( o presente texto foi publicado em 2006 e reencontrado, saudosamente, em 2012. Não sei se por ser o fim do mundo, as coisas voltam à superfície, ou de ser à força do acentuado envelhecimento da sociedade portuguesa, coisa a que tenho estado atento, por também em mim notar esse envelhecimento, eu, que não estando de pés para a cova, também não me dirijo, precisamente, para as papinhas e fraldinhas da minha infância interna.)
Pois é... Já não nos bastava pagar durante toda uma vida, no nosso país até depois de mortos nos querem ver o fundo dos bolsos. Devido à falta de espaço na maioria dos cemitérios, optou-se por uma nova modalidade... Em vez de se comprar a campa (nada barata, por sinal), agora o espaço aluga-se, também a bom preço. Resta saber o que acontece a quem tiver a renda em atraso...
Inicia-se então a especulação mortuária, num país onde a falta de rendimento impera, e a imaginação por vezes, abunda. Lotes em leilão, por certo...corram enquanto há, não tempo, que esse é eterno, mas espaço, que falta.
Já a pensar no futuro, procuro campa em duplex T6, com piscina e jacuzzi, sala ampla, aspiração centralizada, canalização completa aquecida a painel solar, TV Cabo e ligação à internet, numa zona tranquila com boas acessibilidades. Preferencialmente com vista para o mar. A cozinha pode ser em pinho nórdico, mogno ou carvalho, também não me importo se for em cerejeira. Tem de ter porteira e o condomínio não deve ser entregue a privados, desde já me candidato para prover do talhão que me caiba em sorteio, afim de nunca termos problemáticas com elevadores ou correspondência inedesejada...
Caso contrário, também posso ficar por aí...
Esta situação é muito boa para quem, como eu, não tem onde caír morto (é imortal), ou não possua rendimentos (vala comum). Também a cremação é uma opção, mas com o limite de emissões de dióxido de carbono, não sei se será sustentável.
As jarras podem conter peónias (que a jarra também se paga e qualquer dia deve ficar mais caro pôr flores de plástico compradas nos chineses, que flores recentemente arrancadas dos jardins vizinhos). Ou também roseiras bravas, que espinhos é algo que me pude habituar durante a minha existência vivo, e é algo de muito bom cheirar, decerto, durante a minha experiência post-mortem.
Também podemos esperar que uma andorinha cague uma semente que cresça e floresça, mas aí, duvido que possa escolher espécie ou até cor, preferida...
No nosso país até a morte está pela hora da morte.
domingo, 29 de julho de 2012
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