Eu confesso! Juro que tentei provar essa teoria parva que
por aí tem andado de que o livro é um produto como outro qualquer. Admito que a
ideia logo à partida me causou estranheza, mas, devido à minha elevada educação
científica, resolvi testar essa teoria libertadora do Mercado:
-Se o livro é como outra coisa qualquer, porque é que não
está a fazer outra coisa qualquer?
Segundo certas mentes iluminadas, vender livros, sabonetes,
hamburgers, parafusos ou chouriços é a mesmíssima coisa – decidi então proceder
à pesquisa em questão utilizando o método científico mais à mão: a experiência…
Garanto-vos. Foi um pesadelo… Os Lusíadas dão um péssimo
sabonete: esfarelam-se muito, deixam a pele seca, entopem o ralo e, ao fim ao
cabo, epicamente, continuei a precisar de tomar banho. O pequeno-almoço não
correu melhor. O Galveias não é a mesma coisa que um croissant, embora o Café
com Leite do Buarque seja apelativo, há algo que falta de acertar para caber
numa caneca. Nada que com o tempo não se trate… Adiante.
Montei-me na Volta ao Mundo em 80 Dias, mas eu trabalho em
Lisboa, por isso, 80 dias é um desparrame de tempo, o mundo também é muito (talvez para as férias,
dessas, low cost a quatrocentos €uros que vi na capa da revista). Então
decidi-me por um Michel Vaillant, mas os combustíveis estão caríssimos. Em todo
o caso, não me conseguiu levar a lado nenhum. Que falta de mobilidade. Sinceramente!
Nem com rodinhas, nem à vela, dali não me safava. Mandei vir os dragões do
George Martin e os Faíscas McQueen do meu filho, mas nada daquilo arrancava e o
dia clareava.
Decidi avisar que
pelo andar da carruagem do Expresso do Oriente, ia chegar mais tarde ao
trabalho do que previsto. Peguei num Pessoa e mandei a mensagem, mas não tinha
rede… Algo tinha de ser feito, por isso, pus-me a caminho por meios próprios,
pondo em pausa a experiência e decidindo-me a despachar-me a entrar no
automóvel com uma bucha na boca, que, se corresse, ainda chegava a tempo de
apanhar o barco. Oxalá não fosse uma Jangada de Pedra.
Entretanto, pela viagem embaladora do ferry, o que eu tenho
que não faz falta nenhuma ao sítio para onde ia, pensava…
-Será que para certas pessoas, o livro é como plantações de
cana-de-açúcar ou algodão? Se lhes dissessem que o próximo treinador da equipa
de futebol percebia era de remo? Jogadores de futebol bons na sueca, sinceramente.
Há que haver sensibilidade.
-Se é igual a qualquer outra coisa, o que é que estes parvos
andam a fazer há trezentos anos? Irra, que são teimosos!
-O trabalho liberta. Eu também li a Berta e tinha pêlos a
mais para o enredo.
A questão teria de ser outra. A premissa não seria esta, e
nebulosamente, aglomeravam-se editoras, como se fosse um enxame de moscas e
depois, nada… não se via nada. Umas morriam, outras fundiam-se, muitas
desapareciam. Algo estava errado, e as razões de tal, ocultas nas raízes de outros
paradigmas. Era para acabar. Let it burn!
Havia muito que vinha de trás, bem sabia…
«Nunca olhes de frente para o Grande Líder, que os anjos do
Senhor te fulminarão e serás lançado aos abismos do esquecimento até nada mais
seres que vermes e terra.», dizem.
«É para isto que andaram a estudar, para destruir valor ao
invés de o criar? Ando eu a pagar impostos há mais de cem anos, e só me dão é
fezes, estes gatunos da minha saúde!??» perguntava, indignada, D. Arminda, no
rádio do navio. «Depois são ministros e secretários de Estado, gestores e advogados,
deviam chamar-lhes socioputas, perdoem o meu francês, senhores, narcisistas,
chupistas, solipsistas, ou brutos, sei lá… agora, doutores? Doutores é outra
loiça. Até há juízes que, se fizessem da cabeça bigorna e a estragassem, também
era coisa que não usavam muito, já com aquela idade…!» - Vamos ter de desligar.
Obrigado, D. Arminda, os GOE vão já a caminho. Bom dia.
De onde se originava esta teoria, quando se construiu? Quem
assim retalha, não retalha, esbardalha. E tal martelava minha mente. Então
pus-me a observar os intervenientes de tal imprudência praticamente factual:
Vinham das lixívias e produtos derivados de limpeza,
telemóveis, electrodomésticos, dos perfumes e relógios, vinham dos supermercados,
seguranças neonazis e incompetentes relacionais. Parecia o Mayflower ou os
índios da praia e meia. Às tantas, surgiam de todo o lado, sabe-se lá de onde,
saltavam de buracos, andavam ao largo, surgiam municipalizados, mas sempre lá
em cima. Todos a correr para o seu lugar, com cargos feitos à medida, em design
personalizado e tecido pré-aprovado, à medida de algum freguês. Cada um no seu
castelozinho a dar ordens, manientos, a criar obstáculos à prossecução das
coisas, pequenas alterações numa cadeia longa pode trazer resultados
extraordinários ou só mesmo totós, exigem que os funcionários criem as
condições de trabalho como se não fossem obrigação da empresa, cortaram nos
direitos, nos prémios, no ambiente, cortaram nas compensações remuneratórias, na
autonomia, tudo o que mexesse. Cortaram em tudo, menos no trabalho mecanizado e
troglodita, como se fossemos empilhadoras de faxina, papagaios sem vontade,
articulando palavras sem nexo ou seriedade, mas com muita atenção às vírgulas.
Apoiam-se na coerção para provar os seus pontos de vista, num local de parca
efectividade e anedoticamente triste remuneração. E a malta engole em seco e
estuga o passo.
Parecem uns putos a jogar à bola no palácio de Cristal, como
uma manada de búfalos num campo de túlipas, uma lesma húmida e mole deixando um
rasto viscoso à passagem.
-Se fosse um navio, estávamos bem tramados e naufragados… e
nem salva-vidas teríamos, que eram custos inadmissíveis para a operação. Antes,
umas caipirinhas no convés encerado.
«Quem cá está», como diria o saudoso «está para dar nas
vistas, e é pago para isso, há quem esteja para ver as vistas, que é para isso
que vos pagam. E depois, há os eventuais: na eventualidade de fazerem alguma
coisa, eventualmente, fazem asneira.». - Isto não é meu nem do meu pai,
ralas-te para quê, se quem é pago para o fazer não o faz. Reza mas é para que
dê buraco, que ainda tens direito a uma indemnização. Na pior das hipóteses,
compra-te o Azevedo, tarde ou cedo e põe-te a vender salsichas.»
-Quem sabe, não tem como trabalhar, porque quem manda não
sabe, e não há quem veja? Nem sabe. Atira a olho. Quando der raia, logo se vê…
Aumentarmos tudo
menos o que ganhamos, esse é o nosso lema. Não somos livres, somos livros, mas
como os livros são como o bacalhau e há mil e duas maneiras de fazer bacalhau,
estamos feitos ao bife de atum num molho de brócolos. Como os Monos, comamo-los
com batatinhas…
- Prefiro o cliente a sério ao cliente mistério, a
honestidade, a um prestigiador de vazios. Trabalhar para o boneco não é de todo
aprazível, se cá ando há quinze dias, quase, porque é que não percebi, mesmo
que fossem parafusos, que haviam de ser todos equivalentes, e não diferentes? Dimensões
e materiais, tipos e qualidades, tudo isso era, afinal, igual. Podíamos pôr a
Biblioteca de Mafra numa estufa e cultivar prateleiras, como se faz com o
tomate.Que se danasse! Eu mesmo sou igual àquele pinheiro. Tal e qual, nem se
notam as diferenças, só mesmo olhando de perto, vê-se que ele tem casca de
pinheiro e eu camisa de pele de camelo. Seria uma epifania espiritual que lhes
estava a dar em spread? Tal, contudo, continuava a soar-me mal.
-Se quiser saber de peixe, pergunto ao trolha. Peço ao
taxista que me arranje os dentes e quem construiu a minha casa foi um ardina
que fazia umas horas por fora a assar frangos. Deitar-me com uma mulher ou com
um helicóptero é a mesma coisa. Vou almoçar à oficina e voto mas é na… coisa
que gosto mais do que políticos, e agora, que somos tão adaptáveis à mudança (cada
vez que vejo um fatinho a falar em mudança, pergunto-me porque tenho de ser eu
a pagar-lhe a cirurgia) somos todos iguais, gado bom, este ano até o PIB tem
orgasmos, decerto, de tanto lhe afluírem os capitais, se não nos vissem como
lixo financeiro… Talvez devamos mudar de ramo de negócio, para estrume, sempre
é um bom aproveitamento bioenergético para o que muito boa gente anda por aí a
fazer. É um mercado em crescimento e é melhor que fazer cimento.
Aí se deu o Eureka da
questão, a assomar-se o Terreiro do Paço. Depois do vinho, faz-se o bagaço! E,
ao picar o ponto à hora marcada, ri-me à bandeira despegada. Como dizia o
cantor, do rádio entremeado com o motor, ao chegar ao ancoradouro, cais do Tejo
ou do Douro, perguntando o que é que fazia, «eu cá, nem me mexia». Assim já
mereço o salário.
Mas eu nem na cama
estou quieto, o que traz as suas vantagens, mas nem sempre. De neurastenia no
bolso, nada a tilintar, de tilt em tilt, é que eu não posso andar. E continuei…
Tentei vender o livro desse modo. Este é bom para as costas,
aquele dá 100 aos 8 segundos, este aqui ganhou o prémio da fritadeira do ano,
já ouviu falar deste, uma vez caíu, e quem o levantou foi aquele, fica-lhe mesmo
bem, a acompanhar um vinho branco. Se comprar este ainda pode-se habilitar à
eventualidade de adquirir este outro que já não sabemos o que fazer com ele. Aquela
editora trabalha muito bem os azuis, a outra é mais bolos. O seu número de
contribuinte, e de leitor, e de leitão da senha nº3, realça-lhe os olhos,
tonifica os glúteos, é a melhor solução para os seus problemas com insectos,
lava mais branco, é impermeável e redondo, maleável, lavável, móvel, perfumado,
aditivado, entornado, palavreado, tudo bem misturado como se fosse um robot de
cozinha. Um óptimo nadador-salvador, morenaço e temente a Deus, que leva para
casa e lhe faz o jantar.
E nem a água pagavam,
nem nada, e um gajo suava, e a saliva evaporava-se entre a sauna, o jacuzzi e o
forno. Quase preciso requisitar um modelo previamente esquematizado para obter
a autorização necessária, dada pelos diversos departamentos envolvidos e
preenchido em triplicado para substituir os sucedâneos literários que para cá
mandam, como se fosse toros de lenha… e falava e falava. Não dava muito
resultado, e os clientes já olhavam para mim de lado. «Mas já leu?-
perguntavam…
-Ah! É para ler, o livro? E por isso é que tem letras. Pois…
Eu também lia folhas de alface, louro e couve, folhas de chá e borras de café,
revistas cor-de-rosa e placcards de publicidade, mas pensava que o livro era
para decorar paredes ou mesas, que soubesse tirar cafés, fazer martinis e lavar-me
os pés, mas ler, ler, ler, ler, andamos todos, tontos, afinal, ainda cá pastamos
por Portugal. Mas aquelas pessoas não sabiam que ler era a mesma coisa que
fazer outra coisa qualquer? As pessoas liam mesmo os livros? E eu já a pensar
que era para fazer de vasos à janela da sua casa? Ou da casa da vizinha, que
era a mesma coisa. Se eu aparecesse lá em casa do doutor para jantar? Decerto
me daria chapas de alumínio.
