Sem um pingo de luz. Era assim que o caracterizava um edital . Um perfil obscuro e esquivo, uma face negra, como se o sangue custasse a fluir-lhe pelas artérias vítreas. Uma face fria, um olhar gélido apenas fugazmente aquecido, quando, no auge de discussões peremptórias, se acendiam outros tons de maquiavelismo e ódio visceral ao adversário na contenda, como se reservasse toda a animosidade, ira e conflictualidade num incómodo freio, pronto a libertar os seus preconceitos, ao ver o branco dos olhos de quem à tribuna subia, naqueles tempos de imprecações.
Não possuía, mesmo que mínimo, um porte atlético. As suas costas eram espaldares raquíticos e já com tendência à corcunda realildade, enquanto seu prito se spresentava como que sugado para dentro de uns pulmões, calculava-se que secos e escuros, devido ao tom macilento de sua pele, numa amarelo acastanhado que lembrava vários tons de fezes abaixo do considerado saudável. Vestia sempre um fato impecavelmente negro, engomado na lavandaria situada na esquina de sua praceta de residência, ao lado do café da D. Esmeralda, uma simpática porcina, sempre corada e apressada, que religiosamente lhe servia, todas as matinas, um responsável e carinhoso quebra jejum.
A sua voz, modulada, pausada, arremessando, com uma dicção impenetrável e uma serenidade apenas igualável às monstruosidades que ia ditando, lendo de um discursos densamente elaborado para não permitir o mínimo de intervenção durante o processo de o desfiar, ia alcantilando números, percentagens e lugares comuns à mesma e lenta velocidade com que ia dilacerando etimologicamente o discurso, aberto que estava às mais abstrusas interpretações póstumas, bloqueando qualquer interpelação, blindando o discurso hgermeticamente, fruto de uma demonstração calculista e facciosa da equação proposta.
Os seus dons na oratória tinham ficado célebres por vias das intervenções nas Conferências do Bingo do Belenenses, num tempo em que o Clube apenas podia oferecer à vida desportiva e cultural da capital, numa bilheteira abandonada por falta de procura, uma pequena esquina do parlatório, local frequentado por filósofos e agitadores, que servindo-se do púlpito religiosamente cobiçado, aventavam bitaites de diversificada proveniência e objectivo, alavancando aos ouvidos previamente munidos de aparelhos de audição de qualidade duvidosa de uma multidão de reformados impulsivamente, que dedicavam o debicar constante do tempo ao jogo do dominó e à Liga dos Campeões de Piropos Gentis.
A mensagem era clara e não admitia dúvidas ou outros democráticos cepticismos. Era asséptica, antibiótica e virada para o futuro. Não um futuro desejado por uma larga fatia da população, nem mesmo o apontado por alguns iluminados burgueses, observando o mundo do alto dos seus edifícios de escritórios e restaurantes de luxo. Era uma opção própria, uma teoria congeminada entre dois pires de tremoços e uma imperial, na tasca a jusante do seu local de trabalho favorito, um bebedoiro para pombos erigido numa praça metropolita e esquecida do rebuliço quotidiano das grandes cidades. Era um caminho forçosamente a ser caminhado, ou, na pior das hipóteses, feito de joelhos em sangue.
Na primeira parte do discurso, discorrera um retrato, algo desfocado, adiante-se, da realidade nacional, revisitando os pontos de charneira incontornáveis da história recente do país, onde expunha, não sem uma acidez acutilante, que o processo democrático estaria assente numa libertária abertura do Poder ao Povo, algo que purgado na Constituição escrita após uma revolução, um coup d'État, tinha sido activamente combatida desde a sua instituição, e não menos, durante, ano após ano, legislatura seguindo outra, visando apenas o reapossamento da propriedade nacionalizada a custo zero, ainda acompanhado de inescrupulosamente negociadas indemnizações compensatórias. Acaso sir Robin of Locksley era português? Não? Então fine-se esta cooperativização nacional.
Apoiado necessariamente pela elite financeira do momento, acossado por uma dívida pungente pois que existencial, o país, apoiado na noção facilista do crédito, tinha ficado absolutamente parado, parado e mal parado, tão parado que dir-se-ia quedo, ante o manancial confiscatório que aparecia nos relatórios trimestrais, a mando de uns cavalheiros nórdicos, cientes da sua superioridade económica e convencidos a dar uma luta sem tréguas aos restantes habitantes, não cidadãos, decerto, dos países limítrofes, habituados que estavam a recolher em salvas de prata as esmolas que escorregavam das torneiras excedentárias dos países do centro continental, ociosos da sua sociedade equalitária, como relutantes a estendê-lka para a melhoria da condição de vida dos seus conterrâneos afastados.
Urgia criminalizar o cidadão, para lhe retirar a almofada de confiança cega que o rodeava. Atacava-se então o contribuinte, que tinha dexado à guiza de lanterna à soleira da porta, as obrigações fiscais como extensão da sua qualidade intrínseca de trabalhadores activos e contribuintes consumistas, numa teia de relações que apenas excluía quem, alheio a produzir, acumulava dividendos de certas apostas financeiras, seguramente colocados, em rappels indevidos, em contas fantasma ou discretas, em algum paraíso fiscal, mesmo que seja a temperaturas negativas. Saqueavam-se os reformados, que viviam acima das condições esperadas em meados do século passado. E, a partir daí, espelhando a situação actual com o país à época do crepúsculo medieval, contabilizando todas as conquistas civilizacionbais e colando-lhe os valores económicos calculados para o efeito, desmontando assim, toda uma noção de evolução social enquanto mascara despesas, alocando-as aos itens enumerados.
Estava sentado, e em estudadas pausas gesticulava enquanto bebia dois ou três goles de água fresca, cristalina, não da torneira, essa, reservava-se à ralé. Não. Aquela água tinha acumulado diversos prémios devido à sua qualidade mineral. Serviam as pausas para alinhar as margens coloridas das folhas que trazia e que zurzia em momentos mais ásperos da discrsiva representação. Servia igualmente para equilibrar o machado com que tencionava cortar a raíz á educação, a catana com que contava decepar a Justiça, a braços com casos de corrupção activa, copianço nos exames e inspectores homicidas, e que, ao fim das contas, já ninguém observava que as cacetadas que os polícias distribuem, à laia de dispersão de manifestantes, se deveria apontar abaixo da cintura, como em épocas civilizadas.
Apertava também, nas mãos trémulas, a corda para asfixiar a Saúde e esperava utilizar estes instrumentos de sedição para comprovar os seus pontos de vista. O país concordaria com as opções tomadas e a ideologia que apresentava, na sua voz tépida e ansiolítica. Caso contrário, definharia até ao fim. Coisa que não estava tão distante quanto isso, caso o povo acedesse à sua força motriz, mas era desnecessário confessá-lo. Isso seria problema para outros... os que viriam depois de estar confortavelmente instalado numa suite presidencial no Luxenburgo, ou enquanto degustasse um daqueles charutos caros (charutos, não, que o sabor é acre, algo mais doce, menos subjectivo, talvez cachimbo, bem sentado em peças de mobiliário nórdico e projectado no seu design funcional e de linhas polares.
Passou novamente os olhos pela impávida assistência. nenhum adormecera, mas certas cabeças já cambaleavam no interstício dos parágrafos. «Pérolas a porcos.», pensou. «E que porcos... Até podiam ser pérolas de merda, eles não se moveriam. Para os porcos, se é redondo, é uma pérola, mesmo as caganitas da cabra montês.» E aquele discurso não devia lamber os ouvidos carregados de cera daqueles senis, isto é material para ser dirimido em Bruxelas, pelo menos, entre os fatos de haute couture, as suas palavras teriam um sentido que estes débeis não poderiam ou saberiam arrancar da corrente de palavras que, soltas e avulsas, iam florear com sentidos extremos o exercício narrativo apresentado, de forma tão compacta que se juraria transparente e, no entanto, sincrético e heterogéneo, não seria de fácil desagregação. Quando fosse traduzido e digerido já seria tarde, e nem o Tribunal Constitucional se oporia ao apresentado.
E, retomando a leitura no ponto em que a tinha, momentaneamente, suspenso, dispôs-se a percorrer novamente os acesos locais da memória colectiva onde se acumulavam relatos da guerra, temores ditatoriais, enfunando no hálito sacro da divindade providencial, a definhação que ocorrera durante meio século de pensamento único, partido único líder único. Tentava sempre coadunar a sua apresentação, imbuíndo no estadista renomeado, um halo de religiosidade sentido de tão bacoco, um fulgor de justiça e patriotismo, um aberto sentido de responsabilidade com a nação e a história, mas também não ignorava como soava distante, sua voz, quando se propunha a viajar pelas lembranças fugídias de infância, uma vez que a ouvira, por entre as negras botas cardadas que se despediam do solo pátrio para irem entregar os hospedeiros, seu sangue, tripas e sonhos, lá longe, onde o Império chamava a calar a sublevação de uns quantos escravos mal agradecidos.
Como lhe soara aquela voz que agudizava em simulados estertores clímaxes ensaiados, e, disso recordava-se bem, um ritmo hipnótico ia percorrendo os olhos fixos no Chefe, de ouvidos alerta, preparados para erguer os braços ao sinal premonitado, mas de mente tão impecavelmente limpa de tudo o que não fosse as bolhas discursivas que se iam despregando, como navio cargueiro no cais, ou balão de hélio nas mãos irrepreensíveis de uma criança, que pareciam esvaziadas de conteúdo, plenas de um vácuo conveniente durante as demonstrações públicas de alienação nacionalista, e como o rebanho ensaiado ia desfilando bandeirolas ao vento cortante do cais. Como o Império se desfizera, alheio à vontade e à luta e resistência dos esbirros metropolitanos, nem com napalm calaram o grito de autodeterminação dos povos colonizados.
O momento agora, era outro. Para lá das ruínas da nação, abandonados os escolhos de um Império mais de nome que de facto, redimensionados à área primitiva, o português, de sonhos traídos, de ego desfeito à força de catanadas, soube erguer-se bem alto à luz democrática, para logo reposicionar seus interesses de molde a reintegrar o património entretanto nacionalizado à ordem e posse de seus antigos senhores, tendo a oligarquia do regime anterior mantido os tentáculos disseminados de seu poder bem activos na realidade socioeconómica portuguesa. Bem cedo e seu poderio suplantava o autorizado pelo estado ditatorial anterior. Mas eram os mesmos nomes, os mesmos interesses esquivos e egoístas, a mesma filosofia ladra e baronesa, fruto de quem roubou e estropiou durante gerações o povo exangue que ainda hoje explora.
Era a hora em que as hienas e outros necrófagos nos rodeavam, alertados pelo choro das crianças e os gritos famintos dos reformados. Fazia fila nos Centros de Emprego a força laboral no auge da sua vivacidade, enquanto empurravam os restantes para um futuro decalcado de uma má série B de espionagem. Como num filme de ficção científica sobre um futuro regulado por máquinas ou oligarquias poderosas e mafiosas, assim era e assim fora assumido. O país em saldo, o povo moribundo que teimava em sobreviver. Um deserto climaticamente agradável para ser vendido fatiado aos senhores nórdicos e insulares do turismo de saúde. Afinal, o português faz um bom libré, depois de bem limpo e escovado. De facto, cada vez isso seria mais difícil, com a tendência de emigrar para procurar uma vida condigna, a população activa debandava, deixando para trás velhos, doentes, crianças e uns miseráveis políticos para se governarem à sua custa.
Afinal, a realidade era assim... Depois das empresas voluptuosas partirem para a Holanda e outros destinos fiscalmente paradisíacos, cabia agora a vez dos cidadãos particulares encetarem a via da fuga de capitais para o estrangeiro, assegurando-se que escapavam à rapinagem exclusivista do desgoverno da Nação que, para continuar a usufruir de benesses e prebendas para si e para os acólitos que ia introduzindo com valentia ao peso do estado, logo e prontamente saqueava tudo o que mexesse, excluindo os capitais fruto da especulação e da acumulação de capital. Assim, neste país, quem trabalhava era castigado, em honra dos endeusados investidores. As despesas subiam à velocidade da Luz, e mesmo com toda a sua boa vontade, parecia que tudo mudava antes mesmo de terminar uma frase.
E a crise que se tinha instalado subrepticiamente no mercado imobiliário americano, não contente com o facto, cedo se multiplicou e aparições apocalípticas nos diversos campos de actuação das personalidades mercantilistas, arrojando na sua queda milionária e escroque todo o produto de décadas laboriosas de aproximação societária à equalidade. Também tal não seria problema seu, e nada do que dissesse poderia alterar a noção já instituída de que a culpa de tal ter acontecido residia, não na inalienável ganância porcina dos bancos, mas sim na suprema gula dos aprendizes de feiticeiro financeiro, não sendo mais que simples cidadãos com ensejo de crescimento pecuniário, para o qual, o status é mantido pela demonstração de poder económico, ao invés de sapiência clarificada.
Confortavelmente compenetrado, na terceira fila do auditório, o jornalista exasperava. Era fácil apontar o teorema discursivo, difícil era esperar pelas próximas palavras. Tinha adoptado um sistema de escrever apenas três palavras de cada vez, mas desistira quando já não se conseguia lembrar da primeira. Pausadamente, o fio condutor que se ia desenrolando à velocidade de caracol dava para preencher com temas musicais da época natalícia, não fossem os sinos suplantar o volume oral apresentado. Já tinha fumado quatro cigarros e bebido dois cafés, mas a frase ainda ia a meio. Aproveitara para dar um salto ao aeroporto e comprar uns bilhetes para Nova Iorque, para onde iria passar a Lua de Mel, caso ainda casasse na data marcada. Afinal, só quando o discurso acabasse é que poderia enviar o artigo para a redacção. Seria antes de atingir a reforma? A questão mantinha-se. Voltara atrás e comprara uma bengala, só para o caso...
As palavras iam sendo arrancadas a custo... o crescimento económico seria rápido, o que fazia supôr que, caso acontecesse e fosse este senhor a noticiá-lo, quando terminasse já estaríamos em nova bancarrota. De facto, parecia-lhe que cada palavra realçava o hiato entre a anterior e a seguinte, indo despertando o auditório, mas por pouco tempo. Entre antigos deputados, meia dúzia de jornalistas (aqueles que ainda iam podendo trabalhar) e uns reformados que apenas poderiam justificar a sua presença pela senha carimbada que facilitaria a entrega atempada da compensação reformatória, até as moscas, mais livres que os humanos, já tinham abandonado a sala e atacavam já o beberete preparado na sala do lado. «As moscas não tem etiqueta» lembrou, «aliás, como os políticos». Mas haverá espécie tão necessária à vida como o político? Claro, dirão alguns, até as varejeiras os suplantam em importância e beleza nas cores vistosas que exibem, ou pelo menos, não enganam tanto
Em todo o caso, o títere ia formulando frases que se penduravam nas beiças carnudas e a custo iam desfilando as mais variadas paisagens mentais, tendo por base o tema desértico. Quente, gelado, austral, polar, as cadências de diversos tipos e fenómenos de invariável morte aos pés das forças dinamitadoras da Natureza. Como a Lua, o Espaço sideral, alegadamente estéril, ou com uma contagem de espermatozóides insuficiente. Há quem afirme que tal deriva de sua órbita elipsal atravessar a nuvem de Oort, que deixa a Lua completamente efervescente, e que ejacula longamente durante essa fase. Depois, por entre as crateras da superfície, vai atenuando a ideia obcessiva com jogos de dominó e ténis de mesa, a solo, porque nessas coisas a Terra tem muito mau perder e pode-se zangar com a Lua e isso é coisa que ninguém quer, nem os lunaticos e esses, todos sabemos, sempre com a cabeça na lua, ainda trocavam os pés pelas mãos.
«Nádegas infernais!» Subtraía-se ao ambiente obnóxio, mesmo não consciente e denodadamente deixava passear o olhar pela assistência, por entre as reticências que se repetiam. «Pensava que aquela já tinha morrido»... «Aquela plástica deixou-a que nem um pires de tremoços»... «E lá está aquele velho execrável a simular que cospe a dentadura enquanto tosse, só para se aproximar de umas pernas cruzadas até à cintura». «Malandro do velhote, húbrico...». Mesmo assim, era fácil aceder ao discurso, tal era a demorada explanação e a plasticidade dos pensamentos que enxameavam durante os tempos mortos era tal que se apanhava por vezes a enxotá-los (gesto que disfarçava dizendo que eram moscas), mas ajudavam-no a preencher as lacunas de sentido, pelos menos representando a pausa por cores e os sons, monólitos que zunem e vibram como almôndegas.
E eis que irrompe, em larga cavalgada, um armadurado montado em fulguroso alazão, de lança na mão e penachos no elmo, de escudo impecável, partido, campo azul com cadernas de crescentes em prata e alvo com flores de lis douradas em aspas postas, encimado por uma estrela de oito pontas. Trazia uma donzela desarranjada, seios leitosos de mamilos rosados em riste, esvoaçando a sua longa cabeleira arruivada pelo salão onde decorria o evento. Galgou as últimas filas distribuindo espadeiradas aos tortos e aos mais direitos e, num ímpeto viril perfurou a parca protecção toráxica do ainda mais parco comunicador, espalhando as suas miudezas pela mesa, entornando as garrafas de água, esparrameando a triparia quente, fumegando, escorrendo aos soluços meio solidificados até ao chão axadrezado. Antes que tombasse, numa tentativa de fôlego vão, com o tronco fortemente pregado ao estofo macio da cadeira forrada a cabedal italiano, com um simples e não sei em que sentido, limpo golpe, lhe fez saltar a cabeça dos ombros, a qual foi prontamente agarrada pela peituda ruivaça que se penduravanas crinas suadas do equídeo. Ou então a mão gigante e peluda de um deus misericordioso nos acudia, destapando um invisível ralo que separasse a realidade dos universos alternativos e pouco ecológicos, sugando o orador e uma grossa fatia da plateia que agonizava, mas continuava acenando mansamente a mona, engolindo caramelos narcotizados por substâncias criadas poara fins diversos e divergentes dos utilizados normalmente pelos púberes pós-modernos e aplaudindo ao sinal combinado previamente para não criar ainda mais intervalos na composição da oratória. Ou um Patriot desgovernado, lançado contra o Iraque em 1991, desse cinquenta e sete voltas ao planeta e invadisse o salão pela janela estilhaçada, farpas e vidros em perspectiva explodida esfacelando as carnes macilentas e libertando os corpos de seu sangue exclusivo.
Mais valia terem mandado vir um alfaiate, que este discurso não é lido, é cosido. Assim ficava alinhavada a corrente de pensamento original. Desfilavam, defronte de seus olhos redondamente abertos, estupefactos, espiões massivamente intrincados em personagens chaves do poder, segredos obscuros e tenebrosos sexualmente transmissíveis e de branqueamento não dentário, enquanto espadartes lutavam com caravelas pelo controlo das linhas de costa dos Camarões. Os lavagantes tinham criado uma coligação couraçada contra os gastrópodes que ocupam nichos de mercado asiático que lhes assentam como uma luva quitinosa, acompanhantes coquette acenavam suas plumas carmim antevendo cabarets carnais com grande audiência. O combate entre uma lesma e uma minhoca tibetana de anel dourado transmitido, esta noite, em diferido mundial, em prime time. Uma lágrima ridícula rebola nas macias faces de um golfinho suspenso numa baia humidificadora, enquanto é borrifado por uma solução salina, versão diminuída da essência do Oceano subnutrido.
Sentado, o orador deixava a custo saír a última palavra. O discurso finara-se. Se houvessem perguntas, ficariam por resolver. O dia passra, a noite roncava já pelas colinas densamente iluminadas da cidade, por onde já pululavam os noctívagos e ele sem o jantar feito, a descongelar desde a manhã ainda escura, mal saída da madrugada, na bancada de cozinha, sobre um prato de sopa. «Língua», pensou «de perguntador... ou então deste desgraçado com saliva em processo de secagem ao canto da boca, lambendo a esquina dos lábios com uma língua bífida e ressequida, com ela lambendo igualmente os bolsos, quer os cheios quer os vazios, de todos os que passasse, pela rua, de olhos ávidos escondidos no fumado do Audi do povo. Mais tarde ioria proceder a mais uma alienação patrimonial de todos os nativos, salvaguardando sempre uma promoção laboral póstuma e, oferecendo aos milhões que contribuíram durante décadas a fio para empresas estatais pela venda das mesmas um colossal nada e, se estiverem a pedi-las, mais um fulgurante discurso. Haja tempo para isso...
«Seria sempre outro dia» assumiu «outra oportunidade, para a qual virei equipado de Sudokus, palavras cruzadas, um gelado de quilo de baunilha e uma caixa de fósforos para fazer um modelo da Torre de Belém.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Ó Jumento do Estado
Hoje o meu sujeito passivo acordou todo escavacado. Agora, parecia que não havia mês que não levasse uma porrada. Lavou a cara com água fria e, após os considerandos normais ao início de cada dia, saíu de casa.
Pelas escadas, virou-se, de si para si, para o cidadão, que estava com um problema de (di)gestão e perguntou: Também vais ao enterro dos ossos da democracia?
O cidadão queixava-se: -Se pelo menos tivesse uma personalidade jurídica que se aproveitasse...juro que não ficava assim.
- Pelas quinas de meu peito e as longas barbas de meu avô. Então andámos a distribuir porrada de meia noite durante mil anos para assim sucumbir, como um pedinte, um indigente? Não há quem ponha mão nisto?
Atravessava a rua pela zona demarcada, enquanto um irritante aviso sonoro publicitava que a panela estava cheia de pressão.
A entidade histórica declamou: Portugal já morreu, as quinas quinaram. É apenas o processo de putrefacção inerente a algo que esteve vivo e finou-se...
- Como a democracia, e os Direitos do Homem, ou as convenções...- assimilou a consciência política
- Pavões bailando em salões de chá, maniqueísmos e salamaleques na Terra da Barriguinha Cheia!- escarneceu o poeta: Sendo o sonho que comanda a vida, há-que fazer uma revisão à direcção assistida do veículo, pá!
- O Reino de Deus está próximo, irmãos... andamos todos com o Valha-me Nossa Senhora na boca. Que Santa Dívida nos proteja.- Isto dizia a minha entidade espiritual, que já há muito alertava que a coisa andava mal.
No metropolitano, já vendo aproximar-se a minha força produtiva, ainda foi sublinhada a premência de uma solução pela via dialogal com o autista do manda-chuva.- Digam-lhe que lhe parto os dentes
O meu lado profético, já sentado em volta de uma circular e banal mesa de café, admoestava: - E para o próximo ano, nem vos passa pela cabeça...
- Não passa na cabeça, porque não tem bolsos, mas o Fisco vai-se enfiar em tudo o que é buraco (menos o financeiro, claro, que esse é dos amigos), respingou o meu economista camuflado.
Aí, a minha identidade sexual sobressaíu do burburinho que reinava entre os presentes e, insurgindo-se, inflamado, exclamou: Alto aí, que me aleijas! Não estou acostumado a cultivar determinados hábitos concuspiciosos.
A minha naturalidade, choramingou... «Se, ao menos, tivéssemos um lema do género do «Yes, we can!»
- Do Obama?- perguntei.
- Não! Do Bob o constructor... - atalhou a minha criança interior. «Disparate, o que não falta para aí agora são trolhas com espaço de de manobra temporal... já a massa, essa...» - ironizei, do fundo do meu revolucionário interno.
Não estava a ser optimista, confesso, mas, como poderá compreender, nasci com um instrumento que não só traduz a torrente de informação sensorial fornecida pelos olhos, ouvidos e nariz, tudo analisa, avalia e convém que chegue a conclusões (há quem chame cérebro, eu prefiro falar de consciência, cérebro qualquer idiota tem...).
- E, depois, é o que dá, termos oportunidades suficientes de expressarmos as nossas opiniões... direito de expressão, não é? - era, sem dúvida, o expressionista abstracto em mim que discursava.
Já pelo passeio calcetado, só comigo como com a minha comitiva, neste périplo jungiano, refere ainda o sentido ético
- Mas desde quando é que o direito deixou de o ser e passou a privilégio? Então e os deveres e obrigações das outras partes, dos outros lados da barricada? E o Estado Democrático, e a sociedade, e as empresas, neste espartilho metidos, para onde anda a ser transferida essa gordura toda que temos ouvido falar durante tantos anos, que não há quem a afiambre forte e feio?
E assim, o eu trabalhador por conta de outrém, indago: «Mas eles pensam que eu ando a roubar por conta própria ou fardado e de chapéu engraçado a atacar na via pública? Eu trabalho, sim? Agora, anda tudo ao mesmo, mas pôr mãos à obra, que é bom e sai barato, nada... É que eu não aufiro nada para ir trabalhar, fica lá todo, ir, vir e comer, e o resto? Querem que eu viva de quê? Lamentações governamentais? Dão-me azia, essas lágrimas de crocodilo...
Era altura do meu sujeito passivo não descontar acima das suas possibilidades, e se os reformados estrangeiros podem ter um enquadramento de dupla isenção fiscal, porque é que eu tenho que ficar com duplas tributações fiscais em cima umas das outras. Haja apetite, porque dinheiro, não há...
É como se tivesse de me abrir a uma orgia confiscatória a torto e à bruta, e tudo o que mexe, apanha. Olhando à volta, como tudo se torna caro menos aquilo que é meu...
E ouvindo as multidões a gritar nas ruas ou, em surdina, a sussurrar frases revolucionárias e estremecedoras, continua a caravana insana o seu caminho, ao qual nos atrela, envolto numa escatologia financeira.
A minha memória aponta as percentagens silenciosas da abstenção eleitoral. Soma-lhe os votos brancos e nulos a capacidade algébrica, subtraiem-se dos restantes os votos oposicionistas, fraccionam-se os balanceantes e indecisos destas coisas e fica... uma miséria de vendidos que mandam em nome de todos os outros.
- E a mãezinha não os ensinou a respeitar os outros?- Nunca! E de cada vez que, em criança, sentia alguma compaixão a crescer no seu peito, logo, voluntariosamente, ela lhe atribuía um valente pontapé nos queixos, que o virava, e cedo aprendeu a não se meter nesses assuntos extranumerários.
- No meu entender, andamos todos a usufruír do que é bom. Somos uns bon vivants, marialvas caloteiros, não se vê bem? Senão reparem: isso de comer todos os dias, é um privilégio. Trabalhar? Outro... Folgas, então, e descanso e salário, é uma exploração de tamanha regalia, andar calçado não é para todos e o papel higiénico é um artigo de luxo. Ser reformado é uma mordomia e estar doente é crime. Se estiver reformado e doente ao mesmo tempo, é um parasita.
«Não há desempregados, há é calões. Trabalho não falta, falta só quem o queira pagar. Se possível, condignamente, se não fôr muito Segundo Mundista. Mas já subiram o ranking da nação? Lixo és, escumalha serás, assim como dividiste o Mundo, só, na miséria, morrerás.»- atalhou o revoltado.
Nesta altura, no meio da rua, já reinava a balbúrdia sinfónica. Era o pai, o filho, o neto, era o estudioso e o Marquês do Alegrete, o consumidor e o consumido, nunca almejara, nem sequer prestava tanto valor quanto isso, nunca crescera para se tornar consumista, assim ficava, em austera subsistência, ao qual a actual austeridade apenas se apresentava como uma ligeira queda gradativa.
Todos vociferavam. A algazarra já ia no adro, e eu... calado. Apenas observei, já à funesta entrada onde deposito meu tempo e corpo durante as horas laborais, baixinho: «Eu já vos tinha dito! Eles só querem guito!»
Pelas escadas, virou-se, de si para si, para o cidadão, que estava com um problema de (di)gestão e perguntou: Também vais ao enterro dos ossos da democracia?
O cidadão queixava-se: -Se pelo menos tivesse uma personalidade jurídica que se aproveitasse...juro que não ficava assim.
- Pelas quinas de meu peito e as longas barbas de meu avô. Então andámos a distribuir porrada de meia noite durante mil anos para assim sucumbir, como um pedinte, um indigente? Não há quem ponha mão nisto?
Atravessava a rua pela zona demarcada, enquanto um irritante aviso sonoro publicitava que a panela estava cheia de pressão.
A entidade histórica declamou: Portugal já morreu, as quinas quinaram. É apenas o processo de putrefacção inerente a algo que esteve vivo e finou-se...
- Como a democracia, e os Direitos do Homem, ou as convenções...- assimilou a consciência política
- Pavões bailando em salões de chá, maniqueísmos e salamaleques na Terra da Barriguinha Cheia!- escarneceu o poeta: Sendo o sonho que comanda a vida, há-que fazer uma revisão à direcção assistida do veículo, pá!
- O Reino de Deus está próximo, irmãos... andamos todos com o Valha-me Nossa Senhora na boca. Que Santa Dívida nos proteja.- Isto dizia a minha entidade espiritual, que já há muito alertava que a coisa andava mal.
No metropolitano, já vendo aproximar-se a minha força produtiva, ainda foi sublinhada a premência de uma solução pela via dialogal com o autista do manda-chuva.- Digam-lhe que lhe parto os dentes
O meu lado profético, já sentado em volta de uma circular e banal mesa de café, admoestava: - E para o próximo ano, nem vos passa pela cabeça...
- Não passa na cabeça, porque não tem bolsos, mas o Fisco vai-se enfiar em tudo o que é buraco (menos o financeiro, claro, que esse é dos amigos), respingou o meu economista camuflado.
Aí, a minha identidade sexual sobressaíu do burburinho que reinava entre os presentes e, insurgindo-se, inflamado, exclamou: Alto aí, que me aleijas! Não estou acostumado a cultivar determinados hábitos concuspiciosos.
A minha naturalidade, choramingou... «Se, ao menos, tivéssemos um lema do género do «Yes, we can!»
- Do Obama?- perguntei.
- Não! Do Bob o constructor... - atalhou a minha criança interior. «Disparate, o que não falta para aí agora são trolhas com espaço de de manobra temporal... já a massa, essa...» - ironizei, do fundo do meu revolucionário interno.
Não estava a ser optimista, confesso, mas, como poderá compreender, nasci com um instrumento que não só traduz a torrente de informação sensorial fornecida pelos olhos, ouvidos e nariz, tudo analisa, avalia e convém que chegue a conclusões (há quem chame cérebro, eu prefiro falar de consciência, cérebro qualquer idiota tem...).
- E, depois, é o que dá, termos oportunidades suficientes de expressarmos as nossas opiniões... direito de expressão, não é? - era, sem dúvida, o expressionista abstracto em mim que discursava.
Já pelo passeio calcetado, só comigo como com a minha comitiva, neste périplo jungiano, refere ainda o sentido ético
- Mas desde quando é que o direito deixou de o ser e passou a privilégio? Então e os deveres e obrigações das outras partes, dos outros lados da barricada? E o Estado Democrático, e a sociedade, e as empresas, neste espartilho metidos, para onde anda a ser transferida essa gordura toda que temos ouvido falar durante tantos anos, que não há quem a afiambre forte e feio?
E assim, o eu trabalhador por conta de outrém, indago: «Mas eles pensam que eu ando a roubar por conta própria ou fardado e de chapéu engraçado a atacar na via pública? Eu trabalho, sim? Agora, anda tudo ao mesmo, mas pôr mãos à obra, que é bom e sai barato, nada... É que eu não aufiro nada para ir trabalhar, fica lá todo, ir, vir e comer, e o resto? Querem que eu viva de quê? Lamentações governamentais? Dão-me azia, essas lágrimas de crocodilo...
Era altura do meu sujeito passivo não descontar acima das suas possibilidades, e se os reformados estrangeiros podem ter um enquadramento de dupla isenção fiscal, porque é que eu tenho que ficar com duplas tributações fiscais em cima umas das outras. Haja apetite, porque dinheiro, não há...
É como se tivesse de me abrir a uma orgia confiscatória a torto e à bruta, e tudo o que mexe, apanha. Olhando à volta, como tudo se torna caro menos aquilo que é meu...
E ouvindo as multidões a gritar nas ruas ou, em surdina, a sussurrar frases revolucionárias e estremecedoras, continua a caravana insana o seu caminho, ao qual nos atrela, envolto numa escatologia financeira.
A minha memória aponta as percentagens silenciosas da abstenção eleitoral. Soma-lhe os votos brancos e nulos a capacidade algébrica, subtraiem-se dos restantes os votos oposicionistas, fraccionam-se os balanceantes e indecisos destas coisas e fica... uma miséria de vendidos que mandam em nome de todos os outros.
- E a mãezinha não os ensinou a respeitar os outros?- Nunca! E de cada vez que, em criança, sentia alguma compaixão a crescer no seu peito, logo, voluntariosamente, ela lhe atribuía um valente pontapé nos queixos, que o virava, e cedo aprendeu a não se meter nesses assuntos extranumerários.
- No meu entender, andamos todos a usufruír do que é bom. Somos uns bon vivants, marialvas caloteiros, não se vê bem? Senão reparem: isso de comer todos os dias, é um privilégio. Trabalhar? Outro... Folgas, então, e descanso e salário, é uma exploração de tamanha regalia, andar calçado não é para todos e o papel higiénico é um artigo de luxo. Ser reformado é uma mordomia e estar doente é crime. Se estiver reformado e doente ao mesmo tempo, é um parasita.
«Não há desempregados, há é calões. Trabalho não falta, falta só quem o queira pagar. Se possível, condignamente, se não fôr muito Segundo Mundista. Mas já subiram o ranking da nação? Lixo és, escumalha serás, assim como dividiste o Mundo, só, na miséria, morrerás.»- atalhou o revoltado.
Nesta altura, no meio da rua, já reinava a balbúrdia sinfónica. Era o pai, o filho, o neto, era o estudioso e o Marquês do Alegrete, o consumidor e o consumido, nunca almejara, nem sequer prestava tanto valor quanto isso, nunca crescera para se tornar consumista, assim ficava, em austera subsistência, ao qual a actual austeridade apenas se apresentava como uma ligeira queda gradativa.
Todos vociferavam. A algazarra já ia no adro, e eu... calado. Apenas observei, já à funesta entrada onde deposito meu tempo e corpo durante as horas laborais, baixinho: «Eu já vos tinha dito! Eles só querem guito!»
domingo, 25 de novembro de 2012
Assim como lá fora chora, também eu, cá dentro, chovo
Servirá o presente para balizar o leitor entre as esquinas do que surge representado trinchadas vezes em pincleadas desvairadas, ajudar a identificar os crivos etéreos que coadjuvam a realidade como se apresenta, vestido de noite e singular pendente que lhe arrebanha, ao de leve, o seio maroto e de tez aclarada pela sedentária rotina, em clivagens e rupturas imparáveis na inconsequência sempre peregrina que a caracteriza e empresta não só a graça, como igualmente a ansiedade fatal que colhe a mente humana na sua tentativa de apropriação, manipulação e renovação ou reconstrução.
Se por vezes podem qualificar certos ditames como arbitrários, com um pendor marcadamente alheado ou notoriamente aleatório, temos de encarar a fluidez da palavra escrita como um passeio matinal, olhando o sol espreguiçando-se languidamente pelos cumes despidos das montanhas, embora também possa ser classificado como uma caminhada vespertina pelos bosques, quando a escuridão ganha domínio sobre o céu que perde a força luminosa, num recolher mudo e frio, que deixa um aviso violáceo à vida da chegada galopante da noite, com seus demónios montando estrelas inquietas.
Ou como um terno esculpir no mármore delicado, a forma de lascar cuidadosamente a madeira alisada, o guiar lento das mãos experientes do oleiro, esculpindo à razão partilhada entre o desejo do artesão e a alma do barro. Como a lenta construção do invúlucro do caracolídeo, etapa a etapa, no mesmo modelo e intento, endurecido pelo tempo e o arrastar egoísta desenhado ao pormenor babado e milimetrico, em defesa de um modo de vida campestre e mais ligado à livre expressão da natureza pelo ser vivente. Não será também nubente, nas bodas eternas que a vida nos presenteia?
Entendê-lo como o planar falcoeiro, espiralando em ângulos cada vez mais apertados até se abater, garra furando a carne, sobre o alvo determinado. Como uma migração oceânica, ou uma manada de ruminantes pensamentos que se abandonam à reflexão pelos prados apenas divididos com o trinar perdido das aves canoras que esvoaçam, alegadamente livres. Encará-lo como a essência de um cardume ou de uma camada de gnus que pisoteiam o solo e levatam turbilhões de poeira pardando o ar, cascos violentos na terra seca. Como um anel de Saturno, o movimento da Lua em torno da Terra é retratado pela manada que se dessedenta no lago.
Ou como o gorgolejar interno de um copo de vinho a ser sedentamente esvaziado de sua esência e corpo de manifestação, até nada sobrar dele que um odor tanino com pormenores frutados na sua atmosfera endógena, acompanhada de um escorrer que cai como uma membrana rubra, mal dando para emprestar ao vítreo invólucro a opacidade que se adivinha, rubi transparente que se insinua, romântico e impúdico, extrovertidamente deglutido em amena cavaqueira despreocupada em serões pontificados à beira de uma lareira tímida e bruxuleante, sobre um fundo sonoro de harpa indelével que seduz as mentes em oitavas e bemois.
Deito à terra as estrelas que ponteiam o céu, deposito no mar as flores que caíram, ainda vivas, dos sonhoas das cidades, onde estavam encavalitadas em canteiros acimentados. Saúdo sua tenacidade indecorosa que rompe os condicionalismos desoladores do asfalto e que surge à janela, atravessando as paredes devolutas de antigos palacetes burgueses, perdida sua glória e motor interno, afinal, as pessoas ilustres desconhecidas que hoje povoam fantasmagoricamente escadinhas, travessas e becos, acompanhando os trauseuntes e turistas nas suas deambulações incautas, como quem vela por aquilo que não lhe pertence.
A minha sala está toda catita. Bonita e arranjadinha, quase confortável. Só lhe faltava um inopinado ambientador, uma leve brisa marítima previamente desumidificada, um bartender a servir martinis e outras beberagens civilizadas ou mais exóticas, para cambiar em combinado trapezista com uma tailandesa que faça umas massagens fantásticas. Agora, o sol adentra pelas amplas janelas e brinda-nos com sua presença tão amiga, fazendo-se convidar para o almoço que se pretende saboroso e recatado, na companhia saudosista de um ex-líder síndical e de uma copeira abandonada em pequenina à soleira solitária de uma porta de Lisboa e de um embaixador da estepe siberiana, vestido a rigor e montado num ginete.
Tudo dependente de conceitos que funcionam como degraus, plataformas que vão dando os braços e controem uma muralha intransponível de pensamentos que se passeiam como molhos de balões presos por uma corda fina de consciência que os interliga e os faz comunicar com o emissor camuflado, digo fina, maleável, com uma característica de tenacidade, pois que se tem de dividir, digladiada entre a posição de partida do elemento dedutivo, como do trajecto, meta e objectivo a atingir, não deixando de ser forte e até intrínsecamente densa na sua influência, por vezes sofrendo dolorosos desvios, necessários contudo à prossecução efectiva da dissertação eleita pelo momento, sempre diferente, pois que inserido numa contínua metamorfose.
E há uma desigualdade estrutural que teima em manter-se, não obstante as críticas ao desequilíbrio daí advinte, é notoriamente uma estratégia que se demarca da vontade geral de assimilar o mundo sem a sofreguidão desmedida actual, num laissez vivre mais oportuno que o laissez faire que tem caracterizado certos arrojos societários, como se tudo não passasse de um gigantesco laboratório sociopolítico em que, como ratos somos obrigados a seguir determinadas direcções pré-aprovadas por comités tirânicos munidos com o paternalismo oco e supérfluo de quem decide só porque pode, insensível à razão ou emoção. Cada teoria desenvolvida teria, por esse motivo, amplo espaço de manobra para se afirmar.
Cabe agora saber, noves fora nada, em que aspecto é que a textura silábica sobressai da, contabilizemos assim, lisa face polida e artificial da realidade, onde se notam as inoculações de botulina nos cantos arreigados das bocas moles e decrépitas, onde são visíveis as aplicações generosas de baba caracolina de fino traço e colheita extremosa de tão cremosa, uma realidade lipoaspirada, retocada à laia de bisturi, arrendada a sua fútil imagem nos esteticismos de bairro e unhas de gel, coquette retro com laivos inusitados de sobranceria, indo tantas vezes à ficção beber a alma que se lhe escapa por entre os apelos publicitários ruidosos e cintilantes.
Por entre as parcelas do dia, quais clareiras abertas no laborioso e denso sentido vertical da imposição vegetal e frondosa a que poderemos chamar floresta, janelas maduras pendem e nas soleiras despidas de preciosismos, apenas rosas que acusam, sanguíneas, as memórias encaixotadas no sotão empoeirado de eras jactantes e passadas, num misto polinizado de arcanídeas entabulações que travam como cortinas de veludo e a custo, a luminosa espada que do sol se desprende e as trespassa, fustigando nos seus intervalos funcionais a resistência efectiva que afronta os poderes erosivos que o esquecimento impõe.
E há quem, de facto, não queira nem saber das ditosas nuances com que se dotam as palavras aquando do seu desfile primaveril. Como se adequam e ligam, se encadeiam de acordo com normas instituídas pelas leis da física, como se interpenetram em afunilados ângulos, como lagartos expostos ao sol, elementos químicos que se relacionam anonimamente, mas nunca de modo algum de forma anódina, formando numa intrincada tecelagem urdida com ufana oralidade e substancial comportamento analógico e analítico das causas que originam o surto o aparacimento de determinadas identidades em definidos hiatos temporais em que se afirmam, erectas.
Provavelmente, por vezes, é como se distendessemos um painel de azulejos colocado numa parede infinita, onde a gramática do revestimento edificado, peça a peça, insidiosamente se assume central, pela sua distribuição densamente utilizada na composição, em vez de se perder entre outras individualidades cerâmicas, como se se afirmasse continuamente em reprodução fractal, mantendo um refrão característico enquanto rima com o som dos passos na calçada comprimida ao solo, libertando com suas arestas polidamente confinantes as razões geométricas do seu existir poético, logo, fora de considerações orbitais à matemática das soluções urbanísticas aplicadas alusivamente ao tema proposto.
Como uma definição universal que abarcasse a visão paradisíaca de uma selva que luxuriante se espalha em solo fértil e intocado e que, paralelamente consegue discernir e apontar pontos de diferenciação entre cada indivíduo-árvore, no que tem de essencial e acessório, mantendo aberta a análise das respostas estratégicas que utilizam na competição permanente que evocam resistência passiva e por vezes activa aos desestabilizadores regulares que insistem em fazer notar a sua existência, aplicando em deflorestações metódicas e com preocupação científica, fundar um novo conceito, o da selva humanizada.
E o que será essa selva humanizada? Uma selecção biotópica de elementos plausíveis de serem utilizados na indústria farmaceutica? Zonas de conforto e lazer para alguns humanos afortunados irem semeando resíduos libertos de sua funcionalidade primeva pela paisagem? Apenas para estudiosos das relações dinâmicas entre o simbiótico elenco peneirado da vida? Como que alheado da função vital e fundamental que a simples existência fora dos redis impostos pela conquista do ambiente pelo dito animal superior. Quanto tempo nos resta para domesticar a Natureza, violentar a sua inocência e fértil oferta permanente?
Fincando o pé em cada pequeno nada, o Homem cria lendas e constroi, no âmago em que os apreende, esses mitos. No seu sentir os interpreta, os vive. E representa-os em ritos exangues, a um ritmo imponderado e constante, um contínuo holocausto de si mesmo à mudança imposta pelo Tempo. Pelo Tempo, não por uma trela castradora que tantas vezes nos é imposta, como derradeira postura de controlo sobre as mentes e corpos humanos, imunes que estão as matérias constituintes dos estágios da alma para se deixarem enredar. Há. no entanto, nesse apelo sensorial e causístico, uma ambivalente reacção por parte das diversas cambiantes existenciais.
Como que anotando minuciosamente as notas musicais ou da escala dos perfumes em pequenos cadernos de apontamentos, de capa aveludada e cingida pelo tempo, em tabelas e quadros infetisimais desnudada a correlação entre as diversas linguagens melódicas que o cérebro apreende e frutifica, de cada vez que enraíza nova expedição explorativa dos significados inerentes, tantas vezes ocultos apenas por uma pequena divergência tonal, vibracional ou de índice assumido para emissão frequencial, e o universo soa-nos a uma imensa Babel sequencial que nos acode com representações de intérpretes vários numa linguagem acessível a muito poucos.
Daí a intensa dificuldade de traduzir e xavegar as ideias que fluem como se estivessemos imersos num oceano mental e que nele nadássemos, como íctios seres ou análogas entidades, em ambientadoras profundidades e correntes preferenciais, envoltos numa sinfonia a que acedemos, de quando a quando, por processos próprios e ainda mal explanados, embora já explorados, e que tentamos, sob pretextos afins, transferir, converter de modo racional ou sentimental, ou até, como Prometeu, furtar, aos deuses plenos, os pequenos instantes de epifania em que comungamos, mesmo que por breves momentos, o nosso lugar na complexidade mirabolante que é o Cosmos..
Gritavam «Basta!», as paredes brancas, numa negra e desesperada exclamação. «Espero que não seja para mim.» Penso. E não estaria à espera que fosse. fosse lá como fosse, pois que seria assaz difícil conciliar-me com qualquer interferência despótica sobre outrém, não obstante poder, por vezes, confesso, imiscuír-me subrepticiamente em assuntos para os quais não sou tido nem achado, mas tal apenas resulta de uma capacidade mediúnica surpreendente, que me coloca em confraternização permanente e, embora assemelhando o meu estado a uma relevância solitária, cedo surpreendo com diálogos em mesa redonda com um séquito impressionante de sumidades mundiais em diversas áreas do humano saber.
Por estes e outros motivos, cedo esclareço que a presente divagação não ocorre avulsa na perspectiva histórica em qua nos encontramos, numa charneira que cheira a mijo como uma trincheira, aguardamos a ordem que nos fará marchar para sucumbir pouco além, pois é no Inverno que a Guerra reconhece a sua própria idiotice e irracionalidade. Na Primavera desabrocham movimentos populares que procuram abraçar a Liberdade e a Democracia. No Verão as mais sanguinárias atrocidades semenizam o estio. No Outono, os regimes políticos caem, fruto de sua própria perversão e caducidade, catalisados pela sua própria corrupção e decomposição, separatismos fendendo a uniformidade apenas relativa das constituições sociais dominantes.
Decomposto o sacrílego florilégio que se desprende da inamovível absorção pelo despontar orvalhado, pétala a pétala, do labirinto imaginário que é a alma, fora das construições ficcionais a que nos agarramos quando não queremos reconhecer outros pontos de contacto entre o que nos move e o que nos faz mover. Alimenta ainda a ideia de ser um gomo cítrico da lua, ou a resposta que as estrelas dão, encriptada, através do manto escuro, fluídico e vacuoso da matéria desconhecida, plasma no qual se suspendem e viajam, na impermanente tela estelar, faça sol ou chuva faça, e que ricocheteiam nas nuvens mais altas, fora de qualquer razão orbital que o justificasse.
Se há livros que mudam a nossa vida, o livro de cheques é um deles. Desde que não sofra de calvice prematura, ou que tenha cobertura ou cabimento, é um livro com uma utilidade sempre actual, noves fora nada, ter caído em desuso com novas tecnologias créditocraticas, exceptuando o seu uso fraudolento, tão conceituado como qualquer outro, o livro de cheques seria um best seller se fosse contabilizado, como o livro de reclamações (ou ralações), o livro de facturas ou o livro de receitas alquímicas dum charlatão do Martim Moniz, cura quase tudo por um triz. O que faltava realmente era um livro de instruções que explicasse, em linguagem acessível, que o uso continuado da mente para emitir pensamentos nem sempre reune consensos.
A vida leva-se a tiracolo, em certas semanas do ano, oscilando, à bandoleira, espalhando as brasas da animosidade que constitui o cerne da manifestação, feliz ou não, da realidade interior de se sentir vivo, caíndo já num desuso incómodo, isto de viver sem ser vivo, sem se sentir vivo, adiando a despedida à terra quotidianamente, como quem se senta na gare ferroviária porque aprecia o silvo das composições quando arrancam nas frias manhãs nebulosas de Inverno, emprestando à atmosfera férrea e com o sabor metálico do aço anodizado no hálito alaranjado que transpira do motor em esforço crescente, sobre os carris molhados que reflectem a verdade matinal em tom cinza e beige e despedir-se mentalmente aquando do seu desaparecimento. E, continuamente, pedalar.
À noite, meus sonhos, transportados pelo rumor das vagas que se abatem trazidas nas asas assobiantes do vento, saboreio a humanidade salina de suas comunicações, perfumado o quadro em que o esquecimento fustiga ininterruptamente as costas protegidas da memória com o selvático arremessar de hordas ondulantes e turbulentas de capacidades fisiológicas do ponto de vista das arribas infantis da investigação científica dos processos neuronais que dão azo às sinapses fazerem folgas a determinados dias de semana, maioritariamente quando os neurónios decidem dedicar-se à catarse noctívaga de seus pensamentos extenuantes, analisados à luz das fenomenais pedras de Roseta que se vão encontrando, oásis de devaneio nos jardins da cidade em rotundas botelhas de néctares olímpicos.
No fundo, cada sentença é como um faustoso banquete, a ser preciosamente deglutido com a prévia alavancagem do apetite, recorrendo-se ao uso alegórico das metáforas, mesmo as que são notoriamente atravessadas por pormenores surrealisticamente rendilhados, capacitando o teor plasmado com várias optimizações que poderão ser aprimoradas com o exercício permanente da capacidade crítica e da análise profunda e factual do exposto. Assim como exposto aos elementos, o trabalho do poeta ora refulge ora fenece, num ritmo próprio que lhe subjaz, a ele, alheio a tantas manifestações fúteis ou comodamente repetidas ab nauseum por exércitos de cabeças mal agarradas ao corpo que as carrega, sentindo de outro modo as punções que a todos desesperam.
Como uma paisagem reconhecida, interpretada e recolocada à apreensão, imagem pintada com labor e entrega, em tela de cânhamo ou linho branqueado, como o fundo basilar da nascente oculta de onde os pensamentos brotam, indivisos, transmitidos por estações intermédias entre a sensação e a compreensão, observe-se como nasce a composição, primeiro tímida, depois afirmando-se, frenética, para terminar, delicadamente dispensando os apetrechos finais que trancarão, ou o sugerem, futuras intervenções, como um torpor harmonioso e tépido de onde apenas sobressaem as imperfeições a minorar e os detalhes a aprimorar. Odes que da penugem laboriosa das mãos experientes do artista de enlevam, carregando em braços leves berços de utopias a sonhar num longínquo e estranho ponto demarcado no futuro.
É ver a construção imagética da criação do universo, assim despida no atelier criativo do louco pintado que esfrega a imaginação na tela e lhe propõe os filhos a criar. Numa orgia de estimulantes e alucinantes, em vão descobre as certezas da vida que lhe surgem, como foguetes pirotécnicos, alumiando panos negros e reconhece o cerne dos sistemas filosóficos e religiosos em sombras chinesas projectadas nas parecdes caiadas de moinhos alentejanos, vela enfunada em rotação sobre seu eixo inamovível, enquanto tenta montar Roncinante de bragas encharcadas do orvalho da nocturna índole. E, de súbito, lançar-se ao ar, pinceis e materiais, disferir golpes vívidos nas telas, manchas de cor violentamente distribuidas, num massacre em honra à percepção, culminando, em apoteose, com o amanhecer do olhar.
São assim cultivadas, não só as analogias, como as antíteses e as disciplinas orbitais que no seu processo nos surgem como naturalmente dependentes ou complementares, como quem vai raspando a superfície porosa da madeira, e debaixo de cada película anelar ir descobrindo, qual viagem no tempo, estação após estação, a importância relativa e absoluta de uma determinada identidade num determinado habitat, no qual desempenharia função ecologicamente mais viável e louvável que uma mera mesa ou cadeira que, não por desprimor à funcionalidade, perde em alma poética o que ganha em comodidade ergonómica. E, contudo, aquele tronco, outropra vivo, respirando a atmosfera leve da substancial floresta, não deixava para trás aquilo que tinha sido, mas transportava-o, em seu cerne virgem, na memória que de si tinha.
A indecisão é uma raíz caustica que dilacera, usando como sonda a sombra copiosa da dúvida, revolve o solo amargurado da realidade, envolto na senda da verdade. Não desiste enquanto a não descobre, mesmo que oculta em profundas cavernas que se afundam no seio rochoso e milenar da rocha, contorna as plantações cristalinas de quatrzos mutantes enquanto admira os pormenores arquitectónicos que a Natureza vai esculpindo, tendo para tal o tempo requerido, e deixando-a tranquilamente, no seu lento e laborioso criar, sem a intervenção ou interrupção desse bípede que, altercado, se considera superior ao que realmente é. Como um sábio que se afirma como tal para ocultar a sua ignorância, tantas vezes superior ao conhecimento que compilou, mental ou mnemonicamente, em árduos anos de estudo.
A erosão deixa na vida o degradé apenas possível pela acção continuada do efeito tempo sobre o objecto vivo. A dicotómica relação entre dois estranhos elementos. Este, não é apenas o que aparenta, mas principalmente é o que é. Por vezes, a aparência apenas surge para despistar ou iludir, são apenas ligeiros véus ou pesadas cortinas que impossibilitam a exploração daquilo que se estende, calcula-se, para lá daquela barreira opaca a que chamamos corpo. Temos de almejar ser como o fotão e o neutrino, que atravessa facilmente qualquer densidade da matéria, como quem revela o segredo que se quer oculto, como quem descobre terras desconhecidas e mares inexplorados, como quem desmascara uma conspiração de átomos que nos fazem crer sólidos. Aquilo que acreditamos, mesmo que irreal, tem mais peso que a realidade.
No Universo não há paredes, haverá, isso sim, diversos níveis de densidade ou frequência para os quais necessitamos de instrumentos de precisão para os estudar e compreender. Como absorvemos as tonalidades amareláceas e róseas que, difusas, atravessam o nevoeiro, nas íngremes ruas da Lisboa romântica, penduradas as candeias que zunem na noite e asseveram, ao longe, na noite que os montes e a distância escureceu, banhar o recortado horizonte com uma mancha tingindo de identidade cromática laranja a solidão que a Lua interrompe, bailando com as esparsas nuvens apressadas, arremessadas por ventos com cio que lambem as costas litorais, levantando a areia dunal e misturando-a com a humidade salina e fresca..
Escrever com a pena livre, a tinta que o coração verte nas páginas arrancadas à vida, com ganas de a sorver de um trago, mas dividindo-a em sábios momentos apascentados na periferia da mente. Tudo cantando num notório matraquear, como quem finamente cinzela cornucópias vegetalistas em operetas esmaltadas, brilhando ferozmente nos apêndices em que a alma se apoia para extrapolar os horizontes em que se encarna, limitado que se encontra em cada experiência singular. Como garras que esgravatam e esfacelam a realidade para lhe beber do sangue os segredos, esse sangue pastoso, pesado, que gorgoleja, lento, anunciando o bombear indiscriminado do seu motor cardíaco, desmultiplicando-se em sucessivos vasos e canais projectados para essa função distributiva.
É amanhecer a ideia, já a madrugada se despede e os galos anunciam a aurora, concorrendo com o sol pela atenção dos arredores, como quem rema no lago, trepa uma árvores centenária ou adoremece à sombra de um candeeiro, tudo percepções entrecruzadas que suscitam questões de pertinente actualidade. Neste tempo, os valores, rifados e abandonados, reassomem à margem escarpada de seus naufrágios, surgem, sem fôlego, acenando por socorro, por entre destroços, acicando a memória dos factos que transformaram honras em oportunismos, verdade camuflada entre roles de mentiras descaradas e a face oculta dos enganos perpetrados à boca fechada, conluios majestosos e assustadores, que moldam e nos transformam. Não reconheces no teor da palavra e sua nuance expressiva o hiato que revela a sua intenção?
Supôr uma palavra suspensa por molas esterelizadas, analisada através de seu sangue imorredouro, avaliadas as bifurcações que origina, pesar suas raízes e fontes geomânticas, traçar-lhe o mapa astrológico e sua interpretação numerológica e previsão meteorológica. Provar-lhe a seiva e observar microscopicamente o desenvolvimento celular e suas ramificações moleculares. Fazer-lhe uma decocção letra a letra e traçar as comunicâncias e outras libidinosas confabulações quando do encontro de povos se transcende num beijo adocicado de línguas de raíz ambivalente. Onde as palavras se reencontram no alinhamento dos corpos celestes na espiral elíptica do tempo corrente mantendo a sua anima alquímica pulsando, nem sempre flagrante, na semente da comunicação.
Apropriar-se da razão das coisas, para mais sabiamente distribuir a destruição de equívocos, tão em voga, tendo na origem de tal decisão, a desvirtuação que a linguagem sofre nos mais diversos ambientes, camaleando-se quando se bamboleia em salões de chá e baile, dirimindo salamaleques pelas célebres e vacuosas personalidades espelho de uma sociedade aparentada com um saco de lixo insuflado por megalomanias e outras manias de quem tem mais bolso que mãos e mais luxúrua que maturidade espiritual. Como um desfile neurótico de cadafalsos envolvidos em seda e perfumes, para anunciar aos outros que, tendo mais exteriormente que interiormente, não era de bom tom andar por aí, de orgão ao léu, porque além de cheiro, libertam outras metásteses insapientes de futilidade abrasadora.
Ser um alfaiate, agulha na boca, na mão a tesoura, corta o tecido gizado a branco, os panejamentos que irão cobrir o outro, também o carpinteiro, com as medidas correctas, veste o cadáver com um fato de casco de carvalho polido e envernizado, como um gourmet da haute couture desfila criações estilísticas nos becos mal afamados da velha Lisboa, por entre putas e bêbados ressonantes na noite de testículos esvaziada que ainda celebra a vinda da Primavera de 1323 como se fosse hoje, engalanada nas suas avenidas como apenas um arqutecto desmesurado pode cobrir os edifícios com mantos diáfonos de pólen seleccionado das melhores flores silvestres, num elaborado processo de fabrico, sentindo o pulso ao mercado moribundo de afctos e repleto de objectos indefinidamente fálicos na perspectiva de quem os mira.
Rejuvenescer em cada página passada, em cada parágrafo que se expande, no significado suspenso de um epílogo atravessado, um aguaceiro de advérbios cuspidos pela janela de um funicular, adjectivados ao bom gosto mediteranico, berço dos impropérios clássicos e desde sempre na vanguarda das aprimorações injuctivas com ênfase na linguagem corporal das estátuas, fascinantes peças de um puzzle de praça e chafariz, quadrada, inscrita entre as rotas invisíveis que os pombos seguem na urbe e as deambulações das folhas desempregadas aos ventos do mercado do trabalho, sem melhor poiso que os paralelos envastrados, por sorte em motivo vegetal, ou atravacando as sarjetas da rua, por entre beatas e papeis avulso, permitindo inundações de miséria, fresca e preocupante, aquando da dispersão aquosa que a atmosfera realiza quando diz que chove.
Abraçar, assim, a ordem pecaminosa do mundo, sua acepção assética e dissolvente, em sua ascéptica relação com o universo em flor, nas mãos o leme desenvolto, solto, de naus que não partem, face às que não retornam de sua exploração. Afiambrar-me ao sentido da realidade enquanto culminamos o devido apreço por todas as especificidades que a diversidade da vida nos apresenta, admoestando contra certas filosofias de engrandecer todas as nossas aquisições e conquista enquanto se menosprezam a dos outros, como se a vida fosse um jogo de cantarolar gabarolices vazias, e não uma contínua construção acompanhada, onde por vezes perdemos o fio à meada, mas não a nós mesmos, e outras, em que nos encontramos em fases disparatadas da vida, em que o leme não nos pertence, ou nele não influímos com a vontade inerente a obter controlo sobre e essência das coisas.
Observo ainda as planícies autografadas que se estendem no imaginário virtual que nos alimenta, somos frutos de uma clorofila literária que nos envolve, nos copia e cria modelos para que nos fixemos e adornemos as nossas existências com a pueril verdade que a beleza dota os nossos pensamentos, como uma equação matemática que traduzisse todas as formas comunicacionais e seus idiomas, criando assim uma fórmula digital que abarcasse a ânsia humana de se fazer entender pelo outro, como uma florescência que se esvai em odor, um rouxinol que trina sintomas filosóficos em cadência vertiginosa e sinfónica, ou o beijo delongado que as borboletas fascinam na sua cromática explosão prenhe de significados que apenas seus semelhantes se apercebem, pintados que foram pelo Supremo Criador, no seu atelier paradisíaco, ainda o mundo usava fralda.
Em tantos quantos trezentos e sessenta e cinco, por vezes seis, hiatos temporais medidos com umaminúcia desmedida, se dividem os anos, filhos dos opóbrios solares tangenciais à órbita concreta da Terra, assim, também nós nos decantamos em pequenos pedaços acantonados na sua perspectivização, assimilados que fomos pela vida que nos regula, vestida com os mesmos trajes jocosos com que nos brinda, pela manhã, olhar insinuante no sorriso eroticamente disposto de forma a realçar a sublime luminosidade de seu gesto convidativo e premente, e nos convence a saír da cama quente e embrenharmo-nos na floresta construída pelos pesadelos da noite, onde iremos encontrar a refeição fumegante, que nos credita o calor cómodo e enternecedor a que aludimos quando falamos de lar, essa concha íntima e imparcial, nem sempre com contraparte real, em que nos sentimos em nós.
Realço a cor da tua íris que me fita, um lago intenso por onde perco as definições que teço, singelas construções mentais que não resistem a um olhar perscrutador sobre o foco de sua existência, afundo-me na profundidade verraneante e oceânica que me envolve, raiada e com matizes compiladas em enciclopédias que apenas versam sobre o conhecimento da beleza e sua aplicação quotidiana pela simples razão de existires e apareceres, de sorriso em riste, oferecendo-me de tua alavra mais do aque eu posso levar comigo para meu conforto. E me espicaça a dar caça a quem decsca e descansa, pernas cruzadas sobre uma secretária desenhada, lançando aforismos aos sete ventos pela porta envidraçada do escritório povoado por duendes maliciosos e fadas conspurcadas. Existirõ fadas urbanas? Concerteza, responderão os especialistas, a fada surge mesmo quando não existe nada.
E, assim exposto ou desnudado apresentado, parto, de negro sobretudo salpicado pela chuva de fim de tarde, teimosamente se lançando ao chão como que escorrega sem saber, atento a quem passa e agarra na sua mala, como se eu fora de sua laia e lhe quisesse roubar, sequer que fosse, uns momentos de desatenção, deixá-los, na sua imberbe autodivinização, mesquinhas mentes que soçobram ante trivialidades mas que se levantam em indignação por qualquer diatribe manipulada para lhes retirar a paz. Alienado que sou de riquezas exdrúxulas e impróprias, baseadas na fruição do luxo que é uma forma mais aperaltada de lixo, e, mãos nos bolsos e cigarro baforando o arfrio, me despedir do dia, descendo a rua íngreme e rebrilhante, com a esperança de amanhã ser, afinal, como prometido, outro dia.
Se por vezes podem qualificar certos ditames como arbitrários, com um pendor marcadamente alheado ou notoriamente aleatório, temos de encarar a fluidez da palavra escrita como um passeio matinal, olhando o sol espreguiçando-se languidamente pelos cumes despidos das montanhas, embora também possa ser classificado como uma caminhada vespertina pelos bosques, quando a escuridão ganha domínio sobre o céu que perde a força luminosa, num recolher mudo e frio, que deixa um aviso violáceo à vida da chegada galopante da noite, com seus demónios montando estrelas inquietas.
Ou como um terno esculpir no mármore delicado, a forma de lascar cuidadosamente a madeira alisada, o guiar lento das mãos experientes do oleiro, esculpindo à razão partilhada entre o desejo do artesão e a alma do barro. Como a lenta construção do invúlucro do caracolídeo, etapa a etapa, no mesmo modelo e intento, endurecido pelo tempo e o arrastar egoísta desenhado ao pormenor babado e milimetrico, em defesa de um modo de vida campestre e mais ligado à livre expressão da natureza pelo ser vivente. Não será também nubente, nas bodas eternas que a vida nos presenteia?
Entendê-lo como o planar falcoeiro, espiralando em ângulos cada vez mais apertados até se abater, garra furando a carne, sobre o alvo determinado. Como uma migração oceânica, ou uma manada de ruminantes pensamentos que se abandonam à reflexão pelos prados apenas divididos com o trinar perdido das aves canoras que esvoaçam, alegadamente livres. Encará-lo como a essência de um cardume ou de uma camada de gnus que pisoteiam o solo e levatam turbilhões de poeira pardando o ar, cascos violentos na terra seca. Como um anel de Saturno, o movimento da Lua em torno da Terra é retratado pela manada que se dessedenta no lago.
Ou como o gorgolejar interno de um copo de vinho a ser sedentamente esvaziado de sua esência e corpo de manifestação, até nada sobrar dele que um odor tanino com pormenores frutados na sua atmosfera endógena, acompanhada de um escorrer que cai como uma membrana rubra, mal dando para emprestar ao vítreo invólucro a opacidade que se adivinha, rubi transparente que se insinua, romântico e impúdico, extrovertidamente deglutido em amena cavaqueira despreocupada em serões pontificados à beira de uma lareira tímida e bruxuleante, sobre um fundo sonoro de harpa indelével que seduz as mentes em oitavas e bemois.
Deito à terra as estrelas que ponteiam o céu, deposito no mar as flores que caíram, ainda vivas, dos sonhoas das cidades, onde estavam encavalitadas em canteiros acimentados. Saúdo sua tenacidade indecorosa que rompe os condicionalismos desoladores do asfalto e que surge à janela, atravessando as paredes devolutas de antigos palacetes burgueses, perdida sua glória e motor interno, afinal, as pessoas ilustres desconhecidas que hoje povoam fantasmagoricamente escadinhas, travessas e becos, acompanhando os trauseuntes e turistas nas suas deambulações incautas, como quem vela por aquilo que não lhe pertence.
A minha sala está toda catita. Bonita e arranjadinha, quase confortável. Só lhe faltava um inopinado ambientador, uma leve brisa marítima previamente desumidificada, um bartender a servir martinis e outras beberagens civilizadas ou mais exóticas, para cambiar em combinado trapezista com uma tailandesa que faça umas massagens fantásticas. Agora, o sol adentra pelas amplas janelas e brinda-nos com sua presença tão amiga, fazendo-se convidar para o almoço que se pretende saboroso e recatado, na companhia saudosista de um ex-líder síndical e de uma copeira abandonada em pequenina à soleira solitária de uma porta de Lisboa e de um embaixador da estepe siberiana, vestido a rigor e montado num ginete.
Tudo dependente de conceitos que funcionam como degraus, plataformas que vão dando os braços e controem uma muralha intransponível de pensamentos que se passeiam como molhos de balões presos por uma corda fina de consciência que os interliga e os faz comunicar com o emissor camuflado, digo fina, maleável, com uma característica de tenacidade, pois que se tem de dividir, digladiada entre a posição de partida do elemento dedutivo, como do trajecto, meta e objectivo a atingir, não deixando de ser forte e até intrínsecamente densa na sua influência, por vezes sofrendo dolorosos desvios, necessários contudo à prossecução efectiva da dissertação eleita pelo momento, sempre diferente, pois que inserido numa contínua metamorfose.
E há uma desigualdade estrutural que teima em manter-se, não obstante as críticas ao desequilíbrio daí advinte, é notoriamente uma estratégia que se demarca da vontade geral de assimilar o mundo sem a sofreguidão desmedida actual, num laissez vivre mais oportuno que o laissez faire que tem caracterizado certos arrojos societários, como se tudo não passasse de um gigantesco laboratório sociopolítico em que, como ratos somos obrigados a seguir determinadas direcções pré-aprovadas por comités tirânicos munidos com o paternalismo oco e supérfluo de quem decide só porque pode, insensível à razão ou emoção. Cada teoria desenvolvida teria, por esse motivo, amplo espaço de manobra para se afirmar.
Cabe agora saber, noves fora nada, em que aspecto é que a textura silábica sobressai da, contabilizemos assim, lisa face polida e artificial da realidade, onde se notam as inoculações de botulina nos cantos arreigados das bocas moles e decrépitas, onde são visíveis as aplicações generosas de baba caracolina de fino traço e colheita extremosa de tão cremosa, uma realidade lipoaspirada, retocada à laia de bisturi, arrendada a sua fútil imagem nos esteticismos de bairro e unhas de gel, coquette retro com laivos inusitados de sobranceria, indo tantas vezes à ficção beber a alma que se lhe escapa por entre os apelos publicitários ruidosos e cintilantes.
Por entre as parcelas do dia, quais clareiras abertas no laborioso e denso sentido vertical da imposição vegetal e frondosa a que poderemos chamar floresta, janelas maduras pendem e nas soleiras despidas de preciosismos, apenas rosas que acusam, sanguíneas, as memórias encaixotadas no sotão empoeirado de eras jactantes e passadas, num misto polinizado de arcanídeas entabulações que travam como cortinas de veludo e a custo, a luminosa espada que do sol se desprende e as trespassa, fustigando nos seus intervalos funcionais a resistência efectiva que afronta os poderes erosivos que o esquecimento impõe.
E há quem, de facto, não queira nem saber das ditosas nuances com que se dotam as palavras aquando do seu desfile primaveril. Como se adequam e ligam, se encadeiam de acordo com normas instituídas pelas leis da física, como se interpenetram em afunilados ângulos, como lagartos expostos ao sol, elementos químicos que se relacionam anonimamente, mas nunca de modo algum de forma anódina, formando numa intrincada tecelagem urdida com ufana oralidade e substancial comportamento analógico e analítico das causas que originam o surto o aparacimento de determinadas identidades em definidos hiatos temporais em que se afirmam, erectas.
Provavelmente, por vezes, é como se distendessemos um painel de azulejos colocado numa parede infinita, onde a gramática do revestimento edificado, peça a peça, insidiosamente se assume central, pela sua distribuição densamente utilizada na composição, em vez de se perder entre outras individualidades cerâmicas, como se se afirmasse continuamente em reprodução fractal, mantendo um refrão característico enquanto rima com o som dos passos na calçada comprimida ao solo, libertando com suas arestas polidamente confinantes as razões geométricas do seu existir poético, logo, fora de considerações orbitais à matemática das soluções urbanísticas aplicadas alusivamente ao tema proposto.
Como uma definição universal que abarcasse a visão paradisíaca de uma selva que luxuriante se espalha em solo fértil e intocado e que, paralelamente consegue discernir e apontar pontos de diferenciação entre cada indivíduo-árvore, no que tem de essencial e acessório, mantendo aberta a análise das respostas estratégicas que utilizam na competição permanente que evocam resistência passiva e por vezes activa aos desestabilizadores regulares que insistem em fazer notar a sua existência, aplicando em deflorestações metódicas e com preocupação científica, fundar um novo conceito, o da selva humanizada.
E o que será essa selva humanizada? Uma selecção biotópica de elementos plausíveis de serem utilizados na indústria farmaceutica? Zonas de conforto e lazer para alguns humanos afortunados irem semeando resíduos libertos de sua funcionalidade primeva pela paisagem? Apenas para estudiosos das relações dinâmicas entre o simbiótico elenco peneirado da vida? Como que alheado da função vital e fundamental que a simples existência fora dos redis impostos pela conquista do ambiente pelo dito animal superior. Quanto tempo nos resta para domesticar a Natureza, violentar a sua inocência e fértil oferta permanente?
Fincando o pé em cada pequeno nada, o Homem cria lendas e constroi, no âmago em que os apreende, esses mitos. No seu sentir os interpreta, os vive. E representa-os em ritos exangues, a um ritmo imponderado e constante, um contínuo holocausto de si mesmo à mudança imposta pelo Tempo. Pelo Tempo, não por uma trela castradora que tantas vezes nos é imposta, como derradeira postura de controlo sobre as mentes e corpos humanos, imunes que estão as matérias constituintes dos estágios da alma para se deixarem enredar. Há. no entanto, nesse apelo sensorial e causístico, uma ambivalente reacção por parte das diversas cambiantes existenciais.
Como que anotando minuciosamente as notas musicais ou da escala dos perfumes em pequenos cadernos de apontamentos, de capa aveludada e cingida pelo tempo, em tabelas e quadros infetisimais desnudada a correlação entre as diversas linguagens melódicas que o cérebro apreende e frutifica, de cada vez que enraíza nova expedição explorativa dos significados inerentes, tantas vezes ocultos apenas por uma pequena divergência tonal, vibracional ou de índice assumido para emissão frequencial, e o universo soa-nos a uma imensa Babel sequencial que nos acode com representações de intérpretes vários numa linguagem acessível a muito poucos.
Daí a intensa dificuldade de traduzir e xavegar as ideias que fluem como se estivessemos imersos num oceano mental e que nele nadássemos, como íctios seres ou análogas entidades, em ambientadoras profundidades e correntes preferenciais, envoltos numa sinfonia a que acedemos, de quando a quando, por processos próprios e ainda mal explanados, embora já explorados, e que tentamos, sob pretextos afins, transferir, converter de modo racional ou sentimental, ou até, como Prometeu, furtar, aos deuses plenos, os pequenos instantes de epifania em que comungamos, mesmo que por breves momentos, o nosso lugar na complexidade mirabolante que é o Cosmos..
Gritavam «Basta!», as paredes brancas, numa negra e desesperada exclamação. «Espero que não seja para mim.» Penso. E não estaria à espera que fosse. fosse lá como fosse, pois que seria assaz difícil conciliar-me com qualquer interferência despótica sobre outrém, não obstante poder, por vezes, confesso, imiscuír-me subrepticiamente em assuntos para os quais não sou tido nem achado, mas tal apenas resulta de uma capacidade mediúnica surpreendente, que me coloca em confraternização permanente e, embora assemelhando o meu estado a uma relevância solitária, cedo surpreendo com diálogos em mesa redonda com um séquito impressionante de sumidades mundiais em diversas áreas do humano saber.
Por estes e outros motivos, cedo esclareço que a presente divagação não ocorre avulsa na perspectiva histórica em qua nos encontramos, numa charneira que cheira a mijo como uma trincheira, aguardamos a ordem que nos fará marchar para sucumbir pouco além, pois é no Inverno que a Guerra reconhece a sua própria idiotice e irracionalidade. Na Primavera desabrocham movimentos populares que procuram abraçar a Liberdade e a Democracia. No Verão as mais sanguinárias atrocidades semenizam o estio. No Outono, os regimes políticos caem, fruto de sua própria perversão e caducidade, catalisados pela sua própria corrupção e decomposição, separatismos fendendo a uniformidade apenas relativa das constituições sociais dominantes.
Decomposto o sacrílego florilégio que se desprende da inamovível absorção pelo despontar orvalhado, pétala a pétala, do labirinto imaginário que é a alma, fora das construições ficcionais a que nos agarramos quando não queremos reconhecer outros pontos de contacto entre o que nos move e o que nos faz mover. Alimenta ainda a ideia de ser um gomo cítrico da lua, ou a resposta que as estrelas dão, encriptada, através do manto escuro, fluídico e vacuoso da matéria desconhecida, plasma no qual se suspendem e viajam, na impermanente tela estelar, faça sol ou chuva faça, e que ricocheteiam nas nuvens mais altas, fora de qualquer razão orbital que o justificasse.
Se há livros que mudam a nossa vida, o livro de cheques é um deles. Desde que não sofra de calvice prematura, ou que tenha cobertura ou cabimento, é um livro com uma utilidade sempre actual, noves fora nada, ter caído em desuso com novas tecnologias créditocraticas, exceptuando o seu uso fraudolento, tão conceituado como qualquer outro, o livro de cheques seria um best seller se fosse contabilizado, como o livro de reclamações (ou ralações), o livro de facturas ou o livro de receitas alquímicas dum charlatão do Martim Moniz, cura quase tudo por um triz. O que faltava realmente era um livro de instruções que explicasse, em linguagem acessível, que o uso continuado da mente para emitir pensamentos nem sempre reune consensos.
A vida leva-se a tiracolo, em certas semanas do ano, oscilando, à bandoleira, espalhando as brasas da animosidade que constitui o cerne da manifestação, feliz ou não, da realidade interior de se sentir vivo, caíndo já num desuso incómodo, isto de viver sem ser vivo, sem se sentir vivo, adiando a despedida à terra quotidianamente, como quem se senta na gare ferroviária porque aprecia o silvo das composições quando arrancam nas frias manhãs nebulosas de Inverno, emprestando à atmosfera férrea e com o sabor metálico do aço anodizado no hálito alaranjado que transpira do motor em esforço crescente, sobre os carris molhados que reflectem a verdade matinal em tom cinza e beige e despedir-se mentalmente aquando do seu desaparecimento. E, continuamente, pedalar.
À noite, meus sonhos, transportados pelo rumor das vagas que se abatem trazidas nas asas assobiantes do vento, saboreio a humanidade salina de suas comunicações, perfumado o quadro em que o esquecimento fustiga ininterruptamente as costas protegidas da memória com o selvático arremessar de hordas ondulantes e turbulentas de capacidades fisiológicas do ponto de vista das arribas infantis da investigação científica dos processos neuronais que dão azo às sinapses fazerem folgas a determinados dias de semana, maioritariamente quando os neurónios decidem dedicar-se à catarse noctívaga de seus pensamentos extenuantes, analisados à luz das fenomenais pedras de Roseta que se vão encontrando, oásis de devaneio nos jardins da cidade em rotundas botelhas de néctares olímpicos.
No fundo, cada sentença é como um faustoso banquete, a ser preciosamente deglutido com a prévia alavancagem do apetite, recorrendo-se ao uso alegórico das metáforas, mesmo as que são notoriamente atravessadas por pormenores surrealisticamente rendilhados, capacitando o teor plasmado com várias optimizações que poderão ser aprimoradas com o exercício permanente da capacidade crítica e da análise profunda e factual do exposto. Assim como exposto aos elementos, o trabalho do poeta ora refulge ora fenece, num ritmo próprio que lhe subjaz, a ele, alheio a tantas manifestações fúteis ou comodamente repetidas ab nauseum por exércitos de cabeças mal agarradas ao corpo que as carrega, sentindo de outro modo as punções que a todos desesperam.
Como uma paisagem reconhecida, interpretada e recolocada à apreensão, imagem pintada com labor e entrega, em tela de cânhamo ou linho branqueado, como o fundo basilar da nascente oculta de onde os pensamentos brotam, indivisos, transmitidos por estações intermédias entre a sensação e a compreensão, observe-se como nasce a composição, primeiro tímida, depois afirmando-se, frenética, para terminar, delicadamente dispensando os apetrechos finais que trancarão, ou o sugerem, futuras intervenções, como um torpor harmonioso e tépido de onde apenas sobressaem as imperfeições a minorar e os detalhes a aprimorar. Odes que da penugem laboriosa das mãos experientes do artista de enlevam, carregando em braços leves berços de utopias a sonhar num longínquo e estranho ponto demarcado no futuro.
É ver a construção imagética da criação do universo, assim despida no atelier criativo do louco pintado que esfrega a imaginação na tela e lhe propõe os filhos a criar. Numa orgia de estimulantes e alucinantes, em vão descobre as certezas da vida que lhe surgem, como foguetes pirotécnicos, alumiando panos negros e reconhece o cerne dos sistemas filosóficos e religiosos em sombras chinesas projectadas nas parecdes caiadas de moinhos alentejanos, vela enfunada em rotação sobre seu eixo inamovível, enquanto tenta montar Roncinante de bragas encharcadas do orvalho da nocturna índole. E, de súbito, lançar-se ao ar, pinceis e materiais, disferir golpes vívidos nas telas, manchas de cor violentamente distribuidas, num massacre em honra à percepção, culminando, em apoteose, com o amanhecer do olhar.
São assim cultivadas, não só as analogias, como as antíteses e as disciplinas orbitais que no seu processo nos surgem como naturalmente dependentes ou complementares, como quem vai raspando a superfície porosa da madeira, e debaixo de cada película anelar ir descobrindo, qual viagem no tempo, estação após estação, a importância relativa e absoluta de uma determinada identidade num determinado habitat, no qual desempenharia função ecologicamente mais viável e louvável que uma mera mesa ou cadeira que, não por desprimor à funcionalidade, perde em alma poética o que ganha em comodidade ergonómica. E, contudo, aquele tronco, outropra vivo, respirando a atmosfera leve da substancial floresta, não deixava para trás aquilo que tinha sido, mas transportava-o, em seu cerne virgem, na memória que de si tinha.
A indecisão é uma raíz caustica que dilacera, usando como sonda a sombra copiosa da dúvida, revolve o solo amargurado da realidade, envolto na senda da verdade. Não desiste enquanto a não descobre, mesmo que oculta em profundas cavernas que se afundam no seio rochoso e milenar da rocha, contorna as plantações cristalinas de quatrzos mutantes enquanto admira os pormenores arquitectónicos que a Natureza vai esculpindo, tendo para tal o tempo requerido, e deixando-a tranquilamente, no seu lento e laborioso criar, sem a intervenção ou interrupção desse bípede que, altercado, se considera superior ao que realmente é. Como um sábio que se afirma como tal para ocultar a sua ignorância, tantas vezes superior ao conhecimento que compilou, mental ou mnemonicamente, em árduos anos de estudo.
A erosão deixa na vida o degradé apenas possível pela acção continuada do efeito tempo sobre o objecto vivo. A dicotómica relação entre dois estranhos elementos. Este, não é apenas o que aparenta, mas principalmente é o que é. Por vezes, a aparência apenas surge para despistar ou iludir, são apenas ligeiros véus ou pesadas cortinas que impossibilitam a exploração daquilo que se estende, calcula-se, para lá daquela barreira opaca a que chamamos corpo. Temos de almejar ser como o fotão e o neutrino, que atravessa facilmente qualquer densidade da matéria, como quem revela o segredo que se quer oculto, como quem descobre terras desconhecidas e mares inexplorados, como quem desmascara uma conspiração de átomos que nos fazem crer sólidos. Aquilo que acreditamos, mesmo que irreal, tem mais peso que a realidade.
No Universo não há paredes, haverá, isso sim, diversos níveis de densidade ou frequência para os quais necessitamos de instrumentos de precisão para os estudar e compreender. Como absorvemos as tonalidades amareláceas e róseas que, difusas, atravessam o nevoeiro, nas íngremes ruas da Lisboa romântica, penduradas as candeias que zunem na noite e asseveram, ao longe, na noite que os montes e a distância escureceu, banhar o recortado horizonte com uma mancha tingindo de identidade cromática laranja a solidão que a Lua interrompe, bailando com as esparsas nuvens apressadas, arremessadas por ventos com cio que lambem as costas litorais, levantando a areia dunal e misturando-a com a humidade salina e fresca..
Escrever com a pena livre, a tinta que o coração verte nas páginas arrancadas à vida, com ganas de a sorver de um trago, mas dividindo-a em sábios momentos apascentados na periferia da mente. Tudo cantando num notório matraquear, como quem finamente cinzela cornucópias vegetalistas em operetas esmaltadas, brilhando ferozmente nos apêndices em que a alma se apoia para extrapolar os horizontes em que se encarna, limitado que se encontra em cada experiência singular. Como garras que esgravatam e esfacelam a realidade para lhe beber do sangue os segredos, esse sangue pastoso, pesado, que gorgoleja, lento, anunciando o bombear indiscriminado do seu motor cardíaco, desmultiplicando-se em sucessivos vasos e canais projectados para essa função distributiva.
É amanhecer a ideia, já a madrugada se despede e os galos anunciam a aurora, concorrendo com o sol pela atenção dos arredores, como quem rema no lago, trepa uma árvores centenária ou adoremece à sombra de um candeeiro, tudo percepções entrecruzadas que suscitam questões de pertinente actualidade. Neste tempo, os valores, rifados e abandonados, reassomem à margem escarpada de seus naufrágios, surgem, sem fôlego, acenando por socorro, por entre destroços, acicando a memória dos factos que transformaram honras em oportunismos, verdade camuflada entre roles de mentiras descaradas e a face oculta dos enganos perpetrados à boca fechada, conluios majestosos e assustadores, que moldam e nos transformam. Não reconheces no teor da palavra e sua nuance expressiva o hiato que revela a sua intenção?
Supôr uma palavra suspensa por molas esterelizadas, analisada através de seu sangue imorredouro, avaliadas as bifurcações que origina, pesar suas raízes e fontes geomânticas, traçar-lhe o mapa astrológico e sua interpretação numerológica e previsão meteorológica. Provar-lhe a seiva e observar microscopicamente o desenvolvimento celular e suas ramificações moleculares. Fazer-lhe uma decocção letra a letra e traçar as comunicâncias e outras libidinosas confabulações quando do encontro de povos se transcende num beijo adocicado de línguas de raíz ambivalente. Onde as palavras se reencontram no alinhamento dos corpos celestes na espiral elíptica do tempo corrente mantendo a sua anima alquímica pulsando, nem sempre flagrante, na semente da comunicação.
Apropriar-se da razão das coisas, para mais sabiamente distribuir a destruição de equívocos, tão em voga, tendo na origem de tal decisão, a desvirtuação que a linguagem sofre nos mais diversos ambientes, camaleando-se quando se bamboleia em salões de chá e baile, dirimindo salamaleques pelas célebres e vacuosas personalidades espelho de uma sociedade aparentada com um saco de lixo insuflado por megalomanias e outras manias de quem tem mais bolso que mãos e mais luxúrua que maturidade espiritual. Como um desfile neurótico de cadafalsos envolvidos em seda e perfumes, para anunciar aos outros que, tendo mais exteriormente que interiormente, não era de bom tom andar por aí, de orgão ao léu, porque além de cheiro, libertam outras metásteses insapientes de futilidade abrasadora.
Ser um alfaiate, agulha na boca, na mão a tesoura, corta o tecido gizado a branco, os panejamentos que irão cobrir o outro, também o carpinteiro, com as medidas correctas, veste o cadáver com um fato de casco de carvalho polido e envernizado, como um gourmet da haute couture desfila criações estilísticas nos becos mal afamados da velha Lisboa, por entre putas e bêbados ressonantes na noite de testículos esvaziada que ainda celebra a vinda da Primavera de 1323 como se fosse hoje, engalanada nas suas avenidas como apenas um arqutecto desmesurado pode cobrir os edifícios com mantos diáfonos de pólen seleccionado das melhores flores silvestres, num elaborado processo de fabrico, sentindo o pulso ao mercado moribundo de afctos e repleto de objectos indefinidamente fálicos na perspectiva de quem os mira.
Rejuvenescer em cada página passada, em cada parágrafo que se expande, no significado suspenso de um epílogo atravessado, um aguaceiro de advérbios cuspidos pela janela de um funicular, adjectivados ao bom gosto mediteranico, berço dos impropérios clássicos e desde sempre na vanguarda das aprimorações injuctivas com ênfase na linguagem corporal das estátuas, fascinantes peças de um puzzle de praça e chafariz, quadrada, inscrita entre as rotas invisíveis que os pombos seguem na urbe e as deambulações das folhas desempregadas aos ventos do mercado do trabalho, sem melhor poiso que os paralelos envastrados, por sorte em motivo vegetal, ou atravacando as sarjetas da rua, por entre beatas e papeis avulso, permitindo inundações de miséria, fresca e preocupante, aquando da dispersão aquosa que a atmosfera realiza quando diz que chove.
Abraçar, assim, a ordem pecaminosa do mundo, sua acepção assética e dissolvente, em sua ascéptica relação com o universo em flor, nas mãos o leme desenvolto, solto, de naus que não partem, face às que não retornam de sua exploração. Afiambrar-me ao sentido da realidade enquanto culminamos o devido apreço por todas as especificidades que a diversidade da vida nos apresenta, admoestando contra certas filosofias de engrandecer todas as nossas aquisições e conquista enquanto se menosprezam a dos outros, como se a vida fosse um jogo de cantarolar gabarolices vazias, e não uma contínua construção acompanhada, onde por vezes perdemos o fio à meada, mas não a nós mesmos, e outras, em que nos encontramos em fases disparatadas da vida, em que o leme não nos pertence, ou nele não influímos com a vontade inerente a obter controlo sobre e essência das coisas.
Observo ainda as planícies autografadas que se estendem no imaginário virtual que nos alimenta, somos frutos de uma clorofila literária que nos envolve, nos copia e cria modelos para que nos fixemos e adornemos as nossas existências com a pueril verdade que a beleza dota os nossos pensamentos, como uma equação matemática que traduzisse todas as formas comunicacionais e seus idiomas, criando assim uma fórmula digital que abarcasse a ânsia humana de se fazer entender pelo outro, como uma florescência que se esvai em odor, um rouxinol que trina sintomas filosóficos em cadência vertiginosa e sinfónica, ou o beijo delongado que as borboletas fascinam na sua cromática explosão prenhe de significados que apenas seus semelhantes se apercebem, pintados que foram pelo Supremo Criador, no seu atelier paradisíaco, ainda o mundo usava fralda.
Em tantos quantos trezentos e sessenta e cinco, por vezes seis, hiatos temporais medidos com umaminúcia desmedida, se dividem os anos, filhos dos opóbrios solares tangenciais à órbita concreta da Terra, assim, também nós nos decantamos em pequenos pedaços acantonados na sua perspectivização, assimilados que fomos pela vida que nos regula, vestida com os mesmos trajes jocosos com que nos brinda, pela manhã, olhar insinuante no sorriso eroticamente disposto de forma a realçar a sublime luminosidade de seu gesto convidativo e premente, e nos convence a saír da cama quente e embrenharmo-nos na floresta construída pelos pesadelos da noite, onde iremos encontrar a refeição fumegante, que nos credita o calor cómodo e enternecedor a que aludimos quando falamos de lar, essa concha íntima e imparcial, nem sempre com contraparte real, em que nos sentimos em nós.
Realço a cor da tua íris que me fita, um lago intenso por onde perco as definições que teço, singelas construções mentais que não resistem a um olhar perscrutador sobre o foco de sua existência, afundo-me na profundidade verraneante e oceânica que me envolve, raiada e com matizes compiladas em enciclopédias que apenas versam sobre o conhecimento da beleza e sua aplicação quotidiana pela simples razão de existires e apareceres, de sorriso em riste, oferecendo-me de tua alavra mais do aque eu posso levar comigo para meu conforto. E me espicaça a dar caça a quem decsca e descansa, pernas cruzadas sobre uma secretária desenhada, lançando aforismos aos sete ventos pela porta envidraçada do escritório povoado por duendes maliciosos e fadas conspurcadas. Existirõ fadas urbanas? Concerteza, responderão os especialistas, a fada surge mesmo quando não existe nada.
E, assim exposto ou desnudado apresentado, parto, de negro sobretudo salpicado pela chuva de fim de tarde, teimosamente se lançando ao chão como que escorrega sem saber, atento a quem passa e agarra na sua mala, como se eu fora de sua laia e lhe quisesse roubar, sequer que fosse, uns momentos de desatenção, deixá-los, na sua imberbe autodivinização, mesquinhas mentes que soçobram ante trivialidades mas que se levantam em indignação por qualquer diatribe manipulada para lhes retirar a paz. Alienado que sou de riquezas exdrúxulas e impróprias, baseadas na fruição do luxo que é uma forma mais aperaltada de lixo, e, mãos nos bolsos e cigarro baforando o arfrio, me despedir do dia, descendo a rua íngreme e rebrilhante, com a esperança de amanhã ser, afinal, como prometido, outro dia.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
In vista nudista
Há uma falaciosa noção que tem ganho relevo na aceitação pública que é a de que as empresas só existem para ou só visam o lucro. Tal acepção parte do pressuposto completamente errado que temo, arraste cada vez mais a sociedade para um trilho autodesagregador.
As empresas só existem porque procuram fornecer uma solução ou serviço a um qualquer mercado. O mercado está inserido na sociedade e a influência na modelação actual do mundo tem sido, não raras vezes, perniciosa. A remuneração que aufere do estabelecimento da sua actividade operacional terá o seu parcelamento estratégico redistributivo baseado em modelos diversos, no qual se insere o lucro da dita operação, além das despesas recorrentes da mesma. O comportamento do lucro emana da implementação no mercado e sua credibilidade junto do mesmo, da inovação e competitividade, da sua gestão estratégica, qualidade e diversos factores que concorrem para a formação do mesmo, incluindo, neste item, a exploração da mão de obra. Parte-se do princípio que, algures no processo, surja um ser humano envolvido, ao qual estão inculcadas determinadas obrigações, tantas vezes partilhadas, de responsabilidade.
Transpor certa desta lógica para este nível produtivo torna-se cada vez mais uma reacção natural e saudável da sociedade dos trabalhadores.
Assim como o investidor dispende dos seus recursos e, em confiança, gere os seus interesses, também o funcionário terá, inclusive na prossecução de suas funções, de gerir o que investe: o seu tempo, disponibildade, labor, criatividade, responsabilidade e tantos outros valores, mais qualificáveis que quantificáveis, que terão de ser espelhadas por uma remuneração adequada e digna à ocupação, que permita ao próprio, além de cobrir as suas despesas operacionais, conservar uma percentagem mais visível que residual em que reside o lucro da sua actividade. Assim como a empresa é paga sobre o produto ou serviço que propõe e concretiza, também o funcionário terá de ser pago tendo em conta as funções que desempenha, cargo que ocupa, ou outras características menos gerais. Tal como a empresa procura resolver os exercícios no tempo retirando lucro, também o trabalhador deverá ver o seu investimento ter retorno lucrativo, assegurando a dignidade, as expectativas e a motivação. Sem esta reciprocidade, está ameaçado o equilíbrio, sempre precário pelo contínuo ataque do capital aos direitos, vistos como regalias, dos trabalhadores, enquanto os sobrecarrega com os deveres e obrigações inerentes à actividade, optimizando a carga exploratória, tendo sempre por base o medo do desemprego para dar seguimento ao seu intuito, esse sim, inalianavelmente apercebido, de sugar o tutano de tudo quanto existe e convertê-lo na mais afamada construção gananciosa, sempre no âmbito especulativo da realidade ficcional que nos é apresentada, entre ratings e cotações, como o deus dos tempos modernos, cego, cruel e frio, a personificção imoderadamente caricatural com que objectivamente se maquilham os interesses dúbios e multifacetados dos denominados investidores financeiros, a grande maioria fundos tendo por base aplicações bancárias e seus derivados.
As empresas só existem porque procuram fornecer uma solução ou serviço a um qualquer mercado. O mercado está inserido na sociedade e a influência na modelação actual do mundo tem sido, não raras vezes, perniciosa. A remuneração que aufere do estabelecimento da sua actividade operacional terá o seu parcelamento estratégico redistributivo baseado em modelos diversos, no qual se insere o lucro da dita operação, além das despesas recorrentes da mesma. O comportamento do lucro emana da implementação no mercado e sua credibilidade junto do mesmo, da inovação e competitividade, da sua gestão estratégica, qualidade e diversos factores que concorrem para a formação do mesmo, incluindo, neste item, a exploração da mão de obra. Parte-se do princípio que, algures no processo, surja um ser humano envolvido, ao qual estão inculcadas determinadas obrigações, tantas vezes partilhadas, de responsabilidade.
Transpor certa desta lógica para este nível produtivo torna-se cada vez mais uma reacção natural e saudável da sociedade dos trabalhadores.
Assim como o investidor dispende dos seus recursos e, em confiança, gere os seus interesses, também o funcionário terá, inclusive na prossecução de suas funções, de gerir o que investe: o seu tempo, disponibildade, labor, criatividade, responsabilidade e tantos outros valores, mais qualificáveis que quantificáveis, que terão de ser espelhadas por uma remuneração adequada e digna à ocupação, que permita ao próprio, além de cobrir as suas despesas operacionais, conservar uma percentagem mais visível que residual em que reside o lucro da sua actividade. Assim como a empresa é paga sobre o produto ou serviço que propõe e concretiza, também o funcionário terá de ser pago tendo em conta as funções que desempenha, cargo que ocupa, ou outras características menos gerais. Tal como a empresa procura resolver os exercícios no tempo retirando lucro, também o trabalhador deverá ver o seu investimento ter retorno lucrativo, assegurando a dignidade, as expectativas e a motivação. Sem esta reciprocidade, está ameaçado o equilíbrio, sempre precário pelo contínuo ataque do capital aos direitos, vistos como regalias, dos trabalhadores, enquanto os sobrecarrega com os deveres e obrigações inerentes à actividade, optimizando a carga exploratória, tendo sempre por base o medo do desemprego para dar seguimento ao seu intuito, esse sim, inalianavelmente apercebido, de sugar o tutano de tudo quanto existe e convertê-lo na mais afamada construção gananciosa, sempre no âmbito especulativo da realidade ficcional que nos é apresentada, entre ratings e cotações, como o deus dos tempos modernos, cego, cruel e frio, a personificção imoderadamente caricatural com que objectivamente se maquilham os interesses dúbios e multifacetados dos denominados investidores financeiros, a grande maioria fundos tendo por base aplicações bancárias e seus derivados.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Versão fractal do Universo com base de notação elevada a 3
Em intervalos de vácuos
densamente indefinidos,
bolsas de universos nascem,
fractalmente se expandem,
em ritmos comprimidos
por dimensões incalculáveis
perseguindo fogos-fátuos.
As galáxias são a estrutura
que sustenta o universo.
Espiralando, esqueleto em elipses estendidas,
rotação que apreende Tempo e Massa.
Os buracos Negros são abertura,
válvula de contacto disperso,
e após suas características esgrimidas
se verá para que estado da matéria se passa.
E há um bailado que as estrelas dançam,
e os planetas e suas nuas luas acompanham,
numa coreografia constelacional,
num lento desfilar largamente intencional.
Como se as galáxias fossem
árvores frondosas que do alto se conhecem,
o universo, bosque, densa floresta,
raízes colonizando os céus que amanhecem.
Com crianças que brinam
com o Tempo, que as detesta,
pois que o não assumiram,
embora já nele baloicem como numa festa.
E a consciência que ecoa em cada universo,
sua suave voz que comanda e decide,
imerso na vibração atómica ressonante,
desde o longínquo e oculto berço,
embalando o destino merecido,
na gravitação em seu elemento constante.
Traçado geometricamente o plano do âmago universal,
calcula-se o valor do factor temporal e seu ângulo.
Traça-se a rota pelos ventos cósmicos, por entre nebulosas,
transversalmente pelos aneis espiralados e anelares.
Sem temor navegando pelo espaço sideral,
funde-se este como novo preâmbulo.
Descobrir, virgens, novas paisagens fantásticas,
como novos nómadas estelares.
Nosso sistema solar é uma célula,
um átomo consciente e vivo,
uma entidade centrada em seu pulsar.
Do cerne, o sol expele matéria e a molda,
pelo tempo fora, numa intenção benévola,
dota cada seu ser extensivo,
com seu tom cromático, seu único brilhar,
e em cada nota individual sua consciência solda.
Somos fruto desta singularidade,
que se espraiou e criou realidade.
Só nós detemos a chave para nos libertarmos
da cedência antiga que adoptámos.
E as representações de cosmovisão,
como estão estáticas, e a tese é dinâmica,
descendo nos cordões quânticos da manifestação,
os quarks, fotões e bosões dão largas à imaginação,
em sonhos os génios da civilização adâmica,
desenham em grãos de areia a sua convicção.
Como relógios cósmicos ticam e tacam,
nós compomos a translação e relativizamos a rotação.
Entoamos cálculos matemáticos como orações aladas,
e por vezes, em supernovas, as estrelas nos captam.
E como é bela a luminosa côr de sua sedução,
de olhos fixos e atónitos, vozes caladas,
deixam soltos os pensamentos para resolverem a equação.
Dos tempos da Terra Plana, do Grande Abismo,
circum-navegados que foram os mares.
Dos modelos que colocavam o universo a rodar à volta da Terra
não estamos ainda suficientemente longe.
Artigos criacionistas explodem a razão,
querem susbstituí-la com a mais desplantada ficção,
como termos de ouvir falar de amor por um monge,
não conhece outro sentimento que não se encerra
a mente e o coração em longínquos espaldares,
onde, secando ao sol helicoidal se derrama em solipsismo.
densamente indefinidos,
bolsas de universos nascem,
fractalmente se expandem,
em ritmos comprimidos
por dimensões incalculáveis
perseguindo fogos-fátuos.
As galáxias são a estrutura
que sustenta o universo.
Espiralando, esqueleto em elipses estendidas,
rotação que apreende Tempo e Massa.
Os buracos Negros são abertura,
válvula de contacto disperso,
e após suas características esgrimidas
se verá para que estado da matéria se passa.
E há um bailado que as estrelas dançam,
e os planetas e suas nuas luas acompanham,
numa coreografia constelacional,
num lento desfilar largamente intencional.
Como se as galáxias fossem
árvores frondosas que do alto se conhecem,
o universo, bosque, densa floresta,
raízes colonizando os céus que amanhecem.
Com crianças que brinam
com o Tempo, que as detesta,
pois que o não assumiram,
embora já nele baloicem como numa festa.
E a consciência que ecoa em cada universo,
sua suave voz que comanda e decide,
imerso na vibração atómica ressonante,
desde o longínquo e oculto berço,
embalando o destino merecido,
na gravitação em seu elemento constante.
Traçado geometricamente o plano do âmago universal,
calcula-se o valor do factor temporal e seu ângulo.
Traça-se a rota pelos ventos cósmicos, por entre nebulosas,
transversalmente pelos aneis espiralados e anelares.
Sem temor navegando pelo espaço sideral,
funde-se este como novo preâmbulo.
Descobrir, virgens, novas paisagens fantásticas,
como novos nómadas estelares.
Nosso sistema solar é uma célula,
um átomo consciente e vivo,
uma entidade centrada em seu pulsar.
Do cerne, o sol expele matéria e a molda,
pelo tempo fora, numa intenção benévola,
dota cada seu ser extensivo,
com seu tom cromático, seu único brilhar,
e em cada nota individual sua consciência solda.
Somos fruto desta singularidade,
que se espraiou e criou realidade.
Só nós detemos a chave para nos libertarmos
da cedência antiga que adoptámos.
E as representações de cosmovisão,
como estão estáticas, e a tese é dinâmica,
descendo nos cordões quânticos da manifestação,
os quarks, fotões e bosões dão largas à imaginação,
em sonhos os génios da civilização adâmica,
desenham em grãos de areia a sua convicção.
Como relógios cósmicos ticam e tacam,
nós compomos a translação e relativizamos a rotação.
Entoamos cálculos matemáticos como orações aladas,
e por vezes, em supernovas, as estrelas nos captam.
E como é bela a luminosa côr de sua sedução,
de olhos fixos e atónitos, vozes caladas,
deixam soltos os pensamentos para resolverem a equação.
Dos tempos da Terra Plana, do Grande Abismo,
circum-navegados que foram os mares.
Dos modelos que colocavam o universo a rodar à volta da Terra
não estamos ainda suficientemente longe.
Artigos criacionistas explodem a razão,
querem susbstituí-la com a mais desplantada ficção,
como termos de ouvir falar de amor por um monge,
não conhece outro sentimento que não se encerra
a mente e o coração em longínquos espaldares,
onde, secando ao sol helicoidal se derrama em solipsismo.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Money DOES NOT make the World go Around. Gravity does
Meus amigos, convenhamos que o Capital não necessita de se imiscuír da esfera produtiva, pois que se suja, pois que se perde nos meandros legais e outros centros de custo perfeitamente dispensáveis, como a Segurança Social, a TSU e essas merdas.
Além disso, os escravos utilizados nesse campo produtivo ainda têm aquelas ilusões de Estado de Direito, Democracia, Direitos Humanos e outras aleivosias de Esquerda completamente ultrapassadas e desactualizadas, pois que pouco contribuem para a optimização do lucro.
O capital autoreproduz-se muito bem, tendo em consideração a panóplia de ferramentas financeiras criadas para nos apoiar a acumular excedentes, a lavar dinheiro e a um conjunto de novas demonstrações de engenharia financeira, a que a manipulação de conceitos nos deixa ampla margem de manobra.
Aliás, é démodé, esse desvario do reinvestimento, da inovação e todas essas estratégias de sacar dinheiro aos accionaistas, os verdadeiros donos do capital. O Povo que se foda. Salvem-se os Bancos. A Economia que se lixe. Protejam-se as especulações badalhocas.
Por isso, é de bom tom que o Capitalista que se preze abjure da sua Humanidade, Ética e Empatia e, subjugando todas as existências à acumulação de lucro, que se extinga a Humanidade, essa porca, para que, sobre as cabeças esvaziadas de escravos de consumo, entronizemos Satã como nosso real senhor.
Que morram de fome, então... se viver está acima das suas possibilidades, não vivam! Ai, e morrer está muito caro? Então é porque andaram a morrer acima das vossas possibilidades. A nós, detentores do Capital, só nos interessam os 7, 10, 15, 16% e os juros que conseguirmos alanvancar em cima da vossa produtividade.
E não se queixem que é pouca a produtividade. O patrão é que produz, os trabalhadores são uma chusma de pintos com a boca aberta, sempre a pedir. Recebem uma esmola pelas funções que desempenham e mais nada. Não querem? O que não faltam são desempregados ansiosos por uma dose excessivamente confiante de exploração.
Têm de ser competitivos. Ser mais como os chineses: nascer, viver, reproduzir-se e morrer, tudo nas instalações da fábrica. Ao falecer, serve para reduzir o custo energético, porque um morto é como lenha, já dizia o Eichman, outro alemão dos quatro costados. Temos de empobrecer e ser mais paquistaneses (mas sem plantar ópio)
Nós não compreendemos as polémicas que rodeiam as alterações climáticas, o nosso ar condicionado está bem regulado. Crise energética? Bebam Red Bull, ou Monstros, que são férteis em Taurina, seus cornudos. Vitaminem-se, que a cocaína está cara. Já as Kalashnikovs...
Direitos, só para quem tem dinheiro. Quem não tem dinheiro, não podendo comprar direitos, que tenha deveres. Sim, porque isto de direitos e devers tem que estar distribuído. Direitos para quem aufere, deveres para quem trabalha. Os pedintes? Quais pedintes? Nos nossos condomínios fechados, nem os cães ganem...
Paguem mas é, e depressa, que nós temos que fazer outros investimentos ruinosos, para que possam ser pagos por outra cambada de otários. Na busca incessante do lucro, nada interessa. Homem, Natureza, Sociedade. Tudo aos pés do vil metal e dos seus portadores. Afinal, o feudalismo está de boa saúde.
A todos os coros indignados que se levantam, nós respondemos: «Tou nem aí», como a música da canção popular, e sem limpar armas, fuzilamos as classes Médias e gazeamos as baixas, que é só despesa. São como peças de mecanismos ultrapassados. Reciclam-se, a bem da boa saúde dos Mercados.
Do interior dos nossos carros blindados e acolchoados vertemos o nosso desprezo por essa maralha canalha de trabalhadores e reformados, estudantes, crianbças e deficientes, todos esses ineptos sociais e afirmamos. Ou enfiam-se na toca abjecta que queremos colocá-los, ou imolem-se, que esses vapores não ultrapassam as redes dos nossos campos de golf.
Além disso, os escravos utilizados nesse campo produtivo ainda têm aquelas ilusões de Estado de Direito, Democracia, Direitos Humanos e outras aleivosias de Esquerda completamente ultrapassadas e desactualizadas, pois que pouco contribuem para a optimização do lucro.
O capital autoreproduz-se muito bem, tendo em consideração a panóplia de ferramentas financeiras criadas para nos apoiar a acumular excedentes, a lavar dinheiro e a um conjunto de novas demonstrações de engenharia financeira, a que a manipulação de conceitos nos deixa ampla margem de manobra.
Aliás, é démodé, esse desvario do reinvestimento, da inovação e todas essas estratégias de sacar dinheiro aos accionaistas, os verdadeiros donos do capital. O Povo que se foda. Salvem-se os Bancos. A Economia que se lixe. Protejam-se as especulações badalhocas.
Por isso, é de bom tom que o Capitalista que se preze abjure da sua Humanidade, Ética e Empatia e, subjugando todas as existências à acumulação de lucro, que se extinga a Humanidade, essa porca, para que, sobre as cabeças esvaziadas de escravos de consumo, entronizemos Satã como nosso real senhor.
Que morram de fome, então... se viver está acima das suas possibilidades, não vivam! Ai, e morrer está muito caro? Então é porque andaram a morrer acima das vossas possibilidades. A nós, detentores do Capital, só nos interessam os 7, 10, 15, 16% e os juros que conseguirmos alanvancar em cima da vossa produtividade.
E não se queixem que é pouca a produtividade. O patrão é que produz, os trabalhadores são uma chusma de pintos com a boca aberta, sempre a pedir. Recebem uma esmola pelas funções que desempenham e mais nada. Não querem? O que não faltam são desempregados ansiosos por uma dose excessivamente confiante de exploração.
Têm de ser competitivos. Ser mais como os chineses: nascer, viver, reproduzir-se e morrer, tudo nas instalações da fábrica. Ao falecer, serve para reduzir o custo energético, porque um morto é como lenha, já dizia o Eichman, outro alemão dos quatro costados. Temos de empobrecer e ser mais paquistaneses (mas sem plantar ópio)
Nós não compreendemos as polémicas que rodeiam as alterações climáticas, o nosso ar condicionado está bem regulado. Crise energética? Bebam Red Bull, ou Monstros, que são férteis em Taurina, seus cornudos. Vitaminem-se, que a cocaína está cara. Já as Kalashnikovs...
Direitos, só para quem tem dinheiro. Quem não tem dinheiro, não podendo comprar direitos, que tenha deveres. Sim, porque isto de direitos e devers tem que estar distribuído. Direitos para quem aufere, deveres para quem trabalha. Os pedintes? Quais pedintes? Nos nossos condomínios fechados, nem os cães ganem...
Paguem mas é, e depressa, que nós temos que fazer outros investimentos ruinosos, para que possam ser pagos por outra cambada de otários. Na busca incessante do lucro, nada interessa. Homem, Natureza, Sociedade. Tudo aos pés do vil metal e dos seus portadores. Afinal, o feudalismo está de boa saúde.
A todos os coros indignados que se levantam, nós respondemos: «Tou nem aí», como a música da canção popular, e sem limpar armas, fuzilamos as classes Médias e gazeamos as baixas, que é só despesa. São como peças de mecanismos ultrapassados. Reciclam-se, a bem da boa saúde dos Mercados.
Do interior dos nossos carros blindados e acolchoados vertemos o nosso desprezo por essa maralha canalha de trabalhadores e reformados, estudantes, crianbças e deficientes, todos esses ineptos sociais e afirmamos. Ou enfiam-se na toca abjecta que queremos colocá-los, ou imolem-se, que esses vapores não ultrapassam as redes dos nossos campos de golf.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
A vida pendurada à janela
Uma frase rasgada no azul
cristalino do céu.
Uma chávena partida.
Três voltas ao bule,
a amante na sala, ao léu,
uma tarde grande como a vida.
Derrama chá ou fotografias
desfocadas no lobo temporal
e irreais no espaço
Era um ver se te avias...
Uma irreal negação do banal
trazer limpidez ao traço, baço.
Espalha-se no chão,
como vassoura ou moinho,
caíndo pelo buraco da fechadura
-como a vida está dura-
antes vida de cão.
Carne, pão, sangue e vinho.
Uma porta sem saída.
Como se fosse molusco
ou procrastinador.
Uma certeza perdida.
Eu, que o sol ofusco,
não fosse mais que um seu coador.
Ilumina as avenidas
e sobrevoa capitais
da luxúria avessa
de mindinho exposto vão ideias tidas,
colégios femininos de freiras fatais,
as paredes escavadas à pressa
em nuances rosadas de enfim.
Como numa aventura do Timtim.
Saltam picaretas em ricochete na janela...
é o universo que se expande,
e o orçamento que retrai.
Traída, a confiança escapa.
O engano espreita, escondido, na viela
ou é o mendigo que implora uma sande?
o Mundo roda, parece que cai,
escorrega como berlinde num pastel de nata.
Paraísos fiscais,
de águas azuis e palmeiras de plástico,
aguardam em postais turísticos.
A Arte do capital viajar.
Para os outros, «temos pena, não há mais»
nem se levantam valores eufemísticos.
Desde que os juros continuem a acumular...
Aqui não há miséria.
Só esperança de viver.
E nas carpetes oleadas e sujas,
os ácaros constroem fábricas de alimento
e cabelos diversos se entrançam
nas autoestradas das Baratas, sem custo
e nas retretes, douradas, cujas
reais cagadeiras vão largar seu lamento,
logo, céleres, prontos se afiançam,
o tótó e o pateta alegre com seu ar vetusto
Há o rumor que entre um e outro,
veio o Diabo e fugiu,
lá para os lados do Bugio.
Caem as capas que tapam as máscaras,
que escondem as faces que se ocultam no escuro.
Onde o significado se demite
dos ladrões que o criam.
À dignidade que se encontre, dão-se alvíssaras.
É grande o barrete, digo e juro,
essa sumidade nossa de elite...
tão burros que arrepiam.
Uma caneta solitária explode
É a tinta que lhe corre na veia.
Mais forte que o recipiente.
É o que devia fazer esta gente,
não cansada de viver vida alheia
grita para o ar: «Quem nos acode?»
Erradicados da vida, juntem-se à fila,
para que a nova zagaia corra.
E os caracois passam a zunir...
E está cara a clorofila...
Está tudo caro mas é, pôrra.
Cambada de pote que não presta a argila.
...tapetes de folhas, Outono,
e a chuva envia panfletos publicitários,
comida para canários
em suaves prestaçoes mensais.
Caganita cool em verde prado,
ou o consciente ausente do presente.
Abraça-me a fíbula que abono,
esses croupiers deflaccionários.
Fartura à mesa dos comensais,
migalhas caem para baixo do estrado
e o misérrimo corre, pois que o pressente.
Seriamente, canta-se o fado,
sempre tão desviado.
É alegre, agora, pois, quem chora,
é um povo sem voz.
Mas quem grava os discos agora,
não canta pelo mesmo que nós.
Flanqueia a codorniz,
(foi por um triz).
O telefone toca e são facas.
Horas de adormecer acordado
em vida sonâmbula e morta.
Prioridade nas rotundas às vacas,
ou o perder-se em nenhum lado,
à janela da porta.
E os poetas atravessam a calçada
como se fossem contar pinhões,
nas veredas serenas da infância nebulosa.
E, em voz de trinado ligeiramente falseada,
vendem-se apartamentos de luxo a feijões,
que a besta tributária é gulosa.
Assumo que tenho sumo.
Arrumo que há rumo.
Abaixo a sociedade de consumo!
Ainda havemos de cozinhar sopas com pedras de rins doados por voluntários.
E na ruptura trazida da verve,
trazem mercadores mambos adulterados,
já o sangue deste povo ferve,
fundidos os créditos dos enganados.
Neste ano o Natal traz barrete,
aldraba-se à vontade do freguês.
Paga vinte e sete,
mas já só leva três.
Reclamações só depois de insolvente.
Até lá, engana-se a gente.
Na esplanada da pastelaria,
esgueiram-se pardais.
Vestidos de jaqueta e cartola.
«Cala-te e come, Maria...
de manhã vais aos estandais,
à tarde, atacas na escola.»
E a vida é uma sucessão de montras a piscar...
e todos os míudos querem é jogar à bola.
Engana o destino, que o destino se vinga.
O vadio não quer a moeda só para a pinga.
Ser o grão de areia no Oceano.
A gota de água na engrenagem
do deserto impaciente da inacção.
Reassumir a essência de ser humano.
Resistir a prestar homenagem
ao crime, ao ódio, à corrupção.
Tubarões metafóricos sentados em jaguares
são como crocodilos alados que escavam,
reunidos em faustosos jantares,
o destino dos homens alinhavam.
A ética, como o polígrafo ou a consciência,
instrumentos que garantem a solidez,
em partituras sequenciais e algorítmicas.
Cheiram aos efusivos vapores da demência,
arranca o carneiro seu arnês,
em piruetas cabriolas e algo gímnicas.
Interligam-se as frequências, esparguete.
Como cordas quânticas desenrolam-se no universo.
Baionetas caladas na noite farpada...
Não quero ser vosso dilacerado joguete,
expiando o prejuízo de vosso engano disperso,
de peito aberto à sórdida espada.
No domínio do Real, tudo se processa assim.
Fito a vida com olhos optimistas,
mas a realidade assim se não descasca.
A realidade será assim, pessimista?
Sem confiança não há quem invista,
quando se conduzem por mentes despesistas,
ter em vista os lucros, não lhes escapa uma lasca,
um sorvedouro, cloaca de apetite sem fim.
No entanto, no vagar dos barcos,
que arpoam baleias imagináveis,
escorre o sangue, rubro como o poente.
Os argumentos afogam-nos mas soam parcos,
números que se contorcem à laia dos colunáveis.
Observa os lábios finos quando a boca mente.
O meu chapéu tem três bicos,
como os cactos têm picos.
Ó Malhão, Malhão!
o Ruca com a guitarra na mão.
Ó trlim tim tim, passear na rua,
pardais ao ninho, que a caravana passa.
Que adianta gritar: «A República vai nua!»,
se continuamos a pagar o pão que o FMI amassa
Á noite vamos ter um dia de sol.
E luzes no túnel são pirilampos despenteados.
Beber a vida num só gole,
travos amargos de filhos e enteados.
No comboio europeu descarrilam para o Mediterrâneo,
carruagens que não se vêem apenas gregas.
Democracia só de quatro em quatro anos
apenas para distribuir e ocupar cargos.
De resto, esquece-se, numa gaveta dum gabinete,
em algum departamento burocrata, em cave difusa.
Dá-se o projecto ao patrício, conterrâneo.
(As justiças, alegadamente,fingem-ce cegas).
E, se à Pátria afligem diversificados danos,
alavancando-se por entre robalos e pargos,
reserva-se ao povo, o rijo cacetete,
enquanto se esquivam com argumentações profusas.
Para tanta vacuidade mental,
fornece bastante verborreia, animal.
E se os sentidos são alterados,
dogmas surgem camuflados como doces para crianças.
Falam mais os silêncios que os períodos frásicos,
mencionam o que a prudência revela esconder.
Falam sozinhos em circuitos fechados,
vão acumulando, roubadas, nossas esperanças,
que surgem em campanhas só em momentos mágicos,
para submergirem, tácticos, à chegada ao poder.
Antes ser um menos Velho do Restelo,
que considerar que nascer com três braços é normal.
E o aldrabão, que se escusa por razões genéticas,
sabe que o acusam por falhas éticas.
E há um caminho que visa o lucro e amordaça o Homem.
«À mulher de César, não basta sê-lo, é preciso parecê-lo.»
E desconhecer o que se come já se tornou banal.
E não é necessário ter ambições proféticas
para ver que a história pode acabar bem mal.
Acorda para o povo que chora, para as gentes que sofrem.
Tecnocrata é sinónimo de sociopata.
Antes neurótico que psicopata.
Ao burocrata, a casa da rata.
Nas ruas ecoa o ribombar de uma surda revolução.
Não se sabe se é murmúrio, se é canção.
O tempo de o povo tomar nas mãos a sua libertação.
De chegar ao poder a sinceridade de sua razão.
O poder do Capital esbarra contra a muralha do pessoal.
Na esfera social, fala-se em concertação,
mas os lugares estão vazios, em representação.
Reformados, estudantes, religiosos, desempregados,
universitários, independentes, deficientes não sindicalizados.
Todos alheios a uma solução eventual.
É um concerto à porta fechada.
Quem está fora, não racha lenha e não interessa nada.
Na vida real as pessoas atravessam
os araútos de castanhas no ar.
Mãos nos bolsos, olhar bicudo,
rasgam a vida, alheios a tudo.
E a maratona prossegue, tostão a tostão...
vais engordando um belo pavão.
E a vida é como um poema que sublinha a intenção,
de que quem rima tem sempre razão
e que com arte se diz a verdade,
escreve-se por amor à saudade.
O que aqui deixo é fruto espontâneo,
não dlui o factor contemporâneo.
À guiza deixo um guizo
A cada qual sua maçã.
Não vá tecê-las a serpente.
Desfolha os livros de repente,
pois a consciência não é vã,
e quanto mais se cresce menos se tem juízo.
Aparentava um teor acrescido de pureza,
uma significativa expressão da beleza,
seu discurso de riqueza incalculável,
era o axioma de uma índole desprezável.
E o taxímetro que teima em transformar tempo em dinheiro.
Numa variante do processo homologador,
heterogéneas as asperezas fractais
reflectem cândidos candeeiros suspensos.
Propensa-se o investigador
a inclinar-se para conceitos actuais,
e distribui pela assistência alguns lenços.
Saltam da cartola pombas, coelhos e esquilos,
desaparecem cartas e são serrados troncos, braços, pernas.
Ao prestigiado ilusionista doi-lhe os inchados mamilos.
São as hormosnas que lhe torna as falas ternas.
Noves fora nada e a coisa estava estragada,
a cântara partida, a sopa entornada.
E a criança fugia, desabregada.
Não era homem, não era nada.
A loucura continua ser doutamente distribuída,
quotidianamente cabal e cientificamente demonstrada,
em belas equações coloridas e inúteis,
não obstante o epíteto multifunções.
Caminha vitupérios de nú tronco e voz doída
ora salta no passeio, ora rebola na estrada.
Pontificando em divergências e dilemas férteis
- mas já nem os peixes querem saber de sermões.
À hora marcada, o pombo atravessa a praça.
Pousa no verdete busto e observa em redor.
No banco, um idoso sua tarde passa,
à sombra do descanso que o que é fresco é melhor.
Relembra-se de brincar ao aro,
há muitos anos, em volta do jardim.
Na altura, esparsava-se um contínuo jasmim.
E até o sabor fresco daquele ar lhe é caro.
Por aquela janela, agora velha e tosca,
espreitara moças e as pessoas que ali escolhiam passar.
Debaixo daquele teixo beijara Elvira, meio vesga, meio tosca,
e o sabor a algodão doce que teimava em aflorar.
Por ali fez gazeta e partilhou saudosas groselhas,
jogou à bola, à macaca e tantas correrias.
Uma vez subiu ao telhado e partiu uma carrada de telhas
(por causa de uma morena que passava a ferro em casa das tias).
Depois, veio a tropa e a guerra.
A guerra levou tudo, sanidade, serenidade,
a noiva chorosa à partida, fugida da terra,
casara entretanto com um doutor da cidade.
Como uma chuva torrencial, levou tudo, a guerra.
Como quando se mistura o sabor acre do sangue com o doce da terra.
A guerra.
Voltando, seu olhar esgazeado,
tinha dificuldade em separar
as ilusões fantásticas da selva austral
no meio de bairros e quarteirões.
Andou anos medicado,
enquanto teve esperança de se curar.
Depois veio o desânimo, apertava o peito, o seu mal,
despejou vinho na vida, aos garrafões.
Agora, só e com uma esmola de vida,
partilha migalhas de afecto com o pombo amigo.
À hora marcada, de forma decidida,
pendura a sua vida no ferrolho do postigo.
cristalino do céu.
Uma chávena partida.
Três voltas ao bule,
a amante na sala, ao léu,
uma tarde grande como a vida.
Derrama chá ou fotografias
desfocadas no lobo temporal
e irreais no espaço
Era um ver se te avias...
Uma irreal negação do banal
trazer limpidez ao traço, baço.
Espalha-se no chão,
como vassoura ou moinho,
caíndo pelo buraco da fechadura
-como a vida está dura-
antes vida de cão.
Carne, pão, sangue e vinho.
Uma porta sem saída.
Como se fosse molusco
ou procrastinador.
Uma certeza perdida.
Eu, que o sol ofusco,
não fosse mais que um seu coador.
Ilumina as avenidas
e sobrevoa capitais
da luxúria avessa
de mindinho exposto vão ideias tidas,
colégios femininos de freiras fatais,
as paredes escavadas à pressa
em nuances rosadas de enfim.
Como numa aventura do Timtim.
Saltam picaretas em ricochete na janela...
é o universo que se expande,
e o orçamento que retrai.
Traída, a confiança escapa.
O engano espreita, escondido, na viela
ou é o mendigo que implora uma sande?
o Mundo roda, parece que cai,
escorrega como berlinde num pastel de nata.
Paraísos fiscais,
de águas azuis e palmeiras de plástico,
aguardam em postais turísticos.
A Arte do capital viajar.
Para os outros, «temos pena, não há mais»
nem se levantam valores eufemísticos.
Desde que os juros continuem a acumular...
Aqui não há miséria.
Só esperança de viver.
E nas carpetes oleadas e sujas,
os ácaros constroem fábricas de alimento
e cabelos diversos se entrançam
nas autoestradas das Baratas, sem custo
e nas retretes, douradas, cujas
reais cagadeiras vão largar seu lamento,
logo, céleres, prontos se afiançam,
o tótó e o pateta alegre com seu ar vetusto
Há o rumor que entre um e outro,
veio o Diabo e fugiu,
lá para os lados do Bugio.
Caem as capas que tapam as máscaras,
que escondem as faces que se ocultam no escuro.
Onde o significado se demite
dos ladrões que o criam.
À dignidade que se encontre, dão-se alvíssaras.
É grande o barrete, digo e juro,
essa sumidade nossa de elite...
tão burros que arrepiam.
Uma caneta solitária explode
É a tinta que lhe corre na veia.
Mais forte que o recipiente.
É o que devia fazer esta gente,
não cansada de viver vida alheia
grita para o ar: «Quem nos acode?»
Erradicados da vida, juntem-se à fila,
para que a nova zagaia corra.
E os caracois passam a zunir...
E está cara a clorofila...
Está tudo caro mas é, pôrra.
Cambada de pote que não presta a argila.
...tapetes de folhas, Outono,
e a chuva envia panfletos publicitários,
comida para canários
em suaves prestaçoes mensais.
Caganita cool em verde prado,
ou o consciente ausente do presente.
Abraça-me a fíbula que abono,
esses croupiers deflaccionários.
Fartura à mesa dos comensais,
migalhas caem para baixo do estrado
e o misérrimo corre, pois que o pressente.
Seriamente, canta-se o fado,
sempre tão desviado.
É alegre, agora, pois, quem chora,
é um povo sem voz.
Mas quem grava os discos agora,
não canta pelo mesmo que nós.
Flanqueia a codorniz,
(foi por um triz).
O telefone toca e são facas.
Horas de adormecer acordado
em vida sonâmbula e morta.
Prioridade nas rotundas às vacas,
ou o perder-se em nenhum lado,
à janela da porta.
E os poetas atravessam a calçada
como se fossem contar pinhões,
nas veredas serenas da infância nebulosa.
E, em voz de trinado ligeiramente falseada,
vendem-se apartamentos de luxo a feijões,
que a besta tributária é gulosa.
Assumo que tenho sumo.
Arrumo que há rumo.
Abaixo a sociedade de consumo!
Ainda havemos de cozinhar sopas com pedras de rins doados por voluntários.
E na ruptura trazida da verve,
trazem mercadores mambos adulterados,
já o sangue deste povo ferve,
fundidos os créditos dos enganados.
Neste ano o Natal traz barrete,
aldraba-se à vontade do freguês.
Paga vinte e sete,
mas já só leva três.
Reclamações só depois de insolvente.
Até lá, engana-se a gente.
Na esplanada da pastelaria,
esgueiram-se pardais.
Vestidos de jaqueta e cartola.
«Cala-te e come, Maria...
de manhã vais aos estandais,
à tarde, atacas na escola.»
E a vida é uma sucessão de montras a piscar...
e todos os míudos querem é jogar à bola.
Engana o destino, que o destino se vinga.
O vadio não quer a moeda só para a pinga.
Ser o grão de areia no Oceano.
A gota de água na engrenagem
do deserto impaciente da inacção.
Reassumir a essência de ser humano.
Resistir a prestar homenagem
ao crime, ao ódio, à corrupção.
Tubarões metafóricos sentados em jaguares
são como crocodilos alados que escavam,
reunidos em faustosos jantares,
o destino dos homens alinhavam.
A ética, como o polígrafo ou a consciência,
instrumentos que garantem a solidez,
em partituras sequenciais e algorítmicas.
Cheiram aos efusivos vapores da demência,
arranca o carneiro seu arnês,
em piruetas cabriolas e algo gímnicas.
Interligam-se as frequências, esparguete.
Como cordas quânticas desenrolam-se no universo.
Baionetas caladas na noite farpada...
Não quero ser vosso dilacerado joguete,
expiando o prejuízo de vosso engano disperso,
de peito aberto à sórdida espada.
No domínio do Real, tudo se processa assim.
Fito a vida com olhos optimistas,
mas a realidade assim se não descasca.
A realidade será assim, pessimista?
Sem confiança não há quem invista,
quando se conduzem por mentes despesistas,
ter em vista os lucros, não lhes escapa uma lasca,
um sorvedouro, cloaca de apetite sem fim.
No entanto, no vagar dos barcos,
que arpoam baleias imagináveis,
escorre o sangue, rubro como o poente.
Os argumentos afogam-nos mas soam parcos,
números que se contorcem à laia dos colunáveis.
Observa os lábios finos quando a boca mente.
O meu chapéu tem três bicos,
como os cactos têm picos.
Ó Malhão, Malhão!
o Ruca com a guitarra na mão.
Ó trlim tim tim, passear na rua,
pardais ao ninho, que a caravana passa.
Que adianta gritar: «A República vai nua!»,
se continuamos a pagar o pão que o FMI amassa
Á noite vamos ter um dia de sol.
E luzes no túnel são pirilampos despenteados.
Beber a vida num só gole,
travos amargos de filhos e enteados.
No comboio europeu descarrilam para o Mediterrâneo,
carruagens que não se vêem apenas gregas.
Democracia só de quatro em quatro anos
apenas para distribuir e ocupar cargos.
De resto, esquece-se, numa gaveta dum gabinete,
em algum departamento burocrata, em cave difusa.
Dá-se o projecto ao patrício, conterrâneo.
(As justiças, alegadamente,fingem-ce cegas).
E, se à Pátria afligem diversificados danos,
alavancando-se por entre robalos e pargos,
reserva-se ao povo, o rijo cacetete,
enquanto se esquivam com argumentações profusas.
Para tanta vacuidade mental,
fornece bastante verborreia, animal.
E se os sentidos são alterados,
dogmas surgem camuflados como doces para crianças.
Falam mais os silêncios que os períodos frásicos,
mencionam o que a prudência revela esconder.
Falam sozinhos em circuitos fechados,
vão acumulando, roubadas, nossas esperanças,
que surgem em campanhas só em momentos mágicos,
para submergirem, tácticos, à chegada ao poder.
Antes ser um menos Velho do Restelo,
que considerar que nascer com três braços é normal.
E o aldrabão, que se escusa por razões genéticas,
sabe que o acusam por falhas éticas.
E há um caminho que visa o lucro e amordaça o Homem.
«À mulher de César, não basta sê-lo, é preciso parecê-lo.»
E desconhecer o que se come já se tornou banal.
E não é necessário ter ambições proféticas
para ver que a história pode acabar bem mal.
Acorda para o povo que chora, para as gentes que sofrem.
Tecnocrata é sinónimo de sociopata.
Antes neurótico que psicopata.
Ao burocrata, a casa da rata.
Nas ruas ecoa o ribombar de uma surda revolução.
Não se sabe se é murmúrio, se é canção.
O tempo de o povo tomar nas mãos a sua libertação.
De chegar ao poder a sinceridade de sua razão.
O poder do Capital esbarra contra a muralha do pessoal.
Na esfera social, fala-se em concertação,
mas os lugares estão vazios, em representação.
Reformados, estudantes, religiosos, desempregados,
universitários, independentes, deficientes não sindicalizados.
Todos alheios a uma solução eventual.
É um concerto à porta fechada.
Quem está fora, não racha lenha e não interessa nada.
Na vida real as pessoas atravessam
os araútos de castanhas no ar.
Mãos nos bolsos, olhar bicudo,
rasgam a vida, alheios a tudo.
E a maratona prossegue, tostão a tostão...
vais engordando um belo pavão.
E a vida é como um poema que sublinha a intenção,
de que quem rima tem sempre razão
e que com arte se diz a verdade,
escreve-se por amor à saudade.
O que aqui deixo é fruto espontâneo,
não dlui o factor contemporâneo.
À guiza deixo um guizo
A cada qual sua maçã.
Não vá tecê-las a serpente.
Desfolha os livros de repente,
pois a consciência não é vã,
e quanto mais se cresce menos se tem juízo.
Aparentava um teor acrescido de pureza,
uma significativa expressão da beleza,
seu discurso de riqueza incalculável,
era o axioma de uma índole desprezável.
E o taxímetro que teima em transformar tempo em dinheiro.
Numa variante do processo homologador,
heterogéneas as asperezas fractais
reflectem cândidos candeeiros suspensos.
Propensa-se o investigador
a inclinar-se para conceitos actuais,
e distribui pela assistência alguns lenços.
Saltam da cartola pombas, coelhos e esquilos,
desaparecem cartas e são serrados troncos, braços, pernas.
Ao prestigiado ilusionista doi-lhe os inchados mamilos.
São as hormosnas que lhe torna as falas ternas.
Noves fora nada e a coisa estava estragada,
a cântara partida, a sopa entornada.
E a criança fugia, desabregada.
Não era homem, não era nada.
A loucura continua ser doutamente distribuída,
quotidianamente cabal e cientificamente demonstrada,
em belas equações coloridas e inúteis,
não obstante o epíteto multifunções.
Caminha vitupérios de nú tronco e voz doída
ora salta no passeio, ora rebola na estrada.
Pontificando em divergências e dilemas férteis
- mas já nem os peixes querem saber de sermões.
À hora marcada, o pombo atravessa a praça.
Pousa no verdete busto e observa em redor.
No banco, um idoso sua tarde passa,
à sombra do descanso que o que é fresco é melhor.
Relembra-se de brincar ao aro,
há muitos anos, em volta do jardim.
Na altura, esparsava-se um contínuo jasmim.
E até o sabor fresco daquele ar lhe é caro.
Por aquela janela, agora velha e tosca,
espreitara moças e as pessoas que ali escolhiam passar.
Debaixo daquele teixo beijara Elvira, meio vesga, meio tosca,
e o sabor a algodão doce que teimava em aflorar.
Por ali fez gazeta e partilhou saudosas groselhas,
jogou à bola, à macaca e tantas correrias.
Uma vez subiu ao telhado e partiu uma carrada de telhas
(por causa de uma morena que passava a ferro em casa das tias).
Depois, veio a tropa e a guerra.
A guerra levou tudo, sanidade, serenidade,
a noiva chorosa à partida, fugida da terra,
casara entretanto com um doutor da cidade.
Como uma chuva torrencial, levou tudo, a guerra.
Como quando se mistura o sabor acre do sangue com o doce da terra.
A guerra.
Voltando, seu olhar esgazeado,
tinha dificuldade em separar
as ilusões fantásticas da selva austral
no meio de bairros e quarteirões.
Andou anos medicado,
enquanto teve esperança de se curar.
Depois veio o desânimo, apertava o peito, o seu mal,
despejou vinho na vida, aos garrafões.
Agora, só e com uma esmola de vida,
partilha migalhas de afecto com o pombo amigo.
À hora marcada, de forma decidida,
pendura a sua vida no ferrolho do postigo.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
It was pingating from the clowds, but now is chovating
Chove-me a alma e é dor que derramo na negra calçada, como negra a vida que suga os sonhos de quem respira e aspira. Não são nuvens, mas ódios encaixotados, que o vento sopra, de sudoeste. Não são ventos mas instruções mecanizadas que trituram os homens e os cospem, na rua molhada de sua dignidade perdida. Escorre-me a força e a vontade, vão dar ao Tejo, esse, ao menos, tem caminho ainda aberto para o mar... até que o desviem, abusem e violem, como ao espírito do homem, actual.
Como, por vezes penso, seria viver dessas vidas que fecham os olhos à realidade, mas ela sempre me perfura, em tom baixo e insinuante, repleto de lugares comuns desmentidos por si mesmos. Como se alheiam em gráficos coloridos e pacotes percentuais sem cabimento, certos esses, pergunto-me, como não se desvanecem no cerne dessas interpretações facciosas, face à crueza de suas implicações? Como lançam seu corpo à cama e se levantam pela manhã, prenhes de optimismo para destruír vidas, vidas de quem não se conhece, vidas por vezes longínquas, outras tão perto, jogadas à rua da desilusão.
Certas vezes olho para o mundo e vejo metade tão pobre que não é home nem é vida, a outra metade, dividida em quem se mata a trabalhar e aufere só para se manter a trabalhar, pagando cada vez mais para ter cada vez menos e outra metade que apenas quer ter um lugar em que possa servilmente dedicar-se também a essa ambição de ser escravo de senhores que lhes cospem em cima, e ser explorado até se conseguir espelhar a China proletária, que estende sua roupa e dá de comer aos filhos entre os motores fabris em produção constante, sem ver o sol dançar no céu, sem sentir chuva no rosto ou o silêncio estrelado da noite.. É isso que querem? Paquistaneses? Ide para o Paquistão, então, eles tem kalashnikovs que tiram muitas ilusões a tanta gente, poderão ter algumas munições só para vós...
No topo desta tripartida humanidade, uma pequena massa humana (pois que de humano pouco têm), de mãos em bolsos recheados, charutos de carne e espirituosas on the rocks, canibalizando seus semelhantes, Mengelesinhos da merda em seus gabinetes duplex, soltando faíscas entre propostas laboratoriais de experimentação social, onde o homem, imerso, caminha, alheio aos bens e males que o atravessam e delimitam, sem que consiga sentir o aperto do cerco, a saída do corredor, o olho do furacão.
Onde estão os Homens, que os não vejo? Onde está essa espécie que conseguiu realizar tantas maravilhas? Perdeu-se, algures, numa translação transladada mais acentuada da Terra? Saíu de circulação? Perdeu a validade? Não estará bem escondido dentro da Humanidade, essa multidão de indivíduos diferenciados que se habituou a ser tratado como massa e já não se reconhece como SER? Se for massa que leve tomate. E natas, com alguns cogumelos, porque não. mas assim, massa branca, fina e crua?
Por onde olho, apenas a depressão espreita, de esquina em esquina, de mão estendida à atenção inusitada de estranhos que se atravessam no seu caminho que não é seu, circulando em suas ruas que não são suas. São vidas esvaídas, entregues em holocausto no mercado, esvaziadas já de tudo o que a superficialidade não trai, pintando em demãos aguadas a sua vida tão desprovida de cor como seu futuro, alimentando com parcos gravetos os sonhos que os mantém, como máquinas de manutenção de vida, seus sonhos são os jardins que plantam e que a realidade não rega, senhos que não fazem lucrar o mercado, que os não consegue provar com a verve, os aromas e a gana de quem os tem. Mas os sonhos não põem pão na mesa, sabes, e de tanto marrar os cornos contra as paredes da vida, às tantas, até parece que estão almofadadas, fadados estamos nós a ver fenecer os sonhos na sarjeta da sociedade fascista que se constroi defronte ao nosso olhar descapitalizado.
Sobem os juros e eu juro que são só os que me cobram, os restantes, juro que descem. E o mercado, que mais não é que uma transposição em entidade sobrenatural de pessoas mais ou menos comuns, mais ou menos pessoas, que para não perderem o que a ganância lhes garantiu, não oscilam quando toca a enfiar um vai bardamerda nas mãos de seu vizinho, enquanto lhes fecha a porta na cara. Ah! Mas para quem marrou nas esquinas da parede da vida tantas vezes, como a madeira da porta é macia.
Querem-nos quebrados, vencidos, derrotados, somos assim uma massa mais fácil de moldar, mais amorfa e se princípios, não viste, em Auschwitz, não reparaste, em Dauchau? Não muito diferente dos campos em que nos encontramos, clorizados, que trabalhar liberta, mas liberta o quê, se cativos estamos?
E somam-se todos os dias, aos magotes, famintos e entrapados, os exemplos de ontem, com suas vidas eram seguras e se perderam, como seus futuros brilhantes, traçados à partida se desfizeram e estilhaçaram. Tão depressa... quase tão depressa como se hipotecam bens que afinal foram só males.
Às vezes, espelham-se homens na rua. Um de fato e gravata, cavalheiro prestável, olha as horas no seu relógio suíço frente a frente com um sem abrigo que lhe mendiga uma moeda, uma côdea dura de pão. Apenas há comunicação de um lado, chocando com a indiferença e desdém do outro. E o que os separa é tão pouco, que nem é quantificável, na análise qualitativa de suas vidas, contudo é como se um fosso intransponível os separasse, barreira que urge desmistificar, com o risco de se perder o que há de humano nuns e noutros, entregues às insanidades relativas de suas vidas alienadas.
Chove e não é chuva, é a tristeza que do céu se desmancha e vem lavar a terra e as almas dos homens da sua iniquidade. Mas os homens, fascinados com o luxo que é lixo, cedo correm para se continuarem a sujar, fechando empresas, baixando salários, cortando apoios e subsídios a quem deles depende, matando à fome o povo e depositando suas doces poupanças na mesa do banqueiro.
Por vezes penso, sinto e sei, que bom que era, numa única rotação em torno de seu eixo, que o mundo mudasse o Homem, o aproximasse de si mesmo e o fizesse reconhecer-se nos outros, essa cintilação que é, de facto, universal e partilhada por todos
Como, por vezes penso, seria viver dessas vidas que fecham os olhos à realidade, mas ela sempre me perfura, em tom baixo e insinuante, repleto de lugares comuns desmentidos por si mesmos. Como se alheiam em gráficos coloridos e pacotes percentuais sem cabimento, certos esses, pergunto-me, como não se desvanecem no cerne dessas interpretações facciosas, face à crueza de suas implicações? Como lançam seu corpo à cama e se levantam pela manhã, prenhes de optimismo para destruír vidas, vidas de quem não se conhece, vidas por vezes longínquas, outras tão perto, jogadas à rua da desilusão.
Certas vezes olho para o mundo e vejo metade tão pobre que não é home nem é vida, a outra metade, dividida em quem se mata a trabalhar e aufere só para se manter a trabalhar, pagando cada vez mais para ter cada vez menos e outra metade que apenas quer ter um lugar em que possa servilmente dedicar-se também a essa ambição de ser escravo de senhores que lhes cospem em cima, e ser explorado até se conseguir espelhar a China proletária, que estende sua roupa e dá de comer aos filhos entre os motores fabris em produção constante, sem ver o sol dançar no céu, sem sentir chuva no rosto ou o silêncio estrelado da noite.. É isso que querem? Paquistaneses? Ide para o Paquistão, então, eles tem kalashnikovs que tiram muitas ilusões a tanta gente, poderão ter algumas munições só para vós...
No topo desta tripartida humanidade, uma pequena massa humana (pois que de humano pouco têm), de mãos em bolsos recheados, charutos de carne e espirituosas on the rocks, canibalizando seus semelhantes, Mengelesinhos da merda em seus gabinetes duplex, soltando faíscas entre propostas laboratoriais de experimentação social, onde o homem, imerso, caminha, alheio aos bens e males que o atravessam e delimitam, sem que consiga sentir o aperto do cerco, a saída do corredor, o olho do furacão.
Onde estão os Homens, que os não vejo? Onde está essa espécie que conseguiu realizar tantas maravilhas? Perdeu-se, algures, numa translação transladada mais acentuada da Terra? Saíu de circulação? Perdeu a validade? Não estará bem escondido dentro da Humanidade, essa multidão de indivíduos diferenciados que se habituou a ser tratado como massa e já não se reconhece como SER? Se for massa que leve tomate. E natas, com alguns cogumelos, porque não. mas assim, massa branca, fina e crua?
Por onde olho, apenas a depressão espreita, de esquina em esquina, de mão estendida à atenção inusitada de estranhos que se atravessam no seu caminho que não é seu, circulando em suas ruas que não são suas. São vidas esvaídas, entregues em holocausto no mercado, esvaziadas já de tudo o que a superficialidade não trai, pintando em demãos aguadas a sua vida tão desprovida de cor como seu futuro, alimentando com parcos gravetos os sonhos que os mantém, como máquinas de manutenção de vida, seus sonhos são os jardins que plantam e que a realidade não rega, senhos que não fazem lucrar o mercado, que os não consegue provar com a verve, os aromas e a gana de quem os tem. Mas os sonhos não põem pão na mesa, sabes, e de tanto marrar os cornos contra as paredes da vida, às tantas, até parece que estão almofadadas, fadados estamos nós a ver fenecer os sonhos na sarjeta da sociedade fascista que se constroi defronte ao nosso olhar descapitalizado.
Sobem os juros e eu juro que são só os que me cobram, os restantes, juro que descem. E o mercado, que mais não é que uma transposição em entidade sobrenatural de pessoas mais ou menos comuns, mais ou menos pessoas, que para não perderem o que a ganância lhes garantiu, não oscilam quando toca a enfiar um vai bardamerda nas mãos de seu vizinho, enquanto lhes fecha a porta na cara. Ah! Mas para quem marrou nas esquinas da parede da vida tantas vezes, como a madeira da porta é macia.
Querem-nos quebrados, vencidos, derrotados, somos assim uma massa mais fácil de moldar, mais amorfa e se princípios, não viste, em Auschwitz, não reparaste, em Dauchau? Não muito diferente dos campos em que nos encontramos, clorizados, que trabalhar liberta, mas liberta o quê, se cativos estamos?
E somam-se todos os dias, aos magotes, famintos e entrapados, os exemplos de ontem, com suas vidas eram seguras e se perderam, como seus futuros brilhantes, traçados à partida se desfizeram e estilhaçaram. Tão depressa... quase tão depressa como se hipotecam bens que afinal foram só males.
Às vezes, espelham-se homens na rua. Um de fato e gravata, cavalheiro prestável, olha as horas no seu relógio suíço frente a frente com um sem abrigo que lhe mendiga uma moeda, uma côdea dura de pão. Apenas há comunicação de um lado, chocando com a indiferença e desdém do outro. E o que os separa é tão pouco, que nem é quantificável, na análise qualitativa de suas vidas, contudo é como se um fosso intransponível os separasse, barreira que urge desmistificar, com o risco de se perder o que há de humano nuns e noutros, entregues às insanidades relativas de suas vidas alienadas.
Chove e não é chuva, é a tristeza que do céu se desmancha e vem lavar a terra e as almas dos homens da sua iniquidade. Mas os homens, fascinados com o luxo que é lixo, cedo correm para se continuarem a sujar, fechando empresas, baixando salários, cortando apoios e subsídios a quem deles depende, matando à fome o povo e depositando suas doces poupanças na mesa do banqueiro.
Por vezes penso, sinto e sei, que bom que era, numa única rotação em torno de seu eixo, que o mundo mudasse o Homem, o aproximasse de si mesmo e o fizesse reconhecer-se nos outros, essa cintilação que é, de facto, universal e partilhada por todos
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Diz o Poeta ao Pintor: A Guerra é um horror
O sol perfura brumosa matina
entre estacas, pinhos ramos abertos
Nas sombras efectua sua chacina
Perscruta, examina locais cobertos
Bem sabe que as trevas se ocultam
lá, onde a verdade não brilha
e que os adivinhos oscultam
os segredos da Antiga Ilha
Sabei, magos, negros corvos
que a vera alma refulge sem par
resplandece em vivos corpos
tal sua vontade de se manifestar
Faiscam reflexos obsidiana
negros bicos que debicam
a carniça pinga lascas, tutano
Pois que a pensásteis ufana
e frementes, seus olhos fitam
a assombrosa face do arcano
Ricochetam relâmpagos sobre meu escudo
Dardos com veneno, vísceras, bruxedos
caem, serpentíneos, a meus pés alados.
O Inimigo todo ataque observa, mudo
investe então com a tortuosa voz dos medos
para se extinguirem, pétreos, calados.
Exsudam-se vinganças no vítreo rosto
lágrimas, fel que se liberta
vencidas pelo orvalho, fenecem
ante fortalezas que de bem se tecem
frutos de uma consciência que desperta
ergue-se outro rei, estando o velho deposto
Minha espada não corta corpos
Minha lança não fere almas
A seta que aponto é à injustiça
Cambaleiam homens fracos, já torpes
e ainda se ouvem o ecoar das palmas
que a má memória aos homens atiça
Um dos flancos do cerco se levanta
seu líder tomba, carecendo de legitimidade
o araúto, tomado de desgraça, canta
mil vilanagens se mantém nos portões da cidade
mas ainda subsistem salteadores
acossados em avulsas surtidas
à volta da muralha e arredores
reclamando sangue, tomando vidas.
Na caverna, o eremita saúda, rindo
o sol que tacteia seu passo, à boca
Na floresta, o homem verde floresce
É a resposta às tuas preces que vem vindo
mantém sã tua mente louca
Não é primavera mas desflora, cresce
Hirto, alerta e constante...
assim diz o rio da rocha cortante
mas, pelos olhos do tempo, num instante
se desvanece o efémero errante
entre estacas, pinhos ramos abertos
Nas sombras efectua sua chacina
Perscruta, examina locais cobertos
Bem sabe que as trevas se ocultam
lá, onde a verdade não brilha
e que os adivinhos oscultam
os segredos da Antiga Ilha
Sabei, magos, negros corvos
que a vera alma refulge sem par
resplandece em vivos corpos
tal sua vontade de se manifestar
Faiscam reflexos obsidiana
negros bicos que debicam
a carniça pinga lascas, tutano
Pois que a pensásteis ufana
e frementes, seus olhos fitam
a assombrosa face do arcano
Ricochetam relâmpagos sobre meu escudo
Dardos com veneno, vísceras, bruxedos
caem, serpentíneos, a meus pés alados.
O Inimigo todo ataque observa, mudo
investe então com a tortuosa voz dos medos
para se extinguirem, pétreos, calados.
Exsudam-se vinganças no vítreo rosto
lágrimas, fel que se liberta
vencidas pelo orvalho, fenecem
ante fortalezas que de bem se tecem
frutos de uma consciência que desperta
ergue-se outro rei, estando o velho deposto
Minha espada não corta corpos
Minha lança não fere almas
A seta que aponto é à injustiça
Cambaleiam homens fracos, já torpes
e ainda se ouvem o ecoar das palmas
que a má memória aos homens atiça
Um dos flancos do cerco se levanta
seu líder tomba, carecendo de legitimidade
o araúto, tomado de desgraça, canta
mil vilanagens se mantém nos portões da cidade
mas ainda subsistem salteadores
acossados em avulsas surtidas
à volta da muralha e arredores
reclamando sangue, tomando vidas.
Na caverna, o eremita saúda, rindo
o sol que tacteia seu passo, à boca
Na floresta, o homem verde floresce
É a resposta às tuas preces que vem vindo
mantém sã tua mente louca
Não é primavera mas desflora, cresce
Hirto, alerta e constante...
assim diz o rio da rocha cortante
mas, pelos olhos do tempo, num instante
se desvanece o efémero errante
domingo, 14 de outubro de 2012
Canto II
Canto dos homens perdidos
que louvam deuses esquecidos
caminham, alienados, algemados
que se entregam, vendidos,
de seus sonhos destroçados
Canto dos bêbados e dos vadios
dos loucos e dos menos sadios
em holocausto, imersos na engrenagem
vivem, afogados, à margem.
por seus irmãos afastados.
Desta feita não canto do ribeiro
que canta pela serra
da cabra, da águia e do luar
que palmilham a terra
Canto da loucura do dinheiro
que consome o mundo inteiro
que alimenta a guerra,
cujo intento é explorar.
Canto dos sonhos que o Homem,
luminoso quando busca a perfeição,
encontra em noites de contemplação
uma sociedade que honre a Humanidade
uma Humanidade que proteja o seu meio
A vida encarada com simplicidade
de quem a procura no seio
da sabedoria, da solidariedade,
tão rara pelas ruas da cidade.
E que apreenda, essa necessidade
de louvar e defender a Liberdade.
Canto dos homens que se erguem
como o sol, seu ciclo seguem,
lutam pela justiça, pela verdade
onde todos juntos não cedem
pois que lhes pulsa sangue e alma
pois que foram submersos pela calma
e agitam-se por não verem equidade
e gritam por estar em causa a sua identidade
Canto dos sonhos e utopias
de quem sonhou mundo melhor
de quem lavrou e abriu novas vias,
canto dos novos tons, de uma nova cor
onde as mentes não soçobram, vazias,
exauridas por inflingida dor
cheias de tudo aquilo que é nada
donas de uma alma esfarrapada
Canto um mundo sem manias
sem fome, racismo, aleivozias
Canto sem fundamentalismo, mas paz
Canto como quem ama o que faz
como quem se sente repleto de alegrias
que saltitam entre os ramos pendentes
das árvores que falam entrementes
numa línguagem clorofilizada.
Canto essa ária da Natureza
que o Homem, insano, despreza
pois se vai juntando a certeza
que o Homem a destroi com destreza.
Canto da chusma de autómatos balbuciantes
que se afunilam em negro horizonte,
no abismo que se diz fonte
anunciam o fim da fome
da injustiça, da miséria
da dignidade de quem não come
de quem manipula a matéria
Onde estão esses defensores de Direitos?
ou pensam que já estão feitos?
Onde residirem a mentira e a opressão,
os povos sempre resistirão.
Hoje há uma guerra que o mundo assola
e na consciência está a verdadeira mola
A que nos possibilitará um novo mundo
já tanto ansiado, no fundo
fruto dos filósofos e místicos
Canto o povo que olha a vida, desolado
seu fado desempregado
seu valor pisado, sugado,
seus filhos, choram, tísicos
a esperança que arde como vela
editada a vida sem chancela
Canto do fascismo a prequela
E esta nova ditadura, sequela,
Todos os rios vão dar a Bruxelas
E agora é que são elas,
Há um reino que se sonha acordar
todo o planeta conquistar
é o fascismo social
prenhe de ódio visceral.
Sobre a escravatura se esculpe
E esturpa as mentes dos povos seus
Seus são todos os povos, americanos e europeus
Não há Nobel que os desculpe
Arquitectos de um templo corrupto,
pintam ao povo quadro impoluto
E moldam genocídios africanos,
modelos combinados e totalitários
de regime comunista e selvagem capitalista
Ouve-se o petróleo que arde nos canos
ouvem-se coros dos mártires libertários
e esparsa-se a misoginia muçulmana
que apedreja todo o que se desengana
e sacode o jugo da superstição
que se esconde sob o manto da religião.
São os cardeais curvados com o peso do ouro
são os generais que mandam matar o povo
Ideais incendiários financiados com o narcotráfico.
Á noite, no zumbido televisivo,
O Ditador com seu ar seráfico,
anuncia ao povo novo sacrifício
só não se agarra o benefício
Os vampiros andam num bulício...
o argumento repetitivo
incorrecto e faccioso
nas pausas pensadas o arvoar do gozo
O povo finge que dorme, finge que vivo,
carrega às costas o lifesyle dos patrões
Como no tempo dos barões
patrocina o seu tempo ocioso.
Canto do Homem que se consome
e se derrete em toneladas de lixo
criado para ser um bicho
enquanto os senhores de renome
Ambivalentes criticam quem faz a fome
e, depois, em faustosos gabinetes
à mesa de um finíssimo restaurante
afastam os famintos com cacetetes
os poositores com gás lacrimogéneo
Não está assim tão distante
Esse tempo, cavalgante
em que o trono estará vazio
e o rico, já sem pio,
acorre à vida com igualdade
e o povo, liberto do sustento alheio
se concentra, neste mundo cheio
em combater a desigualdade
no campo e na cidade
defender a Liberdade
e viver, no mundo, em harmonia
curar o planeta dos males que padecia
curar a mente que se esvai do homem
Canto o dever de focalizar o Bem.
que louvam deuses esquecidos
caminham, alienados, algemados
que se entregam, vendidos,
de seus sonhos destroçados
Canto dos bêbados e dos vadios
dos loucos e dos menos sadios
em holocausto, imersos na engrenagem
vivem, afogados, à margem.
por seus irmãos afastados.
Desta feita não canto do ribeiro
que canta pela serra
da cabra, da águia e do luar
que palmilham a terra
Canto da loucura do dinheiro
que consome o mundo inteiro
que alimenta a guerra,
cujo intento é explorar.
Canto dos sonhos que o Homem,
luminoso quando busca a perfeição,
encontra em noites de contemplação
uma sociedade que honre a Humanidade
uma Humanidade que proteja o seu meio
A vida encarada com simplicidade
de quem a procura no seio
da sabedoria, da solidariedade,
tão rara pelas ruas da cidade.
E que apreenda, essa necessidade
de louvar e defender a Liberdade.
Canto dos homens que se erguem
como o sol, seu ciclo seguem,
lutam pela justiça, pela verdade
onde todos juntos não cedem
pois que lhes pulsa sangue e alma
pois que foram submersos pela calma
e agitam-se por não verem equidade
e gritam por estar em causa a sua identidade
Canto dos sonhos e utopias
de quem sonhou mundo melhor
de quem lavrou e abriu novas vias,
canto dos novos tons, de uma nova cor
onde as mentes não soçobram, vazias,
exauridas por inflingida dor
cheias de tudo aquilo que é nada
donas de uma alma esfarrapada
Canto um mundo sem manias
sem fome, racismo, aleivozias
Canto sem fundamentalismo, mas paz
Canto como quem ama o que faz
como quem se sente repleto de alegrias
que saltitam entre os ramos pendentes
das árvores que falam entrementes
numa línguagem clorofilizada.
Canto essa ária da Natureza
que o Homem, insano, despreza
pois se vai juntando a certeza
que o Homem a destroi com destreza.
Canto da chusma de autómatos balbuciantes
que se afunilam em negro horizonte,
no abismo que se diz fonte
anunciam o fim da fome
da injustiça, da miséria
da dignidade de quem não come
de quem manipula a matéria
Onde estão esses defensores de Direitos?
ou pensam que já estão feitos?
Onde residirem a mentira e a opressão,
os povos sempre resistirão.
Hoje há uma guerra que o mundo assola
e na consciência está a verdadeira mola
A que nos possibilitará um novo mundo
já tanto ansiado, no fundo
fruto dos filósofos e místicos
Canto o povo que olha a vida, desolado
seu fado desempregado
seu valor pisado, sugado,
seus filhos, choram, tísicos
a esperança que arde como vela
editada a vida sem chancela
Canto do fascismo a prequela
E esta nova ditadura, sequela,
Todos os rios vão dar a Bruxelas
E agora é que são elas,
Há um reino que se sonha acordar
todo o planeta conquistar
é o fascismo social
prenhe de ódio visceral.
Sobre a escravatura se esculpe
E esturpa as mentes dos povos seus
Seus são todos os povos, americanos e europeus
Não há Nobel que os desculpe
Arquitectos de um templo corrupto,
pintam ao povo quadro impoluto
E moldam genocídios africanos,
modelos combinados e totalitários
de regime comunista e selvagem capitalista
Ouve-se o petróleo que arde nos canos
ouvem-se coros dos mártires libertários
e esparsa-se a misoginia muçulmana
que apedreja todo o que se desengana
e sacode o jugo da superstição
que se esconde sob o manto da religião.
São os cardeais curvados com o peso do ouro
são os generais que mandam matar o povo
Ideais incendiários financiados com o narcotráfico.
Á noite, no zumbido televisivo,
O Ditador com seu ar seráfico,
anuncia ao povo novo sacrifício
só não se agarra o benefício
Os vampiros andam num bulício...
o argumento repetitivo
incorrecto e faccioso
nas pausas pensadas o arvoar do gozo
O povo finge que dorme, finge que vivo,
carrega às costas o lifesyle dos patrões
Como no tempo dos barões
patrocina o seu tempo ocioso.
Canto do Homem que se consome
e se derrete em toneladas de lixo
criado para ser um bicho
enquanto os senhores de renome
Ambivalentes criticam quem faz a fome
e, depois, em faustosos gabinetes
à mesa de um finíssimo restaurante
afastam os famintos com cacetetes
os poositores com gás lacrimogéneo
Não está assim tão distante
Esse tempo, cavalgante
em que o trono estará vazio
e o rico, já sem pio,
acorre à vida com igualdade
e o povo, liberto do sustento alheio
se concentra, neste mundo cheio
em combater a desigualdade
no campo e na cidade
defender a Liberdade
e viver, no mundo, em harmonia
curar o planeta dos males que padecia
curar a mente que se esvai do homem
Canto o dever de focalizar o Bem.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Re Ap€urto
Um orçamento de guerra
espalha fome pela terra.
Castiga quem trabalha,
essa canalha.
Doente, desempregado, reformado,
também podes ser roubado.
Só ao rico,
ninguém lhe fecha o bico.
Estás agora a ver a verdade?
roubam e vendem-te a liberdade.
por detrás da democracia,
outro fascismo se escondia.
Cortar na despesa?
Agora não, que a tenho tesa.
Vamos antes à receita,
essa mama que nos aleita.
Ano após ano se repete,
andares algemado, de barrete,
vota, vota, em quem promete,
ouvir-te à ponta do cacetete.
espalha fome pela terra.
Castiga quem trabalha,
essa canalha.
Doente, desempregado, reformado,
também podes ser roubado.
Só ao rico,
ninguém lhe fecha o bico.
Estás agora a ver a verdade?
roubam e vendem-te a liberdade.
por detrás da democracia,
outro fascismo se escondia.
Cortar na despesa?
Agora não, que a tenho tesa.
Vamos antes à receita,
essa mama que nos aleita.
Ano após ano se repete,
andares algemado, de barrete,
vota, vota, em quem promete,
ouvir-te à ponta do cacetete.
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Canto I
Canto de meu Amor profundo
Que clama de meu interior
E se expande no céu, semeando côr
Pois foi o meu Amor que criou o Mundo
Não ouves, tu também, esse clamor
Que se ergue do húmus fecundo
que arde com todo o seu fulgor
O Tempo inteiro, segundo a secundo?
Assumo a Terra que em salto é montanha
Recordo o solo do vale, a extensão plana
Sou a chuva que a terra apanha
o calor que o chão emana
Revolta e oxigenada, leve e ufana,
sinto a terra que o lavrador amanha
não se abandona ao vento colheita insana
pois conquanto o lavrador a terra detenha
Queria pintar, cantar, dançar,
a sabedoria do universo esculpir
pois o amor que m'obriga a este amar
esconde-se na origem e no caminho para o porvir
Quantas epifanias tive que reprimir
Me foram semeando no caminho de meu lar
Na imensidão que cancelei exprimir
sobrou-me a ideia que tive de calar
É esse o amor porque luto e busco
so raiar do dia ao lusco fusco
e à noite consciencializo até despertar
Para no dia seguinte recomeçar
Esse amor é minha concha, fôra eu molusco
São as pegadas que teimo em largar
É o trilho no qual me propus caminhar
no qual tropeço e me lanço, brusco
E quando me perguntam de meu amor
porque me perco, só, no escuro
por vezes em angustiado estertor
são meus pesadelos que esconjuro
Alvo, ao peito, esse amor trago,
candeia interior cuja luz me guia
calor, conforto, mar, rio, lago.
a caverna matricial que se alumia
Meu amor posto no alvo que atingia,
que pulsando me vai mostrando a via
e, que me afastando me encontro aziago
desembocando no mundo tão complexo como vago.
E questionam: «mas que amor é esse?»
que te traz preso, contudo, liberto
porque choras, se tudo te pertence?
- É como se o livro da Vida eu lesse
Como se tudo me aparecesse limpo e aberto
como acção da verdade, que tudo vence
Por meu amor, ganho e perdido em guerra
atravesso oceanos na noite pejada de sonho
suspiro, quando percorro toda a Terra
pois é nesse amor que meu sonho ponho
E é sonhá-lo como quem chora, como quem berra
aos quatro ventos a razão de seu sentir
revê-lo certo que, decerto, também erra
choro quando por vezes me vês sorrir.
E ver-me arrancado essa parte de mim
intrínseca à apreensão da Realidade
durante anos afastado de seu fim
negada que me foi a sua amabilidade
Como não almejar sua presença, assim
Como não me rever na sua identidade?
Acaso não floresço como jasmim?
Reencontro-te passeando pelo campo ou na cidade
O meu amor é alcançar eese píncaro, o Belo
É ter arte para com arte amar a arte
Altura será de tosquiar meu velo
e doar de minha viagem como quem reparte
Meu amor, não quero tê-lo, quero sê-lo
quero todo, não me contenta apenas parte
é meu amor que derrete das calotas, o gelo
a água doce que, fresca, quero dar-te
Procurei pelo cosmos o que me era interno
Como não admitir, sendo o mais correcto,
criamos nós o nosso próprio Inferno
conquanto não seguimos nosso repto
É como buscar calor saindo à neve, no Inverno
abandonando a rubra lareira, o aconchego
como se, vendo, fosse cego
esperando que o frio opressor seja terno
Canto meu amor desolado
que me tenho quedado afastado
Canto igualmente reclamá-lo
reconquistá-lo, recomeçá-lo
Canto contando que mesmo tremendo,
meu caminho não vendo.
Que não me rendo
só a tua voz atendo.
Este amor, persegui-o por páginas por escrever
nos finos pontos de suaves fibras têxteis
pesqei-o no oceano, para o lado do poente
busquei-o nos olhos de toda a gente
no som, no tom, de instrumentos sensíveis
nas telas dos mestres que me não viram nascer
Seu cerne explorei, múltiplas matérias
no barro que se molda com amor e dedos
no metal forjado e recozido, suas asas oxidadas
nas composições musicais mais diversificadas
nas plantas e animais, busquei-o na origem dos medos
entrevi-o medindo distâncias entre estrelas e bactérias
Na terna macia madeira cujo formão impede fender
no toque da pedra , minerais indescritíveis
nas gemas virgens reflexos das sinapses na mente
nas taias migratórias que se alteram milimetricamente
nos momentos regados de belezas inimagináveis
nos saltimbancos fotões do alvorecer
Deste amor, confesso, não faço férias
a ele são alheios todos os degredos
submetem-se a ele todas as coisas inventadas
as aves compõe-lhe árias e, das copas, ofertadas
substituem o assobio das folhas e segredos
encontro-o em frases idiotas e acções sérias
Sei-o vivo junto a mim, esse amor
não sabes já de seu nome?
Não o vês ao acordar?
Não o sentes quando adormeces sem pensar?
Este amor tudo consome
E ele é a semente oculta intrínseca do louvor.
Essa a musa que dos confins do cosmos me fita
ressoando como corda de guitarra
minha essência como um espelho
esse amor me guia de criança a velho
canto-o como ave e não cigarra
amor fecundo de beleza infinita
Que clama de meu interior
E se expande no céu, semeando côr
Pois foi o meu Amor que criou o Mundo
Não ouves, tu também, esse clamor
Que se ergue do húmus fecundo
que arde com todo o seu fulgor
O Tempo inteiro, segundo a secundo?
Assumo a Terra que em salto é montanha
Recordo o solo do vale, a extensão plana
Sou a chuva que a terra apanha
o calor que o chão emana
Revolta e oxigenada, leve e ufana,
sinto a terra que o lavrador amanha
não se abandona ao vento colheita insana
pois conquanto o lavrador a terra detenha
Queria pintar, cantar, dançar,
a sabedoria do universo esculpir
pois o amor que m'obriga a este amar
esconde-se na origem e no caminho para o porvir
Quantas epifanias tive que reprimir
Me foram semeando no caminho de meu lar
Na imensidão que cancelei exprimir
sobrou-me a ideia que tive de calar
É esse o amor porque luto e busco
so raiar do dia ao lusco fusco
e à noite consciencializo até despertar
Para no dia seguinte recomeçar
Esse amor é minha concha, fôra eu molusco
São as pegadas que teimo em largar
É o trilho no qual me propus caminhar
no qual tropeço e me lanço, brusco
E quando me perguntam de meu amor
porque me perco, só, no escuro
por vezes em angustiado estertor
são meus pesadelos que esconjuro
Alvo, ao peito, esse amor trago,
candeia interior cuja luz me guia
calor, conforto, mar, rio, lago.
a caverna matricial que se alumia
Meu amor posto no alvo que atingia,
que pulsando me vai mostrando a via
e, que me afastando me encontro aziago
desembocando no mundo tão complexo como vago.
E questionam: «mas que amor é esse?»
que te traz preso, contudo, liberto
porque choras, se tudo te pertence?
- É como se o livro da Vida eu lesse
Como se tudo me aparecesse limpo e aberto
como acção da verdade, que tudo vence
Por meu amor, ganho e perdido em guerra
atravesso oceanos na noite pejada de sonho
suspiro, quando percorro toda a Terra
pois é nesse amor que meu sonho ponho
E é sonhá-lo como quem chora, como quem berra
aos quatro ventos a razão de seu sentir
revê-lo certo que, decerto, também erra
choro quando por vezes me vês sorrir.
E ver-me arrancado essa parte de mim
intrínseca à apreensão da Realidade
durante anos afastado de seu fim
negada que me foi a sua amabilidade
Como não almejar sua presença, assim
Como não me rever na sua identidade?
Acaso não floresço como jasmim?
Reencontro-te passeando pelo campo ou na cidade
O meu amor é alcançar eese píncaro, o Belo
É ter arte para com arte amar a arte
Altura será de tosquiar meu velo
e doar de minha viagem como quem reparte
Meu amor, não quero tê-lo, quero sê-lo
quero todo, não me contenta apenas parte
é meu amor que derrete das calotas, o gelo
a água doce que, fresca, quero dar-te
Procurei pelo cosmos o que me era interno
Como não admitir, sendo o mais correcto,
criamos nós o nosso próprio Inferno
conquanto não seguimos nosso repto
É como buscar calor saindo à neve, no Inverno
abandonando a rubra lareira, o aconchego
como se, vendo, fosse cego
esperando que o frio opressor seja terno
Canto meu amor desolado
que me tenho quedado afastado
Canto igualmente reclamá-lo
reconquistá-lo, recomeçá-lo
Canto contando que mesmo tremendo,
meu caminho não vendo.
Que não me rendo
só a tua voz atendo.
Este amor, persegui-o por páginas por escrever
nos finos pontos de suaves fibras têxteis
pesqei-o no oceano, para o lado do poente
busquei-o nos olhos de toda a gente
no som, no tom, de instrumentos sensíveis
nas telas dos mestres que me não viram nascer
Seu cerne explorei, múltiplas matérias
no barro que se molda com amor e dedos
no metal forjado e recozido, suas asas oxidadas
nas composições musicais mais diversificadas
nas plantas e animais, busquei-o na origem dos medos
entrevi-o medindo distâncias entre estrelas e bactérias
Na terna macia madeira cujo formão impede fender
no toque da pedra , minerais indescritíveis
nas gemas virgens reflexos das sinapses na mente
nas taias migratórias que se alteram milimetricamente
nos momentos regados de belezas inimagináveis
nos saltimbancos fotões do alvorecer
Deste amor, confesso, não faço férias
a ele são alheios todos os degredos
submetem-se a ele todas as coisas inventadas
as aves compõe-lhe árias e, das copas, ofertadas
substituem o assobio das folhas e segredos
encontro-o em frases idiotas e acções sérias
Sei-o vivo junto a mim, esse amor
não sabes já de seu nome?
Não o vês ao acordar?
Não o sentes quando adormeces sem pensar?
Este amor tudo consome
E ele é a semente oculta intrínseca do louvor.
Essa a musa que dos confins do cosmos me fita
ressoando como corda de guitarra
minha essência como um espelho
esse amor me guia de criança a velho
canto-o como ave e não cigarra
amor fecundo de beleza infinita
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