domingo, 23 de setembro de 2012

15/29

Ia a manhã alta e saí para a rua. Molhada, com uma ténue camada lustrosa e brilhante, caíam ainda uns tímidos pingos de chuva, lentamente transportados pelo vento.


A rua abraçou-me no meu íntimo, agarrando-me pelos braços e guiando-me pelo passeio finamente calcetado de estrelas de seis pontas em flores negras centradas.

Sou eu o meu próprio manifesto, e sigo com meu séquito pessoal, reduzindo-se a mim mesmo, como se uma pequena multidão se tratasse.

Cada um de mim gritava palavras de ordem e arrufava impropérios diversos, enquanto pela brisa iam ondulando cartazes e panos pintados.

Expressavam a amargura e o desespero, o conflicto interno e os mais subtis paradigmas, dos que alimentam controvérsias, conversas e crónicas de revista semanal.

Era um manancial de acusações que se imprimiam, rua abaixo, aos altos berros, na consciência subterrânea dos conterrâneos com os quais me cruzava.

Todos concordavam no que não queriam, nenhum concordava, no entanto, com o rumo a tomar, os passos a dar, enfim, o que, de facto, seria necessário fazer a partir daí. Muitos queriam respostas a questões nunca colocadas. Outros acenavam alternativas utópicas, ou simplesmente estavam lá porque existiam.

E não é que isso interessasse, habituados que estavam a serem diligentemente afastados de qualquer posição de decisão ou voto na matéria, depressa desmobilizaram após o sinal.

Pareciam bandos de pardais com as asas cortadas, à solta, esbatendo-se contra os vidros transparentes do sistema, colocados para lhes dar a sensação de continuidade, quando esta, há muito, se perdeu.

E, chegando à praça, logo um plano infernal de Dante se assoma à minha frente. Um mar de cabeças que se lamuria. Não me atrevendo a pisá-las, como esse grande senhor, apascentei-me a recortá-los da multidão e a emprestar-lhes um pouco da consciência que me nutre.

Pois que vi muitos responsáveis pelo actual desastre, uns por acumulações diversas durante uma vida de labor, já oportunamente esquecidos de certas manigâncias cometidas

Parece que serviam, igualmente, de miragem à qual acorriam, miragem de esperança e de voz ouvida, pois que audível, não só nesta terra, mas em quantas as que as palavras chegam, entre imagens.

Outros havia que nunca tinham solto um pio, até se insurgiam contra o facto, desculpando-se e desviando-se de se mostrarem, mas sempre muito prestos a atirarem para o ar objectos desmesurados.

A maioria, jovem, queria o que todos querem, há gerações, bom emprego, muito salário, trabalho nem vê-lo, e vai de exigirem mais qualquer coisinha, que os lá de cima tiram, e é muito, mas chega sempre para mais alguns.

Outros estavam só desesperados. Roubada que fora sua voz, sua vontade, sua pessoa alugada à pior oferta, mercenário puta desta sociedade inescrupulosa, lançavam seus filhos à frente, como quem anuncia os devedores de amanhã, ainda tenros.

E, do outro lado da barreira, saíam desanove exemplos da causa de termos estas medidas aplicadas. Em menos de dois minutos, centenas de milhar de €uros, subrepticiamente curvando os faróis, evitando serem reconhecidos como os abutres de um povo.

De facto, exemplos destes sucedem-se na vida quotidiana, dia a dia apresentados e anedotados, sem nunca ninguém levantar um dedo contra isso, e lá se vão acumulando benesses. O povo paga e cala, dizem, esquecendo-se que já não governam uma sociedade de campesinato analfabeto.

E discursam membros e ex-membros, fundações e PPP, empresas público na parte de pagar privadas na parte de distribuir dividendos pelos accionistas, trinta carros para um coelho, e outras inusitadas despesas flutuantes, contudo pétreas na sua apresentação.

Todos os que falam tentam legitimar a sua avença, todos a receberam ilegitimamente e recusam a sua culpa no cartório, que o vizinho tem largas costas e está mesmo aqui à mão.

Só Portas, submarino político, sabe a melhor hora de submergir. Submergir-se quando convém, submergir o país quando pode, e passear pelo mundo com um Spartacus na mala, para ver o que mais se submerge.

Isto, visto bem as coisas (com este calor, diria melhor dispo bem as coisas, e se fosse religioso, acrescentava bispo bem as coijas), até uma festa de uma adolescente holandesa promoveu mais desacatos, mais viaturas incendiadas e garrafas arremessadas e partidas no chão.

Em Portugal, até a indignação está em crise, e somos modestos a soltá-la. Lembra-me Kennedy, avisando que, se a classe política que governa e representa a sociedade não permitir que as mudanças necessárias ocorram pacificamente, terão de se bater com revoluções violentas.

Lá do Norte da Europa, uma mula gorda fala-nos de austeridade, escorrendo gordurosas salsichas dos dedos rechonchudos, proveniente de alguma quinta onde transformassem judeus em sabonete, augura agora fazer dos europeus sulistas (os sulistas americanos gostavam de escravos, os europeus sulistas são, eles próprios, escravos) gel de duche.

E todos quantos, calados, iam recebendo em suaves tranches, o produto de seu roubo, depressa vêem a lume ameaçar e amedrontar. Querem todos o mesmo, também eu: dinheirinho. Ora ide trabalhar, que trabalhando não enriqueces, mas não exploras ninguém.

Gritavam e vociferavam, rubros de raiva contida por décadas, uns, apenas por excesso de testosterona, outros, e, por momentos, parecia-se que remontávamos às ilustres barricadas oitecentistas.

Mas aqui, como na última versão cinematográfica d'«Os Miseráveis», de Victor Hugo, éramos todos razoavelmente limpinhos e aprumados, até educados no nosso vernáculo imaginativo e alegórico.

E gritavam, e cantavam, e assobiavam. Do alto do Palácio, diria quem tem nome de um pedaço de pau: «os cães ladram e a caravana passa», mudemos a valsa, que o povo dança...

Assemelhava-se a uma carroça circense, mercedisíaca e arrogante, dispersando-se fractalmente em todas as direcções, cada um para seu retiro, após algumas horas de debate ou amena cavaqueira e, decerto, uma faustosa refeição bem regada.

Avançam. entre fumados vidros de charutos importados, abanando o copo de brandy à passagem pela multidão, exangue... emagrece para atravessar pelo buraco da agulha o défice que cresce, avassalador

E, na corrente amuralhada, de escudos e bastões pacificados, sobram os agentes a quem cabe defender a autoridade de si mesma, desautorizada pela noção já arcaica, que ao pobre cabe a lei, e ao rico os seus desvios e buracos.

Remai, remai, cantai hinos e chorai, quendo a hora chegar, de teus votos te pedirem a depositar, lembra-te, não esqueças, e identifica os responsáveis, alheando-te aos logotipos identificadores e enganadores.

Continuei a tirar comida da mesa, a calar os meus filhos insatisfeitos, a marcar a exploração que me suga com os dias de servidão passados: o trabalho liberta! Diz quem nunca pregou um prego, enquanto, livre, se passeia pelas avenidas novas da cidade.

Dispenso, de bom grado, vestir e comer, e sacrifico-me nos altares da exploração capitalista, só para que estes lordes e senhores prossigam com sua vida construída sobre nossos sonhos e acima das nossas possibilidades.

Salvem-se os bancos e os criminosos, que temos um país a sugar. Coloca no patíbulo a tua fronha, Zé, que só a tua cabeça é que rola... e que de ti se façam chouriços, presuntos, alheiras, pois que já estamos na alhada

Assim poderás ver, em porrimeira mão, os desenvolvimentos dos clubes desportivos, sua teia de lavagem de dinheiro, corrupção autárquica, venenos políticos, cabazes de putas e drogas à discrição, que olhamos para todo o lado e só vemos ladrões.

A madrugada encontrou-me num daqueles bancos verde bronze, no jardim parcamente iluminado. Aqui e ali resquícios do que outrora era uma mancha viva de gente. Uma barata saltitava, com suas antenas em riste.

Se fosse tudo tão fácil, chamaríamos um exterminador de pragas e limpávamos o nosso país. Defendem o assalto à mão armada do Estado sobre os cidadãos, e de certos cidadãos sobre o estado, e de certos cidadãos sobre os restantes cidadãos. E deixemos a formiga respirar. As cigarras, cagando postas de pescada panadas com ervas finas, que trabalhem como os restantes, ao invés de encherem o peito para falar de desconhecimentos basilares. como se conseguem expressar àcerca d'algo que nunca os afectou ou causou o mínimo impacto? Levemente, claro, sentados na poltrona da sua remuneração ademocrática.

Mas prenda-se a velhota que rouba três batatas e assuma-se aqui, como em Londres, que só é correcto ser-se ladrão quando roubas pr'acima de um milhão.

Abaixo disso, tudo e todos... somos trocos

Seus sonhos destroçados desfilavam, por cumprir, outros tantos vendo apreensívelmente o fracasso de vida de seus filhos. Nenhum com responsabilidade sobre o buraco em que nasceram.


Vi idosos, de mochila às costas com as pilhas de fármacos com que se entopem, enquanto a reforma para isso vai dando, gente que já lavrou o pão que comemos e que hoje já nada pode.

Crianças alheias a seu futuro, mas vendo-se desenrolar acontecimentos incompreensíveis mas notoriamente injustos em seu redor. Na escola, o fascismo social cedo cerceia o desenvolvimento natural das crianças.

Vi um povo que se erguia, como quem desperta, ludibriado e anestesiado, reclamando uma maturidade cívica e política que os actuais intervenientes não querem conceder.

Passavam os que tinham estudado em vão de escada e os que nunca o tinham feito, passava quem trabalhara uma vida inteira e quem nunca o tinha feito. Passavam como um vento lento e pesado, de pés atados.

O hiato que existe entre a classe directiva e o povo existe, é improdutivo, ineficiente e incapacita a sociedade. Não é inalterável, terá de ser resgatável, essa plena comunicação de ensejos e opções.

Acaso considerasse que governariam em minha representatividade, teria votado neles, que não fiz. Mas, no entanto, os governantes têem de governar para todos os portugueses. Não todos os portugueses que com eles se cruzam nos salões e corredores.

Não os portugueses que andaram na escola com eles, não só seus amigos e com quem jogam posições de poder. Não. É para todos. E não é para todos só a parte de pagar o que coube só a alguns desbaratar.

Exige-se, antes de tudo, a responsabilização de quem de direito, a natural condenação dos intervenientes nos esquemas de corrupção e fraude, nos escândalos ditos financeiros, culpas solteiras que nos aportam ao bolso.

Vi velhos rostos com novas vozes, antigos discursos em novas palavras. Poetas libertários e filósofos democratas, humanistas e utópicos, à sombra do sonho da emancipação humana macerados, triturados pelo mover-se da civilização.

A civilização mede-se pela melhoria das condições de todos os seus intervenientes, não uma descolagem de uns tantos patrocinados por todos os lados. Ningém se opões ao mérito quando este é sincero ou não gera descrédito

Passo a passo, enchia-se a rua de gente e vozes, de vontades, temores e ansiedades, de cartazes gritados e faixas trinchadas de indignação. É altura de reequacionar o tipo de sociedade que queremos construír, já vimos onde nos leva a que estes senhores apregoam.

Entoavam frases antigas de liberdade, justiça, equidade que tinham deixado escapar, deslumbrados com as miragens do consumismo, embevecidos pelos seus êxitos clubísticos, enquanto subiam taxas e aumentavam margens, tudo ia bem, pois era a descer.

Ainda há quem preferisse liderar uma nação analfabeta, embora tenhamos dado um salto qualitativo, a população mantém-se invariavelmente ileterada, depositando confiança em quem não deve, afectos aos humores negros da construção abstracta dos mercados, que são gente, no fundo. Serão?

Como conceber que nos responsabilizemos todos por opções erradas de investimento de terceiros? se decidir abrir um restaurante num deserto, porque quererei reembolso a quem vive na montanha e não me conhece de lado nenhum? Erro meu, dano meu. Como atribuir-lhe uma responsabilidade que me cabe a mim assumir?

Quando correm bem, esses «negócios», o lucro circula em circuito fechado, longe de quem o criou e construiu. Aloja-se nas esquinas dúbias do accionista, perde-se, assim cinzelado, não se reinveste, gasta-se. Há que mais produza, esperemos que a tempo de comprar o iphone5.

E que dizer dos fantasmas que atravessam a economia, dos sugadores de subsídios, dos amestradores da opinião pública, dos gabinetes perdidos em palácios renovados, que dizer da austeridade enquanto passa o Maserati e o Porsche, exactamente iguais a um Clio de 1991, no seu cerne luxouso.

Pois que é de Justiça que aqui se clama. Equidade nos sacrifícios não significa cortar a todos a mesma medida, mas sim flexibilizá-la sabiamente, de modo a ser exequível para quem pode e não tocar em quem já não tem por onde se virar. Os que deixam o parco rendimento de seu trabalho sofrer ataques contínuos sem se rebelar.

Ao atingir um ponto ligeiramente alteado, olhei em redor. O que vi era um elefante, rotundo, lento, rugoso, no seu caminho, tocar o sino e trocá-lo por um amendoím (mais se assemelhava à casca do dito fruto, não ao seu miolo alimentício). Em troca de uma esmola, emprestam a vida. Outros cantam, cigarras...

Era um quadro pontilista que se metamorfoseava ante mim. Os rostos expectantes, as vozes roucas, a incerteza de se saberem inauditos, a certeza de verem suas vidas definharem ante a atroz ditadura imposta por quem nunca ssaboreou uma ponta de fel se sua vida (exceptuando o que destila e reserva a terceiros)

Imóvel, o homem do leme a tudo assiste. impávido. Alheio a que não basta mandar remar, há que o fazer, arregaçar as mangas, não a goela e cortar a direito nas mordomias, apostar numa ética distribuição de riqueza, numa útil utilização da propriedade, num digno valor do trabalho, o combustível que permite funcionar a economia.

E descartarmos a economia virtual e especulativa, catastrofista na sua assumpção, derrotista na sua inumanidade, na sua imunidade à seriedade e coerência, baseada mais na filosofia de jogo viciado, do que na realidade que só a alguns pesa. Terminar esta guerra que opõe certos laboratórios económicos puros e o Homem, a Natureza, Deus, enfim...

Todos os que se atravessam ou concorrem a um sistema que se instala e alimenta instilando medos irracionais dos quais já nos deveríamos ter liberto, explorando a energia do medo para nos apôr novas camadas de exploração sem face. Ainda não é possível estabelecer a ligação entre a dignidade e o Homem. Lapsos.

Ainda não é suficiente, o tom evocado, lamentaremos se baixarmos os braços ao primeiro recuo do Governo. A investida seguinte será na mesma uma violentação dos direitos cívicos, mais um atentado aos Direitos Humanos, mais uma machadada no orçamento disponível do cidadão... entregue de bandeja a um estado despesista e suas clientelas.

Não adianta salvarem mais bancos de sua gestão danosa, enquanto deixam afundar os cidadãos, contribuintes, trabalhadores, crianças e idosos. Tantos a «podar os galhos do mal», ninguém que queira «cortar o mal pela raíz». Isso desconfortaria interesses instalados e conformados, adjudicados a uma zona de conforto extensa e selecta.

Não baixei os braços. Não calei a voz. Mas sei que só resultará em mudança, esta brisa libertadora que atravessa as nações, quando, juntos, os pagadores de crises, espalhados pelo mundo, sós mas multidão, erguerem no mesmo dia a bandeira da Humanidade e esmagarmos esta máquina inumana e sefasada da realidade, defenestrando-a do trono que ocupa há tempo demais.

Seja como fôr, de 15Maio a 15Outubro, 15Setembro a 29Setembro, são tudo faces de uma luta, etapas que se prestam a ser cumpridas, até à Libertação da humanidade de todos os dogmas que a encarceram sem lhe dar nada mais em troca, que uma vida de servidão ao proveito dos outros.