quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 de Abril Sempre! (Ao Portas, Miguel)

25 de Abril Sempre! Fascismo nunca mais. 25 de Abril Sempre? Então não lês os jornais? 25 de Abril Sempre! Não se mataram os chacais 25 de Abril Sempre! Andam à solta os capitais 25 de Abril Sempre! Seremos nós animais 25 de Abril Sempre! Para nos chupares mais e mais e mais 25 de Abril Sempre! E o Povo, unido Não pode ser vendido Jamais será vencido Há quem queira isto esquecido Farto de ser fodido Livre sem nunca ter sido 25 de Abril Sempre! O Fascismo não se esquece E cedo se intromete Com a ponta do cacetete 25 de Abril Sempre! Mas quando o Povo arremete Dá o que cada um merece 25 de Abril Sempre! É chama que arde 25 de Abril Sempre! Que aspira à Liberdade 25 de Abril Sempre! E em abono da verdade 25 de Abril Sempre! Nunca foi Realidade. Mas agora não é tarde 25 de Abril Sempre! De refundar a sociedade. 25 de Abril Sempre! Levar o cravo no coração No coração levar o cravo 25 de Abril Sempre! Não querendo ser escravo 25 de Abril Sempre! Do poder da corrupção. 25 de Abril é nosso Constrói o teu também 25 de Abril Sempre! Faz a tua Revolução 25 de Abril Sempre! Sai p’rá rua, dá-me a mão 25 de Abril Sempre! Juntos nesta canção 25 de Abril Sempre! Camarada meu irmão

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Para mim, não há pipocas.

Imerso na vacuidade da tua indiferença, sinto-o, ausência que denota minha presença. Por vezes, sugiro-me, holograma, enviado em código ondular foto-electromagnéticas, incorpórea junção molecular que transporta em si o ser. Ser. Ser humano? Olha ao redor e instala em ti essa dúvida. Ser humano. Serei? Serás?
Tantas vezes não o vejo, a esse humano, não o sinto humano, reconhecê-lo-ei em mim, ou careço de espelho? Bípede é a avestruz, e o pinguim, enquanto não os extinguir, esse humano. Todo o bicho tem o seu refúgio, que sabes tu dos hábitos funerários dos elefantes, das correntes filosóficas que os robalos advogam, das libélulas e das suas discussões pragmáticas, parlamentares e debates científicos com as borboletas acerca da essência espiritual da obra das abelhas? Lá por também zunires…
De facto, ultrapassámos essa dependência instintiva de domínio e propriedade, de medo e violência, de emoções falsas e palavras vazias? O que te difere, teres construído cidades maiores que as outras que outros construíram antes de ti, sobre outras que outros construíram, sobre a construção que a Natureza tinha construído sobre tudo o que já existiu desde que a Terra foi libertada pelo Sol? Bela merda.
Mesmo respeitando a liberdade artística e cultural de cada um, os passarinhos fazem mais bonito.
Acaso me atravessas? Toca-me. Não te interpenetram os fotões expelidos pelo sol?
Não serás mais que uma aglomeração de matéria fluídica composta por espaço (vazio?) Infindáveis distâncias que nos separam e unem, dispersos, essencialmente água, manifestação óssea, mineral, em contínua combustão interna, doce e luminosa de tua vontade, consciência? Não serás feito dos mesmos átomos de que é feito o planeta? Também eu. E não só…
Ouves-me? Sílabas dispersas sem nexo evidente, clarinetes, e o mugido quente das vacas, badalo a soar em balada pelo campo, rouxinóis e pintarroxos, o vento que embala o ribeiro, ou apenas o ladrar miado e mudo da tartaruga? Não percebes? Eu também não percebo grego, ou turquemanistanês, mas eles também falam… e muito. Negas-lhe o poder de linguagem por não teres dicionário?
Devíamos todos tirar cursos de línguas de cetáceo, ou roaz, texugo… Houve uma altura em que dizia uma palavra ou outra de camaleanês, mas ultimamente, é mais a fantástica orquestra sideral que executa bailado nos éons, ou as palestras de pinheiro e oceano, mas com aquele sotaque de vento brumosamente espesso que me aglutinam o desejo e me impelem a descobrir mais sobre o dialecto antigo do som e da luz, como elemento ulteriormente criador, não apenas imediato e vazio, mas fluído e imanente, em diálogo coloquial e franco.
Não me vês, denso? Não me sentes, incorpóreo? Expandindo-me pelo cosmos como tu?
Ou também vives num mundo filho da puta, feito por e para filhos da puta? Respeito muito a minha mãezinha, sempre foi muito séria, e é um oceano amoroso e rosado vê-la sorrir. E os meus pintainhos não duvidarão da sua. Não foi para isto que fui criado, não é a este o mundo a que eu pertenço, o meu é azul e pode-se viver nele. Às vezes.
Serei ameixa seca no cesto da tua Páscoa, pó na tua prateleira, nódoa no teu vestido de cetim?
Passaste por mim, ultimamente, ou assobiaste para o lado, desviando o olhar, cruzando a rua, praça avenida, emigraste? Olá. Dá cá um abraço. Lá por não me conheceres de lado nenhum, não significa que tenhamos de ser umas bestas… Pessoalmente, não estou habituado. Caminhemos juntos. Dá cá um beijinho.
Olvidas meu apelo, lançado ao sidério? Não seja por isso que o fragmentas.
O calor que emano é-te frio? Minha vida, ficção de umbigos dos outros, ou do meu, que é tão giro? Às minhas costas carrego meu mundo, leva lá o teu. Dispersa-te no universo para esse lado, que eu expando-me cá para o meu, mas eventualmente teremos de nos encontrar novamente, se Deus quiser (que eu cá por mim, dispenso).
Ou pulso, como o cosmo, como tu e o mar e o sol, in ex aequo com ele, dentro dele, num só em trindade múltipla ad aeternum com reticências?
E vivinho. Da Silva, vizinho. Embora tenha sentido ultimamente turcas torquesas turquesa troquezas a dilacerar-m’as têmporas à velocidade do pensamento, pressionando o neocórtice, atravessando desde o sol central do meu cérebro até aos confins da galáxia, pulsação cardíaca a dizer: Eu estou aqui. Acende lá a luz para eu ver o caminho. Se faz favor, que também se usa. E o caminho, pimba, olha lá para ele, todo iluminado… Não vês? Transcrevo-o, traduzindo para glifos digeríveis e abstracções cónicas em cítaras de azul e dourado, e flautas, em espiral, e tal. E sem juros.
Fenecem-me, de quando a quando, as tonalidades cromáticas, as matizes divinas, os néctares da alma, mas meu cálice transborda de alegria quando, nos intervalos que a «vida» não dá, a minha presença se centra.
Carrossel desgovernado que este humano foi arranjar, que me dá a volta ao estômago e me nauseia, com ele mesmo e com tudo à volta dele, endiabrado do rapaz.
Mais uma volta, mais uma viagem, isso é ser parvo, não é nada coragem. Coragem é dizer: Sou aqui e agora. Não és só tu, ouves? Deixa entrar, porque a porta de minha casa está aberta a quem vier por bem, mesmo sem vintém.
Olha-me nos olhos. Vê. Não é um ser mais aberto e outro mais fechado, não é um ser maior que o outro, este mais claro que aquele, não são as miopias e os estigmatismos, serem de cores diferentes ou iguais, não são as lágrimas nem as pupilas. Olha. Sou eu. És tu. Pois somos.
Bebe comigo, um pouco, da água que a nascente canta, deslizando, purpilímpida. Somos nós.
Desvanecemo-nos no Universo, vaporizado a cada instante nos ventos cósmicos porque existimos neste espaço dentro deste tempo. A eternidade, o infinito, o espaço que não recolhes com teu conhecimento, o que fica fora da tua área de percepção holística é igual ao que separa os planetas de sua órbita e as arquitecturas galácticas umas das outras, basicamente, meu caro, é igual ao litro. Para lá disso é que devemos adentrar, cada um com sua nau e caravela, vela enfunada, sua tripulação interior alerta e sem escorbutos, Noé e Cabral por esse Atlântico molecular e cósmico afora, que nos une uns aos outros, mais marés que marinheiros, cadeia infindável de vida consciente, outrora emanada, de forma a recolher eco ou resposta ao que o cerca a ti e a mim, havemos de chegar a bom porto.
Se te calares, também consegues ouvir e ver e sentir, não seres cego-surdo, mudo e coxo. Acorda, pá!, que o despertador já tocou e se não te apressas deixa de haver espaço em ti para ti, em mim para mim, porque o humano quer o espaço só para ele. Mesmo o nosso. E cobra, o cabrão. Ah! Mas cabrão é bode, dir-me-ás, e as cobras, só é chato quando mordem, também eu, ás, mas que as há, Hás.
Formados por partículas luminiscientes cantadas e serenas nascidas, todos somos sol pedaços do mesmo sol, sol, aguardando a grande reunião fulminante estelar. Espero encontrar muitos à minha mesa.
Percorrestes quantos sistemas intergalácticos mesmo? Quantas dimensões atravessaste para chegar aqui? Com as portagens, deve ter sido uma chatice. Lembras-te, daquelas luas… isso é que eram eclipses… Não te vi, também, dançando nos anéis de Saturno? Por pouco não vimos o sol nascer. Quando nasce, o sol em nós, é tão lindo, lentamente reflectido no mar, visto do miradouro das Plêiades.
Não seremos a mesma matéria, dedos de luz tacteando no escuro, sentindo e iluminando-o com a verdade, essa consciência que se catapulta até à perfeição das coisas, inserida no processo de manifestação de sua transcendência sobre a sua ignorância? Sem ganância…
Mas serei eu um vento? Sendo, prefiro brisa primaveril, carregando em si promessa de vida presente e futura, que a fuliginosa e ácida flatulência vernacular de Vulcano, isso, se puder escolher o lugar onde me sentar, o que nem sempre é garantido.
Não se equiparará minha trauteada voz ao trinado apaixonado do rouxinol, mas nem sempre grasno. E com razão, debico, de goela aberta, denotando a absorção que me suga o juízo até ao tutano e o inverso também aplicável, qual regra matemática, violenta e fria, numeral, dilacerando-me as escamas e querendo-me rasgar ossos e cercear asas, lançar pragas e escavar, escavar, escavar. Parece uma toupeira, o homem, que cabeça aluada.
Do núcleo arde, trina, emanada pelo único, a chave do portal, acesa, rodando, transmutando as vicissitudes do ser, ampliando sua chama de alvo espectro e prismada, pela acção, até à perfeição.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Tenra boca mordiscada.Terno olhar tropical.

Como suave ritmo
de rubras papoilas cadenciadas
em planície de margaridas
sob o topázio celeste,
refulgindo, em retalhos miraculosos,
sinfonia plena de flores,
exaltando sublime harmonia.

Tenra boca mordiscada.
Terno olhar tropical.

És Primavera e danças,
coroada d’urze e camomila,
silvestres canções de Perséfone.

Odor doce citrino
polvilhado à tua passagem
por fadas cintilantes ocultas,
iluminando a paisagem.

Tenra boca mordiscada.
Terno olhar tropical.

Envergonhas a pálida lua,
recortada tiara em teu cabelo,
esconde-se nas nebulosas
de sonhos que Pan teceu,
por entre as ramagens florescidas
das clareiras recortadas,
na solidão de planície
sulcada a dois.

Empalidece o sol, teu olhar,
e esconde-se, saltitante
mediante rochas semeadas,
há milénios expectantes.

Tenra boca mordiscada.
Terno olhar tropical.

Há-de vir o Guadiana
beijar-te os pés, levemente
ósculo de mil borboletas

Ouve o trinado que te chama
chilreiam para ti, estas aves
por ti se vestem de flores os campos
translúcida túnica borlada
transversando meu sentir

Tenra boca mordiscada.
Terno olhar tropical.

Como perfumado bailado aquático,
sensual e inevitável,
cercas-me, melíflua e radiante,
insinuando a seda de teu toque,
tantas vezes ensaiado.
Sincopante retrato de desejo
ramificado, solar, pulsante, fértil,
que saboreio com misto
de campestre liberdade e vento.

Trazes no cabelo
a noite sussurrada pelos amantes.
No sorriso carregas o sol
despojado de nuvens, o céu,
sonha acordado com o que sonhas.

Tenra boca mordiscada.
Terno olhar tropical.

De breve olhar onírico
dispo-te em segundos,
lento como a brisa no deserto
que levanta da duna a areia.

Beijo teu pescoço singular.
Nariz terno em tu carótida,
sentido o perfume verde seco.
A língua, travessa, pioneira
Enrodilhando-se em teu corpo desnudo,
Envolto em ténue luminosidade dourada.

Levar-te em passeio demorado,
junto ao rio, de bom grado,
por entre jardins esculpidos
para te ver passar,
recolhendo orquídeas,
Lírios e violetas
Para sempre tos ofertar

Tenra boca mordiscada.
Terno olhar tropical.


E repousar sobre teu ventre,
suado e saciado,
adormecendo entre os dedos
que acariciam levemente
o pico de meus sonhos.

Fenomenal criatura
Extraordinária Afrodite trigueira
Sublime perfeição da Natureza
Do mar em flor
Primavera.