sexta-feira, 16 de março de 2012

Homem no Forte

Sobre o Forte se ergue o vento
Arremete o mar em suas muralhas
Observa o horizonte, místico e dúbio,
Esculpido em espuma e nuvem
Acompanhando uma linha imaginária
Curvilínea e desvanecida na distância
Que o tempo embala, maré a maré.

Nas rochas que espreitam por entre a ondulação
Escorre o musgo intenso e verde
E na alva areia, de tempos a tempos ensopada
Por entre bolhas, construções efémeras
Seixos desenham parábolas e alegorias
Riscadas em sua superfície texturada e lisa.

Seu destino arrolado de simples forma
Abandonando raros cristais na rebentação

Sobrevoando a paisagem
Rotunda a branca gaivota
Malhada de cinzentas pintas
De bico dourado alongado.
Seu perfil acaricia o azul celeste
E em suas asas abertas canta
Transportando, pingando, imprevidente,
o íctio ser que só, representa
a abundância matricial do oceano
lutando contra a terra que o delimita.

No Forte aguardo, expectante
Afunda-se o sol fervente no frio oceano
Uno baptizado diversas vezes
De acordo com os olhos humanos que o observam
Dele tiram sustento
Energia e Harmonia.
Sei que retornarei àquela praia
Já pó desfeito e sílicas partículas
Para que o Oceano me reclame
E me abandone numa qualquer costa desconhecida

Feiticeira em clareira

De pé na clareira pelos Deuses criada
No centro do Bosque Sagrado
Por entre anciães carvalhos, loureiros e bétulas
A feiticeira, no cerne do círculo desenhado
No solo musgoso, cravadas as Rochas Erguidas
Iluminadas pela fogueira por magia alimentada.

Alinham-se os Astros na noite fria
Ela percorre as Linhas da Terra
No Labirinto, a Espiral do Tempo.
Nua, pisa leve o solo fértil da serra
E solta à noite um apelo… lento
Chama a Lua que das montanhas já surgia.

Abre as asas longas de sábia coruja
Corre os verdes montes, célere, cerva de prata
É o Sangue da Terra a Alma Água das Fontes
O Fio da Vida que entretece, ata e desata
Construtora intemporal de todas as pontes
Demanda até que a resposta, na boca lhe surja.

Vê no reflexo escuro do céu estrelado
A morte surda dos Deuses Antigos
A sua metamorfose psicopômpica
E dança por uma última vez com os Seres Amigos
E esconde no coração da floresta recôndita
Os segredos que se escondem do Passado

Como paira meloviosa a voz da Sibila
Oracular na suave e lunar clareira
Viajando no Cosmos até se extinguir
Até à fronteira última, derradeira
Para lá de todo o nebuloso porvir
Até que do transe se arranca e seu corpo vacila

A cerimónia se encerra nas brasas refulgentes
E alta vai a Lua, solta e selvagem no firmamento.
No Altar-Mor da Natureza, a Feiticeira deita seu corpo desnudo
Sacerdotisa vaticinadora, atenta ao mais leve movimento
Desvenda o Futuro incognoscível do Mundo
E adormece ao som das estrelas distantes