quarta-feira, 6 de março de 2013

Sandyce

Sacros Zénites,
das bases tentaculares da realidade
somos desterrados oblíquos
exilados, em terra de ninguém.
Avançamos, trémulos,
confusos e cegos,
antecépticos tardozes,
herdeiros de impérios estelares,
filhos de cúpulas douradas,
esculpidos em diamante.

Apontam o caminho
cartógrafos dementes,
parcas sombras truncadas
do que ontem era heroísmo.
E carregam, em semblante sisudo,
desavisadas diversas acções,
praticadas por beneplácito,
ante doutos loucos e infames.

Bebe o vinho amargo,
que sou doce,
perfumado com aromáticas ervas
colhidas sob outras luas.
Bons são os tempos,
irmão,
de escalar montanhas cerradas,
mergulhar em selvas ocultas
inperscrutáveis mistérios
insondáveis surpresas e fantasias.

No rescaldo da batalha
gemem e berram os feridos,
coxeiam herois, exangues,
vomitam tripas pelo chão,
como outro qualquer,
e seu sangue, quente, rubro, também
escorre e é bebido pelo solo.
Mistura-se o arisco e o prudente,
o tolo, o vilão e o covarde.

Num momento, em pó,
condensado dançando, no vento,
que súbito, sopra,
morta essência corta,
e, como mel,
se amaina e embala,
como um sono sem dôlo,
pálido, de mortos.
As vozes que se ouviam,
sons lancinantes que inundavam
a areia e o sangue,
fundaiam-se na vida pulsante
do sol da manhã

E em festins, os fardos,
nas bodas do saque,
as primícias dos expoliados
enchem mesas dos lautos conquistadores.
Bebem o vinho, engolem o sangue,
banqueteiam-se sobre os corpos lancinados,
cantam das mentes extropiadas,
das crianças e viúvas violentadas,
às essências escravizadas
em salões macabros,
envoltos em melodias ilógicas.
E hinos se tecem, dissertando,
sobre massacres heroicos
e critérios divinos.

Este é o olvidado clamor
das massas esfaimadas.
De pé, nús, no asfalto ardente,
Nos seus melhores trapos,
refugo recolhido d'outrém,
se arrastam no piso duro e crú.
O escalpe de natureza inesgotável.
Desertificando o solo,
rasgando na terra expectante
brumosas fronteiras de vida,
todo o dia, até que o sol se ponha,
e os senhores e seus cavalos, perdão, vassalos,
em sonhos de cetim,
em seus cartões urinados,
sejam reis e senhores,
escravos ansiosos,
de seus sonhos mais profundos
e secretos.