sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Móbil



Deixai-me provar, doçura
de lábios teus,
os lentos ardores da madrugada
que mi alma alenta, procura
nos dias a que chamo meus.

Melífluo, o sabor de te ter abraçada...
Por momentos, almas se tocaram
onde cegos corpos apenas ansiaram
contactos intentados na esperança

Temos a vera certeza de reservada
a oportunidade cultivada
pela verve que não se cansa.

Os pensamentos percorrem caminhos,
tortuosos afloramentos mentais.
A fronteira que se rasga por vontade,
escalada que foi a colina da saudade.

Soltos sonhos de contemplações sensuais
aguardamos, tecedores de carinhos.

No perfume acolhedor de teus passos,
busco, Sileno, mi ninfa que corre,
se esconde nas sombras da montanha.
Persigo-a por semeados laços.

E o fragor que em meu peito não morre,
tem em ti, senhora d'heróica campanha.

Colam-se lábios, línguas, corpos,
abandonados na luxúria dos desejos,
nus de medos, remorsos, temores.

Dançando na maré plena, febril cadência
erótica melodia preenche os sentidos.
Impossíveis de calar, cantam gemidos,
artes que os milénios sancionam nos ensejos
celebrados por amantes, espasmos e tremores
exaustivamente dissecados pela douta ciência.

Mas quando acordar o sol,
de sonhos alimentados pela paixão,
e vier lamber-nos os olhos em êxtase,
encontrará a péola mais apetecida
no corolário de nosso abraço em anzol.

E, raiando em louvor, lembre-se,
deixar mais um pouco a persiana descida.





quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O Mercado Anti-Livreiro


Eu confesso! Juro que tentei provar essa teoria parva que por aí tem andado de que o livro é um produto como outro qualquer. Admito que a ideia logo à partida me causou estranheza, mas, devido à minha elevada educação científica, resolvi testar essa teoria libertadora do Mercado:
-Se o livro é como outra coisa qualquer, porque é que não está a fazer outra coisa qualquer?
Segundo certas mentes iluminadas, vender livros, sabonetes, hamburgers, parafusos ou chouriços é a mesmíssima coisa – decidi então proceder à pesquisa em questão utilizando o método científico mais à mão: a experiência…
Garanto-vos. Foi um pesadelo… Os Lusíadas dão um péssimo sabonete: esfarelam-se muito, deixam a pele seca, entopem o ralo e, ao fim ao cabo, epicamente, continuei a precisar de tomar banho. O pequeno-almoço não correu melhor. O Galveias não é a mesma coisa que um croissant, embora o Café com Leite do Buarque seja apelativo, há algo que falta de acertar para caber numa caneca. Nada que com o tempo não se trate… Adiante.
Montei-me na Volta ao Mundo em 80 Dias, mas eu trabalho em Lisboa, por isso, 80 dias é um desparrame de tempo,  o mundo também é muito (talvez para as férias, dessas, low cost a quatrocentos €uros que vi na capa da revista). Então decidi-me por um Michel Vaillant, mas os combustíveis estão caríssimos. Em todo o caso, não me conseguiu levar a lado nenhum. Que falta de mobilidade. Sinceramente! Nem com rodinhas, nem à vela, dali não me safava. Mandei vir os dragões do George Martin e os Faíscas McQueen do meu filho, mas nada daquilo arrancava e o dia clareava.
 Decidi avisar que pelo andar da carruagem do Expresso do Oriente, ia chegar mais tarde ao trabalho do que previsto. Peguei num Pessoa e mandei a mensagem, mas não tinha rede… Algo tinha de ser feito, por isso, pus-me a caminho por meios próprios, pondo em pausa a experiência e decidindo-me a despachar-me a entrar no automóvel com uma bucha na boca, que, se corresse, ainda chegava a tempo de apanhar o barco. Oxalá não fosse uma Jangada de Pedra.
Entretanto, pela viagem embaladora do ferry, o que eu tenho que não faz falta nenhuma ao sítio para onde ia, pensava…
-Será que para certas pessoas, o livro é como plantações de cana-de-açúcar ou algodão? Se lhes dissessem que o próximo treinador da equipa de futebol percebia era de remo? Jogadores de futebol bons na sueca, sinceramente. Há que haver sensibilidade.
-Se é igual a qualquer outra coisa, o que é que estes parvos andam a fazer há trezentos anos? Irra, que são teimosos!
-O trabalho liberta. Eu também li a Berta e tinha pêlos a mais para o enredo.
A questão teria de ser outra. A premissa não seria esta, e nebulosamente, aglomeravam-se editoras, como se fosse um enxame de moscas e depois, nada… não se via nada. Umas morriam, outras fundiam-se, muitas desapareciam. Algo estava errado, e as razões de tal, ocultas nas raízes de outros paradigmas. Era para acabar. Let it burn!
Havia muito que vinha de trás, bem sabia…
«Nunca olhes de frente para o Grande Líder, que os anjos do Senhor te fulminarão e serás lançado aos abismos do esquecimento até nada mais seres que vermes e terra.», dizem.
«É para isto que andaram a estudar, para destruir valor ao invés de o criar? Ando eu a pagar impostos há mais de cem anos, e só me dão é fezes, estes gatunos da minha saúde!??» perguntava, indignada, D. Arminda, no rádio do navio. «Depois são ministros e secretários de Estado, gestores e advogados, deviam chamar-lhes socioputas, perdoem o meu francês, senhores, narcisistas, chupistas, solipsistas, ou brutos, sei lá… agora, doutores? Doutores é outra loiça. Até há juízes que, se fizessem da cabeça bigorna e a estragassem, também era coisa que não usavam muito, já com aquela idade…!» - Vamos ter de desligar. Obrigado, D. Arminda, os GOE vão já a caminho. Bom dia.
De onde se originava esta teoria, quando se construiu? Quem assim retalha, não retalha, esbardalha. E tal martelava minha mente. Então pus-me a observar os intervenientes de tal imprudência praticamente factual:
Vinham das lixívias e produtos derivados de limpeza, telemóveis, electrodomésticos, dos perfumes e relógios, vinham dos supermercados, seguranças neonazis e incompetentes relacionais. Parecia o Mayflower ou os índios da praia e meia. Às tantas, surgiam de todo o lado, sabe-se lá de onde, saltavam de buracos, andavam ao largo, surgiam municipalizados, mas sempre lá em cima. Todos a correr para o seu lugar, com cargos feitos à medida, em design personalizado e tecido pré-aprovado, à medida de algum freguês. Cada um no seu castelozinho a dar ordens, manientos, a criar obstáculos à prossecução das coisas, pequenas alterações numa cadeia longa pode trazer resultados extraordinários ou só mesmo totós, exigem que os funcionários criem as condições de trabalho como se não fossem obrigação da empresa, cortaram nos direitos, nos prémios, no ambiente, cortaram nas compensações remuneratórias, na autonomia, tudo o que mexesse. Cortaram em tudo, menos no trabalho mecanizado e troglodita, como se fossemos empilhadoras de faxina, papagaios sem vontade, articulando palavras sem nexo ou seriedade, mas com muita atenção às vírgulas. Apoiam-se na coerção para provar os seus pontos de vista, num local de parca efectividade e anedoticamente triste remuneração. E a malta engole em seco e estuga o passo.
Parecem uns putos a jogar à bola no palácio de Cristal, como uma manada de búfalos num campo de túlipas, uma lesma húmida e mole deixando um rasto viscoso à passagem.  
-Se fosse um navio, estávamos bem tramados e naufragados… e nem salva-vidas teríamos, que eram custos inadmissíveis para a operação. Antes, umas caipirinhas no convés encerado. 
«Quem cá está», como diria o saudoso «está para dar nas vistas, e é pago para isso, há quem esteja para ver as vistas, que é para isso que vos pagam. E depois, há os eventuais: na eventualidade de fazerem alguma coisa, eventualmente, fazem asneira.». - Isto não é meu nem do meu pai, ralas-te para quê, se quem é pago para o fazer não o faz. Reza mas é para que dê buraco, que ainda tens direito a uma indemnização. Na pior das hipóteses, compra-te o Azevedo, tarde ou cedo e põe-te a vender salsichas.»
-Quem sabe, não tem como trabalhar, porque quem manda não sabe, e não há quem veja? Nem sabe. Atira a olho. Quando der raia, logo se vê…
 Aumentarmos tudo menos o que ganhamos, esse é o nosso lema. Não somos livres, somos livros, mas como os livros são como o bacalhau e há mil e duas maneiras de fazer bacalhau, estamos feitos ao bife de atum num molho de brócolos. Como os Monos, comamo-los com batatinhas…
- Prefiro o cliente a sério ao cliente mistério, a honestidade, a um prestigiador de vazios. Trabalhar para o boneco não é de todo aprazível, se cá ando há quinze dias, quase, porque é que não percebi, mesmo que fossem parafusos, que haviam de ser todos equivalentes, e não diferentes? Dimensões e materiais, tipos e qualidades, tudo isso era, afinal, igual. Podíamos pôr a Biblioteca de Mafra numa estufa e cultivar prateleiras, como se faz com o tomate.Que se danasse! Eu mesmo sou igual àquele pinheiro. Tal e qual, nem se notam as diferenças, só mesmo olhando de perto, vê-se que ele tem casca de pinheiro e eu camisa de pele de camelo. Seria uma epifania espiritual que lhes estava a dar em spread? Tal, contudo, continuava a soar-me mal.
-Se quiser saber de peixe, pergunto ao trolha. Peço ao taxista que me arranje os dentes e quem construiu a minha casa foi um ardina que fazia umas horas por fora a assar frangos. Deitar-me com uma mulher ou com um helicóptero é a mesma coisa. Vou almoçar à oficina e voto mas é na… coisa que gosto mais do que políticos, e agora, que somos tão adaptáveis à mudança (cada vez que vejo um fatinho a falar em mudança, pergunto-me porque tenho de ser eu a pagar-lhe a cirurgia) somos todos iguais, gado bom, este ano até o PIB tem orgasmos, decerto, de tanto lhe afluírem os capitais, se não nos vissem como lixo financeiro… Talvez devamos mudar de ramo de negócio, para estrume, sempre é um bom aproveitamento bioenergético para o que muito boa gente anda por aí a fazer. É um mercado em crescimento e é melhor que fazer cimento.
 Aí se deu o Eureka da questão, a assomar-se o Terreiro do Paço. Depois do vinho, faz-se o bagaço! E, ao picar o ponto à hora marcada, ri-me à bandeira despegada. Como dizia o cantor, do rádio entremeado com o motor, ao chegar ao ancoradouro, cais do Tejo ou do Douro, perguntando o que é que fazia, «eu cá, nem me mexia». Assim já mereço o salário.
 Mas eu nem na cama estou quieto, o que traz as suas vantagens, mas nem sempre. De neurastenia no bolso, nada a tilintar, de tilt em tilt, é que eu não posso andar. E continuei…
Tentei vender o livro desse modo. Este é bom para as costas, aquele dá 100 aos 8 segundos, este aqui ganhou o prémio da fritadeira do ano, já ouviu falar deste, uma vez caíu, e quem o levantou foi aquele, fica-lhe mesmo bem, a acompanhar um vinho branco. Se comprar este ainda pode-se habilitar à eventualidade de adquirir este outro que já não sabemos o que fazer com ele. Aquela editora trabalha muito bem os azuis, a outra é mais bolos. O seu número de contribuinte, e de leitor, e de leitão da senha nº3, realça-lhe os olhos, tonifica os glúteos, é a melhor solução para os seus problemas com insectos, lava mais branco, é impermeável e redondo, maleável, lavável, móvel, perfumado, aditivado, entornado, palavreado, tudo bem misturado como se fosse um robot de cozinha. Um óptimo nadador-salvador, morenaço e temente a Deus, que leva para casa e lhe faz o jantar. 
 E nem a água pagavam, nem nada, e um gajo suava, e a saliva evaporava-se entre a sauna, o jacuzzi e o forno. Quase preciso requisitar um modelo previamente esquematizado para obter a autorização necessária, dada pelos diversos departamentos envolvidos e preenchido em triplicado para substituir os sucedâneos literários que para cá mandam, como se fosse toros de lenha… e falava e falava. Não dava muito resultado, e os clientes já olhavam para mim de lado. «Mas já leu?- perguntavam…

-Ah! É para ler, o livro? E por isso é que tem letras. Pois… Eu também lia folhas de alface, louro e couve, folhas de chá e borras de café, revistas cor-de-rosa e placcards de publicidade, mas pensava que o livro era para decorar paredes ou mesas, que soubesse tirar cafés, fazer martinis e lavar-me os pés, mas ler, ler, ler, ler, andamos todos, tontos, afinal, ainda cá pastamos por Portugal. Mas aquelas pessoas não sabiam que ler era a mesma coisa que fazer outra coisa qualquer? As pessoas liam mesmo os livros? E eu já a pensar que era para fazer de vasos à janela da sua casa? Ou da casa da vizinha, que era a mesma coisa. Se eu aparecesse lá em casa do doutor para jantar? Decerto me daria chapas de alumínio.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O PROEZAS E SUAS EMPRESAS


Cansado de ser burro de carga, Jó Proezas decidiu embarcar na nova moda e tornar-se definitivamente um empreendedor.
Desde tenra idade, o Proezas sempre esteve atento ao comportamento dos mercados. Da janela de seu quarto observava aquele bulício estonteante da Ribeira, ouvia os pregões e fazia uma viagem dos sentidos, cores, aromas e sabores quando sua avó ia abastecer a despensa. Nos dias em que havia estalada por causa doa súbita subida de algum comodity, um downsizing, um swap mal calculado e era tareia de meia-noite, encontravam-no sempre a tirar notas para levar à Bolsa de Valores, a um cliente da tia, costureira de profissão, que lhe dava bons trocados pela informação do que era naquele dia arremessado, não se perdia tudo.
Aos dez anos era já um dos maiores fornecedores de rosas de Lisboa, até o mercado ter sido invadido por produtos importados. Não havia roseira que se salvasse na cidade e arredores, em todas as saladas de pétala de rosa que as tias deglutiam entre chás de camomila ele tinha direito à comissão correspondente.
As suas últimas experiências de empresário em nome individual não tinham acabado muito bem. Abrira actividade uns anos antes, para não ser acusado de fugir ao fisco. Ele preferia malabará-lo à portuguesa, receita que aprendera na sua longa experiência. Sósaiodaqui quandoderes 5€ até funcionava bem e esteve para ser franchisado. De início era simples: com uma guitarra, um pequeno bombo, um microfone auricular e um amplificador a bateria, fazia a festa. Cantava que berrava pelas ruas da cidade, ora aqui, ora ali, e só de lá saía quando lhe dessem 5€. Depois, ia chatear outros. Sentia-se empolgado com os esgares de espanto e puro terror nos rostos dos transeuntes, quando os abordava e fazia o seu show. Às vezes até lhe davam as notas todas que tinham na carteira, só para ele se calar. Eram dias produtivos, esses.
Ainda tentou o mercado do Metropolitano e esteve para ser linchado várias vezes, não fosse correr tão bem, mesmo às escuras.
Dos locais que mais gostava de praticar a sua actividade empresarial eram as esplanadas da Baixa. Era outra louça. Turistas, gente séria e bem falante, doutores engenheiros arquitectos paisagistas juízes desembargadores da Comarca de Coimbra, políticos e economistas, todos se digladiavam por lhe prestar homenagem, deixando-se estar calado. Em menos de três semanas já tinha vários contractos em carteira, assim que se assomava à entrada da rua, nos dias indicados, logo vinham os moços do café com o valor acordado, várias vezes os 5€. Pudera, ninguém conseguia falar ao telefone quando o Proeza lhes tocava ao colo, e os clientes eram importantes, e não queriam ser incomodados, largavam a nota e ele ia, todo contente, pregar para a próxima freguesia.
Mas as coisas não eram assim sempre fáceis. Clientes mais difíceis, por vezes, chamavam as autoridades para o afastarem dos locais e ele bem se defendia:
- Xô guarda, compreenda, este é o meu trabalho. Tome o meu cartão – Jó Proezas- animações- A via pública é o meu escritório e se o meu ramo de actividade por vezes dá sombra, não deixo de trabalhar, senão, como sustento os meus Proezazinhas? Tire a mão do meu bombo, xô guarda, que se embacia…
Por várias vezes tivera de libertar a guitarra sob caução, o bombo esteve para ser extraditado, salvando-se por ter MADE IN PORTUGAL, AMOR VACUUM 1972 tatuado na pele, bem pagando a advogados que percebiam os meandros da lei, mas, com a crise, foi o descalabro…
A ASAE fechou-lhe o estabelecimento porque o bombo não tinha balcão de alumínio e não havia saída de emergência do som daquela «maldita guitarra», dizia o Juíz. «E o estado das toilettes? Dó! Metiam solidó. A guitarra, essa, que o último cliente tinha partido nas costas, antes de demonstrar com as cordas, a lavagem com fio dental. De bombo apreendido, proibido de efectuar sonorizações acima dos zero vírgula dois decibéis, a sua voz considerada uma arma de destruição massiva, teve de se conformar e deixar, com tristeza e pesar, a sua actividade empresarial e artística.
Mas, nunca desistindo, o Proezas, que era de boa lábia, fez-se à life. Com o advento da era de ouro das telecomunicações, muniu-se de um livro sonoro infantil «O Quim da Quinta» e abriu uma linha telefónica de valor acrescentado, de teor erótico, apontado ao público-alvo dos bestialistas: «444 Pimba na Quinta», era o sonho de qualquer call center. Sempre animado, o contacto iniciava-se invariavelmente por um lavrador da Lourinhã-Sul que apresentava o menu, em entoação serena sobre um chilreio do canário que sofria de Tourette:
«Para sexo com cães, prima 1; gatos, prima 2; cabritas, prima 3»… e assim por diante. No fim, garantíamos que nenhum animal tinha sido molestado ou magoado, e que era tudo consentido. Se carregasse #1 poderia agregar várias espécies animais no celeiro e fazer o que bem entendesse. Eram rios de dinheiro até vir a regulamentação do sector, e as primas que se achavam, sem saber como, metidas naquela confusão...
Infelizmente, a Sociedade Protectora dos Animais obrigou-o a fechar o palheiro, e até o Patriarcado de Lisboa se sublevou, quando recebeu a conta da paróquia da Luz, que o pároco andava embeiçado com uma búfala do zoo e tinha de se aliviar fora das horas de ofício…
Após o término do Quim da Quinta, ainda encetou uma agência de encontros amorosos para siameses, chamou-lhe «Double date Line», fez muita gente feliz ao quadrado, mas a clientela, excepcional, lá foi, também ela, arranjando a sua vida no clube de swing que criaram, os malandros.
Decidiu depois, devido ao nível empresarial e renome internacional angariado, entrar numa nova etapa na sua experiência, sonhar mais alto. Sem hesitar, abriu uma empresa que fazia compras para anões. Correu bem, ele chegava razoavelmente bem às prateleiras superiores dos supermercados, territórios inexplorados pelo mercado, cobrava um extra para os deixar andar às cavalitas, e as coisas iam compostas, até ao dia em que patrocinou uma prova de atletismo no Clube Desportivo do Bairro Dele. Aqueles 500 metros/barreiras foram inesquecíveis, mas o número de clientes, a partir daí, declinou, vá-se lá saber porquê…
Ainda tentara abrir uma empresa-fantasma, mas como tinha medo do escuro e era melhor não brincar com certas coisas, sempre lhe dissera a mãezinha, desistiu logo depois de ter escavado um valente buraco financeiro na dita, aliás, sempre baseado nos bons costumes da área.
Mas o Proezas não se rendia. Era agora que se ia dar bem… Ia ter empregados e tudo, oxalá não fossem mal empregues. Funcionários daqueles que funcionam às mil e uma maravilhas, ia poder, também ele, pôr um martelo a fazer de chave de fendas. 
Entrou na Loja do Cidadão e retirou a senha para a Empresa num Minuto. Estava com pressa.
Aguardou um pouco, ansioso por este novo passo e até passou pelas brasas um quarto de hora, pelo menos, mas quando o sino electrónico bateu o seu número, catapultou-se para o balcão de atendimento.
- Guichet 7. Óptimo. Bom dia. Vinha aqui abrir uma empresa. É aqui? – entregou o cartão de contribuinte, que era o que interessava.
- É, pois. Sente-se, fique à sua vontade. Vem abrir uma empresa? Quer um chá e umas bolachinhas, um viske e um cubano, ou uma coisa mais ligeira? – teclando como quem escava no teclado perro.
- Assim, sim,, que bem servido eu estou, nem sei por onde começar,…
- O sr. Proezas é sempre bem-vindo. O seu currículo parece uma árvore de Natal. Como tem passado? E a esposa e as crianças? Tout va bien?
- Ça va, bien sûr, monsieur. Vão melhores que a minha conta bancária. Adquiri há pouco uma fábrica por 1,50€ num leilão das finanças e ainda ganhei um porco. Assim que o porco entrou na conta, comeu-me o dinheiro todo, e era o Banco que era bom, veja lá, e agora já é mau… espero que não tenha sido do meu porco, parecia-me bem tratado, um pouco fumado, e passava bem, não fora um pouco salgado, o porco…
Posto à vontade, o processo era muito simplex.: Capital social: 1€, que ele não era parvo. Regime de Sociedade Anónima por quotas. Anónima para não irem atrás dele, por quotas que ele tinha todas, que custavam a apanhar, e guardá-las-ia no bolso da camisa, como o merceeiro da rua de cima. Sede fiscal no Luxemburgo, não sem antes sobrevoar a Madeira e fazer três passagens pelos Barbados, Salomão e Caimão, para valorizar nos câmbios e lavar o imposto nos oceanos deste mundo, esperando não o deixar mais poluído do que já está.
- E o meu produto é inovador! - Se é inovador, tem apoios. – Se tem apoios, eu quero!
- Omeu produto vai dinamizar a indústria tradicional e o artesanato. - Se é indústria, tem apoio – Se tem apoio, eu gosto. – Se é tradicional ou artesanal tem uma linha de apoio… - Se tem linha, eu também já tive uma, mais outra não me há-de fazer mossa.
- O meu produto vai-se exportar que nem pêra-rocha – Se é para exportar tem benefícios! – Se tem benefícios, dê cá. Então e de ser rijo? – O seu plano de negócios? – Não é um plano é uma carta marítima. – Se for em águas internacionais, tem isenção. – Isenção. Até lhe beijo os bigodes. Cada vez falamos melhor!
- E o meu produto é tecnológico e trendy e vai bem com qualquer um, ou quase… – Se é isso tudo, melhor ainda, o êxito está garantido e vou já abrir-lhe um corredor directo para o Orçamento de Estado do próximo ano… - Isso é que era. Você é um porreiro, pá!
- Então já temos local de produção e a maioria das bases. Tem mais investidores? – Já os fui buscar ao ninho. São uns anjinhos… - Tem cluster?- Bem, ter, ter, tenho. Quer dizer... Não são como os da Nestlè, porque não quero problemas patenteados, mas os esquilos não se queixam. – Quais esquilos? Sei lá, foi o que me lembrei.- Pensei que estivesse a falar de recursos humanos? Já pensou nisso, Juiz de Linha Proezas? – Sim, sim.
- Já mandei vir três contentores de birmaneses, que estão baratos e um outro de gestores e administrativos mexicanos. Contactei dois tradutores marroquinos que só falam swalihi entre eles, porque senão, já se vê, é uma algarviada que ninguém se percebe.
- Ah! É que com a nova política de apoios aos estagiários… Ficam-lhe de graça, veja lá, se lhe não dão jeito, Capitão Proezas? – Mas eu não sou capitão. – General Proezas, então.
- Ai há apoio? Então eu quero. Mande lá uns desses…para as papeladas e os computadores, dá sempre jeito, que os putos são espertos, percebem é de botões e coisas com luzinhas, que apitam e blipam.- E desempregados de longa duração?- Epá, esses é que não! E se eles contagiam alguém e me fica tudo doente? - Pagamos o ordenado os primeiros meses e pode sempre despedi-los por uma justa causa qualquer depois, não é? Não ficam com subsídio nenhum, e o senhor Ministro ficava-lhe agradecido, que as estatísticas têm sido uma miséria e ele fica todo transtornado, que mal dorme.- E, pois… já se sabe como as coisas são, a competitividade, a produtividade, vendo bem material para ministro, hoje em dia que está tudo precário…- Avie-me, então, dois ou três. Mas chega, que isto não é a Santa Casa. Se precisar de mais, ponho um anúncio no jornal «Procura-se desempregado com experiência».
- Então e ao que é que se vai dedicar, desta feita, Arquitecto Proezas?
- Vou aproveitar esta mania dos cigarros electrónicos e vou fazê-los com um design inovador, estimulante e controverso, à boa maneira das Caldas. Em vários tamanhos e grossuras, vai ser um mimo, vaporizar. E esse pessoal da moda, sempre in (uns mais in do que outros, outros mais in de outros) vai adorar os XXL já projectados, decerto. Prevejo um sucesso. Já vendi trezentos pela internet.
- Isso é excelente! Há apoio para o é-comerce. Você tem faro pá coisa, Engenheiro Proezas, e depois escala isso e invade o mundo de… - Fá-los-ei, meu amigo, Fá-los-ei.

Entretanto, vou colocar a minha secção de Marketing e Aquisições, dois lenhadores russos, a trabalhar no meu próximo projecto. Usam o método indicado para manter as coisas a um nível acessível, se me compreende, com aquelas manápulas e técnicas de arremesso de machado. Vou adquirir uma parcela deste Banco Ainda Mais Novo que aí vem e que vai ter apoios, e se tem apoios, eu quero! Ainda hei-de conseguir um perdão fiscal como os outros, que vou tarde, mas ainda vou a tempo.– Ainda há-de ser ministro, doutor Proezas. – Mas isso é outra história.

domingo, 3 de agosto de 2014

Palavra de Gôndola

Há palavras que nos identificam
que nos comunicam, ordenam,
vozes estranhas, estrangeiras.
Vozes que solitárias, pontificam
outras que com ardil nos ordenham
vozes falsas e também as verdadeiras.
Espadas que rocambolescas, o reino apodam
são as rodas que os destinos rodam

Nós, os naufragos
deste país impenitente e burlesco
afirmamos o sal, afogados
neste oceano atroz e dantesco.

Breves datas que se alongam nos tempos
com atenção se ouvem seus lamentos
É este o Reino de Salomão?
Ou o que está mais à mão?
Apenas sua secreta corte
em contínuo desnorte
esconsa por aldeias, oculta nos anos...
Se tropeças em servos, quando chegas aos amos?

Pioneiros de tudo, somos agora nada
sombras de impérios caídos aos pés do Homem
Tomates cerceados em batalhas inomináveis.
Corpos tombados ao tomar a paliçada
ouvem-se as vozes dos passos que aí vêm
rumor de corpos incontáveis


Na Política, na sociedade
o dinheiro sem valor atravessa.
Partidos políticos o sugam
Somos vítimas de sua insaciedade
alocados à sua dívida perversa
sob os juros que nos subjugam.

E o poder de modificar, recriar, mudar
escolta-se pelos conservadorismos tacanhos
E os nacionalismos... de todos para todos
propagandas em chamas, aprisionadas,
solitárias, como hemisférios cerebrais, e, Medo!
Ao povo é tão caro respirar
imersos em esforços tamanhos
mergulhados na origem de todos os lodos
nos pântanos onde nos perdem as fadas
lá onde o escuro anoitece cedo.

A Lei dos Povos assim se apaga
e é o povo que a paga.
Introduzindo-se na política
uma tola desbragada e raquítica
para travar o Apocalipse
os poetas cantam a hipófise
caíndo na teia que o Poder tece.
adormecendo com a sirene sem prece

Buscam-se rumos, partem-se bússolas
a rosa dos ventos do Estado Social, inerte,
somos pessoas ou somos mulas
que o jugo da canga aperte?
Outras dimensões cidadãs se somam
às ideias da Europa que se assomam
Não há vida... sobre o Estado.
assim se canta este Fado
Sobra o autoritarismo democrático
fascismo multicelular e infame
com toques de feudalismo fanático
como bolacha em salame.

A Austera Língua que Camões lambia,
nem sabe o bem que lhe fazia
à Neve, os sonâmbulos em holocausto
escrevem diários de terror
longe do luxo e do fausto
e no alto de rubras fortalezas,
príncepes, condes e outras realezas
guerras gigantes se entornam.
os campos de sangue e crâneos adornam.

Em defesa do futuro, um furo
se houver, de facto, futuro
oportunidades haverão...
aproveitáveis ou não.

Na natureza, o regime que dá à foice
a florida e poderosa memória
desprende-se como folhas outonais,
dá também a mula o coice
e, se bem sabes tua História
vês como o mundo se encheu de coisas banais.

Como mortos, supostamente falecidos
alegadamente morridos.
Catalogam-se ficheiros
esgravatam-se cueiros
pois que homens não se fenecem
como joias de família
em prego alheio.
Mas sim, com anelo, remetem
em nome da sabedoria,
da Verdade, o seio.

Monumentos, que os há, erigidos
cantam as glórias de ancestrais combates
choram víuvas, cantam os vates,
calam-se de cansaço os gemidos,
e sobra beleza no canto do prato
não falta dor no canto do açor
a vida desconhece o hiato
que a consciência chama amor
Na guerra, os homens são sombras que se matam
a bom morrer.
assim as mortalidades dilatam
o que não havia de viver.
Em nome do povo criam as guerras
em nome do anónimo...
seja por ouro ou terras
haja sempre fôlego e ânimo
novas coisas se inventam, para matar
daqui até à China em estertor
Criatividade que não há-de acabar
enquanto louvarmos o estupor.

E os filhos esquecidos na ponte
lançados os corpos a monte
orfãos de todos os inférteis.
avolumam-se, famintos e débeis.
Mulheres, essas, às avessas e arrecuas sorriem
a subtil magia de um sorriso
e aos incaustos que elas fascinem
logo perdem, de todo, o siso.

Um sorriso em alta definição, pausado
resgatado pelas estrelas que despontam,
sem saber do Futuro ou do Passado
descobre velharias que novas nos contam
como ideias gémeas televisivas
novas técnicas invasivas
onde rebeldes estranhos a qualquer causa
mudam, atrevendo-se, focando nos seus instrumentos
alheios a avaria ou pausa,
cérebros que influem com a capacidade gerativa,
deportados da fauna nativa

Caem europas, ásias, mundos.
Saem banqueiros pela porta dos fundos.

Força nas palavras... e nas pernas?
são as facas que te esfaqueiam, ternas?
Somos passageiros de um horizonte mutável,
atentos às mensagens que os anjos deturpam
nem nos digam que o Futuro é inviável
e que outros nosso espaço ocupam
ouvindo os encantamentos com que padecem corações
acreditaste nos mentirosos, nos lambões.
Não aprendeste com a tua mãe?
depressa e bem, não há quem.
No curto prazo estrangulam a tua vida
e segredam-te: «não há saída»
Plutocratas abandonados à sua própria catástrofe
como poeta morrendo em cada estrofe
Há uma casa, posta para lá do inferno
onde escolheste viver.
É quente no Verão e gelada no Inverno
é o que há, o que se há-de fazer...

Dizia-se, baixinho, na minha terra:
A Paz verdadeira acaba com a guerra
como esta, por sua vez, idêntico feito teria,
isso seria a verdadeira alegria
reciprocidades negras, na verdade que ponteia a história
nós não somos a sua escória.

Medo, quem tem? Quem tem?
não há que sentir desdém
Condes a cavalo de burro, e outros pedantes
sensíveis como manada de elefantes.

Factos. Tudo, no fim, são factos.
Entre vistas se entrevista o olhar
Há uma campanha a montar
Os honoráveis assinam os pactos
os restantes saem-se a matar
sem se darem ao trabalho de apontar.

A conquista do sul da Rússia antes do Inverno despontar.
Maluco por maluco, deixem-me cá ficar.
O capitalismo, estéril, sem ética, mas estética,
não deve criar dúvidas à humanidade, céptica.
o holocausto ao curto prazo, para morrer, para matar
sem tempo para um último suspirar.
Haverá a salvação, um banho de ouro, luz e perfumes.
acendem-se nas vilas fogueiras de mil lumes
Há um paraíso, sem cinza ou fumo acre, poluição.
Não é só na minha imaginação
Há quem lhe chame, carinhosamente «A minha terra»
Vinte anos depois já ninguém se recorda
Quanto mais novecentos.
antes era praia, agora é sopé da serra
enquanto o enforcado ajeita a corda
aguarda a visão dos últimos momentos.

Bem hajam os de boa memória
essa noção dominadora, ociosa, dental.
tantas vezes inútil. inglória
afastamento suposto do animal
Haverão direitos para os oprimidos?
Aviam-se em comprimidos
O rugir da batalha. O cheiro do sangue.
estala o osso, o dente range
O som do riso estúpido do chicote que estala.
a voz que, tímida não se cala
E a Mãe reune em si a coragem
onde uns falam, outros agem
coragem em listras opticas que confundem
medos e ansiedades somam-se no produto final
per capita, dá muito. Rija como uma núvem
Em média, nem por isso. Mas é viral.
Ultrapassam as dores da pobreza insubmissa
os coches das princesas cibernéticas.
Enquanto os bispos cospem na missa
fieis vivem suas vidas ascéticas.
Voam sem medo, falcões, agora,
na promessa da viagem com arte
Ouve o sino que lhe confessa a hora
vê que o navio em espuma, parte
mas não há arte na viagem. Apenas no seu usufruir.
A noção que viver é partir.

Crie o seu próprio destino, dizem
como se o destino fosse galinha ou porco,
como se fosse vacas que os prados alisem
vitaminados e vacinados contra a expoliação humana.
como se fosse vinho que sentento, emborco
numa verve bebedeira ufana
Como se semeassem nos campos os destinos e as vidas...
o ouro que desesperava Midas.

Uma vida como a minha,
que nem rimasse nem nada,
mas fosse.

E um futuro perfeito, sem mazelas e com garantia.
Até um seguro de rima se fazia
Sequelas de rituais à beira rio se multiplicam.
Há peregrinos que saltam ao arco, feminino.
Como não sabem, também não explicam
que eu bem pergunto, desde pequenino.

A marca está em graus e mede-se em dólares
Faz a pergunta que o cavaleiro não fez,
é antigo e aceite seu feito trolhado.
Não adianta se ajoelhado orares
se não olhares, nunca mais vês.
O caminho quer-se caminhado

Agora, os segredos das origens dos mundos
encontram-se em cofres obscuros
desvendados apenas em concílios de certas sociedades.
e vestem-se fatos rubicundos
escondem-se em torres por detrás de muros
e falam baixo as verdades.

Na História da minha vida revolucionária
desde época embrionária.
também estive prisioneiro, fui-o a título excepcional,
exemplar. O último legado gizado em relatório
datado de trinta do tal de mil troca o passo e qual
com o seguinte título nomenclatório:
«Tratado da Formação, Construção e Paixão da Palavra»
que bem que o tractor de manhã lavra.

Deixei os ossos em casa e vim de bicicleta.
Ouvi a memória dos bosques livres que caminham connosco
Em pulsações sonhámos à deriva do vazio
escavações éticas e arqueológicas com pompa.
Todos a correr mas só um corta a meta
Geralmente o que é menos coxo, digo, tosco
às vezes tem cara de safio
outras tem uma grande tromba.

De língua pendente, sem papas nem nada
panos de manga para salada de fruta
No botequim bebe-se Liberdade
deita-se na esquina da estrada
e a vida é luta
do campo à cidade.

A crise do caranguejo é boa de perceber
existe esse medo de existir paralelo
nesta vida de entretecer
cada cadeia seu elo
E a loucura de ser humano
tratado como cão
esse argumento insano
de ser migalha de pão

Ouve o silêncio da Linguagem
e boa viagem
Em rigor e espírito científico
não sei se vou, se fico
Palavra de gõndola

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O Autor / A Ideia


A tarde, plácida, convidava à reflexão. O Autor, sentado, com rio à vista, ponderava.
Os pensamentos assomavam-se-lhe à ideia como subiam as bolhas carbónicas na beberagem gaseificada que pipocava à sua frente. Deixava-os soltos, como os pardais chilreantes que se desprendiam das vivas verdes copas, em bandos à solta pela avenida, dançando em suave brisa de Maio. Os pensamentos, como os pardais, sem dono e livres demoravam-se na frescura da sombra, piruetavam nos feixes de sol e picavam, acrobáticos, sobre presas intangíveis, alheios aos cálculos aritméticos da Bolsa e ao ruído poluto do tráfego viário.
Como pensamentos livres, se presos por fios inseguros em arquitecturas ténues e, contudo, assentes na solidez da realidade que os origina, abarca e parametriza? Serão estes pardais livres ou nós apenas cegos às correntes electromagnéticas que os cerceiam? E nós, se nos prendemos a eles, livres seremos de escolher novos que assomem na praça? Seremos nós tão donos dos pardais como eles de nós, na tecida malha que nos une.
 Quem apascentará os pensamentos nas serras da abstracção? Quem guardará essas nuvens que se dissipam quando o vento as quer apanhar? Que há lá lobos que as querem comer. Os lobos das ideias são astutos e nem os pardais estão a salvo do seu apetite. Bem vestidos e bem falantes, saltam sobre elas e fecham-nas em caves escuras, para que ninguém as procure, cerradas em torres inexpugnáveis. E os bravos cavaleiros que se lançam para salvá-las, os que da cultura nos falam os sábios, os antigos, nada mais que difusas memórias, tangidas melodias, esgares amorfos que testemunhavam mais de sua demanda que de seu sucesso. No barro se esconde o gérmen aurífero que o suplanta. No carvão, o diamante se anuncia. E nas cordas quânticas dedilham sábios dedos, soltando o tom assumido de cada ideia, de cada pardal, de cada pastor.
O merceeiro deve conhecer bem as suas couves. Conhecerá igualmente os seus pensamentos? Logo agora, dita era do conhecimento, se funde o entendimento, flagrante e despido se assoma aos olhos a sensibilidade de certas ideias face á verdade, aos factos, e assiste-se a uma domesticação estatística da ideia, como se houvesse um plaffond definido para cada um ter, um crédito, um débito, um falso ambiente, manipulado ab nauseum.
No caderno aberto, a página fitava-o. Liso, não fora os vincos, fitava-a de volta. Sem fronteiras que o prendessem, estepe russa, savana a desbravar, sulcava, lavrando e sachando, enxugando as rugas do esforço às costas salgadas do empenho. Repousa o arado da consciência quando a luz do saber dá lugar ao senciente nocturno, sibilante e profético, arrefece-lhe o ferro da reflexão, que empresta a profundidade ao trilho aberto.
Oxalá socalquem o seu Douro mental, unam as margens dos graníticos dogmas com pontes suspensas, em arco ou de paralaxes. Num ápice, a sinapse, abside, dendrite. Não se cortam as raízes a um pardal e nem dois tomates são iguais.
O merceeiro conhece bem os seus tomates. Por isso é que lhes dá valor. Venderá também seus pensamentos a granel? Não vai à fruta com um guarda chuva, nem à fonte de gabardina, não se lava com chouriços e nunca leu Shakespeare na folha de uma couve, embora suas belas folhas escolhesse nas primícias de seus agrários fornecedores
Como melros ou verdilhões se levantam, lavrados em carne e oco osso, nervosos como margens desirmanadas, os versos do jogral, não há, de todo, igual, e a lira tem o som incensado da parda pena e do carvão que sulca as ondas lisas do oceano, traineira que pesca à rede os pensamentos em cardume que rebrilham, prata debaixo da superfície dos indivíduos que se cruzam, emersos na avenida. Será ele apenas uma estátua, imóvel observador dos pensamentos que passam e atracam no cais do rio.
O merceeiro conhece bem como se pescam os pensamentos com o isco adequado. Nunca roubou uma folha de alface nem mexeu na balança. E sempre deu o troco certo. Costumava, por vezes, naqueles crepúsculos do estio, confessar:
- Se pusermos sempre à frente um nabo, não saímos deste molho de brócolos. Da alma das folhas de cálculo nada se sabe, mas mesmo esta não se pesa ou quantifica, e o que fica, não se sistematiza o orgânico, há que não ceder ao pânico. Que não reine a mentira, mesmo que cante de doce lira.
E como o pedreiro constrói a sua ideia com os tijolos do pensamento unidos com sua argamassa moral, também o Autor construía cidades com as ideias que formulava, enquanto sorvia, tranquilo, o fim de tarde gaseificado.
Por vezes, apercebia-se que haviam indivíduos que deixavam cair as suas ideias… perdiam-nas. Outros, carteiristas, tiravam as ideias de sacão. Havia quem as atirasse, para o chão, assim que as considerava inúteis. Jantasse fora com elas e as digerisse com um Porto de Honra.
Ainda bem que há quem varra as ideias mortas do chão da avenida. Tropeçaríamos nos cacos desfeitos das ideias passadas, cairíamos em ideias já usadas e abusadas, Soube que, a coberto da noite, saem de certas ruas encapuzados que recolhem algumas e as depositam em prateleiras numeradas, que as guardam, catalogadas, em museus esconsos das vistas comuns, para que no futuro as vejam, ideias fantásticas, démodé ou puro lixo, tudo armazenam em cais de embarque...
Há ideias que queimam, atravessam-nos, ardentes, como ácido. É preciso manuseá-las com luvas apropriadas, com capacete, com cuidado. Ideias incendiárias, bombistas e bombásticas. Cujos pensamentos dependentes são como chamas que se alastram na savana, por vezes tudo queimam em seu caminho devorador, como se não tivessem limites os apetites fulminantes de sua execução. Ideias parvas, também… Upa! Isso que havia por aí de estultos sucedâneos de ideias instantâneas.
E mesmo que acendam luzes a iluminar a noite, que fechem os olhos ou os tapem com mãos ignaras, que as neguem ou apouquem, não evitam que as estrelas mantenham a sua presença explosiva e luminescente nos céus, assim as ideias existam e se manifestam, brotam, saltam, efervescem e adormecem, por tempos desaparecem. Será que morrem, as ideias, ou se metamorfoseiam ad infinitum, sobrepostas por camadas, mudando de pele como cobras, tantas não tecem em casulos as teias do seu irrompimento. Há ideias a que lhes vestiram burkas azuis, negras sombras indefinidas do que são, de seu papel renovador e sagrado, ideias que se não vislumbram tornozelos, o suave despontar do tom da sua pele à pele da ideia, há a ideia da pele, ideias de facínoras, ideias prostradas, vertidas no deserto ideário, ocultas do mundo por vergonha de ser, sob pesados mantos sepultada, trocada, vendida, destruída... 
Que apenas fraccionarmos vislumbres desse mundo abstracto das ideias, apenas as compreendemos no ponto em que nos cruzamos com ela.  Mesmo o factor tempo faz com que novas perspectivas se observem nas suas fácies iridescentes. Há ideias que são difíceis de extirpar, como pregos ferrugentos que destroem a construção a que são inerentes, por vezes descem a avenida, ribombantes enquanto outros viram o olhar ou comentam fortuna alheia, pois há os que se sentam sobre as ideias, como poltronas afanadas com naperons rendilhados minuciosamente, degustando pequenas deglutições de ideias em chávenas de porcelana. Há quem as veja passar, como transeuntes curiosos, turistas de países longínquos, pessoas perdidas de sua ideia, que as procuram em caves de ébrios marinheiros.
Cheio de ideotassincracias vagueiam, náufragos dos porquês sem resposta, faróis sonoros que atravessam o cerrado nevoeiro, ideomocraticamente reeleitos em mandatos abstrusos, há ideias que são verdadeiramente insuportáveis, como birras de príncipes mimados, chorando por terem perdido um condado como quem perde um doce, ou uma ideia, translúcida, cravejada em doze secções de igual amplitude. Milimetricamente aplicada, sem reticências ou outras demências.

Os artistas pintam-na com as cores do universo, mas ninguém as canta melhor que o poeta, ou as dissolve em suave música, exprimindo-a em harmoniosas tons e compassos. Há quem delas retire um subtil instante. Há quem defina o argumento da ideia e a passe, vezes sem conta na sua versão cinematográfica. Cientificamente falando, a ideia já há muito foi analisada, biopsias foram efectuadas, dissecações, testes, diagnósticos… relatórios se acumulam em Kagabytes de memória, o equivalente a três voltas ao sol em estantes e um queijo da serra. A ideia foi explanada, percutida, extirpada de suas impurezas, fundida e soldada. Moldada, cozinhada, cunhada. A ideia até já estava, entretanto, toda estragada. E, contudo, tão plástica, tão viva, vivia com as outras ideias, brincava, dançava, saía a abraçar tantas ideias quantas conseguisse, espraiava-se em todas as direcções, vendo toda a paisagem que as ideias desenhavam no seu bailado antigo, ou então assim se assemelhavam, na sua mente, as ideias que se apercebia.
Mandou chamar então seus pensamentos, trouxe-os de volta na brisa da tarde, Fê-los pairar e rodopiar e em voo picado retornar. Levantou-se no pensamento a ideia de se levantar e caminhou em direcção ao poente que esmorecia.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Leitaria 17 a 32

Benvindo à nossa leitaria
aqui se explora todo o dia
Retenha à porta a sua alegria...
aqui não reside sabedoria.

Se quiser leite de Literatura
saiba que se pratica a usura
Se quiser queijo de poema:
a escravatura é o lema.

Da História,
parca memória.
Da Filosofia...
até um burro se ria
Do ditador, a glória
nós, apenas escumalha e escória.

Já se espremem biografias
de quem vida só teve uns dias
Crónicas... que não te fies
mete a canga e não pies.

Isto, a um nível antropológico
digamos, de caril etnológico
com nuance simbólica
de índole pouco católica.

No âmbito da inética sociologia
não há ponta de pedagogia
Haverá coágulo de demagogia?
iogurte psicológico, esoteriológico?
Natas... ajudem-se a si mesmas
que o Direito se encha de lesmas

E um batido de comunicação
de quem tem os grupos na mão
poderá encontrar ralações internacionais
no pasto da política
e se a nossa História não é semítica
estende-se as cartas, códigos e sinais
ah! Vaca memória de viagens
que não se me apaguem as imagens

Tudo isto porque a quem é leiteiro
não lhe pedem para ser livreiro
E se não perceberes daquilo que fazes
nada mais és que papagaio de ocas frases.




terça-feira, 11 de junho de 2013

À soleira

À soleira,
desalmado,
flutua.
Desanimado...
inanimado...
vazio de sentido,
vácuo de força
anímica.
Um líquido suspiro,
esgar rochoso.

A vida inteira...
pedaços de momentos
colados em caminho
sob os tijolos das opções.
E, os cacos, varre-os a mente
enrolados no cotão de sua insignificância.

A dor é aqui!
Não cai... desfalece.
perante respostas imunitárias.
Não te propensa o comprimido
tormento de oprimido.

À janela, olhos de gato... espreitam
sem runa, sem rumo
ronrona à Lua que pinga
destilando suas crateras
envelhecidas.

Range o corpo
nas esquinas iluminadas
da consciência.
Rege a alma, presa...
ilha de si mesma.

A solução, reage, alcalina.
tom cien que se demarca
matiz que o céu reflecte
das ondas que batem no mar.
Ondas, partículas
ou tão só a noção do observador
Se observa a dor,
como não lhe dói?

A prova da alma
o ânimo das consubstâncias
empaladas no corpo crú
emolumentos de sinapse
fractal semeando quântica evolução
espelhadas no cosmos, as forças primordiais
iniciam-se na ausência de matéria.
Sem massa.
Sem analepse.

E todo o dia, ruír
E tons de células erguer,
nascendo e morrendo
no intervalo de uma unidade
a que chamam tempo
o grande Deus que ensina:
«Tudo passa...»