um, mantinha a imprevidência de não se associar a nome. Além de, pela imagem que transparecia, nunca poderia ser um colega de sala, era demasiado velho para os parâmetros utilizados na altura, e não poderia ser professor, pois não? «Professor Sarzedas?» Pronuncia, balbuciando o seu nome, sílaba a sílaba, como quem vai desfiando a memória e lendo uma fina tira de papel estenografado... «O próprio.»
Naquele momento, esfumavam-se as nomeações ministriais, os especialistas de coisa nenhuma, os bónus sobre desempenhos fraquinho, as reformas antecipadas, toda uma constetação criteriosamente construída, ruía, ante o assombro de trocar impressões com tão notável cidadão.
Sentia-se transportado novamente até à sua infância. A escola, o seu cheiro inigualável, as suas paredes com os trabalhos magníficamente pendurados, atestando a evolução dos alunos. Naquele tempo, os professores usavam bata branca, mas é hoje que a sala de aula parece m manicómio. Por isso a límpida gargalhada soava na sua memória como um rio fresco e caudaloso, fértil e completo... Tinha o hábito, o professor Sarzedas, quando novo, de irromper selvaticamente o seu caudaloso riso, por vezes contagiante e, lembrava-se igualmente, de tantas vezes procurar esse apoio bem positivo, enquanto a sua mão estendida ansiava pelo fim de algum correctivo mais reguado, concentrando-se na estridente risada, por vezes até se esquecia da mão estendida depois das pancadas recebidas, ainda a mão exalava aquele suspiro carregado de alívio, um pouco de dôr e um calor pouco saudável, suspenso o choque palmípede e lenhoso... Convidou-o de imediato a sentar-se na esplanada de um antigo quiosque e, partilhando um chá de ervas e folhas, puseram-se ao corrente dos avanços e recuos da vida de cada um.
Juvenal era um gajo banal, pronto, mediano, considerava-se ele. Altura média, peso médio, inteligência média, a sua vida era uma mediana, um gráfico constante e venial, e ele inserido permanentemente num limbo autodesconhecido, oscilava, entre um êxtase libertário e uma catarse limitada ao stock existente, geralmentre, na média europeia. Não faria dele um bipolar, que, embora na moda, ainda não se encontra num nível de manifestação suficientemente visível para entrar nas estatísticas que construíam a sua vida. Juvenal passeava no jardim, a meio caminho no sopé da colina, entre o miradoiro secular e o vale, outrora confluência de ribeiros e nascentes, hoje, apenas a toponímia desvelando seu ancestral fragor, despido actualmente da identidade que se formou ao longo da história da cidade, sepultado entre os escombros de ruas, cais e ruelas, engenhos de manufacturações perdidas na memória dos tempos e ofícios.
Já Parúsio era um rei. Não, melhor seria dizer que Parúsio era O rei. Não que o fosse, de facto, das mais ternas recordações de infância que guardava religiosamente era a frase «deves ter o rei na barriga», coisa que era, à altura, uma impossibilidade técnica. Mas, com os avanços da ciência e da tecnologia, Parúsio era o rei que o pariu, o que o distinguia dos demais pseudoaristocratas e induatriais d'algibeira, arrogantes e pedantes que se passeavam nas avenidas com ar afectado, era a superioridade do seu nariz empinado e um postura que lhe tinha feito ganhar o epíteto de «pau no cú». No entanto, era dado a acessos explosivos de violência gratuita quando alguma coisa não lhe agradava, o que colocava qualquer interlocutor desatento num alvo passível de ser admoestado à real pancadaria.
Atravessava a rua, quando reparou num transeunte introspecto, com um belo casaco de camurça. Abeirava-se dele e, sem cerimónias, apontava:
- Tem de fazer algo em relação a esse casaco. está curto.
O indivíduo, mirando-se obliquamente, com um ar de «vai-te encher de moscas», ainda justificou:
- Mas não, repare, casaquinho feito à medida, não assenta como luva que não a é, uma cor toda janota, veja, está perfeito.
- Quando digo curto, aceite o que lhe digo, é poque é curto. Eu não o conseguiria vestir, ficar-me-ia apertado. Não serve. Arranje-o ou envio um batalhão de guardas reais com plumas no capacete esquartejá-lo à boa maneira romana.
Logo, o inadvertido compreendeu a mensagem explícita e levou-o momentaneamente dobrado no braço, olhando sempre para trás, não fosse ser abordado por legionários da V Coorte.
«Há provimento? Não? Então, também não tem cabimento. E este provento, acaso é transportado p´lo vento? Ou é retirado do sustento de cada jumento? Ouve-se o gemido lamento, lento, ao soçobrar intentoo e, atento, sábio e bento, tento a tento, recupera o alento e ganha num momento um adiantamento sobre o aviamento, que proporciona crescimento,
Daqui do assento, acento. Não há birra sem birrento nem salário sem aumento. Não é apenas um sentimento, é também um pensamento que se forma no barlavento e é como um alimento, um alinhamento, espelhado na terra o do firmamento.» Assim cantava a poetisa, perto da fonte em pedra manteiga, encostada ao beiral. Todos lhe chamavam Diva, porque era ligeiramente mais pequena que um sofá. de sofá a divã ia um passo, mas deixando-se caír o assento, logo outro fenómeno surgia, despontando no horizonte encaixado nos telhados rubros das casas, as núvens calmas, o reflexo nas janelas
No centro da praça, alheio às teias que o destino vai impondo, um pombo debica os grãos abandonados por um reformado, idoso só de corpo, ainda jovem na maneira de sentir e na gana de viver. Desconhece como se uniram os caminhos destes personagens, tão diferentes e, contudo, partilhando o mesmo espaço humano. Separados, nada seriam, mas juntos... formavam o grupo de Cantares Alentejanos da Praça dos Girassois à Graça
Apesar de tudo, a manhã abriu de par em par os braços e correu a abraçar o oceano que agora se levantava, em marés de pureza.
Da pereira, expectantes, quatro flores irrompiam, brancas, como brancos os sonhos acordados das crianças, povoados de civilizações inteiras de personagens que os mitos desenham em tons mais sombrios.
Em todo o caso, pensava, o país fechara-se sobre si mesmo, auscultando as dores que teimava em esconder. Declarara-se a falência obrigacionista do jugo social sobre pactos mal formulados. o povo, nascente máxima e última da soberania que lhe assiste, cansado de entregar em sujas mãos a construção de um porvir radioso, descrente de todas as soluções apresentadas, tantas vezes em nome de ocultos senhores, a mando de faustosas empresas, abraçava o abstencionista anarca que o temperava, esperançoso que a voz sobrasse para chegar à rua, à polis, à praça.
Mas a voz, cujo contexto estava já claramente deficitário, vendida a altos preços nos mercados bolsistas das grandes nações, só chegava, roufenha e monocórdica, desinteressante, mas hipnótica, para soltar uns miados mal amanhados e praticamente inaudíveis, para lá do silêncio introspecto que a angústia estendia em seu redor, por onde reinavam os bulícios de uma sociedade da desinformação, limitava-se a sussurrar, que o medo da censura espreita já aqui, que a liberdade tinha sido adquirida em leasing e que estava na hora de se deixar de ilusões, direitos e pressupostos, a vida estava crua e aldrabona e não havia lugar para a ética ou honestidade. Mesmo que contra o mundo lutasse, de escudo tinha apenas a sua seriedade. Como esta não teria pendor de vendável, era inútil e aberta a desvalorizações indexadas ao valor de referência aproximado, valor esse que seria utilizado, em seguida, para efectuar taxas de cálculo e rumos de esforço expoliando e extorquindo sem piedade o sangue e a vida aos demais cidadãos.
A Europa constroi-se, não em tijolos, mas colada a cuspo, e as clientelas fazem fila nos corredores de Estrasburgo, como uma sopa dos pobres que são ricos, cheia e pulsante, contrabalançando com as mitras fechadas pela ASAE e as sombras humanas que dormitam pela cidade, entre cartões, dependentes de cidadãos avulsos e de seu pendor solidário, abandonados às sortes desnutridas que povoam os recantos escondidos das urbes adormecidas, levantando-se, entre trapos e remendos, antes de raiar o dia, expulsos por jactos que visam limpar as ruas dos dejectos humanos e, na sua robótica missão, acabando por limpar os humanos que, como restos de refeições lançadas aos cães, ainda dormitam, que o medo não deixa dormir e apenas o valor anestésico do alcoól lhes empresta uma solidez que faz lembrar o sono, mas é apenas o adiamento da morte.
«Exijo que no Parlamento, os valores da cantina sejam revistos como as leis do arrendamento o são. Precisam de spreads mais altos nos pratos de tremoços, mais água no porto, menos whisky e mais gelo.»
O serviço pode ser exercido por um taxista de bigode engraxado e o prato do dia seriam rojões e/ou tripas, que a ciência da cozinheira deve ser razoável.»- resmungava, entredentes e duas goladas d'água.
«Que aluguem carroças, que andem de bicicleta, que substituam a frota por artigos de higiene para as crianças carenciadas, que substituam flores naturais por artificiais e comprem pão para os pobres. Que se deixem de discursos vãos e que declinem a imunidade parlamentar.», rematava para os companheiros.
«Onde anda a justiça? A aldrabar nos pesos, como uma feirante fajuta. Os juízes, apoiados nas cábulas em exames, digladiam-se com bandos de salteadores militarizados que, nas estradas portuguesas equivalem aos bandoleiros de outrora, atacando as diligências no Oeste selvagem, desta feita com ATM´s portáteis, perseguindo o cidadão automobilizado como um criminoso recalcitrante e assobiando para o lado ao passar por um meliante profissional. Vendidos, no fundo, que com uma única manifestaçãozeca sacaram 10% de aumento salarial, isto num país que tem como lema financeiro «corta em tudo o que mexe», e , dia seguite, já garantida a maquia, corre a matraquear, sem dó e em qualquer lugar, as costas e cabeças de quem os sustenta, afinal.» era uma dó que se levantava, uma dó que, como mó, girava em nó e reduzia a fina farinha qualquer grão que da engrenagem ia cuspido, dislates e análises eram todas minuciosamente desagregadas e cientificamente desconstruídas até se assemelharem a uma mole pasta de argumentos falaciosos e vazios. Uma técnica que lhe proporcionava dar um rating quase imediato a qualquer locução ouvida ou transcrita, tendo em conta a aldrabice natural do orador e a camada envernizada de populismo qb para fazer passar um camelo por um perú, um pavão por um modesto pardal, enfim, destruía diligentemente qualquer efabulação política que se erguesse ao horizonte, como um sniper bem treinado na arte do assassínio político de esplanada.
Num país de desempregados, Passos assume as portagens, Portas a travessia do Tejo em submarino. Crato fixa-se no continente americano e escreve crónicas para o jornal, a Macedo, dê-lhe um AVC de todo o tamanho e o INEM escreve-lhe a biografia e o requiem antes de enviar ambulâncias.
Os cidadãos, reféns do seu Estado, amordaçados pelo hábito de, calados, se quedarem ante as dificuldades, resignados e estóicos, até comem as solas dos sapatos, para não deixar caír seus familiares na lama, mas ainda hoje os lançam para o Catano em troco de uns tostões...
O Caetano agradece, mas confessa que não é o ramo dele, pessoas.
Durante décadas, mantidos num limbo que os aglomerava na mesma propriedade vedada e lhes lançava magotes de areia para os olhos enquanto que, sem pá ou picareta, abria buracos por todo o lado. O contribuinte, mesclado com o consumidor e o cidadão, cada um acotovelando os outro, e os grupos de pressão compartimentados em lobbys coloridos debatendo os melhores meios de saque, acumulavam os dividendos que cada indivíduo, sendo três pagadores, largava, usufruindo, quanto muito, de apenas uma faceta do proposto, arrastando-se a cumprir contractos falidos de início. A terra conquistada ao uso comum, acumulada pelas instituições do Estado é agora previsivelmente distribuída por quem tem poder de compra para as alienações estatais, acimentando as desigualdades, afunilando as oportunidades. Sempre chamado a pagar, o contribuinte nada recebe. O mercado assim decide:
menos condições para o trabalhador + menos direitos para o consumidor + mais apoios pagos pelo cidadão = maior lucro financeiro - distribuição por accionistas = 0
Isto é de boa vontade... Assim falavra Zara a Truta, capitã da equipa de volley do Bairro da Boavista, durante três anos voluntária para o serviço militar, desistiu sem casar, ainda era Cabo dos trabalhos, embora andasse enrabichada por um sargento e dois tenentes, foi um aspirante a sem abrigo, Caetano de sua graça, na altura, corrector da bolsa, que é coisa que até precisa de muitas correcções, que a conquistou, carregando-a, a galope no seu passo apertado, até a um aeroporto agora comparticipado por capital oleoso e desértico, que voar era o mais perto do céu que a podia levar.
«Boa tarde! Este é o vosso capitão a brincar com o intercomunicador, à vossa esquerda poderão observar manadas de vacas au naturel, enquanto que os passageiros à direita poderão disfrutar de uma visão exclusiva de campos de cultura de esferas rosa e violetas de algodão doce, cultivado por beneficiários do RSI, e, é bom de dizer, a custo zero. Espero que tenha uma viagem tão boa como a de um iaque nos desfiladeiros tibetanos. Over and Out!» Sempre gostava de dizer aquilo, dava ao taxismo um novo panache! Hilário tinha nas nádegas vinte anos de condução nas ruas cada vez mais apinhadas de Lisbos, dizia, «vinte em cada nalga, bem contados, como as chineladas da minha avó, professora primária em tempos que já lá vão e, ah! como eu sabia fazer contas... corrigia em ar zombeteiro.
Após o intervalo insano, enquanto contava em numeração romana os arcos da Velha Aliança que os raios solares iam postando no azul coralino do céu, demarcava-se mentalmente a solução para tantos dos problemas que afligiam as metódicas mentes dos economistas que, fazendo juz ao nome, economizavam tudo menos na estupidez natural, manancial abundante e sempre disponível na verborreia com que nos presenteiam, tendo sempre tanto para dizer menos o que é importante ou significativo, para nos baloiçarem em triviais considerações até que as mentes se aquietem e adormeçam, voluntariosas, à tereceira rotunda..
O homem, de barba composta e chapéu de feltro polido, continuava a observar a traça antiga, intermitentemente, enquanto atravessava a avenida. Chovia copiosamente e as gotas deslizavam como meteoritos límpidos na gabardina escura. Uma bacoca baforada no cachimbo anunciava que se desprendia de algum neurónio indiscreto, uma sinapse incriminatória. O homem abriu um pequeno bloco negro e apontou algumas linhas, não sem antes se certificar que nenhuma gota borrasse o aspecto impecável das folhas virgens. Levantou os olhos duas vezes, devagar, esbarrando sempre com a minha resposta gélida e, no entanto, curiosa.
O que levaria um estranho a tecer considerações acerca daquele local, que poucas vezes se dirige a quem passa por esta zona da cidade? Seria essa a razão? Porventura teriam ressuscitado os velhos mestres da Gestapo e feito um curso de formação para reactivação dos PIDE. Seria este cavalheiro um dos interlocutores que a Guarda preparava, colector de informações avulsas mas incriminatórias a todos quantos levantem sobre si suspeitas ínfimas de alienação social ou parca pertença? Aí, estacou o passo e dirigiu-se para a esquina, onde o distinto cavalheiro mantia a sua escrevinhisse, tão alheado do que o rodeava e confiante de me encontrar já numa outra quadrícula urbana, acabava a sua ilacção e arrancava à caneta um sonoro ponto.
Acercou-se no momento certo, enquanto tacteava com os dedos o bolso para depositar a caneta e o bloco. Sentia-o a arrepiar-se, de surpresa, e duas gotas de receio riscarram-lhe a linha do rosto.
«O que pretende? Porque me observa? Quem é o senhor?» perguntas em catadupas, e ele, calado, ofegava:
«Não, eu... quero dizer, não, eu...»
E aquilo parecia um carrossel, repetitivo e estonteante, e dali não arrancava. Mas , na altura em que estava para pegar-lhe pelos colarinhos e fazer uma carantonha intimidatória, o sujeito é invadido, entre soluços, de um ataque peremptório de riso desalmado e simultaneamente nervoso , o que deixou Peres desarmado.Pois fora através de seu riso puro e singular que a sua memória o reconheceu. Não lhe conseguindo atribuir nome ou faceta mais visual, era o timbre luminoso da sua risada que me transportou aos recreios indefinidos da escola primária, um páteo interno pejado de putos e, mesmo reconhecendo o timbre que o tempo empresta às condições iniciais de cada um, mantinha a imprevidência de não se associar a nome. Além de, pela imagem que transparecia, nunca poderia ser um colega de sala, era demasiado velho para os parâmetros utilizados na altura, e não poderia ser professor, pois não? «Professor Sarzedas?» Pronuncia, balbuciando o seu nome, sílaba a sílaba, como quem vai desfiando a memória e lendo uma fina tira de papel estenografado... «O próprio.»
Naquele momento, esfumavam-se as nomeações ministriais, os especialistas de coisa nenhuma, os bónus sobre desempenhos fraquinho, as reformas antecipadas, toda uma constetação criteriosamente construída, ruía, ante o assombro de trocar impressões com tão notável cidadão.
Sentia-se transportado novamente até à sua infância. A escola, o seu cheiro inigualável, as suas paredes com os trabalhos magníficamente pendurados, atestando a evolução dos alunos. Naquele tempo, os professores usavam bata branca, mas é hoje que a sala de aula parece m manicómio. Por isso a límpida gargalhada soava na sua memória como um rio fresco e caudaloso, fértil e completo... Tinha o hábito, o professor Sarzedas, quando novo, de irromper selvaticamente o seu caudaloso riso, por vezes contagiante e, lembrava-se igualmente, de tantas vezes procurar esse apoio bem positivo, enquanto a sua mão estendida ansiava pelo fim de algum correctivo mais reguado, concentrando-se na estridente risada, por vezes até se esquecia da mão estendida depois das pancadas recebidas, ainda a mão exalava aquele suspiro carregado de alívio, um pouco de dôr e um calor pouco saudável, suspenso o choque palmípede e lenhoso... Convidou-o de imediato a sentar-se na esplanada de um antigo quiosque e, partilhando um chá de ervas e folhas, puseram-se ao corrente dos avanços e recuos da vida de cada um.
Juvenal era um gajo banal, pronto, mediano, considerava-se ele. Altura média, peso médio, inteligência média, a sua vida era uma mediana, um gráfico constante e venial, e ele inserido permanentemente num limbo autodesconhecido, oscilava, entre um êxtase libertário e uma catarse limitada ao stock existente, geralmentre, na média europeia. Não faria dele um bipolar, que, embora na moda, ainda não se encontra num nível de manifestação suficientemente visível para entrar nas estatísticas que construíam a sua vida. Juvenal passeava no jardim, a meio caminho no sopé da colina, entre o miradoiro secular e o vale, outrora confluência de ribeiros e nascentes, hoje, apenas a toponímia desvelando seu ancestral fragor, despido actualmente da identidade que se formou ao longo da história da cidade, sepultado entre os escombros de ruas, cais e ruelas, engenhos de manufacturações perdidas na memória dos tempos e ofícios.
Já Parúsio era um rei. Não, melhor seria dizer que Parúsio era O rei. Não que o fosse, de facto, das mais ternas recordações de infância que guardava religiosamente era a frase «deves ter o rei na barriga», coisa que era, à altura, uma impossibilidade técnica. Mas, com os avanços da ciência e da tecnologia, Parúsio era o rei que o pariu, o que o distinguia dos demais pseudoaristocratas e induatriais d'algibeira, arrogantes e pedantes que se passeavam nas avenidas com ar afectado, era a superioridade do seu nariz empinado e um postura que lhe tinha feito ganhar o epíteto de «pau no cú». No entanto, era dado a acessos explosivos de violência gratuita quando alguma coisa não lhe agradava, o que colocava qualquer interlocutor desatento num alvo passível de ser admoestado à real pancadaria.
Atravessava a rua, quando reparou num transeunte introspecto, com um belo casaco de camurça. Abeirava-se dele e, sem cerimónias, apontava:
- Tem de fazer algo em relação a esse casaco. está curto.
O indivíduo, mirando-se obliquamente, com um ar de «vai-te encher de moscas», ainda justificou:
- Mas não, repare, casaquinho feito à medida, não assenta como luva que não a é, uma cor toda janota, veja, está perfeito.
- Quando digo curto, aceite o que lhe digo, é poque é curto. Eu não o conseguiria vestir, ficar-me-ia apertado. Não serve. Arranje-o ou envio um batalhão de guardas reais com plumas no capacete esquartejá-lo à boa maneira romana.
Logo, o inadvertido compreendeu a mensagem explícita e levou-o momentaneamente dobrado no braço, olhando sempre para trás, não fosse ser abordado por legionários da V Coorte.
«Há provimento? Não? Então, também não tem cabimento. E este provento, acaso é transportado p´lo vento? Ou é retirado do sustento de cada jumento? Ouve-se o gemido lamento, lento, ao soçobrar intentoo e, atento, sábio e bento, tento a tento, recupera o alento e ganha num momento um adiantamento sobre o aviamento, que proporciona crescimento,
Daqui do assento, acento. Não há birra sem birrento nem salário sem aumento. Não é apenas um sentimento, é também um pensamento que se forma no barlavento e é como um alimento, um alinhamento, espelhado na terra o do firmamento.» Assim cantava a poetisa, perto da fonte em pedra manteiga, encostada ao beiral. Todos lhe chamavam Diva, porque era ligeiramente mais pequena que um sofá. de sofá a divã ia um passo, mas deixando-se caír o assento, logo outro fenómeno surgia, despontando no horizonte encaixado nos telhados rubros das casas, as núvens calmas, o reflexo nas janelas
No centro da praça, alheio às teias que o destino vai impondo, um pombo debica os grãos abandonados por um reformado, idoso só de corpo, ainda jovem na maneira de sentir e na gana de viver. Desconhece como se uniram os caminhos destes personagens, tão diferentes e, contudo, partilhando o mesmo espaço humano. Separados, nada seriam, mas juntos... formavam o grupo de Cantares Alentejanos da Praça dos Girassois à Graça
No silêncio da noite
No silêncio da noite
No silêncio, a Lua rodopia.
À Lua e às estrelas, com o mar e as copas
das árvores
E no peito, a Paz do Verão, quebrado pelo
sibilar dos grilos
De amor eterno e sem tamanho da Natureza
O Sentido da Vida só pode ser encontrado
nesta
Surge-nos, fugidio, oculto em vagas de eventos
Só o mar rufa e ressoa
Só o mar é a vida que na espuma se
encontra
Como que presa num sono intranquilo mas
quedo.
Na ilusão da morte reinar sobre a terra,
mas não no Oceano matriz
Sob ela é o mar que lhe fomenta a música
Todos ouvem o mar como que a cantar
E, extasiados, dançam até que sua alma
sua
Cativos desse feitiço de prata e branco
O Mundo, em silêncio, observa o mar
No silêncio, só o vento acorda as pétalas
das flores
As faz tremer, de frio, na noite calma
Só o vento uiva na copa das árvores azuis
É o abraço que lhes oferece é
hipnotizante
Elas acompanham a dança da Lua
Nos andamentos guiados pelas ondas no mar
Mas nem tudo está quieto e silencioso...
Eu também danço e canto
E também eu sonho com esse dia glorioso
Quando todos ao olhar para a Lua e dirão:
Sim, eu também vejo a Lua a dançar.
Observo na andorinha que regressa
A Primavera, de asas coloridas esbatidas no negro
A Primavera, de asas coloridas esbatidas no negro
E nos ziguezagues leio promessas de amor
Esse amor de Mãe, com o aroma da terra
O sabor colorido a flores silvestres
Revejo o Tempo antigo na corça que salta
Sebes que desconhece quem as fez
Porquê aquele muro verde a céu aberto?
Separando terra da terra
No tacto da terra sinto a impermanência
No tacto da terra sinto a impermanência
Da Vida, a velocidade da Terra rebolando
no Espaço
Sinto no vento que sopra o mar que se
levanta
E as raízes contam-me histórias verdes de
homens que partiram
Quando me sento no brilho do Oceano
nocturno
Só a Lua e as estrelas brilham comigo
Nos reflexos multipartidos das ondinas
E apenas o farol quebra a harmonia da luz
e da côr
Com fachos cortantes na noite de veludo
Desvelada, a noite fria, desnuda e sem estrelas
Ali, onde pequenas núvens escondem os
tons mais púdicos de negro
O cinza deslizante acosta a portos
invisíveis.
Toco, ao de leve, em sua tez
surpreendentemente azulada
De súbito, acaricio as leves curvas de seu
corpo celeste
E uma estrela tímida desponta no infinito
tecido
Salto para o ar em cascata de luz,
caçá-las, arremetê-las
Submetê-las a uma vontade criadora a elas
alheia. Sossego.
Encostado a um asteróide pendido,
contemplo sonhos impossíveis
Observo, ao longe, uma estrela que,
decerto, encantada
Dança em volta a uma neblina violácea e a
ela investe
Em seu deambular errante, num gesto
decidido
No desnível do planalto sopra um vento
amigo
Desprende-se de si e traz a névoa
Onde o mar se cruza com o céu, na ténue
linha do horizonte
Inverosímel, escuto a voz que me traz a
chuva a caír
Das ondas a brotar na costa arrependida
Já nem a luz dos pirilampos faisca na
noite velada
Nem o coaxar das rãs me arranca da
paisagem
Apenas uma ou outra ave responde ao meu
tinido
Um ou outro coelho se assusta com ruído
que não há
Desfaço-me nas lágrimas, no sal do mar,
na fonte
Corro a atravessar a terra e, no porvir
Dormir, morrer numa tarde do mundo
escondida
Que irrompe como um fantasma na escuridão
revelada
Assisto, assim, ao fim, e recordo o rumo e a mensagem.
Surge-nos, fugidio, oculto em vagas de eventos
Constituindo existências, acções e
momentos
perguntando «e dentro do nada, o que
resta»?
Participando num banquete de Amor
Amor em taça servido a quem a gesta
continuou
Abraçou intensamente o seu serviço,
missão e destino
Presenteou e Universo com a matiz de sua
cor
O seu sabor e sua nota na sinfonia do
sentir
Uma palavra, uma identidade formada no
real.
Cresce e transforma-se, ganha asas e voa,
ideal
Ultrapassa os limites só por si impostos,
vence, a sorrir.
Quando em si encontra essa voz, esse
alento
O carinho arquetípico, a vida em si
guardada
A chama que o revela abraça-o, numa
redoma perfumada
Que é, em si desponta e busca o
firmamento
O sentido, assim desnudo, sem rito nem
mito
Apenas a força de uma corrente imparável
Que avança nos abismos, tendo apenas um
fito
O conhecimento de si espelha o Universo
palpável.
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