quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

rocambolesco


De facto, rocambolesco,
já parcos se recordavam...
Fora vento, fora tempo,
fora maré invejosa,
que varreu o jardim da terra
para esvaziar o mar

E trinava, gozão, o tentilhão,
e tremiam os prédios
em seus alicerces...
E soava um ribombar.

Surdo, não mudo.

Seco, forte, troar assustado.
Que pendurava a morte,
em estendais, pingando,
às janelas rendilhadas.

E labaredas lambiam edifícios,
esecavam, nos parques, as fontes.
Benzia-se o povo descrente,
desabituado de temer.

Choravam, mendigos,
pela salvação, imploravam,
carregando suas âncoras pesadas
que não conseguiam suportar

Leva-te a ti e parte!
Este pedaço de terra afundar-se-á
para dar testemunho
se sua semente.

Pelas ruinas


Pelas ruinas, toca o vento

Pedras que escoam História,

Vales por onde ecoa a memória

Enclausurada na raíz do tempo

 

Guardam o fruto de seus segredos

Sussurrados pelos rochedos

 

Erigidas no seu transacto longínquo,

Testemunharam vicissitudes

Viram o povo profíquo

Perder-se em latitudes

 

Repousam ainda, à espera

De serem engolidos pela terra

 

 

No fundo, tudo são manhãs

Prenhes de instante rubor

Fértil dos céus a clarear

Perfume da vida a acordar

O Futuro, sempre presente,

Espelha o passado

Instantâneo e real

Palpável como a nuvem

Que permeia o sol

 

Mesmo sabendo que, à tardinha,

Tão suave quanto breve,

Amanhã também o é

E mesmo ao anoitecer

Como um início

Constante e explosivo

Aurora incansável

Iluminando o mundo

Como um só

 

Como a manhã, o universo,

Mutação perene e endémica

Definida por constantes osmoses

No tranquilo fluir do Tempo.

In nu endo

A decomposição de fracções racionais, geralmente, chama-se dilaceração e posterior putrefacção, resposta óbvia do cérebro orgânico face à sistematização normativa da compreensão matemática, quando a mesma é encarada como um bloco de cimento, ao invés de a podermos abraçar como uma lei viva traduzida musicalmente e equiparável à religião.
Os autocarros, ruidosos e fumarentos, sofrem de solavancos crónicos, um nível de Parkinson que actua ao nível dos amortecedores em contacto com as crateras na calçada, por vezes assemelhando-se a uma manteigueira avariada, ou uma batedeira, e os passageiros, os ovos. De facto, há autocarros bastante simpáticos, por vezes mais que certos condutores, ainda hoje me arrepio e me espinho com a memória do terrível, assustador e bigodudo que todas as manhãs ouvia as 24 rosas numa cama. Pelo menos não guinchavam como os sub sub nos seus túneis labirínticos, onde se põe o sol sempre e não se levanta, metálico e betumado, uma paisagem despida da noção de paisagem, um faiscar de cores que se fundem vaga e inutilmente na escuridão abocanhada, apressado num passo assalariado para o trabalho.
Como se a liberdade fosse morrendo esmorecendo de dia para dia, sequestrada, oprimida e escrava. Pelas mentiras do dinheiro. Pff! Primata superior. Símio avançado, semente de luz, filho virgem de constelações dispersas, valente pedaço de merda cósmico., que se alimenta das grilhetas que impõem convencionalismos condicionais juntando carneiros para a tosquia. Grande cabrito no forno me estás a saír…
Por vezes , doem-me os pés e o coração, vagueando, só, na noite, em busca de mim, incorruptível, inabalável, um tom som de luz e cor. Um sonho.
A existência do. O. é uma dimensão irreal contudo visível, no qual o seu signo é coligado intersisticiamente com biliões de essências pontuais, particularmente moleculares , a cola que as une e  o agrega, ao sublime e sincero.
Imóvel, no vácuo, absorto, cru e fixo, nodal e visível, o cerne oculto dá início ao Princípio. No Espaço, minúsculas estrelas explodem silenciosamente no Tempo. Há sempre planetas a nascer, algures, numa bordadura floreada de um sol.
E a brisa percorria teus cabelos, cascatas consagradas a deuses perdidos nos fenos.
Como uma asa de amor jovem é eterno, e a morte um sonho tenebroso e desconhecido, bailando no fino ar que só aos outros atravessa.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Cantares

Para Peres Metêlo, a coisa não era fácil.
Apesar de tudo, a manhã abriu de par em par os braços e correu a abraçar o oceano que agora se levantava, em marés de pureza.
Da pereira, expectantes, quatro flores irrompiam, brancas, como brancos os sonhos acordados das crianças, povoados de civilizações inteiras de personagens que os mitos desenham em tons mais sombrios.
Em todo o caso, pensava, o país fechara-se sobre si mesmo, auscultando as dores que teimava em esconder. Declarara-se a falência obrigacionista do jugo social sobre pactos mal formulados. o povo, nascente máxima e última da soberania que lhe assiste, cansado de entregar em sujas mãos a construção de um porvir radioso, descrente de todas as soluções apresentadas, tantas vezes em nome de ocultos senhores, a mando de faustosas empresas, abraçava o abstencionista anarca que o temperava, esperançoso que a voz sobrasse para chegar à rua, à polis, à praça.
Mas a voz, cujo contexto estava já claramente deficitário, vendida a altos preços nos mercados bolsistas das grandes nações, só chegava, roufenha e monocórdica, desinteressante, mas hipnótica, para soltar uns miados mal amanhados e praticamente inaudíveis, para lá do silêncio introspecto que a angústia estendia em seu redor, por onde reinavam os bulícios de uma sociedade da desinformação, limitava-se a sussurrar, que o medo da censura espreita já aqui, que a liberdade tinha sido adquirida em leasing e que estava na hora de se deixar de ilusões, direitos e pressupostos, a vida estava crua e aldrabona e não havia lugar para a ética ou honestidade. Mesmo que contra o mundo lutasse, de escudo tinha apenas a sua seriedade. Como esta não teria pendor de vendável, era inútil e aberta a desvalorizações indexadas ao valor de referência aproximado, valor esse que seria utilizado, em seguida, para efectuar taxas de cálculo e rumos de esforço expoliando e extorquindo sem piedade o sangue e a vida aos demais cidadãos.
A Europa constroi-se, não em tijolos, mas colada a cuspo, e as clientelas fazem fila nos corredores de Estrasburgo, como uma sopa dos pobres que são ricos, cheia e pulsante, contrabalançando com as mitras fechadas pela ASAE e as sombras humanas que dormitam pela cidade, entre cartões, dependentes de cidadãos avulsos e de seu pendor solidário, abandonados às sortes desnutridas que povoam os recantos escondidos das urbes adormecidas, levantando-se, entre trapos e remendos, antes de raiar o dia, expulsos por jactos que visam limpar as ruas dos dejectos humanos e, na sua robótica missão, acabando por limpar os humanos que, como restos de refeições lançadas aos cães, ainda dormitam, que o medo não deixa dormir e apenas o valor anestésico do alcoól lhes empresta uma solidez que faz lembrar o sono, mas é apenas o adiamento da morte.
«Exijo que no Parlamento, os valores da cantina sejam revistos como as leis do arrendamento o são. Precisam de spreads mais altos nos pratos de tremoços, mais água no porto, menos whisky e mais gelo.»
O serviço pode ser exercido por um taxista de bigode engraxado e o prato do dia seriam rojões e/ou tripas, que a ciência da cozinheira deve ser razoável.»- resmungava, entredentes e duas goladas d'água.
 «Que aluguem carroças, que andem de bicicleta, que substituam a frota por artigos de higiene para as crianças carenciadas, que substituam flores naturais por artificiais e comprem pão para os pobres. Que se deixem de discursos vãos e que declinem a imunidade parlamentar.», rematava para os companheiros.
«Onde anda a justiça? A aldrabar nos pesos, como uma feirante fajuta. Os juízes, apoiados nas cábulas em exames, digladiam-se com bandos de salteadores militarizados que, nas estradas portuguesas equivalem aos bandoleiros de outrora, atacando as diligências no Oeste selvagem, desta feita com ATM´s portáteis, perseguindo o cidadão automobilizado como um criminoso recalcitrante e assobiando para o lado ao passar por um meliante profissional. Vendidos, no fundo, que com uma única manifestaçãozeca sacaram 10% de aumento salarial, isto num país que tem como lema financeiro «corta em tudo o que mexe», e , dia seguite, já garantida a maquia, corre a matraquear, sem dó e em qualquer lugar, as costas e cabeças de quem os sustenta, afinal.» era uma dó que se levantava, uma dó que, como mó, girava em nó e reduzia a fina farinha qualquer grão que da engrenagem ia cuspido, dislates e análises eram todas minuciosamente desagregadas e cientificamente desconstruídas até se assemelharem a uma mole pasta de argumentos falaciosos e vazios. Uma técnica que lhe proporcionava dar um rating quase imediato a qualquer locução ouvida ou transcrita, tendo em conta a aldrabice natural do orador e a camada envernizada de populismo qb para fazer passar um camelo por um perú, um pavão por um modesto pardal, enfim, destruía diligentemente qualquer efabulação política que se erguesse ao horizonte, como um sniper bem treinado na arte do assassínio político de esplanada.
Num país de desempregados, Passos assume as portagens, Portas a travessia do Tejo em submarino. Crato fixa-se no continente americano e escreve crónicas para o jornal, a Macedo, dê-lhe um AVC de todo o tamanho e o INEM escreve-lhe a biografia e o requiem antes de enviar ambulâncias.
Os cidadãos, reféns do seu Estado, amordaçados pelo hábito de, calados, se quedarem ante as dificuldades, resignados e estóicos, até comem as solas dos sapatos, para não deixar caír seus familiares na lama, mas ainda hoje os lançam para o Catano em troco de uns tostões...
O Caetano agradece, mas confessa que não é o ramo dele, pessoas.
Durante décadas, mantidos num limbo que os aglomerava na mesma propriedade vedada e lhes lançava magotes de areia para os olhos enquanto que, sem pá ou picareta, abria buracos por todo o lado. O contribuinte, mesclado com o consumidor e o cidadão, cada um acotovelando os outro, e os grupos de pressão compartimentados em lobbys coloridos debatendo os melhores meios de saque, acumulavam os dividendos que cada indivíduo, sendo três pagadores, largava, usufruindo, quanto muito, de apenas uma faceta do proposto, arrastando-se a cumprir contractos falidos de início. A terra conquistada ao uso comum, acumulada pelas instituições do Estado é agora previsivelmente distribuída por quem tem poder de compra para as alienações estatais, acimentando as desigualdades, afunilando as oportunidades. Sempre chamado a pagar, o contribuinte nada recebe. O mercado assim decide:

menos condições para o trabalhador + menos direitos para o consumidor + mais apoios pagos pelo cidadão = maior lucro financeiro - distribuição por accionistas = 0

Isto é de boa vontade... Assim falavra Zara a Truta, capitã da equipa de volley do Bairro da Boavista, durante três anos voluntária para o serviço militar, desistiu sem casar, ainda era Cabo dos trabalhos, embora andasse enrabichada por um sargento e dois tenentes, foi um aspirante a sem abrigo, Caetano de sua graça, na altura, corrector da bolsa, que é coisa que até precisa de muitas correcções, que a conquistou, carregando-a, a galope no seu passo apertado, até a um aeroporto agora comparticipado por capital oleoso e desértico, que voar era o mais perto do céu que a podia levar.
«Boa tarde! Este é o vosso capitão a brincar com o intercomunicador, à vossa esquerda poderão observar manadas de vacas au naturel, enquanto que os passageiros à direita poderão disfrutar de uma visão exclusiva de campos de cultura de esferas rosa e violetas de algodão doce, cultivado por beneficiários do RSI, e, é bom de dizer, a custo zero. Espero que tenha uma viagem tão boa como a de um iaque nos desfiladeiros tibetanos. Over and Out!» Sempre gostava de dizer aquilo, dava ao taxismo um novo panache! Hilário tinha nas nádegas vinte anos de condução nas ruas cada vez mais apinhadas de Lisbos, dizia, «vinte em cada nalga, bem contados, como as chineladas da minha avó, professora primária em tempos que já lá vão e, ah! como eu sabia fazer contas... corrigia em ar zombeteiro.
Após o intervalo insano, enquanto contava em numeração romana os arcos da Velha Aliança que os raios solares iam postando no azul coralino do céu, demarcava-se mentalmente a solução para tantos dos problemas que afligiam as metódicas mentes dos economistas que, fazendo juz ao nome, economizavam tudo menos na estupidez natural, manancial abundante e sempre disponível na verborreia com que nos presenteiam, tendo sempre tanto para dizer menos o que é importante ou significativo, para nos baloiçarem em triviais considerações até que as mentes se aquietem e adormeçam, voluntariosas, à tereceira rotunda..
O homem, de barba composta e chapéu de feltro polido, continuava a observar a traça antiga, intermitentemente, enquanto atravessava a avenida. Chovia copiosamente e as gotas deslizavam como meteoritos límpidos na gabardina escura. Uma bacoca baforada no cachimbo anunciava que se desprendia de algum neurónio indiscreto, uma sinapse incriminatória. O homem abriu um pequeno bloco negro e apontou algumas linhas, não sem antes se certificar que nenhuma gota borrasse o aspecto impecável das folhas virgens. Levantou os olhos duas vezes, devagar, esbarrando sempre com a minha resposta gélida e, no entanto, curiosa.
O que levaria um estranho a tecer considerações acerca daquele local, que poucas vezes se dirige a quem passa por esta zona da cidade? Seria essa a razão? Porventura teriam ressuscitado os velhos mestres da Gestapo e feito um curso de formação para reactivação dos PIDE. Seria este cavalheiro um dos interlocutores que a Guarda preparava, colector de informações avulsas mas incriminatórias a todos quantos levantem sobre si suspeitas ínfimas de alienação social ou parca pertença? Aí, estacou o passo e dirigiu-se para a esquina, onde o distinto cavalheiro mantia a sua escrevinhisse, tão alheado do que o rodeava e confiante de me encontrar já numa outra quadrícula urbana, acabava a sua ilacção e arrancava à caneta um sonoro ponto.
Acercou-se no momento certo, enquanto tacteava com os dedos o bolso para depositar a caneta e o bloco. Sentia-o a arrepiar-se, de surpresa, e duas gotas de receio riscarram-lhe a linha do rosto.
«O que pretende? Porque me observa? Quem é o senhor?» perguntas em catadupas, e ele, calado, ofegava:
«Não, eu... quero dizer, não, eu...»
E aquilo parecia um carrossel, repetitivo e estonteante, e dali não arrancava. Mas , na altura em que estava para pegar-lhe pelos colarinhos e fazer uma carantonha intimidatória, o sujeito é invadido, entre soluços, de um ataque peremptório de riso desalmado e simultaneamente nervoso , o que deixou Peres desarmado.Pois fora através de seu riso puro e singular que a sua memória o reconheceu. Não lhe conseguindo atribuir nome ou faceta mais visual, era o timbre luminoso da sua risada que me transportou aos recreios indefinidos da escola primária, um páteo interno pejado de putos e, mesmo reconhecendo o timbre que o tempo empresta às condições iniciais de cada um, mantinha a imprevidência de não se associar a nome. Além de, pela imagem que transparecia, nunca poderia ser um colega de sala, era demasiado velho para os parâmetros utilizados na altura, e não poderia ser professor, pois não? «Professor Sarzedas?» Pronuncia, balbuciando o seu nome, sílaba a sílaba, como quem vai desfiando a memória e lendo uma fina tira de papel estenografado... «O próprio.»
Naquele momento, esfumavam-se as nomeações ministriais, os especialistas de coisa nenhuma, os bónus sobre desempenhos fraquinho, as reformas antecipadas, toda uma constetação criteriosamente construída, ruía, ante o assombro de trocar impressões com tão notável cidadão.
Sentia-se transportado novamente até à sua infância. A escola, o seu cheiro inigualável, as suas paredes com os trabalhos magníficamente pendurados, atestando a evolução dos alunos. Naquele tempo, os professores usavam bata branca, mas é hoje que a sala de aula parece m manicómio. Por isso a límpida gargalhada soava na sua memória como um rio fresco e caudaloso, fértil e completo... Tinha o hábito, o professor Sarzedas, quando novo, de irromper selvaticamente o seu caudaloso riso, por vezes contagiante e, lembrava-se igualmente, de tantas vezes procurar esse apoio bem positivo, enquanto a sua mão estendida ansiava pelo fim de algum correctivo mais reguado, concentrando-se na estridente risada, por vezes até se esquecia da mão estendida depois das pancadas recebidas, ainda a mão exalava aquele suspiro carregado de alívio, um pouco de dôr e um calor pouco saudável, suspenso o choque palmípede e lenhoso... Convidou-o de imediato a sentar-se na esplanada de um antigo quiosque e, partilhando um chá de ervas e folhas, puseram-se ao corrente dos avanços e recuos da vida de cada um.
Juvenal era um gajo banal, pronto, mediano, considerava-se ele. Altura média, peso médio, inteligência média, a sua vida era uma mediana, um gráfico constante e venial, e ele inserido permanentemente num limbo autodesconhecido, oscilava, entre um êxtase libertário e uma catarse limitada ao stock existente, geralmentre, na média europeia. Não faria dele um bipolar, que, embora na moda, ainda não se encontra num nível de manifestação suficientemente visível para entrar nas estatísticas que construíam a sua vida. Juvenal passeava no jardim, a meio caminho no sopé da colina, entre o miradoiro secular e o vale, outrora confluência de ribeiros e nascentes, hoje, apenas a toponímia desvelando seu ancestral fragor, despido actualmente da identidade que se formou ao longo da história da cidade, sepultado entre os escombros de ruas, cais e ruelas, engenhos de manufacturações perdidas na memória dos tempos e ofícios.
Parúsio era um rei. Não, melhor seria dizer que Parúsio era O rei. Não que o fosse, de facto, das mais ternas recordações de infância que guardava religiosamente era a frase «deves ter o rei na barriga», coisa que era, à altura, uma impossibilidade técnica. Mas, com os avanços da ciência e da tecnologia, Parúsio era o rei que o pariu, o que o distinguia dos demais pseudoaristocratas e induatriais d'algibeira, arrogantes e pedantes que se passeavam nas avenidas com ar afectado, era a superioridade do seu nariz empinado e um postura que lhe tinha feito ganhar o epíteto de «pau no cú». No entanto, era dado a acessos explosivos de violência gratuita quando alguma coisa não lhe agradava, o que colocava qualquer interlocutor desatento num alvo passível de ser admoestado à real pancadaria.
Atravessava a rua, quando reparou num transeunte introspecto, com um belo casaco de camurça. Abeirava-se dele e, sem cerimónias, apontava:
- Tem de fazer algo em relação a esse casaco. está curto.
O indivíduo, mirando-se obliquamente, com um ar de «vai-te encher de moscas», ainda justificou:
- Mas não, repare, casaquinho feito à medida, não assenta como luva que não a é, uma cor toda janota, veja, está perfeito.
- Quando digo curto, aceite o que lhe digo, é poque é curto. Eu não o conseguiria vestir, ficar-me-ia apertado. Não serve. Arranje-o ou envio um batalhão de guardas reais com plumas no capacete esquartejá-lo à boa maneira romana.
Logo, o inadvertido compreendeu a mensagem explícita e levou-o momentaneamente dobrado no braço, olhando sempre para trás, não fosse ser abordado por legionários da V Coorte.

«Há provimento? Não? Então, também não tem cabimento. E este provento, acaso é transportado p´lo vento? Ou é retirado do sustento de cada jumento? Ouve-se o gemido lamento, lento, ao soçobrar intentoo e, atento, sábio e bento, tento a tento, recupera o alento e ganha num momento um adiantamento sobre o aviamento, que proporciona crescimento,
Daqui do assento, acento. Não há birra sem birrento nem salário sem aumento. Não é apenas um sentimento, é também um pensamento que se forma no barlavento e é como um alimento, um alinhamento, espelhado na terra o do firmamento.» Assim cantava a poetisa, perto da fonte em pedra manteiga, encostada ao beiral. Todos lhe chamavam Diva, porque era ligeiramente mais pequena que um sofá. de sofá a divã ia um passo, mas deixando-se caír o assento, logo outro fenómeno surgia, despontando no horizonte encaixado nos telhados rubros das casas, as núvens calmas, o reflexo nas janelas
No centro da praça, alheio às teias que o destino vai impondo, um pombo debica os grãos abandonados por um reformado, idoso só de corpo, ainda jovem na maneira de sentir e na gana de viver. Desconhece como se uniram os caminhos destes personagens, tão diferentes e, contudo, partilhando o mesmo espaço humano. Separados, nada seriam, mas juntos... formavam o grupo de Cantares Alentejanos da Praça dos Girassois à Graça



No silêncio da noite

                                                                      No silêncio da noite
                                                                Só o mar rufa e ressoa
                                             Só o mar é a vida que na espuma se encontra
                                         Como que presa num sono intranquilo mas quedo.

 
                                                  Na ilusão da morte reinar sobre a terra,
                                                             mas não no Oceano matriz

 No silêncio, a Lua rodopia.
                                                Sob ela é o mar que lhe fomenta a música
                                                 Todos ouvem o mar como que a cantar

 

E, extasiados, dançam até que sua alma sua
                                                    Cativos desse feitiço de prata e branco

 

O Mundo, em silêncio, observa o mar

 

No silêncio, só o vento acorda as pétalas das flores
                                                  As faz tremer, de frio, na noite calma
                                 Só o vento uiva na copa das árvores azuis

 

É o abraço que lhes oferece é hipnotizante
                                                        Elas acompanham a dança da Lua
                               Nos andamentos guiados pelas ondas no mar

 

Mas nem tudo está quieto e silencioso...
                                                             Eu também danço e canto
 

 À Lua e às estrelas, com o mar e as copas das árvores
                                            E também eu sonho com esse dia glorioso
            Quando todos ao olhar para a Lua e dirão:
                                   Sim, eu também vejo a Lua a dançar.

 

 

Observo na andorinha que regressa
       A Primavera, de asas coloridas esbatidas no negro

 E no peito, a Paz do Verão, quebrado pelo sibilar dos grilos
                        E nos ziguezagues leio promessas de amor

  De amor eterno e sem tamanho da Natureza
                       Esse amor de Mãe, com o aroma da terra
                                                   O sabor colorido a flores silvestres

 

Revejo o Tempo antigo na corça que salta
                                                   Sebes que desconhece quem as fez
                                     Porquê aquele muro verde a céu aberto?

Separando terra da terra


No tacto da terra sinto a impermanência
                          Da Vida, a velocidade da Terra rebolando no Espaço
                                              Sinto no vento que sopra o mar que se levanta
                                 E as raízes contam-me histórias verdes de homens que partiram

 

Quando me sento no brilho do Oceano nocturno
                                          Só a Lua e as estrelas brilham comigo
                                     Nos reflexos multipartidos das ondinas
                                        
   E apenas o farol quebra a harmonia da luz e da côr
                                             Com fachos cortantes na noite de veludo

 

Desvelada, a noite fria, desnuda e sem estrelas
    Ali, onde pequenas núvens escondem os tons mais púdicos de negro
                     O cinza deslizante acosta a portos invisíveis.
 
 
 
Toco, ao de leve, em sua tez surpreendentemente azulada
                   De súbito, acaricio as leves curvas de seu corpo celeste
                  E uma estrela tímida desponta no infinito tecido

 

Salto para o ar em cascata de luz, caçá-las, arremetê-las
                                   Submetê-las a uma vontade criadora a elas alheia. Sossego.

 

Encostado a um asteróide pendido, contemplo sonhos impossíveis
                                      Observo, ao longe, uma estrela que, decerto, encantada
                                       Dança em volta a uma neblina violácea e a ela investe
                                             Em seu deambular errante, num gesto decidido

 

No desnível do planalto sopra um vento amigo
                                                       Desprende-se de si e traz a névoa

 

Onde o mar se cruza com o céu, na ténue linha do horizonte
                                          Inverosímel, escuto a voz que me traz a chuva a caír
                                                      Das ondas a brotar na costa arrependida
                                            Já nem a luz dos pirilampos faisca na noite velada
                                                Nem o coaxar das rãs me arranca da paisagem

 

Apenas uma ou outra ave responde ao meu tinido
                                                   Um ou outro coelho se assusta com ruído
                                                                              que não há
                                                Desfaço-me nas lágrimas, no sal do mar, na fonte
                                                             Corro a atravessar a terra e, no porvir
                                                   Dormir, morrer numa tarde do mundo escondida
                                            Que irrompe como um fantasma na escuridão revelada
                                           Assisto, assim, ao fim, e recordo o rumo e a mensagem.

 
 O Sentido da Vida só pode ser encontrado nesta
         Surge-nos, fugidio, oculto em vagas de eventos
                       Constituindo existências, acções e momentos
                                               perguntando «e dentro do nada, o que resta»?

 

Participando num banquete de Amor
                                            Amor em taça servido a quem a gesta continuou
                                        Abraçou intensamente o seu serviço, missão e destino
                                             Presenteou e Universo com a matiz de sua cor

 

O seu sabor e sua nota na sinfonia do sentir
                                             Uma palavra, uma identidade formada no real.
                                             Cresce e transforma-se, ganha asas e voa, ideal
                                        Ultrapassa os limites só por si impostos, vence, a sorrir.

 

Quando em si encontra essa voz, esse alento
                                                O carinho arquetípico, a vida em si guardada
                                      A chama que o revela abraça-o, numa redoma perfumada
                                                     Que é, em si desponta e busca o firmamento

 

 

O sentido, assim desnudo, sem rito nem mito
                                                Apenas a força de uma corrente imparável
                                              Que avança nos abismos, tendo apenas um fito
                                             O conhecimento de si espelha o Universo palpável.

Rumo



                                                                 


Em sonho, percorro mapas mentais,


Atinjo pontos desconhecidos em coordenadas inusitadas

Horizontes rasgados ante a indeterminação

Do ser, existir lateralmente à realidade comum.

Traço paralelas, sectantes e tangentes que trespassam os céus

Oriento premissas no plano envolvente e desenho na nova terra

À esquadria, sobre a quadratura do círculo oblongada

E o que se me revela é a realidade em ligeiro declive,

Como um reflexo tortuoso da consciência.

 

No silêncio, as palavras pilham as palavras ao respirar

Invadem as escuras salas inconscientes do córtex.

No Vazio, tudo é cheio de uma invisível substância, matéria e essência

Que escorre, como seiva, do alto do firmamento estrelado.

És capaz de ver o Sol como Pai e senhor, ou apenas o vês como astro?

Um entre muitos e não como teu. Vê-lo realmente ou abstrais-te dele?

 

Quando, no pulsar da terra as marés nos alcançam

E nos presenteiam com recordações do momento inicial

Apenas vês o Acaso, a sua lei? Mais nada a não ser acidentes?

Olha para a Vida... Observa-a e o que nela será planeado e com cuidado

O que nela é causal e não casual... ora, quem és tu?

Um ser consciente numa evolução cósmica

Ou um animal que se pôs em pé e tropeçou no fogo... mas que sorte.

Não será a vida criteriosa, ou tudo se explicará por realidades abortadas?

Se todos nós descendemos de deslizes, para quê, então, a Ciência?

2+2 serão 4 ou são por engano?

Pois nada é definido pelo acaso.

Cala frio na noite



Um calafrio na noite...
                                                      Assombroso, revoa ao seu redor.
                                                          A Lua cala em si a melancolia
                                                 E a tristeza anda escondida nas estrelas.

 

O sangue pulsa à noite na rua
                                                         Sem remorsos, frio ou temor.
                                                      A morte que nos ronda todo o dia.

 

 

Abrupta nas horas serenas...
                                                                 Clama-nos como sua.

 

 

Calafrio poderoso, rasgado e vivo
                                                       Cai, cru, sobre o corpo adormecido
                                                    Se haverá perdão por omissões e abusos
                                                    Que o homem sofre em silêncio incolor
                                                    Se não existisse assim, num ritmo aflitivo.

 

 
                                      Mas hipnotizado, hibernando num local desconhecido...
                                           Talvez fossem diferentes os seus costumes, os usos,
                                              Talvez fosse igual a sua tarefa, comum seu amor.
                                                Seria esse um mundo de igual modo agressivo?

 

Não há moral na espera vã, no recolhimento indefinido
                                   Não há valores consentâneos com a inacção ou ignorância
                                                          Apenas recusa, perda e sofrimento…

 

 

 Pautando as notas que a vida toca em nós, instrumentos
                                                    de algo mais que um Deus adormecido,
                                                   no interior vivo do cosmo de sua infância,
                                                           como apenas um terno momento.

 

Clangem espadas em combate no castelo... suspiros lentos…
                                                  na noite, o odor do mar, húmido e nítido.

 

 
                                                   O homem, só, como uma luz, trémula
                                                    Sente o calafrio, o sonho vivo, amargo
                                                    da mulher, só, na ponte em suspensão
                                 e ocorre-lhe a imagem d’algo que desaparece no horizonte

 

 
                                          O suicídio abate-se sobre sua mão ainda incrédula
                                          De vontade indómita, seu coração pulsante e raro,
                                               Desfere em si a faca afiada, a súbita explosão
                                            Busca em si parar a vida, que lhe jorra da fronte
                                           Apenas viveu e morre em seu sangue, em súmula.

 

                                                  Quem apenas conheceu seus sonhos vãos
                                                         o  reconhecerá no vento que passa
                                                            e na manhã que cedo se anuncia
                                                                no raiar lento do sol, em flor
                                                     só aí se verá quem um dia lhe deu as mãos
                                                                quem com ele ergueu a taça
                                                         e o pastor que descansa da numância
                                                      dorme em paz nos braços do seu amor.