quarta-feira, 20 de julho de 2011

Desvaneço-me como a espuma do mar soprada contra as falésias da existência

Desvaneço-me como a espuma do mar soprada contra as falésias da existência, em suaves borrifos e salpicos que, quase tão etéreos como a atmosfera iodada que os circundam, plantam, ao de leve, a sua húmida realidade à nossa face imersa no horizonte ondulado. É, em leves manifestações que o mesmo se nos acerca e humidifica as faces enrubescidas, esse espirro molhado e salgado que nos acorda, despertos, ossos na areia dourada, derreendo no sol escaldante que seca e mumifica a vontade e empoeira o desejo, esse desejo de vida e grito, essa libertação ansiada, que se combate passo a passo, dia a dia, nos intervalos das noites pausa, respirações que se amnontoam no chão encerado, entabuado de pinho, suave e anelar, onde mariposas reais pousam suas leves e antenácias pernas enquanto sopra o vento por entre suas asas abertas, mas quedas. Aperta o leme nos escolhos semeados sem sentido pela vida que, de intempérie em intempérie, deixa, suspensas nas nuvens que antecedem tempestades, ou abrigadas nas profundezas abissais por onde se desenrola a alma das coisas, promessas de novas madrugadas onde o sol beija e não queima e o tempo passa e não corta os lábios de quem se dessedenta nos parcos fotões entre a brisa.
Rebolamos como restos de conchas bivalves, como búzios vazios, na praia-mar, alheios à vontade que animava o ser vivente, apenas se deixando transportar até à areia levemente banhada e o leito surdo do mar, embatendo nos pequenos seixos que outrora eram o nosso solo, fixo e férreo, como uma torre horizontal e orientalizante, que se espraiasse, em cúpulas e minaretes, oceano fora, trazendo à Europa montanhosa os ruidos das gaivotas cercando os botes carregados de peixe até aos dentes amarelecidos e prateados. Lembro-me dos chapeus que os aguadeiros marroquinos usam, e eu sou aqueles carmim berloques, suspensos como guizos nas orelhas das caprinas réstias de rebanhos mágicos de outrora. Outrora cantavam grilos na noite e equiparavam-se a cigarras pigarreando em concorrencia aos melros canoros e negros como corvos que rondam o halo da lua em noites despovoadas de estrelas. Pirilampos esvoaçavam em verde luminoso quase solar, torneando caniços envoltos em bruma nas margens das estradas esburacadas e em terra batida, circulando não rotundas, mas crateras nas quais, se debruçados, com cautela e emoção, às suas beiras rasgadas na terra, podemos observar, do outro longínquo lado banhado de imaginações subvertidas e inflexivas, os modelos de organização social dos koala e cangurus que, do outro fuso horário do mundo, penduram-se em eucaliptos ou saltitam entre arbustos ressequidos que apontam seus ramos despidos aos ceus de um intenso azul.
Esse desvanecimento é paralelo ou equiparável apenas à linha luminosa e vertendo cromáticas sensações diurnas e opusculares dos crespúculos incoerentes, silhueta oprimida sobre a cama atlântica pelo intenso negrume pesado da noctívaga presença que a persegue, tal como o último suspiro da noite, largando o último cantar da noite, sob o fogo intenso de vociferação suave e risonha, demonstrando a alegria inequívoca que cada novo dia oferece, alheio ao passado que se esconde nas trevas fugídias que a própria luz atravessa e desnuda, em fiapos que são como longos e finos dedos que tacteiam a escuridão, procurando por algo que possam salientar à luz de suas ciências, interpretando as suas essências, as quais se qproveitam desses hiatos repletos de matéria insondável com a qual o cosmo controi os tijolos e colunas que o sustentam e carregam, sob as alçadas do Tempo e do espaço, até onde a eternidade de sua identidade sucumba ante a curiosidade de ser outro, de morrer e renascer de suas cinzas apocalípticas e originais, repetindo os iniciais momentos da criação original de sua alma e mistério, a todo o instante, em intervalos de incontáveis milénios, para que nada sobre, na memória, de tantos e variados recomeços e soluções dicotómicas, fruto das encruzilhadas miraculosas envoltas nas miragens que bebemos nos desertos arenosos, azul e dourados, do Universo.
Desvaneço-me, então, como pingos de chuva salivando sobre o rio, como reflexos entrecortados de vidas em espelhos cujos cacos abandonados em chão negro e triste repartem, em mil pedaços, as faces que escondemos de nossas existências internas, secretas e eternas como o caminho diabólico da Terra envolvendo o sol com seus laços verdes e vivos, ou as diatribes dos que devaneiam, em alfabetos estranhos e aritméticas antigas, as teorias que nos testam a compreensão, pela sua singela execução, dispersoas em equações que o Homem, ao longo de sua história tantas vezes desconhecida, pintou entre salões e cavernas, ocultos sobre rochas mitificadas, escritos nos mais diversos suportes rijos e moles, papiros, argilas e papel documental, entre portulanos de representação geográfica do planeta e mapas mentais para que não se perca entre demónios no mundo que os espíritos animam, já aqui entretecido e interligados, tão perto que sentimos seu bafejar quente e amargo, que obsta ao doce que exalamos, atentos ao que deixamos perdido, alimentando-se das energias que nos envolvem, mesmo que nos alheemos deles, tão presentes na nossa vida, enfim, como o café que, esfumando, cálido, saboreamos na manhã fria, enquanto nos aquece as pontas enregeladas das mãos presas a seu cálice como à vida.

domingo, 17 de julho de 2011

O despertador está farto de tocar e tu ainda não acordaste?

Ao ver passar, pela rua asfaltada, um Jaguar rugindo, subindo enquanto ronca, deixando no ar o ronco com cheiro a gasóleo fresco, estaco. Logo observo, semicerradamente e quase lacriemjante, uma criança que me firta.
Está sentada, desnuda, a boca aberta, escancarada com a fome do mundo, uma caverna insaciável, aleia às moscas que dançam em frente a seus lábios gretados, de seca, de fraqueza, as moscas pousam no seu nariz e ele não tem já força ou vontade de as enxotar, deixa-as morder, comer, sugar, depositam os seus ovos sobre as orelhas feridas e cujas crostas não se fecham, raspando na areia do chão, enquanto adormece, desvanecido. Seus olhos vazios, fixam-me, não sei se pensando em mim como miragem, carrasco ou salvador. Não sei, pois vácuos de sentido de uma vida que sabe tanto a morte, como definir o ambiente entrecortado de guerra e pilhagens, de violações, quantos de seus irmãos não morreram de arma em punho? Quantos não feneceram, desnutridos ou sequiosos, enquanto te resfatelas numa poltrona em esplanadas arejadas e confortáveis, de música sugerindo paraísos balneares, quantas vezes não largas maquias para adquirir sapatinhos, vestidinhos, malinhas e outros trastes e inutilidades, quanto desse valor não poderia ser melhor aproveitado em agricultura, saneamento básico, educação, apoio a empresas, onde não existem. Até quando a apropriação de propriedade comum pelos privados interesses de grandes companhias, que arrendam, a seu belprazer, por quanto querrem e para que seja feito o que querem, quantos diamantes não sangram no teu pescoço? Nos teus dedos? E como regular esse especulador bastardo que adultera o mercado de alimentação e bens vitais e essenciais, para obterem lucros desmedidos, retiram a comida da boca de crianças como esta, que não choram lágrimas mas apenas o sal, o sol e a fome, o solo pobre e abandonado, seco e gretado, não será esta criança a maior vítima da corrupção do estado, do comportamento bolsístico ou das preferências dos comsumidores de uma nação estranha e longínqua que, mal desconfiando, contribuem quotidianamente para a construção desta sociedade, quer pelo seu trabalho, quer pelo seu consumo, alheios aos tentáculos que debaixo da superfície das coisas as tolhem e colhem. Não sentes esse vórtice desumano que tem guiado a Humanidade nos últimos anos, não reparas como em tantos estágios da nossa vida ainda estamos no neolítico, orfãos do séc. XVIII, perdidos do séc. XX? Não reparas na poluição negra que te asfixia, na cegueira do consumo que te controla e aprisiona, que dita à tua vontade o que lhe apraz vender esta semana? Enquanto exploram massivamente, irresponsavel e irreflectidamente os recursos do planeta, castram a verdadeira acepção de ser humano, matem e esclavizam a vontade, a imaginação, a identidade, formatando rebanhamente a massa amorfa e débil, como gado, avançando para uma abismo insondável e irreparável... até quando te vais deixar guiar por cegos e dementes, qua não respeitam a chama que nos anima r nos faz querer, sonhar, pensar e construir um mundo melhor, que nos mereça e cultive, que nos acarinhe e proteja, qua não nos molde e transforme em ciborgues desprovidos de emoções, buscando apenas sensações efémeras e selvagens, somos também frutos dos nossos desejos. O que preferes tu? Viver no meio de um luxo transitório ou construir um mundo justo e sem fome, um mundo onde a Humanidade se reinvente, evolua e apadrinhe a diversidade como essencial ao desenvolvimento da nossa realidade. Olha o despertador... Há quanto tempo não toca? Duas, três, cinco gerações? E tu, quando acordas para a vida que vieste aqui construir?

sábado, 16 de julho de 2011

Toca o clarim, mas não é para mim

A minha história com a tropa até teria graça se fosse coisa de rir. Mas não foi.
Primeiro que tudo, nunca quis ter 18 anos, porque tinha de ir dar o nome, gíria para que se tinha de apresentar na sua Junta de Freguesia para saber de meu fado. Na altura, nem pensai em objectar a consciência... ela estava mais que objectada, mas lá fui eu. Apresentei o adiamento de incorporação, respondendo com que idade pensava integrar nas Forças Armadas, engajado à força, lá para os 84, assim como assim, a essa altura já deveria estar vacinado. Teria de me apresentar (Olá, o meu nome é Não Tens Nada a Ver com Isso) no Quartel da Ajuda, por cima dos Lanceiros da Rainha, que é coisa que pica em determinada data a determinada hora sob risco e pena de fuzilamento, o que era de facto uma pena porque eu, geralmente, não fico lá muito bem fuzilado. E lá entrei, lembro-me agora como se tivesse sido há pouco. Se havia coisa que fizesse parar um quartel, à falta de uma loura mamalhuda a correr desnuda pela parada, teria sido eu. Em 1994, ou sensivelmente, cabelos longos, rastas e térérés com guizos e conchas, barba do tamanho da do Cristo, com uma indumentária impecável à laia de túnica e casaco marroquin, calça pata d'elefante e sandalita de cabedal, de bolsa em malha colorida, óculos de lentes arroxeadas dei logo nas vistas, por entre os capacetes brancos da PM e dos típicos timidos mancebos.
Fiz testes e mais testes, uns até bem mais psicadélicos do que eu estava à espera numa instituição militar, e, passado o termo da inspecção aos motores, saí para, durante uns bons anos, não mais voltar.
Mas chegou o tempo em que tive de embalar a trouxa e ir para o diabo que me Carregueira, bela serra, colada a Belas, para cerca de um mês de recruta.
A minha recruta foi uma autêntica colónia balnear, mas sem praia, passávamos o tempo a brincar ao Rei Manda (saltar p'rá frente, flexões, correr, marchar, aquelas coisas, quase sempre vestido de verde seco, o que era monótono). Logo pela manhã, após um providencial pequeno almoço, saíamos para a serra, correr pelos trilhos abertos a pé e bota, de calçãozinho paneleiro branco, camisolita refeira e ténis (sapatilhas de ballett, diria) para uma sessão de corrida matinal, seguida por uma rápida em segundos mudança de indumentária e caçar G3 depois dos gansos terem deixado o recinto ao redondel do armário e paiol quáquázando uns atrás dos outros, como nós, em formação e com a asa à bandoleiro. Exercícios de parada se seguiam, até à hora do rancho. Após deglutir as refeições gourmet em louça de Limoges e inox, havia sempre um tempinho para emborcar uns beirões da Beira Alta, ou uns moscateis de Setúbal na maré cheia, bebidas duplas que saíam mais baratas que a chuva. Logo mais exercícios com e sem arma e trólóló, o rei manda isto e aquilo, a torto, a direito, em ziguezague. Nunca tendo eu disparado armas de fogo, foi relutantemente que peguei numa oleada e carregada, para a testar. Em pé, de cócoras, sentado, a fazer o 4, a nadar crawl, a defecar, durante o pino, enfim, parecíamos uns origamis de coice esperado e má pontaria. Pude, no entanto, e sem pedir nada a ninguém diparar uma rajada, antes de flores, e pronto... a partir daí, armas, só facas de cozinha.
A minha tropa acabava às 16h, com banhinho quente e o resto da tarde a passarinhar, pelo bar, a tocar flauta na camarata (encantar a cobra), como dizia, entredentes.
Por vezes, acordavam-nos, noite cerrada e íamos brincar para o mato, sujos de lama e de baioneta e boca calada, jogar às escondidas e coisas assim. Subia sempre às árvores e gabo-me de nunca ter sido apanhado (ninguém olha para cima, é certo).
Ainda tive uma semana de campo, a limpar um forte em terra localizado em Sobral de Monte Agraço. Boa desculpa para banquetes à gaulesa, com direito a leitão e garrafões de tinto, uma balbúrdia campal com a ordem que caracteriza o Exército. Apenas tive um castigo, que acabou por ser fazer salame de chocolate e comê-lo a buer tintol.
Após o furamento da Bandeira (não pude jurar, fiquei com uma coisa presa nos dentes, fui alocado a Sacavém, nos adidos (ou fo), e colocado no melhor sítio para se estar na tropa fandanga, vulgo, o Bar...
Uma bebedeira pegada de cinco meses, foi o que foi, das 7 da matina até às 16... e trouxe dinheirinho comigo, prova que a minha gestão do estaminé deu resultados líquidos positivos. E ainda consegui tirar uma pic com o Batatinha e o Companhia, para a Lux, na Praça do Município, por onde passava para me ir aviar à R.do Arsenal, onde o atum e o bacalhau invade as narinas desavisadas com o seu marítimo e salgado odor.
Daquilo que me ficou destes tempos, foi uma ligeira síndrome de Tourette, que me tem sido impossível de extirpar, bater os pés e calcahares de maneira que se ouça além daquela coisa de andar com as mãos atrás das costas, à guarda Serôdio. A tropa, de facto, não foi, não é e não será para mim.
Contra os cabrões, marchar marchar

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Lisboa vista do rio

Aproximo-me de Lisboa pelo rio, observo-a subindo a calçada, basalto chovendo em padrões pelo calcário quebrado com mestria por cantoneiros experientes no uso e arte da pedra. Há na atmosfera uma promessa de algo que se pressente mas não se compreende, impresso nas malhas do tempo mítico, que falha aos segundos marcados digitalmente nos relógios de pulso que rebrilham, avessos à emoção que faz os nossos ponteiros galgarem as horas ou pararem os momentos, um misto de Passado, Presente e Futuro, esculpidos em sonho e rocha por amantes luxuriantes, banhando-se, com as Tágides por entre as colunas do cais, dançando com golfinhos luzidios e ninfas de cabelos negro esmeralda.
Lisboa cheira a mijo e a mar, a sardinhas assadas na grelha a carvão, sabe a Fado e a vinho branco fresquinho e traçado, cheira a roupa lavada no estendal, a pingar sobre as sardinheiras, sabe a rosas e cravos, cheira a ruelas caiadas, deixando o sol entar pelos reflexos nas paredes ajaneladas em guilhotina, umas rendadas, outras não, deixando no ar, suspenso, os poemas soltos no vento que enredemoinha as folhas dos plátanos. Lisboa canta a emoção do império ganho no mar e pedido na terra, chorando ainda as lágrimas daquilo que não fez, ainda se lembra dos autos de fé que queimavam almas no Terreiro do Paço, recorda-se de pestes e festas de casamento reais, da escravatura que trouxe de outras terras, entre canelas e tecidos. Lisboa cheira a caril e a jardins a apanhar sol, sabe a miradouros sobre a cidade emoldurada por entre buganvíleas e cachos arroxeados de flores exóticas, tacteia ainda o espaço que merece e lhe não é dado, nos seus prédios devolutos, de casca pintada ou a desfazer-se, como um diospiro esquecido no ramo, doce e suave, forte e erótico, carmim e perfumado, como um ocaso à beira rio.
Lisboa ainda vive, e na sua vida pululam almas que se encontram em esquinas da providência, nos largos, entre os pombos que debicam o que outrora foi milho ou pão, que se reencontra nas calçadas íngremes, nos páteos parados no tempo arrastado até ao presente, cheira a fartura e a miséria, sabe a mendigos sentados nas escadas da igreja e aos católicos, tão universais, que olham para o lado, que fingem não ver e fazem contas de cabeça a esticar ordenados desordenados, desirmanados até ao fim do ano, da vida, do mundo. Lisboa atravessada por avenidas de automóveis por onde antes corriam ribeiros para o Tejo, sabe ao peixe fresco dos avieiros, cheira às hortas de Loures, a alface, leve o seu odor, a limão e flor de laranjeira.
E sente-se no ar a promessa de ser mais que o universo, plasmada por entre as antigas colinas, que foram de deuses e de homens, pelas queias lutaram e morreram gerações de povos estranhos, lutando para não perecer, abrindo as portas de par em par para receber salvadores, escrevendo em si a sua história e escondendo-a em subterrâneos mal guardados pelo homem, mas protegidos pelas teias que o esquecimento tece, por cima dos quais caminham homens sem sentido, turistas maravilhados, por onde a História percorreu o seu caminho, sempre deixando de si uma lembrança, ora doce, ora amarga, com o qual avós de cabelo branco preso por negros ganchos contam aos netinhos, à hora da sesta, nas histórias de moiras encantadas, princesas tristes, cheias do esplendor que ainda se respiram nos palacetes antigos e de altos muros, estabelecendo as fronteiras entre a rua e os cosmos internos da cidade.
Lisboa é multicultural, nmas não cosmopolita, assim como uma vila exaltada a capital, ascendendo a uma cidade tímida, rasgando pouco o céu, optando pelo puzzle calejado da arqutectura histórica, suplantado pelos simetrismos pombalinos, a ordem arquitectada a toque de esquadro e compasso após um terramoto que ainda hoje causa calafrios a quem passa pelo Carmo, a quem olha no chão raso, o rio já aqui, a quem adivinha, sob seus pés, pilares de madeira seculares que sustentam a Baixa, enquanto as obras de toupeiras metropolitanas os não destroem e apodrecem. Lisboa cheira a sol e a podre, podre doce, de fruta caramelizada. Lisboa é lixo? Então venha mais desse lixo quente, que a não quero gélida e alemã, e não há pepinos que nos valham, nem tomates que não se fortaleçam pelos forcados amadores, Lisboa é nossa conquantop a não vendermos a quem quer cá vir, para lhes lavarmos os pés e as nádegas, com água de rosas ou malvas. Lisboa é assim, vista do rio...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Agricultor Inteligente e trovadoresco do vale da deusa dos equídeos alados- Take III

Como agricultor inteligente, podo com extremoso cuidado, envolvendo os tenros rebentos, aquecendo-os no forno alquímico, como se fossem gatos que, ronronando, se enroscam nas pernas depiladas e suaves de uma mulher ardente e provocante. Mas, essencialmente, deixo a vida do meu jardim crescer e iluminar as noites desavindas sem estrelas a apontar o caminho que a Lua traça na negra tela que se estende assim que o sol deixa de beijar as altas camadas da atmosfera, para os lados do Ocidente até ressurgir de novo, acendendo a manhã, como quem acorda de um sono revigorante.
E cada livro, gesto, cada flor, promessa, cada toque, sonho ou lágrima tangida pela face, salgada como o oceano que a reclama como sua, cada beijo libertado no éter ou pousado languidamente nos lábios carnudos e entreabertos, cada olhar repercutido e captado, instantaneamente em seu reflexo revela-se na sua essência, experiência única e indivisível, indescritível na capacidade opaca de análise utilizada cientificamente para descrever o azul e suas nuances, somando somaticamente, invariáveis frutos novos no meu coração expectante, que os recolhe em cama para que não se pisem.
Sou agricultor inteligente e canto meus versos aos pássaros que me acordam, pela manhã, em formação auditiva, pendurados nos ramos das árvores, ou atravessando em raios coloridos o ar à minha frente. São gentis e suaves como suas penas, delicadas pinceladas de cor e penugem, de um quente pulsar chilreante, de asas abertas à imaginação que nos invade como os fotões, que nos atravessa e transmorfiza, e descubro no seu trinado insistente os sonhos que não deixo fenecer e recordo.
Deixo-os, por vezes, em estufa, rodeados de atenção e cuidados oferecidos pelas fadas que dormem entre os arbustos, mimo-lhes aos ouvidos harmoniosas escalas flauteadas, melodias melífluas do rio gentil, que vai desembrulhando o seu destino, de calmo leito, até à foz que almeja. Também eu sou como o barco, que onduleia, chapinhando assaz bamboleante e ébrio de vida, levemente, que aporta nos cais vagos de minha história, concebida por deuses loucos e cruéis, e reconheço na face do barqueiro o rosto de quem eu sou, fui e serei, pois sou eu que rio e choro na nascente que dá origem ao rio, que aliso suas escarpas, correndo em gestos largos, lambendo as férteis margens onde me deito, na erva fresca que sou, levando aos lábios um assobio como fio de água cristalina, que se assoma como a nascente na serra pedregosa, suavidade nascendo da terra rugosa e como estrela trauteio ao vento uma canção esquecida, que sou eu como tu também.
E recosto-me na serra agreste banhada pelas formações nebulosas, onde se ouve a voz dura das rochas, seu granular entendimento, de quem observa o mundo, sempre em arco descendente, de quem já viu passar mais homens que humanidades, e ainda, perdido como os rebanhos que salpicam a erva verde, observa o sentido de uma vida sem sentido, sentindo-se, quebrada, como a verdade que almeja e persegue. A vida arqueia até se extinguir, e um som se despede, no suspiro último, para se perder.
Se vires por aí uma flor rasgando o asfalto, se ouvires uma canção trazida pelas ondas do mar, mas não vires sereia que a cante, uma flauta serrana no vento, se sentires ao virares as páginas brancas e caligrafadas de um livro que deixas escapar seu sentido, sabe que sou eu, no vento, no mar e na terra, no crepitar seco do fogo e da labareda bruxuleante e bailarina, a nuvem que sorri e pisca o olho, o perfume que nasce na Primavera para se desvanecer durante o Outono, eu que semeio e planto a vida que se estende a teus pés, passo a passo, no livro que, escrevendo, me coube viver.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Agricultor Inteligente e trovadoresco do vale da deusa dos equídeos alados- Take II

Sou eu, um Jardineiro inteligente, que aprendeu a apreciar a serenidade bucólica das paisagens campestres, polvilhadas de flores selvagens que guerreiam pacificamente pela conquista do sol e da água, trampolizando-se para o desconhecido assentes sobre seus caules verdes ou lenhosos, fui assim, criado e educado, para um mundo que ainda não existe, e assomam-se visões utópicas, profecias de bolas de cristal azulada e com toques de verde esmeralda. Semeio, aqui e acolá, em largos apontamentos e imprecisas pinceladas, o que brota além, rego essas sementes com amor, sendo chuva abençoada num ligeiro aspergir, quase goticular,, filtro o orvalho matinal com o coração aberto em dois gomos suculentos e verto a sua luminosa essência na terra que o beija. Por vezes, vejo crescer a alma do mundo, imperceptível, no topo das copas verdejantes que baloiçam, dançando , na brisa salgadas e quente do verão que se tarda a despedir, tímido quando atravessado por frentes mais frias que o desejável.
Vim de um vale, colhido e protegido nos alvores da serra, sobranceira ao mar e triangulei-me em terra de serpentes, de moiras encantadas e castelos invictos, fundados na rocha ígnea e imortal, no topo pedregoso e inóspito da sua crista altaneira. Vim de tão longe que olho para trás e já não me recordo onde e quando comecei, qual o meu primeiro passo, o que deu origem a todos os outros que me encaminharam até este ponto insondável no oceano que se confunde com o universo, espelho das realidades cósmicas que nos escapam, mesmo quando plantadas à nossa frente, nesta corrida para o porvir, frenética e insana com meta em nenhum lado particular, pois todo o espaço é comum e não pode ser obliterado na sua comunitária identidade, baseada no cerne segundo o qual, todos pertencemos è Terra e não podemos chamar de nossa, pois nos suplanta, antes e depois de nossa curta passagem por este jardim à beira cosmos semeado, iniciada eras atrás, neste pulsar cósmico e ardente que nos impele à vida, sendo como pedradas no charco formando ondas no Oceano, continuamente inspirado e aspirando, expirando suavemente, multiplicando-se em moléculas incontáveis, expandindo-se e extraindo à sua alma o cerne pelo qual se processam as vidas que se desenrolarão no futuro que não se depreende mais do que o virar de uma esquina de nevoeiro e bruma, tiquetaqueando no ouvido do Universo.
Não ajardino apenas paisagens naturais, nem tampouco apenas lavro superfícies surreais, ou lembranças de colinas lunares, saltitando de cratera em cratera, mas principalmente, adubo esferas mentais, acantonadas em canteiros e parcelas subdivididas ao Tempo, ao Espaço, ao teor lúbrico da fantasia irremediável e esculpida na matéria verve e solta que reside na origem do sonho, e onde as substâncias fisiológicas atracam nos repositórios hormonais, onde se depositam, por ordem de chegada aleatória, os pequenos quintais à sombra provençal, alcatifados em lavanda roxa e com o perfume aberto em bouquet intrigante. Observo o lento amadurecer de seus frutos, que pela eternidade vão deixando seu apelo intrínseco e imutável, sempre repetindo o chamado primordial da primeira cavidade de luz das auroras que mais ninguém vê, encadeando o Homem no apelo libertário, unânime e vero.
A enxada é a minha vontade indómita e frequentemente adestrada, amestrada, o arado, esse, voa à velocidade do pensamento. Recolho com o ancinho das lágrimas vertidas ou engolidas, as folhas de pensamentos débeis, de sonhos desfeitos, com defeitos e fruto de efeitos longitudinais ou rasantes, entre a realidade e o objecto que a questiona, na sua natureza e em relação a si, recordações perenes que baloiçam ao vento da memória, em luzinhas sonoras que blipam e me piscam os fusíveis à passagem assobiada, atapetando o chão fofo e ligeiramente seco, crocante, e libertando pela acção friccionante, em tons rubros e expansivos. Colo-as em partículas cristalinas, relembrando os perfumes da primavera passada e agora, no solo, pronta a metamorfosear-se em borboletas sem fim, lançadas em voo flagrante pelo opóbrio ruminante que lhe desgasta as asas apolíneas. Penduro-as na cidade adormecida, por entre mosaicos, azulejos, basaltos e calcários, demonstrando a história geológica do chão que piso, onde outros cospem, ou se deitam, em horas de pouco repouso.

domingo, 10 de julho de 2011

Agricultor Inteligente e trovadoresco do vale da deusa dos equídeos alados- Take I

Olá!:) Eu sou um agricultor inteligente e gosto de jardinar a terra, sulcar o mar e arar o céu.
Vivo num enorme jardim, numa verde e plácida moldura, mais bonita do que realmente é, vem-me o mar bater nos pés, beijando-os com a sua espuma salgada, enquanto ziguezagueia, interpenetrando-se numa albufeira que é como uma cabaça, de água fresca e cristalina, alma e coração das pequenas ribeiras que nascem da terra arenosa e calcária, de um azul tão profundo como o do horizonte, apenas atravessado por uma língua sinuosa de areia, lambida ao de leve pelas neblinas baixas que atravessam o mar, em vento suavizado pela orla dunar. Vejo a serra recortando o céu emplumado por nuvens lanudas e encaracoladas, e a lua mirando-se nos espelhos da água mansa e harmoniosamente texturada por correntes apenas adivinháveis.
Semeio de meu semear, num jardim de livros, onde flores bonitas e coloridas brotam, corajosas e cintilantes, estrelas bafejadas por sonhos imersos numa magia sem par. Por vezes também vão crescendo ervas daninhas, que se erguem para sombrear a existências das flores mais luminosas, outras vezes para as proteger das geadas, colhendo-as, de tempos a tempos, de forma que a selecção paisagística não se apresente demasiado infestante ou parasitária.
Planto aqui os sonhos que te vão ensinar a escrever e viver o teu livro, quando cresceres, lembrando-te de que o enredo és tu que os escolhes, que o vais desenhando e pintando, em cores de tua escolha, à medida que avanças nos capítulos da tua existência. Aqui estão todas as ideias que brotam das palavras sussurradas que semeiam aos ventos da vida, fruto dos homens que as amenizaram e descobriram, dos que pressentiram e tiveram o embrião de realidades futuras, reais ou virtuais, pois que a ficção entrelaça-se na realidade que lhe empresta tantos motivos de divagação e explanação, incrementando visões idílicas que nos interpelam à consciencialização e introspecção, avaliando o nosso peso e dimensão relativizada com a Natureza, que no seu âmago e colo, nos amamenta e transporta, suave e imperceptivelmente pelo Universo radioso e intenso como o Infinito, banhado em névoas de gases raros e desconhecidos, atento ao nascimento das novas estrelas, sóis que irão fecundar os outros corpos, femininos perante a acção activa e fálica da natureza solar de suas entidades explosivas e quentes.
Aventuras de capa e espada, ilhas e tesouros, piratas e índios espalhando-se como cardumes pela planície primordial, o espaço longínquo modestamente povoado, debilmente explorado por imaginações ciclópicas, sonetos cantados por cordas tangidas de guitarras tocadas ao escuro, em becos recônditos da alma humana, equações complexas que explicam todos os determinismos do Universo e o intricado desenvolvimento e regulação da vida, estruturas geométricas planando pela História Universal, e o ímpeto humano à transformação da realidade e do planeta, outras vezes nem explicam coisa nenhuma, principalmente vazios de nada e são apenas alíneas soltas de teorias rabiscadas em brancos guardanapos de papel e toalhas de mesa de restaurante. Nuns choras, com outros ris, corres, alcanças, perdes-te e voltas-te a encontrar, nadando pelas páginas que viras, como folhas silvestres que se desprendem das árvores que nascem dos pensamentos elevados que o Homem lança à superfície granulada dos sonhos e dos ideais utópicos e sempre por realizar que cabe sempre a outros colher.
Por vezes, penso de como seria bom viver num bom livro, num que escrevesse com a verve e  tinta de quem tem sangue nas veias criativas, de acordo com minha vontade. As personagens, essas, seriam sempre aquelas que eram eu. Assim, quando visse o outro, sabia-o uma das minhas multifacetadas realidades e identidades, era eu, embora com outros sonhos e ideias, outra forma, outro sentir e pensar, e ao falar com ele, que era eu, falava comigo, que era sempre um outro mutável, e observávamos o mundo por esse prisma multicéfalo e tolerante perante as impressões captadas, capturadas como rezes que se perdem nas estepes levemente nevadas, como algo de manifestamente real... Os seus defeitos eram os meus mais obscuros temores e minhas qualidades complementando-se com as suas, suadas, num exercício puzzlístico e estilístico da maior relevância. Cada vez que me cruzasse comigo, diria: - Olá!:) e cantávamos uma canção mental de louvor à vida que nos tinha reunido.
O que gosto mesmo é de semear ideias nos corpos transpirados do sonho, cultivar áridas mentes e fertilizá-las pela apresentação de outras perspectivas e noções, que se escapam, por vezes, por entre os neocórtices concentrados nos sinais de perigo exterior, afim de se refugiarem no complexo reptiliano, que continua a dar cartas cá fora, travestidas de límbicas sensações e emoções, primatamente aquiescidas.
colher fisiologicamente retumbâncias glandulares, apenas retirando dessa terra etérea o que me permita viver na felicidade de combater desperdícios e abraçar a minha real maneira de ser, sem ter de olhar nos olhos da fome, vazios como a terra dilacerada com guerras, interpostas à vida e à razão, até à morte triste da imaginação que vai fenecendo a civilização, reservando para o Inverno futuro, o que me aqueça estômago, alma e mente, corpos inclusos na sua identidade sorridente e radiante, luminescente se semicerrares os olhos abertos às experiências que nos escapam à compreensão directa, cujos fundamentos se desvanecem ante a nossa curiosidade de os desvendar, como explorações inéditas e pioneiras de territórios por mapear, circunscritos à densa e contudo, maleável e invisível teia de realidades unificadas num mesmo fio e trilho, acrescentado com pequenas contribuições exógenas. Não negar a quem passa a restauração de sua identidade, o preenchimento de seus mais selvagens e puros sonhos de conquista e liberdade, não negar a que passa à frente de meu lar, a vida que o vai levar, passo a passo, levantando ténue poeira, microscopicamente espalhada à mais pequena movimentação de sua base sedimentar e leve, dançando em voluptuosas colunas de mil pontos opacos à luz.
Este livro que lavro a sonhar, de pena revolvendo-se nos dedos preênsis, o mais importante são as crianças, pois todas são estrelas que nascem no útero negro da anti-matéria, negra e brumosa, E seriam acarinhadas, amadas, apoiadas e cultivadas para o zénite humano, apontando à genialidade inerente em cada um, desenvolvendo os dons que natos receberam, sem saber porquê, mas com a missão de os manifestar e aprimorar, pela sua acção darem relevo e importância a aspectos que atravessamos quotidianamente sem avaliar a sua verdadeira importância e significado. O mais importante eram os avós das crianças, seus ascendentes e antepassados, escurecidos pela ténue mas invariável e incontornável teia do tempo passado, frutos de uma vida de conquista face a tremendas adversidades, vingando por sua completa e interior vontade e preserverança, um dia de cada vez até almejar tocar ao de leve na imortalidade que nos une a todos na cadeia notoriamente arquitectada da Existência múltipla de miríades de unidades homogeneizadas num único ser que as engloba e nutre, bebendo nós do alvo e lácteo sustento que nos rodeia na sua omnipresença.
O mais importante eram ainda os netos dessas crianças, promessas de vida a romper pela abstracção nebulosa que o futuro nos atravessa à frente, qual muro ingalgável, após o qual ecoa a nossa identidade genética e astral, produzindo sempre novas discrepâncias e dicotomias que se apresentam na raiz do tempo a existir, após da nossa entrega as mãos e leis da Morte, rendidos a esse último e desejado suspiro, com o rebrilhar nos olhos de quem sabe que retorna nos próximos episódios. O mais importante era ainda todas as pessoas, jovens, adultos, maduros, verdes e rosé, homens e mulheres, de todas as compleições físicas e estatura estrutural variável, impressos em todas as cores e sabores, filosofias e religiões, que se entreajudavam e solidariamente se apoiavam e guiavam, amparavam e evoluíam juntos, como irmãos, sem se explorarem até à extinção de sua chama anímica, sem se magoarem (porque, afinal, todos eram eu) e ainda considerassem que o mais importante era viver numa terra não conspurcada, num oceano impoluto, respirando os ares revitalizantes das serranias e banhando-se nos tranquilos rios rejuvenescedores e usufruir da natureza, a sua fértil beleza, sua mãe e seu sempiterno amor, o céu limpo e cuidado, perfumado com todos os adocicados odores da vida, fresca, lânguida e sensual, a coreografia das brisas dispersas em redor, o mar dos corais multicolores e peixes escondidos nas profundezas abissais da escura possessão de Poseidon. Importante a terra profícua, o cuidar de seu jardim, sem extinguir as espécies pela pressão que exerce sobre os ecossistemas, por razões que não as naturais, escorraçando-as, perseguindo-as, caçando-as, matando, esfolando, estripando por um casaco ou um par de sapatos, ou a abjecta criação intensiva dos animais até à loucura, aspergindo um massacre sanguinário ao longo de prateleiras iluminadas.
Neste livro, a Humanidade era cultivada para desenvolver os seus dons inerentes e revelar a sua verdadeira natureza nas suas acções, palavras e pensamentos, fruto de uma canalização correcta do seu factor emocional, não cedendo aos desejos mais básicos e abraçando, enfim, o seu destino de ser consciente do Universo em Si, a Humanidade seria Pandora, cumulada de todos os dons, merecedora dos bens adquiridos e dinamizando-se através dos eflúvios cósmicos que se desprendem da Via Láctea, no seu contínuo rodopiar através do Desconhecido, em torno do Sol Interno, almejava apenas a Paz e a Justiça, cultivando a harmonia, e as divergências eram resolvidas com um terno e fraterno abraço.
Tu também podes escolher o teu livro, escrever nele de tua justiça, levando à tua consideração os abruptos contactos que estabeleces com a realidade das coisas no seu fluir interminável e elíptico, espiralando pela eternidade. Fá-lo melhor que eu…

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Orfeu enquanto rebola na cama sem adormecer

Considerando a tépida realidade que nos aprisiona nas suas teias dissimuladas, entre as névoas, sólidas como altos muros de castelos inexpugnáveis de costas inexploradas, que avançam, avassaladoramente, dedilhando nas cordas da garganta perfilada que se abre em desfiladeiro escarpado e selvagem, num torpor lânguido, húmido e frio, recolhendo no seu manto alvo, cor da neve antes de cair do céu, as primícias desta manhã ensonada, que acorda a custo entre o chilreio atento e azafamado dos tentilhões, que brincam, escondidos de olhares alheios, nas frondosas copas verdejantes dos pinheiros dançando no vento soprado de alma em riste, essa gélida e crua humanidade, feérica e gregária apenas vislumbrada nos momentos fatídicos das horas perscrutadas entre chapéus de palha balneares e a lufa lufa dos pescadores que desenterram do mar errático as íctias e prateadas refeições de estranhos sentados em mesas de esplanada viradas para o horizonte, fino e azul como um colibri que beija flores em doces lufadas ufanas e saudáveis, avermelhada a sua tez ensolarada e ébria de doirados fluidos, frescos e gaseificados, lembrando no seu topo branco as ondas que se esparsam no mar e os cumes apenas visitados por deuses e homens santos nas mais altas cadeias espinhosas das serranias lendárias, nascidas em tempos que os sonhos recordam em ambientes festivos e floridos, nascendo nas primaveras penduradas pelo cosmo arredondado e nunca antes navegado, sigo agora um trilho que escavei eu próprio, afirmando-o com a verve que pulsa nas minhas veias obstruídas de tanta mentira engolida, ostracizado jamais novamente, fechando os olhos e dormindo na posição em que der para adormecer.
Às vezes envio currículos em garrafas de vidro, pelo cosmo, e penso-me na Estação Espacial Europeia, por motivos diversos, creio que encaixava lá muito bem:
Primeiro, estou habituado a flutuar, e gosto de pintar o mundo em três largas pinceladas, apontamentos que inscrevo na ténue atmosfera dos sonhos das coisas. Depois, sou pessoa que não ocupa muito espaço, e capaz de dizer algumas piadas, no salão, para entreter ao serão com estrelas e luzinhas a piscar. Não sei pescar, mas ao que saiba, não há grandes cardumes em órbita, mas é maravilhoso o bailar das poeiras cósmicas iluminadas a reentrar na atmosfera, o perfume da Lua a submergir atrás da Terra, a sugestão dos cometas, que partem à aventura, guiados pela força de seus sonhos. Em ocasiões surpreendentes também posso carregar num ou noutro botão (só para ver o que dá), no entanto, acordo sempre devendo à vida mais do que a vida me deve a mim, pequeno rebento florido que acende a luz no mundo, nascido que fui para criar e indissociavelmente aplicar a Beleza transcendente que sinto brotar do Universo e atravessar a minha radiancia sensorial e espiritual, salpicada com as cores matizadas da Alma peregrina que percorre os trilhos que o Mundo escondeu, longe das estradas movimentadas, acima dos percursos migratórios das aves, sempre em redundantes viagens de exploração oceanográfica que preponderantemente sobrevoam serras mágicas e planícies de sonhos inexplicáveis.
Assim, e trauteando flautices várias, apontadas à noite que lentamente se espraia no horizaonte ainda submisso ao sol que parte, despedindo-se do dia e abençoando a noite, nu como a Lua, lentamente, cai a consciência sobre o sono rendido, e Orfeu adormece, sonhando com musas cantando loas à luz das harpas efémeras baloiçando na noite lisérgica, Eurídice aquiesce e sopra-lhe pétalas perfumadas de flores extinctas enquanto carinhosamente deixa entrever no beijo sussurrando: Boa noite.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

RESPOSTAS NA PONTA DA LÍNGUA II

Contributos para uma acção de desenraizamento sinestésico, apoiado numa noção de realidade virtual exequível, no interior perverso da realidade execrável que se nos apresenta, sem maquilhagem nem ida ao cabeleireiro, ou como diria uma pintora conhecida: «Tenho uma ferida no calo e não me Kahlo»… além disso estou convencido que a Nora Roberts tem uma oficina com um exército de imigrantes clandestinas filipinas que lhe escrevem os livros, e um jardineiro para as capas…


A primeira contribuição é nova, é fresca, é irreverente. E vai daí que se passa assim…


-O seu colega disse que havia o livro

- De facto, devia cá estar, mas não está, lamento, mas deveria ter sido confirmado,

-Então não está mas porquê?

- Acontece a mesma coisa com o meu subsídio de Natal, sabe… também deveria estar, mas não é esse o caso…


- Tem os livros daquela Nobel espanhola, a Sara Mago?- Momento dislexia


- Queria o «Almeida Garrett escrito pelo Frei Luis de Sousa? Momento Fringe


- Olhe, onde que eu apanho p’Almada? - A senhora apanha palmada onde quiser.- momento SadoMaso


- Eu ontem vi  uma senhora no autocarro que vinha a ler um livro muito bom, que eu espreitei e li um bocado, mas não sei qual é

- Lembrou-se de perguntar o título? – Não, Não queria abusar (ler os livros dos outros não é abuso?) - Olhe, e já tentou apanhar o mesmo autocarro, a ver se a vê outra vez?


- Tem os livros do José Gil?- Eu tenho alguns, mas ir e vir a casa ainda demora.


- Onde tem os livros do Nicholas Sparks? - Nós aqui só temos os nossos livros, os do sr Sparke estraão lá, na casa dele…


- Onde está o Lobo Antunes? - Provavelmente em casa a beber um chá de pé no chinelo, a afagar o gato e a ler o jornal, sei lá…


- Eu queria um livro…- Pena, nós aqui não temos livros, só frigoríficos e máquinas de lavar. Mercedes só no 1º andar. Livros, não, livre-nos Deus


- Este autor, sai muito - Olhe, não querendo ser inconfidente, sai sim, senhor, ainda ontem percorreu metade das tascas do Bairro Alto, vai para todo o lado, e como é pequenino, praticamente, ninguém nota nele


- Sabe se este livro é bom? - Com duas colheres de maionese marcha que é uma maravilha…


- Sabe se este autor é bom? - Isso, perdoe-me, mas terá de perguntar à digníssima esposa dele, que são informações que não me compete ventilar


- Sabe aquele livro que foi lançado ontem? – Não, minha senhora, mas não deve ter ido longe…


-Um jovem imberbe, cara de totó, óculos fundo de garrafa, buço acentuado, enverga t-shirt branca com patinho amarelo de borracha, daqueles do banho…

-Bom dia. Tem o livro do Engate?

- Glup! Sim

- Queria dois

-Vai precisar


Queria a edição original do Romeu e Julieta…

- Já tentou a Christie’s?


Não há melhor que o cliente que nos conta o enredo do livro, para ver se adivinhamos o título… não gostam?


- Tem livros sobre o Pinochet?

- Quem? O ditador? (Não se fosse dar o caso de ser sobre a bebida, há gente p’ra tudo…)

- Alegadamente…


- Pode-me embrulhar

- Com todo o gosto… deixe-me só colar umas folhas de embrulho…


TRRRing Drring

_ estou sim, boa tarde, trólóló, pardais ao ninho

- Podeia-me dizer o significado da palavra (x)?

- Desculpe?


TRRRing Drring

-É uma livraria, não é ?- Sim… - Então tem dicionários… - Sim. Pode dizer-me o significado?... suspiro… - olhe, sem olhar para nenhum, x é y. – Ah! Eu bem me parecia, mas é sempre melhor confirmar… obrigado. Cling!


- Boa tarde, trololo- Boa tarde, pode-me dizer qual é a hora da sessão do filme não sei o quê na sala 4? – Arroz de cabidela


- Olhe, é da (…)- Sim- Podia dizer aí aos seus vizinhos do lado que eu tinha uma marcação para arranjar as unhas agora às 17h, mas não posso estar aí…

- Claro, minha senhora, e de que editora é que pretende?



- Upa upa, isso é que foi dialogar entre gerações, sim senhor… E desafio que lanço é que alive and kicking é que é coisa de se ver, pergunte a quem quiser

Não perca a próxima contribuição… Será de se dar alvíssaras

quinta-feira, 30 de junho de 2011

7 horas nas Urgências para me mandarem comer espinafres

Espinafres e amendoins, pepinos e bróculos,ameixas e beterraba, cenoiras e menos tinto e loiras, coisas com muito ferro, como prego no pão,conta a má língua, visto tê-la saborosa, e saborosa é bom, mas não assim. (A carne é fraca, mas o molho é tão bom...). Tanto tempo para isto??? E que tal ver uma médica, que nem sabe falar português, diz brócólus e tábaco e outras pérolas aquém e além de qualquer acordo disortográfico, a ir cuscar ao Gugas a doença que tens? Dá cá uma segurança... E, mesmo assim, não ser capaz de te dar melhores informações do que aquelas que já sabias, faz-te pensar um pouco à cerca da qualidade dos serviços de saúde que se querem para este paízito... Numerus clausus durante anos, limites de inscrições para Medicina, para posteriormente recebermos a preço de saldo pseudo- médicos de 13 valores vindos sabe Deus de onde, saídos de que buraco, a escafiarem a nossa vida, armados em cagões... Sr Dr, se eu recebesse compensações remuneratórias como o senhor, não precisava que me tratasse, seu estupor, que andaria nas nuvens, sabe? Inventor..., não olhe para mim com essa faceta de superioridade só porque a doutora até é jeitosa, que podia ser sua sobrinha e não gosta de velhos lambareiros, mesmo que sejam Doutores, doutor.
Durante esse tempo li e dormi, andei, sentei-me e ressentei-me, ressenti-me da parca atenção prestada, bebi água, comi, enquanto esperava, pensei: «novo método de cura, ficamos tanto tempo à espera que até a doença passa, ou esquecemo-nos o que viemos ali fazer, em primeira análise... , ou morremos. Grande poupança para o SNS. Tudo o que não seja virose, é obra, que esta gente não sabe, está sempre tudo normal, e só se fosse filho deles ou de alguém que conhecessem, é que tinha direito a uma bateria de exames consentânea com o problema em causa e os impostos que pago... 15 € para 10 minutos de consulta médica, não é caro, é roubo...a não ser que paguemos também a espera, sem incluir cigarros.
Tirando isso, uma coisa é certa, ainda vamos todos ter de nos benzer a algum pai de santo, ou coisa que o valha, que médico é como padre, não podendo ter confiança e não há fé que aguente, cada um com a sua doutrina nem sempre bem estudada, é preciso é hóstias e comprimidos, que a saúde pública... vá comer urtigas, que faz bem à pele.

domingo, 26 de junho de 2011

Quando o calor nos aperta

Quando o calor nos bate à porta, invade as janelas e reflecte-se, em ondas tremeluzidas, das paredes caiadas, para a rua forrada a basalto, a vida torna-se pesada e há uma atmosfera quase irrespirável, ascendendo do solo sujo, passando pelas esquinas carregadas de urinas de diversa proveniência, deixando a pairar, no ar, uma atmosfera húmida e desnorteada, que custa a respirar e identificar.
Por vezes, sento-me, despido de roupa e preconceitos, à janela, ou no quintal, esperando que não haja nenhum satélite a recolher imagens. Não querendo chocar ninguém, há uma liberdade intrínseca e inseparável da nossa personalidade e consciência, que advém do facto de nos desnudarmos perante o mundo, mesmo quando escudados por um muro e algumas vedações mais ou menos eficazes, separando-nos das situações onde o nu público não é bem aceite socialmente.
Assim como caminho descalço pelos pinhais das redondezas, sempre atento às poupas e tentilhões, melros e outras aves que, das frondosas copas que me observam lentamente, ansiosos e curiosos, enquanto percorro os trilhos virgens ponteados de cogumelos que se acercam das clareiras abertas na floresta como fogueiras acesas nos céus, pingando sonhos na noite, medusas que semeiam luz pelas profundezas inóspitas dos abismos, sulcando através dos milénios, serpenteantes texturas que invadem os leitos ora abruptos, ora suaves, da geodesia submarina, sempre mutante e passivamente cambiando em estetoscópios alternativos e preponderantemente báricos.
Por vezes, esse calor empresta uma determinada capacidade em que a estupidez natural ou adquirida artificialmente em experiência ganha relevo nas pessoas que circulam em nosso redor, atraídos por magnetos invisíveis e incondicionalmente involuntários, como se nos obrigassem todas as existências frustradas da realidade a obedecermos cegamente aos seus diatribes, exigências, pancadas e opiniões.
Hoje está calor e só me apetece é suar. Queres suar comigo? Perguntava a quem passava, entre as brisas cálidas que anunciavam o crepúsculo regenerador, sem ao menos obter um débil e ténue sorriso, que aligeirasse a noção de invisibilidade que nos cerca, numa muralha impenetrável, na qual a falta de cultura e educação se unem numa parceria ignóbil, com a arrogância inata de quem devia comer abrunhos na boca e não abrunhos com a dita. A mesma resposta, a mesma imanência derrotada, o mesmo esvair dos olhos, como quem cai como anjo nas teias gelatinosas e aderentes da miopia, da inutilidade e da fraca desculpa para existir, pois não há razão ou justificação para se ser assim, com ou sem calor que nos valha.
Haja calor, e que ele não derreta os poucos neurónios dos muitos que por aí andam…

sábado, 25 de junho de 2011

Entre falésias litoralgrafadas na memória de tempos d'outrora desavindos com os d'agora

No protocolo submisso e inerente de uma tarde saturnina, sacudo do capote veraneante o pó seco e invasor que, afundando-se no horizonte líquido e plácido oceânico, transportado pelo vento que sopra longe, levantando as saias marotas e sem lagarto das moçoilas trigueiras que vão na carroça dos poetas e amantes, levar à praia dourada e tórrida as suas presenças entre risinhos nervosos e sussurros, emprestando cores garridas que borboleteiam entre as dunas e os passadiços de madeira tratada salinamente entre as madrugadas e o romper da aurora anunciada pelos melros chilreando, ainda a madrugada avança, pé ante pé, meias de lã e baioneta calada, envolvida no lusco-fusco que a pretende negar, mas não alcança o seu objectivo.
Nos seus cabelos, ondulantes como o mar espumoso e incansável, repousam negros ganchos, lenços atados sob o queixo, e as madeixas brincam por entre os sorrisos, rebeldes como a brisa que os desalinha, verdadeiros como o marfim de seus dentes apontados ao mar. Descendo a ravina pedregosa e barrenta, por entre pequenas cataratas de água adocicada e fresca, entre o escorregando e o rebolando sobre os seixos soltos na rampa tortuosa, por vezes agarrando-se tenazmente aos arbustos bem enraizados na estrutura róchea e arenosa pontilhada de flores brancas, amarelas, outras azuis ou roxas. Sem arranharem sua tez cuidada e trigueira, alcançam a suave orla, baía orfíaca que hipnotiza os navios para seus escolhos mansos mas tão dissimulados como perigosos e sub-reptícios, sofrendo como se uma timidez inconstante em função das marés, resultasse em permanente ressalto das ondas em arco, nos seus dóceis lombos, pejados de moluscos molhados e salgados, aguardando algum intrépido que desafie o mar transparente e frio e os cace, sem correr muito, nas pequenas poças escavadas pela erosão dos milénios, onde descansam entre tocas de caranguejo e ouriços do mar.
Eram estrelas, dessas, que do céu se despedem, caindo em rodopio, até ao mar, e onde se fixam, na superfície subcutânea de seu leito imperscrutável e escuro, iluminando em reflexo pálido, as profundezas abissais que os sonhos povoam de luzes fantasmagóricas e seres luminescentes, quais pirilampos do mar, acendendo e apagando os semáforos aquando de qualquer incursão desavisada e surpresa.
Surpresas reservavam-nas essas cavernas secretas, que escavaram na rocha maleável as identidades cristalinas e multifacetadas que recuam aos tempos em que os jurássicos sáurios passeavam, assobiando para o lado, por entre as florestas laurissilvas já extintas, que ainda nos restam alguns embotados neurónios, perfazendo a ligação sináptica que os une, local de refúgio de criaturas mágicas e tão esquecidas como invisíveis aos habitantes da superfície, cegos para realidades que lhes escapam como água límpida por entre negros dedos.
Ressoam ainda, nas memórias lentas dos idosos da aldeia, aspectos e circuitos lendários, onde se cruzam histórias de piratas mouros, um ou outro cruel drakkar perdido, ou a aportagem à costa dos navios atlantes que fugiam do derradeiro cataclismo. Contam ainda, em noites de fogueira acesa e amena cavaqueira regada a garrafão, que moiras encantadas ainda correm, meio desnudas, meio vestidas com túnicas que se transparecem e dissolvem em dias de chuva intensa, ou voam, aquando das nortadas, como se, penduradas nos penhascos debruçados sobre a espuma do mar, ajudassem a força das marés a derrubar estes Golias que esculpem a costa como poetas românticos escorrem a pena cansada no papiro sedento do negro perfumado da tinta.
Assim como assim, diziam, entredentes, as jovens que passeavam, perfumadas e vistosas, enquanto observavam os mergulhões que afunilavam, descendentes, chapeando alegre e violentamente sobre os cardumes inocentes e distraídos, logo se elevando, com fitas prateadas tremelicando, largando gotas de sal líquido, chovendo-as como em breve despedida: «mesmo quando não há nada a dizer ainda muito se pode escrever.»

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Respostas na Ponta da Língua- Parte I

Singelas contribuições de um Livreiro XYZ para usufruto e gáudio da Srª Drª Engª Arqª Paisagista, Juíza Desembargadora da Comarca dos Algarves de Além e Aquém-Mar.

Os presentes excertos são fruto de uma árvore que continua a produzir, com sementes, pérolas, o que não faz da árvore ostra por causa disso.

Denominadamente «Resposta na Ponta da Língua» é um mecanismo de apoio à cultura e parte da premissa verdadeira da má compreensão do funcionamento e fenómeno linguístico presente, seguido por um manual de terminologia técnica tão cara ao livreiro actual e moderno.

Parto do princípio, e este não está inserido propriamente no tema que a Livreira explora, de já lhe terem colocado as perguntas abaixo, que é o que intitulo Fenomenologia do café…

- O senhor, é café?
- Não. Sou, neste caso, Livreiro XYZ, ainda pensei em tirar o curso, mas as vagas estavam torradas…
Ou
- O café é normal?
- Porquê? Tem cafés malucos?

Assim, passemos ao assunto propriamente dito, em causa, voltando à vaca fria, antes que aqueça…

- Terminologias de apoio à gestão do conhecimento, tendo por base a Física iónica:

O livreiro português necessita de homologar e uniformizar o se vocabulário, mais ou menos da maneira proposta abaixo:

O livreiro, quando na base de dados, denominado como Portal (aposta New Age esotérica para catálogo) não surge resposta à sua pesquisa, vai ao Cusco (Google), ou ao Wok, (tipo de frigideira oriental) afim de reunir melhores informações. Encontra o que quer, lê o Iene (porque o livreiro actualiza a sua informação bolsista com frequência) através do sacana (scanner) que é como o pirú, embora alguns sejam apenas malcriadões e fazem só beep.
Por vezes, devido ao processamento do computador ser ainda neolítico, o livreiro pode utilizar outras formas de proceder mais rapidamente à pesquisa pelo tamborilar dos dedos no balcão, ou através de uns pedais estrategicamente colocados, afim de emprestarem maior fluidez na comunicação intertétrica. Por vezes, chega a ser esotérmico o tempo de espera, o que pode salientar, observando, que a informação vem do Além. Carvão e outros combustíveis fósseis, pela má atmosfera que criam, tendem a ser suplantados por técnicas mais verdes e sustentáveis, como, por exemplo, o remo.
Quando o rato, inadvertidamente, cai do balcão, deixa de ser rato. Evoluiu para morcego.
Quando chega à parte final do processo, a venda,, o Livreiro experimenta uma técnica que só dá resultado atrás do balcão. Quando o livreiro pede dinheiro (e passamos dias a fazê-lo, e as pessoas, ainda por cima, dão) Se, no exterior, o tentar, poderá ouvir frases desagradáveis. E o livreiro ainda chega a ser inconveniente e demais curioso, pergunta se é para oferecer, se quer talão de troca, entre outras inconfidências e coscuvilhices afins, como, se pode facilitar o troco e perguntas inconvenientes do género..
Aceita-se actualmente quase todos os tipos de pagamento, apenas excluindo o pagamento em galinhas ou coelhos, por falta de espaço para os acomodar, mas por vezes, utilizando cartões bancários, pode-se pagar através de batata frita (chip), e se o pagamento demora a ser efectuado, pode-se sempre perguntar se as batatas são d’hoje, ou alegar-se que o óleo está a aquecer…

Quando o livreiro procura um livro, pode utilizar técnicas incomuns, nas quais o assobiar a ver se eles aparecem, ou fazer como o Roberto Benigni no filme «A Vida é Bela», para lhes chamar à atenção, aquele gesto digital em que os livros são hipnotizados e respondem, latindo, se estiverem bem amestrados.

Há livreiros que arrumam bem os livros com isqueiro, outros fazem um grande chiqueiro, outros há que deitam o cheiro de quem não vê chuveiro (eu gosto de rimar, não são observações pessoais sobre ninguém em particular.)

Em situações limite, o livreiro pode optar pela técnica de venda que nomeio como venda surpresa:
Após dedicar uma boa parte de hora a sugerir livros de inagualável valor literário, o cliente opta por escolher um entre dois ou três que não tinham sido incluídos no lote anteriormente exposto. Qualquer livreiro menos experiente poderia não achar piadinha nenhuma a que a sua opinião fosse tão mal aproveitada e poderia amuar, ou assim... Não poderá ser. Para evitar cair em excessos, a técnica passa por escrever os títulos nuns papelinhos, baralhar atrás das costas e pedir para que o cliente em causa escolha à sorte. Ofereça um livro com sorteio leva-nos a toda uma nova era de fazer comércio, no qual o elemento lúdico se envolve. E, se a clientela se dá bem assim, é o que interessa. Reclamações só aceito nos dias em que estou de folga.
E por falar na folga, é para lá que vou agora.

À prochainne, com outras aventuras

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Temos de começar a ser mais gregos, mais espanhois e menos capados

Tendo em consideração uma fulcral falta de ética de relação entre as diversas nações que perfilharam a Moeda Única, apenas quando o colosso franco-germânico se vê na iminência de arcar com as consequeências de uma política monetária mal estruturada, é que se decide acordar para a realidade crua dos factos, malhando à esquerda e à direita, pelo Sul afora, prestando contas a quem não sabe do dinheiro que não viu. Especula.
Se a Grécia viciou os dados durante anos, apresentando uma pílula dourada enquanto abusava da engenharia criativa financeira para tapar os buracos orçamentais, significa que a regulação tem falhado, fruto de uma teoria errada que afirma que o Mercado é o seu melhor regulamentador. Faccioso e inepto, este argumento que retira a democracia e o Direito ao cidadão para o colocar de bandeja nas mãos de investidores sem escrúpulos, que não querem perder o resultado das suas especulações, mesmo quando baseados em princípios de ódio e apelando ao incumprimento.
Desde o início, por uma estratégia de criar uma moeda forte, o marco marcou a sua posição alicerçada no seu valor cambial, sem precaver o crescimento futuro da moeda e impossibilitando o mesmo, Portugal, assim como outros países sofreram e sofrem, desde essa altura, as incongruências desta moeda, criada apenas para atestar a superioridade da europa central face à Europa do Sul, em vez de ter criado uma harmonização das divisas europeias, e alcançando um meio termo previamente acordado, exigiu assim uma moeda artificial, férrea e estéril, que não consegue ganhar competitividade face ao dólar, devido a estas assimetrias, criadas e mantidas durante estes anos. Em Portugal, como se tem visto, nada se tem ganho com esta moeda, e o mesmo pode ser comprovado quotidianamente, basta atentar ao que antes se fazia com 100 contos e o que hoje se faz com os mesmos 500€.
Enquanto o povo que trabalha não se unir, a nível europeu, asiático, americano, africano e se recusar globalmente a contribuir para uma sociedade que cospe neles, no seu trabalho, que maltrata seus pais e avós e espezinha os seus descendentes, continuaremos a rumar para um fascismo social cada vez mais exarcebado, assente na falocracia misógina e xenófoba, fruto de uma pseudo humanidade de cordel.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

No Camões com um prato de camarões

Como está bonita, hoje, sua montra, relampeja prados floridos em suaves nuances algodoríferas e singulares. Bons olhos a vejam, que meus são, e rebrilham de cada vez que o sol se ergue, detrás de Santa Luzia, de palmas levantada.
Ondina que sobe a calçada, de vontade fintada, por uma sílfide encantada.
As moiras, encantadas, no Castelo dançam, ocultas no halo que sopra, desde a aurora dos Tempos revela, que é por ela, que o rio beija marés no cais das Colunas.
Um Caminheiro arrepia caminho, entre o Carmo e a Trindade, bebe um copo com o Fernando, o Álvaro, ou o Bernardo, nunca sabe bem quem ele escolhe, a cada dia, hora ou estação, enquanto apreende o rumar dos navios no ressoar das gaivotas apresentando-se no rasgo de paisagem vertical.
Um pombo esvoaça e leva a carcaça, foi trapaça, foi trapaça.
No tom terra que sobressai das alvas matinas, coberta com a displicência do barro diluído na Luz que se espelha no Tejo, ergue-se a voz que elabora dos fados, trinados.
O Poeta, sentado sobre o horizonte diagonal de uma calçada, recorda a entrada, e sobre a caniçada ergue seu canto rouco e rompante do alto da estátua equestre mais próxima, ou saltita entre rinocerontes e elefantes, abraça seios marmóreos de ninfas e deidades e suspende, no fio límpido de uma linha, a realidade focal, como quem conta estrelas em noite de eclipse.
Pesquisar tua face na elipse de uma brisa galvanizadora que fura no trânsito, entre as postas azuis dos carros que se empurram na estrada, ziguezagueando por entre as copas floridas e os ramos que projectam as suas dóceis sombras na superfície do lago tranquilo, por onde cisnes da cor da madrugada limpam as asas e passeiam, indolentes, alheios aos barquinhos abandonados numa margem erma e sossegada, fruto da incúria e do desleixo.
Casais despem-se nas artérias pedonais movimentando-se numa dança pausada, sulcando a superfície com um rasto amarelo de azul.
Depois o sol encaminhou-se, lentamente, para o ocaso, e no último momento, antes de desaparecer, lá longe, após o Oceano que nos separa, guardou o último fotão e, sorrindo, disse:
- Vejo-te amanhã…

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ébanidae

Indubitavelmente, a conclusão do facto acercou-se-me como um abismo que se abre, rasgando céu e terra, engolindo a realidade aos ombros da sua singela certeza, e esse contexto reafirmou-se pela manhã, ao fresquinho, entre o chilreio beatífico dos melros e dois aros luminescentes, que sondavam sob a copa dos abetos, acordando os pequenos seres adormecidos na bruma orvalhada e perfumada, gotículas de luz líquida que dos ramos pendiam, em subtis e musgosos braços aquiescentes e silenciosos.
E se, porventura, a reacção pretendida não fora a seguida, invariável o ziguezaguear da consciência, furtando-se a adormecer, na passagem de um obstáculo material e pétreo, escavado na rocha ígnea que brotara, haviam milénios, da superfície conturbada do oceano, primeiro em explosões violentas, depois em suaves golfejos e pequenas porções dessa substância moldável pelo contacto com o frio, prenhes de substâncias secretas e bem escondidas no âmago magmático do planeta, induzido pela sua criatividade mineral e viva. Desconhecem-se ainda as intenções que esta consciência primeva constrói, pois que a capacidade de influenciar a manifestação de sua identidade na realidade, imprime o seu cunho pessoal, demonstrativo da vontade que o anima, e os desejos ambíguos do qual o ser se alimenta, na contínua luta que se desenrola no interior de todos os seres.
A vida de espermatozóide é tão absorvente que, após a fusão com o óvulo conquistado, permanentemente nada anda corre salta, constrói, pões pisca, tira pisca, move-se, caminha, sobe e desce, materializa no universo a rota e o trilho, e na duplicidade triunificada que o compõe, reconhecendo os elementos que em si se conjugam para realizar esse milagre orgânico e puro, e no entanto tão viral, como se a vida fosse contagiosa na sua proporção colonizadora do hospedeiro.
Daí o profícuo desenvolvimento humano acompanhado com a míriade de seres que a ele foi sobrevivendo, por inutilidade desprezo ou exploração, quando assente na ânsia conquistadora e baseando-se na relação competitiva entre si e entre os diversos entes que habitam o seu habitat natural, se torna em si parasitária, aniquilando ora lenta, ora rapidamente, o seu hospedeiro, inofensivo e incauto, evoluindo como uma teia que absorve a Luz e a Vida, espalhando uma quantidade esdrúxula de objectos fúteis e impertinentes, deixando no seu rasto o produto da sua replicação, uma cauda de lixos vários e insanos que reflectem os fotões que nos bombeiam, desde o sol, atravessando o cosmos desde que era ainda um pequeno caos.
Assim compreendi a razão do azul celeste ser mais leve que o de teus olhos, e o seu sabor, mais inefável que o sabor ceregino de teus quentes lábios, até porque não são cien os teus olhos, nem rubro teu beijar.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

BORDA FORA

Fizeram-se as contas e quem ganhou, já é…
De facto, estas eleições foram um passo importantíssimo para todos os desempregados de longa duração, calões e inertes, ineficientes, incompetentes e mentirosos.
Pois é… Pois que ganhou quem começou a trabalhar aos 40 anos, dando uma nova concepção ao «começar por baixo», como Administrador e Director de Empresas parasitárias do erário público, via um seu bom amigo e co-partidário. Já muitos de nós não conseguíamos passar tantos anos das nossas vidas sem sustento, tirando certas juventudes político-partidárias, em que o trabalho continua a sujar, a ser malvisto e, pior, mal pago, e é-o, pelo menos para o comum dos mortais que pensa pelo mérito chegar onde só a cunha possibilita de entrar..
Então o nosso novo PM, em vez de ir para o MacDonalds, como muito boa gente, não. Garante cargos directivos numa chusma de empresas e, em 4 anos de esforço hercúleo, atinge o poiso, tacho, poleiro, que cedo irá tomar posse, pois que não se pode deixar distrair. Ganhou a um outro valente trabalhador e engenheiro das obras feitas ou de Domingo, que não era mentiroso, como acima recorrentemente admiti, mas sim, optimista. E muito, tanto que passa por mentira as falas que atira.
O resultado não deixa dúvidas. Querem que eu me vá embora e não fazem a coisa por menos. É só fascistas no Parlamento na próxima legislatura. O patrão agradece. Já o trabalhador, esse, estremece, ou devia estremecer, pois, a não ser que espere recompensas por ter assinalado os partidos troikianos, há-de pagar bem caro pela sua votação e, vistas bem as coisas, mais cedo que tarde, vamos ser vendidos ao desbarato por estes democratas e pronto, mostram-nos com quantos paus se faz uma jangada e lá iremos nós, qual jangada de merda, oceano fora, até nos afogarmos completamente. Antes afogado no mar, que em dívidas, digo, porque prefiro os tubarões esqualos que os financeiros.
Por essas e por outras, ou como diz o boneco, «por motivos», alguns até posso confirmar, mais alheios que outros, já reuni pertences e presentes, paguei as contas e fechei as outras e comecei, desde já, a recolher garrafões de plástico de 5 litros para fazer de flutuadores, e juntar-lhes-ei, posteriormente, uns caniços e outros materiais lenhosos, para fazer de base à tenda modelo Huck Finn, assente sobre uma jangada a pedal (que o combustível está pela hora da morte) e c’est ça! Lá irei eu, pelo sunset, a ver se pesco qualquer coisinha, ou então ser arrebanhado por um arrastão espanhol com licença de pesca exclusiva nas nossas águas territoriais.
O resultado está à vista, a fuga de cérebros nos últimos anos tem sido tanta, que poucos cá ficaram para endireitar este país tão belo e com tanta gente de treta, tão bem fornecido de formosas donzelas como de aldrabões e pantomineiros.
E assim, que os deuses nos acudam, a nós, que a nós não nos acudimos- Novas Oportunidades à parte, como a salada, novas ou velhas serão as folhas das mesmas e os trapos, o percurso do senhor não é para todos e pelo exposto, não me admira a sua grandiloquente sobranceria, esse sodomizado, oferecendo enxadas a quem o manda trabalhar. Pudera, para o trabalho não se vai assim, e transparências só serão necessárias quando aos outros se apontam defeitos. Os deles, esses, «que faça muito com ele,» fdp, corno de e-coli, ou bactéria fecal, como quiserem.
Há-de o digníssimo vir ter comigo (34 anos, vê lá bem, que ainda consigo tirar o curso antes de ti, endrominador), 40 horas semanais multiplicadas por 10 anos (consegues ir tão longe a Matemática??? Olha que contar pelos dedos não conta, porque estás ainda habituado a chuchar neles, a partir d'agora, suga-nos a nós.) e sem saír da cêpa torta, sujo e mal pago, suado e com as pernas feitas em trolóró, que ainda tenho força nelas para, de uma só vez, arremeter em leilão de hasta pública um valente pontapé nos Tintins por Tintins.
Porco Pedante Chulo PPC P Passos Cu no joelho

sábado, 4 de junho de 2011

IN SU LAR

Ilhas somos todos nós, em nós mesmos e entre nós fluem oceanos de diversificadas origens e composições, em correntes líquidas multicromáticas com o único Destino de cercar as pequenas protuberâncias que riscam sua superfície aquosa e geralmente arranham quem por lá nade apenas com atenção à possível barbatana de tubarão ou migração do camarão.
Náufragos somos todos nós, deambulando por essas praias desertas, de areia branca e tão pura como sem rugas como as ondas com que os oceanos lambem as feridas da terra. Náufragos de nós mesmos, que nos perdemos e por vezes reencontramos, em fragmentos, que reconhecemos nos intentos dos outros, quando os outros são navios sem luzes e de bandeiras caladas, à noite dos escolhos afiados como dentes de lobos famintos, que caçam, lupinos, em matilhas uivantes na ponta esfarrapada do vento suão.
E as ilhas vão crescendo… aqui tu, ali a casa, acolá o bairro, ilhas fechadas sobre si e abertas ao universo como asas de qualquer estorninho que, devagarinho, canta timidamente (mal parece) a Primavera que lhe corre nas guelras, e trina sem tino alheio ao dobrar do sino.
Ponteiam países nos istmos e penínsulas vertem-se até aos mediterrâneos das nossas origens, Ah! Grécia que te asfixiam, Ah! Portugal que te escamam... Entre Cádis e o Nilo, descendo em escalas musicais infindas, brotam afloramentos rochosos, pilhas, rochas dos mares paridas, em fumo, com lava, entre placas, camadas, tectónicas várias, demarcando as fronteiras cambiantes das marés entre a amaragem dos marinheiros e sua sã camaradagem.
E não seremos todos náufragos despertos em ilhas fantasma, brumosas e de densidade invariável, fincando na realidade as ganas sensoriais que inusitamos de manhã à noite?
E não me chameis David, pois não conhecem o meu Croquete, pastel de bacalhau ou chamussa, e que ninguém me chama Jorgette, qual Juliette, em tête à tête, porque não perdi nada durante a noite.

Há ilhas que aos anos sete, lhes dão uma biciclete, noutras, uma AK47, e como a isso o assunto se arremete, que exercício marcial intenso a invasão por um Estado militarista de ambição imperial por territórios tribais defendidos com a garra de quem pertence à terra, quem foi arrancado da terra em partos dolorosos e secos, agreste a sina de quem se semeia nos espinhaços arbustivos da realidade.
O que para uns é frete, para outros, promete, e há coisas que não deviam sair da sua retrete. Assim, todos somos nómadas por vocação e sedentários por necessidade, daí a raiz urbana que na idade da cidade que percorre, descobre a cada esquina o Bojador dos Labirintos construídos, quais rotas de naus a caminho das Índias, por entre becos e vielas, atravessados por uma luz dourada e radiante no ocaso hidromel.
Noutras ilhas pode-se matar com pistola ou carro aos 16, mas beber uma cervejinha só com 18, mas com um cacete, eu nem sei onde se mete que faz tanta treta e a repete, pois sempre tudo ao vazio remete, quando a alma se não repete.
Não será a Terra uma ilha imersa na noite que a transporta, ilha flutuante, filha ululante, arriba que se debate com o mar espumoso, canhões troando spray salino pela costa, cabos e dedos enregelando-se nas madrugadas avassaladoras e nebulosas, como castelos, fortalezas etéreas nubentes com as rochosas amuradas, redundâncias insólitas prenhes de realidades equidistantes no seu cerne submerso e adormecido.
Reconcilia-se a identidade da ilha de acordo com o conhecimento científico actual como superfície gravitacional rodeada por fluído líquido por todos os lados excepto dois, que serão do seu lado superior e o que se entende como lado inferior, ambos bastante importantes para diversos quadros equacionais fruto de investigações de âmbitos diversos em amplos universos, que, assim como que estando e agindo em sua casa, reagindo às múltiplas existências por vezes como uma alergia expansiva, outras como uma pneumonia retractiva, assim como a Economia que retrai sempre para o mesmo lado, que é o oposto do lado para onde pende o capital, quando cresce, como uma balança desregulada que subtrai à Humanidade a sua ínfima ilhota e remota insularidade que composta em seus mosaicos elementos, respiram e pensam no mesmo oceano existencial

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Vota em MIM

Concidadãos... É neste dia histórico, que a vós me dirijo, 1 de Junho, dia da Criança que há em nós, quando, tantos como eu, afirmam: «Quando crescer quero ser pequenino», que trago notícias da fundação do mais recente Movimento português: MIM, aka Movimento Independentista da Mama». Nem mais. Fui convocado de emergência pela Mama e esta foi a sua mensagem:
- Huguinho- disse, ternamente, que nós até nos damos bem e tudo- temos aqui um probleminha...
- Sim...
-Isto tem sido por demais, bem sabes, como me tenho esforçado, mas o caudal já não é o mesmo. Repara: são tantos, e todos mamam, e muito, tão sôfregos que estão que não se apercebem que me doem os canais. E empurram e pontapeiam , uma violência pegada.
- Bem sei...- respondi- Bem sei, eu também sou filho de Deus e também lhes disse que queria mamar um bocadito, mas eles escorraçaram-me e disseram que tinha de esperar, que agora eram eles, e eu aquiesci. Pensei: «a Mama é tão grande, decerto não mamam tudo... inocências, querida Mama, inocências...
- Isto tem de acabar! A Mama sou eu! A Mama é minha! Estes que se desmamem e desamparem-me as bocas ordinárias para outro lado... Não contem mais comigo!!!
E virou costas, de mama ao léu, com diversas irritações locais, sim, que eu vi. E ao vê-la, não consegui reprimir um espasmo de angústia e entranhização: «São os Mercados, meu filho, até afiam os dentes... este ano a praia vai ser um pavor, com todos aqueles grãos de areia que nos sopram para os olhos e me deslizam pelos seios... nem quero pensar, que em Setembro é que vai apertar.»
E é essa realidade que me cabe transmitir, sem loas nem salamaleques. Meus senhores deputados, presidentes disto e daquilo, em resumo... Balelas, Tróloró, Bacoradas. Isto está um forrobodó de caras e ainda não arrancámos para a renegociação da Dívida. Sim, essa perspectiva de só pago a quem devo pagar, que tem sido, felizmente, construída na Islândia, passo a passo, contra um sistema social que aniquila a Humanidade no seu imparável avanço para o abismo. Na Islândia, a Mama também disse que não podia mais (e com as frieiras ainda dói mais). Na Espanha, já não se tapa El Sol com la peneira e, no fundo, todos somos tunisinos neste encalhado barquito mediterrânico.

Assim, e após longa e morosa ponderação subordinada aos temas que da actualidade emergem como transversais e intoleráveis, foi criada a Plataforma Portuguesa para Preservar a Pluralidade Política Pública e Petc.dos Putaqueos Pariu, o PPPPPPPPPP, que poderemos abreviar para MIM.
Destacam-se na formação desta Plataforma as seguintes Instituições:

OTÀ- Organização Terrorista d'ÀLagoa- Grande Pilar dos Movimentos de Resistência da Época Balnear, com três membros no activo, sendo que um está em fase de instrução e o outro ainda não consegui que ladrasse a possíveis meliantes intrusivos. O seu lema é: O Algarve será nosso» e «Eu bem te digo onde é que enfias os tacos de golf...»
TST- Trabalhadores Sempre Tesos- Grande Pilar da Economia Consumista Mundial (consomem-nos as mentes, o sangue, os orgãos, os aparelhos, as gorduras, as vidas e as almas e a Luz que nos mostram é aquelas que iremos pagar, até lá... andemos às escuras---que é incontornável e não há outras medidas no espectro ideológico que alterem esta substância: Sob o lema «Estão a mexer no meu bolso e quem não pensa assim é porque é Ladrão» se conjuraram e reconhecem-se pelas contas bancárias na penúria que só conhecem movimentos para o exterior e não compreendem se se importa tanta coisa, porque é que não importam divisas ou dinheirinho,ou porque é que a pauperização portuguesa não importa a ninguém.

MAMA- Movimento Apartidário Mama Aqui, as bases que sustentam este grande edifício por inaugurar que é o da construção abstencionista da sociedade tendo em consideração a dinâmica quântica dos Off-shores com o lema. «Contabilidade Criativa não é Arte, é Roubo» e «Mama aqui a ver se eu deixo»

E outros, que pela sua precária dimensão e peso no cidadão comum, ou contribuinte, embora este último não tenha ainda de sustentar com os seus impostos os almoços e jantares de programa, mas para lá iremos, com frota e motorista, três observatórios (olho da esquerda, olho da direita e olho anal, não vê nada, mas para índice estatístico, também não faz mal) e a Fundação do Afundamento de Portugal, que vamos no bom caminho e é inaceitável estas ausências institucionais de lambões...

Atenção, pessoal. Para celebrar 1 Milhão de Desempregados vamos fazer um pic-nic em Monsanto com o António da Carris, que o Tony Carreira tem um cachet financeiramente inviável para quem nã recebe.
Traz o que quiseres comer, que nós

VOTA EM MIM

terça-feira, 31 de maio de 2011

Cabaz Político

Estive a pensar nas coisas que poderão fazer falta aos contendedores eleitorais e aqui transcrevo, em breve resumo, à laia de lista de compras, aquilo que, de facto, os candidatos necessitarão quer ganhem ou percam esta já tão próxima data decisiva.

Antes de tudo o mais irei oferecer ao vencedor uma palhinha, de côr conivente com a individualidade cromática de cada um dos partidos com assento parlamentar (rosa, vermelha, laranja ou azul e amarela). Para quê? Perguntarão vós...: Para que nos suguem sim, mas devegarinho. Porque, suponhamos que se engasgam.... sim, engasgam-se com a sorvidão do poder e morrem-se-me, diluídos no próprio vómito e verborreia similar, teríamos de voltar a fazer campanha (e com o teor medíocre que a presente está a ter, poupem os nossos bolsos a tanta vergonha, por favor, e sejam comedidos a vampirizar-nos, OK?)

Adiantado o brinde do vencedor, de seguida enunciarei as restantes ofertas, todas inferiores ao valor determinado pela Lei a partir do qual se considera prémio à corrupção, que algumas pessoas conhecerão como o termo de Bónus sobre o desempenho. Eu, que sou um indivíduo limpinho, não me posso misturar com certas sumidades públicas com o inconveniente de «o podre é podre nos homens normais, está a tentar dar cabo de mim...»

José Sócrates, que não queres que te saibam o último nome e esse sempre te empresta uma aura de génio que faz sombra a muito pensador, pena que tu, em si, não. Um belo e rosa par de patins é o brinde que tantos te querem dar, imagina lá para quê, hã? Tens quilómetros e quilómetros de autoestrada para ires de jogging daqui para fora e as rodas são para chegares mais rápido ao ponto mais longínquo que alcances, partindo daqui. Como bónus, um livrinho de discursos, que isto de andar a correr o país em almoços e jantares e dizer sempre as mesmas coisas às pessoas (que ouvirem isso mesmo, ainda ontem, entre duas garfadas de Dobrada, no canal televisivo de sua eleição).

Pedro Passos Coelho: Ora aí está outro que, pelo nome, podia correr com o indivíduo acima citado, sai novo par de patins para a mesa três. A este senhor também lhe posso dar (com) uma enxada, perdão... uma enxada mas, tem toda a pinta de não saber bem por que lado é que se lhe pega, ai que faz calo...ser senhor que tout va bien quand tout va bien, e se a coisa dá para o torto, cedo pode estar num cargo diplomático na Comissão Europeia, nem que seja como Secretário Geral para o apoio aos troca-tintas e àqueles que, como eu, têm sempre qualquer coisa a dizer, mesmo que não seja nada decente. Até porque conseguiu dar o kick de abertura a dois movimentos «sociais» entre muitas aspas, que entre verborreias fascizantes e balelas institucionais, mais valia irem mergulhar de cabeça na praia de Pedrouços na maré baixa.
Denota-se aqui o consumo exagerado de postas de pescada, com cagança e sem verguenza.

Paulo Portas, bem sei que a conversa dos submarinos já cansa (eu sempre preferi Tangos, que eram mais doces), mas foste tu que os pediste e o da primeira alínea, imagine-se, diz que foi ele que os pagou (era, era, com o nosso financiamento...), como bem o desdisse na altura certa: «Foi o povo português», e não é que foi mesmo? Alugava-te 1m quadrado no Relógio e punha-te em lista de espera para o RSI, para ver como é que o amigo comprava aqueles fatinhos janotas e conseguia andar assim bem branqueado bucalmente e exibindo um bronzeado com valor acrescentado, feito em algum offshore. Essa é que era essa.

Agora para quem fica sempre fora da festa:
O Jerónimo uma boina, um megafone e uma guitarra para que vejam nele o Homem da Luta que é. Há que fazer um ligeiro upgrade discursal, que já é tempo de se ouvirmos outras equações.
Ao Francisco Louçã dava-lhe um conjunto de mesa para que possa partir a loiça toda, como os gregos, afinal, porque, coitado, veio parar a um país que a gente esvazia os bolsos para que não tenham muito trabalho a roubar-nos. E isto para quem luta por uma revolução, é muito mais difícil.

Caso algum dos mencionados recusar o presente, não podemos deixar, até porque eles também nos dão coisas inúteis ou merdas sem qualquer jeito e nunca somos tidos nem achados no meio de tudo isso... a não ser quando chega a hora de pagar a conta

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Retalhos avulsos numa manhã entremeada de azul

Nada Visível e transparente, tacteável e imaterial. Nulo e completo, real e irreal…Decerto que vivo. Leva-nos, Sophia, ao trilho da certa e ansiada Evolução Através da tua Suprema doação...A percorrer entrelinhas o sonho pela pena...E, decerto, a melhor pessoa para se estar enquanto se assiste ao Apocalipse. Modéstia à parte, e com dois cubos de gelo.

Subtrai-se-me ao psicadelismo inerente a cor esbatida do profuso degradé acentuadamente irreverente, enquanto surrealizo dadaísticamente o maneirismo renascentista, precipitadamente rococó, através de tufos resplandecentes de orvalho as primeiras borrifadelas solares e sândalo, no aroma indelicado que se desprende da mente em acelerada decomposição, da frutífera animosidade iludida, metamorfoseada em suave cadencia outonal, respirando a névoa brilhante que e portal de sonhos, entre mundos esbatido em línguas conquistadoras, de idiossincracias afins, avolumando abotoadamente o inverso sentido do quadrado omitido e nas sombras desenhado, por onde trespassa a alma no som e o plasma no espaço sideral, movendo-se, em bolha protectora e maternal, ionicamente revertendo em si aquilo que transporta.
Concluo, em abundância, no cerne aprazível das manhas em que as ideias cantam como os pardais, cotovias, enquanto pica-paus martelam percussões alternadas, que o que o sistema límbico é em si, superior ao complexo reptiliano, e este, não decai em desuso, antes pelo contrario, afirma-se quotidianamente, selvagem e errático, como Pão nosso em cada dia, não sendo alheio a isso o facto consumado de ser realmente inferior e incansavelmente alimentado pelos actos e desvarios humanos
Retirar o equídeo da pluviosidade? Não agora, que é de tenra idade. Tempo terá para, no conforto relativo, na cavalariça que servirá de tecto, pensar nas colinas galopadas na brida e nos riachos frescos abertos na montanha. Por onde trota agora a seu bel-prazer...E nas memórias que de hoje leva para as pastagens do Grande Espírito, contará mais esta chuva muda sobre o lombo, que as noites deitado em frondosa e dourada palha.

Solta o corvo rubro no umbral negro da Fonte. Afronta os Deuses extraviados na hora do receio. Retira, arguto, do sangue seco, o pó do tempo. Tensão nas cordas afuniladas do violino. No vinho, a uva sangrada é fermentada em segredo...Sagrada é a vida e quem a toma para si e aceita seu dom. Domá-la é necessário, vivê-la é, enfim, o júbilo. Justo é o hino que eleva o povo junto aos Deuses. Desses rezam as memórias nos mitos empoeirados, Emparelhados sabiamente, compilados nas torres cilíndricas do Conhecimento. Contam as palavras, as sílabas em tons musicais. Meloviosa a harpa, a flauta, o violino e piano em uníssono. Unidos sinfonicamente na dureza das ruas desertas...Despertas entre os esparsos campos floridos e pensados, Pautados por compassos e meias colcheias definidos na aurora dos dias, Divas cantam e dançam em louvor à Natureza. A nata da Criação, assim composta, na tela rabiscada e perfeita, Preconizando o crepúsculo disperso na noite que o abarca, Atracando o dia no horizonte frio e negro, longínquo. Como longe as estrelas brilham, gélidas no céu nocturno, Soturno o fumo que se espalha e desvanece nos canteiros. Cantei neles honras e glórias e findo agora a vida diagonal Dias de combate, amor, sofreguidão consentida...Sentida foi a vida, agora, pouca, breve e finita. Finda como o dia e a noite sempre acabam. E as estações que em breve se substituem e matam, Açambarcadas pelo destino que inteiros nos engole. Por isso, pela memória dos deuses e dos homens
Solta o corvo rubro no umbral negro da fonte




A alegria suprema e total
De apreciar as ofertas da Natureza
De experimentar os prazeres inauditos
Das clareiras suadas, suavemente recortadas
No arvoredo imenso à beira oceano
Nos secretos recônditos da alma
Navegar pelo oceano que regurgita de vida
Pelos rios velejar, montanhas e vales andarilhar
Voar e cair, livre, liberto de preconceitos
Salutar vivência em suprema sapiência
Uma alegria, harmonia
Cómica, cósmica, cónica
Misto de cólica eólica
De um substrato deveras abstracto
É essencial, sensual e eventual
O acesso viral
Que num floreado de som e poesia
Moderna, ordenha, ordena
À porta da antiga taverna
De balcão tinto, não minto, sucinto
Se entorna, morna.







Gelatinoso como alforreca
Liso como um carapau
A fumar como um cavalo
Desordenado como ouriço que acorda
Desnorteado como uma borboleta
De humor de cão
Cego como uma toupeira
Estúpido que nem um besouro
E cansado… como um burro de carga
Reconhecem?.
Rumo ao que almejo
Por direcções indeterminadas
Avanço e recuo, onde, na maré?
Para o que o Destino me reserva
E calo, dentro, o sentimento
Mas rejubilo na presença
sem a qual, dolorosa ausência
me tortura o pensamento
rompo os laços que me prendem
as correntes que me impedem
que apertam, castram e sufocam
para nascer livre, uma vez mais
para o Universo.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Falar mal cansa

Bem que eu gosto de tecer considerações positivas em relação a diversos assuntos. Convenhamos, sou um optimista inverterado, mas tanto que me chamam lírico, acreditando piamente no substrato bondoso do Homem enquanto ser, não obstante ter poucas dúvidas de que isso não passa de propaganda enganadora.
Optimismos à parte, dão-me tantas oportunidades de falar mal de tanta coisa que começo a considerar ser afinal vítima de uma perseguição de elementos e acontecimentos ignaros, basbaques e de mau tom. Porque isto de haver cada vez mais pessoas com uma falta de chá abissal, concentrando a sua atenção nas sumidades e nulidades que se atravessam no espectro comentador político, social ou económico onde, ao abrigo de uma remuneração não parca, podemos dizer umas barbaridades, num estúdio televisivo, e as nossas vacuidades serem reproduzidas e recomentadas pelo serão fora por nulidades ainda mais vazias de senso que o primeiro, não é apenas enttretenimento, é parvoeira arreigada subindo aos píncaros da prime time televisiva, deveria ter um programa de quotas para se poder travar esse assombro, esse assalto à mente colectiva por uma equipa escolhida a dedo de gente inútil e nem sempre tão bem falante como a sua exposição ou só posição o exigiria...
Continuamente assisto a telenovelas corrompidas, de gosto dúbio, comentários comprados a qualquer reality show argentino ou peruano e vendidas como informação ao incauto cidadão que não tenha a atenção apontada ao que realmente lhe dão para assistir. Com papas e bolos se enganam os tolos.
A propósto serve este registo para contribuir para uma análise metódica do panorama político português à beira do Apocalipse (perdão: das eleições legislativas em ambiente FMIstico.)
Se a primeira tranche de partidos, os de assento no parlamento actual poucas palavras poderei partilhar, pois que considero ser já notoriamente exagerado o tempo de antena e a atenção dispensada pela classe de comunicação social, os pequenos, não só por pouco terem de humildes, mas precisamente pela lufada de ar fresco que introduzem na dita paisagem, de exercício eleitoral em exercício eleitoral, me fascinam.
PND- Ou Óscar para o filme eleitoral mais trongamongas do universo, onde se demonstra a estratégia líbia de dominação mundial, na categoria pick-ups. Considero que o cidadão ser forçado a contribuir para o pagamento de certas fantochadas é a melhor maneira de afirmar a razão de ser e existir da fracção cada vez mais expressiva de quem prefere abolir as eleições, contribuir para a abstenção entre duas cacholadas nas praias da Linha ou da Caparica e uma imperial na esplanada do que dignar-se a aparecer nestes eventos onde se reunem as ralés mais desnatadas da societé. Muito bom partido para votar se se revê nas personagens apresentadas.
Outro cavalheiro na qual a minha atenção se deteve, foi o representante do Porto do Partido do Norte e dos Açores (PNA), que vinha com umas contas saídas dos anos 80, em que se dá conta da produção do trabalho nortenho e da cigarra lisboeta, isto vindo de alguém que nunca suou na vida (ver filmes porno na net não conta, e suar sentado na poltrona com a doméstica a fazer o trabalho todo e engolir também não conta, assim como suar quando as suas contas são auditadas também não conta, personagem abjecta do esbirrismo político, que faz tensão de mostrar ao eleitor uma vasta biblioteca subjugada ao tema Salazar, incluindo pelo menos 10 diferentes biografias do senhor. Pessoa distinta, esta, populista, demagoga e exdrúxula, como se a miséria do povo do Norte, pessoas trabalhadoras, sim, até escravizadas nas fábricas que só os chineses conseguem traduzir, essa miséria do Norte onde há Ferraris estacionadas à porta de vilas deixadas à fome, após encerramentos fraudulentos das instalações fabris que sugaram o sangue intergeracional da região. Muito bom partido para votar se se revê na mediocridade rural e salazarenta que brota ainda das raízes apodrecidas das suas elites históricas, proprietários rurais ou de pequenas fábricas, tementes a Deus e exploradores do seu semelhante até às raias da desumanidade.
PAN- Ora aí está um partido que terá muito a oferecer, é pena é os canídeos e outras representações animalárias nacionais (como o Alberto João Jardim) não possam votar. O Touro votaria contra a Tourada? Só se não fosse masoquista. Compartilho com esta identidade política o seguinte registo. A Caça é desporto assim que entregarem carabinas aos coelhos. E mais digo. Se apanho alguém a caçar melros, saio em legítima defesa dos animais (considerando a resposta de valor porporcional, posso transformar o caçador em passe-vite, resultando daí uma acção de reciclagem política.) Só se deve aceitar, neste regime de caça oa voto, a caça ao corrupto, que, infelizmente, tem poucos associados. Já a Caça ao dinheiro do contribuinte, tem sempre filas de espera para tirar licença.
Assim como referi acima, esta coisa de falar mal, cansa, e as teclas já estão a realizar um plenário de trabalhadores e vão entrar em greve dentro em brev

domingo, 22 de maio de 2011

(Des)Acordo Dis(Ortográfico)

Informo os trauseuntes que os textos neste registo apresentados não estão de acordo com o Novo Acordo Ortográfico. Tal prende-se por motivos que passarei a indicar:

1º. Respeito muito o trabalhinho da minha professora de instrução primária e não só por a senhora usar, à altura, uma daquelas batas de Doutora que vinham ainda do anterior regime político, mas principalmente por me ter ensinado a ler e a escrever Português correcto, baseado naturalmente no Latim, no Grego, árabe, e entre outras infuências históricas bem designadas, ofertores de alma e ideários.
2º. Eu não assinei nada, ninguém mo pediu, e nem sequer a opinião me foi questionada. Logo, assim como o Contracto Social (o contracto exige uma assinatura presencial entre as partes, reconhecidas notorialmente em folha azul de 25 linhas e com selo branco. Tragam-me aqui o sr Rousseau, se conseguirem, que após leitura com atenção digo de minha justiça, não me mando representar por ninguém.
Ou seja, insurjo-me contra esta maneira democrática de tender as decisões inapropriadas, do alto das suas representações políticas e sem o mínima preocupação com os desejos, interesses ou necessidades do povo governado.
Proponho, no entanto, se o indivíduo pode expressar-se oralmente como escreve e vice-versa, que se aceite as palavras baca para o Norte do país, tchapim para as Beiras e Bôa Taardeee! no Alentejo, tendo que se pode dizer Ói!, sem entrar em publicidades e p'ra mim ver, que considero uma pérola da chafurdice linguística que nos querem impôr.

Para deitar mais água destilada na fervura imaculada, junto indico uma quantidade de termos fresquinhos, afim de ambientar os cidadãos a novas terminologias com as quais precisaremos cada vez mais de uma ambientação relativa, reflexiva e prudente, apresentando inicialmente o termo estrangeirado, logo, sugiro a tradução adequada à Língua de Camões, que, como toda a gente sabe, é muito boa em molho de amoras, afirmado isto por uma das habitantes da Ilha dos Amores, com quem o poeta terá privado, consta, em noites de forróbodó e Bunga-Bunga.

SCANNER- vulgo SACANA.(Compreende-se o termo utilizado aquele que já tenha sido fulminado pelos olhos por uma linha de laser's escarlate. Objecto próprio a quem vai ao Hipermercado ou a qualquer estabelecimento comercial moderno, ou ainda, aeroporto(no outro dia, passando por um destes, o segurança chamou-me à parte e disse: «Aconselho-o a reduzir o tabaco e fazer xixi antes de embarcar. O seu pequeno almoço foi uma torrada e uma meia de leite e os seus ossos estão saudáveis.»

CHIP_ vulgo BATATA FRITA- Esta coisa importada de dizer que é fixe com batata frita, e qual é o peixe, afinal, pergunto eu? Isto de comer elementos microelectrónicos é provável que seja indigesto, eu não aconselho, mas, vá, sendo gourmet, por vezes asATM não digerem bem os fritos e teremos de passar a banda gástrico-magnética...

INTERNET- vulgo REDE. Quem não pesca com rede, tenta à linha, e se a linha do telefone estiver ocupada, podemos sempre tentar o móvel, o tira linhas ou a linha azul do metropolitano, que também se esparsa em rédea pouco curta. Não tem Bateria? Toca com Baixo... ou flauta de bisel, desde que o ritmo do consumo não abrande, a sociedade não respinga.

GOOGLE- vulgo CUSCO. Quando quiser saber alguma coisa sobre alguma coisa (ou alguém), não há nada como cuscovilhar na rede, com o motor de busca preferido dos internautas (outro termo, para quem navega de interRail e descobre as ásias Ocidentais). Pode também cuscar no BINGO, motor de busca do senhor A Conta (ou Lei) dos Portões, é mais apelativo visualmente e agradável se, ao pesquisar, degustar um Porto ou um Madeira.

Não perca, brevemente, tiradas da cartola e fora da box, outras maneiras de se mencionar algo, falando de outra coisa completamente diferente

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Feira do Livro Anarquista

Nos próximos dias ir-se-à realizar uma Feira do Livro. Anarquista.
Ora um acontecimento desta importância e envergadura não poderia ser deixado passar em branco, mais não fosse, porque um livro anarquista, nos dias de hoje é quase raro de se ver.
Há elementos que convém clarificar quando falamos de livros anarquistas.
O primeiro é este: Eles não querem ser lidos. Nem compreendidos, esperam também que pouco se falem deles, pois poderiam ser alvo de chacota, isto, porque se venderiam assim, como algo unicamente comercial, não poderão afirmar ser a sua natureza essencialmente alternativa e não lucrativa. Depois também não apreciam ser compreendidos e têm medo de serem copiados, nos dias de hoje, onde tudo se encontra patenteado, não querem ser considerados cópias de outros manifestos deliberadamente escritos para louvar qualquer ideologia. São simples, são como são e protegem a sua identidade e idoneidade assim mesmo. Como se quem os lesse, pudesse roubar partes de si, e serem os seus pensamentos aplicados a algo que não estava no azimute inicial serem. Nós, os leitores, bem os compreendemos, pois roubamos um pouco de tudo o que lemos e construímos, a posteriori, castelos de recortes e memórias avulsas. Imersos na miragem literária que condiciona o mundo da edição hoje, o livro anarquista continua a ser irreverente e veste-se de cores garridas. Explosivo na sua forma de analisar as questões da actualidade, converte-se em suave e doce pranto, enquanto vê a miserável civilização capitalista ocupar o mundo a seu belo prazer, vencedora de uma guerra em que todos nós perdemos, e, assistindo a tudo, uma humanidade nua já de vontade de Liberdade, de amor próprio ou senso comum, embalada na canção embalada do consumo e das vantagem orgíacas da satisfação do desejo imediato.
Sim, pois expostos à análise post scriptum sabem que o cerne do ideário defendido, sem a sua valiosa cooperação nos termos das causas primevas da sua demonstração, poderão afastar-se da sua identidade, e qual náufragos, morrer na praia duma costa desértica e infeliz.
Assim, boa oportunidade para encontrar autores anarquistas, além de Saramago e Antunes, Rancière, Thoreau, que na sua própria escrita, relativizam a importância gramatical no universo literário, assim como a própria noção de sentido e realidade se metamorfoseia todos os dias, à esquina de um qualquer pôr do sol.
Numa Feira do Livro Anarquista, os livros, ao contrário de estarem caoticamente distribuídos, ajuntam-se em comunas e barricadas, numa ordem apenas sua, e que o visitante poderá saborear enquanto passa com o pensamento lateral aceso, por entre os expositores.
Numa sociedade dietética (ou seja, que quer emagrecer a ética à força, ou ao murro, como o Tallon) se houverem indivíduos que queiram fazer dieta à sociedade, à bomba ou não, tal faz parte das idiossincrasias anatematizantes, emprestando à sociedade a percentagem niilista da qual brotará uma sociedade mais justa e equalitária. A equidade não é sermos iguais aos cavalos, é haver justiça na socialização humana.
Eu sempre gostei de transparências, sim. Na vida política e profissional, na vida pública e económica, nas relações entre nações e entre indivíduos, mas tal não suplanta a minha admiração pelas transparências na indumentária feminina. Gosto muito, também, de Dálias de 1m e 80, mas são mais raras e geralmente vêm acompanhadas.
Outros livros anarquistas são «O Livro Inclinado», ou como todos nós tendemos um pouco para a Libertária realidade. Livro com furo, relembrando o profeta Laden, ou os livros com cheiro a salada de frutas, de índole notoriamente burguesa e apologista da cacofonia sensorial reinante.
Falta a estes o livro que se deixava comer ao almoço, com sabores diversificados e de boa digestão, ou os livros proibidos (todas as épocas têm os seus), determinantes de cada sociedade, os quais se identificam por nunca aparecerem à noite, mesmo quando os convidamos a beber um copo de groselha.
Assim sendo, e porque denoto uma curiosidade ululante em reencontrar alguns pedaços da minha infância, vou continuar procurando o famoso livro «Fernando Pessoa contra o Homem Aranha», oásis de surrealismo lisboeta do séc. XX, e mais difícil de encontrar que um sóbrio às 2 da manhã no Bairro Alto.
Realiza-se no Largo da Severa, pertinho da esquadra do Socorro, para o caso dos organizadores perderm o transporte, poderem ficar na residencial nomeada.