Desvaneço-me como a espuma do mar soprada contra as falésias da existência, em suaves borrifos e salpicos que, quase tão etéreos como a atmosfera iodada que os circundam, plantam, ao de leve, a sua húmida realidade à nossa face imersa no horizonte ondulado. É, em leves manifestações que o mesmo se nos acerca e humidifica as faces enrubescidas, esse espirro molhado e salgado que nos acorda, despertos, ossos na areia dourada, derreendo no sol escaldante que seca e mumifica a vontade e empoeira o desejo, esse desejo de vida e grito, essa libertação ansiada, que se combate passo a passo, dia a dia, nos intervalos das noites pausa, respirações que se amnontoam no chão encerado, entabuado de pinho, suave e anelar, onde mariposas reais pousam suas leves e antenácias pernas enquanto sopra o vento por entre suas asas abertas, mas quedas. Aperta o leme nos escolhos semeados sem sentido pela vida que, de intempérie em intempérie, deixa, suspensas nas nuvens que antecedem tempestades, ou abrigadas nas profundezas abissais por onde se desenrola a alma das coisas, promessas de novas madrugadas onde o sol beija e não queima e o tempo passa e não corta os lábios de quem se dessedenta nos parcos fotões entre a brisa.
Rebolamos como restos de conchas bivalves, como búzios vazios, na praia-mar, alheios à vontade que animava o ser vivente, apenas se deixando transportar até à areia levemente banhada e o leito surdo do mar, embatendo nos pequenos seixos que outrora eram o nosso solo, fixo e férreo, como uma torre horizontal e orientalizante, que se espraiasse, em cúpulas e minaretes, oceano fora, trazendo à Europa montanhosa os ruidos das gaivotas cercando os botes carregados de peixe até aos dentes amarelecidos e prateados. Lembro-me dos chapeus que os aguadeiros marroquinos usam, e eu sou aqueles carmim berloques, suspensos como guizos nas orelhas das caprinas réstias de rebanhos mágicos de outrora. Outrora cantavam grilos na noite e equiparavam-se a cigarras pigarreando em concorrencia aos melros canoros e negros como corvos que rondam o halo da lua em noites despovoadas de estrelas. Pirilampos esvoaçavam em verde luminoso quase solar, torneando caniços envoltos em bruma nas margens das estradas esburacadas e em terra batida, circulando não rotundas, mas crateras nas quais, se debruçados, com cautela e emoção, às suas beiras rasgadas na terra, podemos observar, do outro longínquo lado banhado de imaginações subvertidas e inflexivas, os modelos de organização social dos koala e cangurus que, do outro fuso horário do mundo, penduram-se em eucaliptos ou saltitam entre arbustos ressequidos que apontam seus ramos despidos aos ceus de um intenso azul.
Esse desvanecimento é paralelo ou equiparável apenas à linha luminosa e vertendo cromáticas sensações diurnas e opusculares dos crespúculos incoerentes, silhueta oprimida sobre a cama atlântica pelo intenso negrume pesado da noctívaga presença que a persegue, tal como o último suspiro da noite, largando o último cantar da noite, sob o fogo intenso de vociferação suave e risonha, demonstrando a alegria inequívoca que cada novo dia oferece, alheio ao passado que se esconde nas trevas fugídias que a própria luz atravessa e desnuda, em fiapos que são como longos e finos dedos que tacteiam a escuridão, procurando por algo que possam salientar à luz de suas ciências, interpretando as suas essências, as quais se qproveitam desses hiatos repletos de matéria insondável com a qual o cosmo controi os tijolos e colunas que o sustentam e carregam, sob as alçadas do Tempo e do espaço, até onde a eternidade de sua identidade sucumba ante a curiosidade de ser outro, de morrer e renascer de suas cinzas apocalípticas e originais, repetindo os iniciais momentos da criação original de sua alma e mistério, a todo o instante, em intervalos de incontáveis milénios, para que nada sobre, na memória, de tantos e variados recomeços e soluções dicotómicas, fruto das encruzilhadas miraculosas envoltas nas miragens que bebemos nos desertos arenosos, azul e dourados, do Universo.
Desvaneço-me, então, como pingos de chuva salivando sobre o rio, como reflexos entrecortados de vidas em espelhos cujos cacos abandonados em chão negro e triste repartem, em mil pedaços, as faces que escondemos de nossas existências internas, secretas e eternas como o caminho diabólico da Terra envolvendo o sol com seus laços verdes e vivos, ou as diatribes dos que devaneiam, em alfabetos estranhos e aritméticas antigas, as teorias que nos testam a compreensão, pela sua singela execução, dispersoas em equações que o Homem, ao longo de sua história tantas vezes desconhecida, pintou entre salões e cavernas, ocultos sobre rochas mitificadas, escritos nos mais diversos suportes rijos e moles, papiros, argilas e papel documental, entre portulanos de representação geográfica do planeta e mapas mentais para que não se perca entre demónios no mundo que os espíritos animam, já aqui entretecido e interligados, tão perto que sentimos seu bafejar quente e amargo, que obsta ao doce que exalamos, atentos ao que deixamos perdido, alimentando-se das energias que nos envolvem, mesmo que nos alheemos deles, tão presentes na nossa vida, enfim, como o café que, esfumando, cálido, saboreamos na manhã fria, enquanto nos aquece as pontas enregeladas das mãos presas a seu cálice como à vida.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
domingo, 17 de julho de 2011
O despertador está farto de tocar e tu ainda não acordaste?
Ao ver passar, pela rua asfaltada, um Jaguar rugindo, subindo enquanto ronca, deixando no ar o ronco com cheiro a gasóleo fresco, estaco. Logo observo, semicerradamente e quase lacriemjante, uma criança que me firta.
Está sentada, desnuda, a boca aberta, escancarada com a fome do mundo, uma caverna insaciável, aleia às moscas que dançam em frente a seus lábios gretados, de seca, de fraqueza, as moscas pousam no seu nariz e ele não tem já força ou vontade de as enxotar, deixa-as morder, comer, sugar, depositam os seus ovos sobre as orelhas feridas e cujas crostas não se fecham, raspando na areia do chão, enquanto adormece, desvanecido. Seus olhos vazios, fixam-me, não sei se pensando em mim como miragem, carrasco ou salvador. Não sei, pois vácuos de sentido de uma vida que sabe tanto a morte, como definir o ambiente entrecortado de guerra e pilhagens, de violações, quantos de seus irmãos não morreram de arma em punho? Quantos não feneceram, desnutridos ou sequiosos, enquanto te resfatelas numa poltrona em esplanadas arejadas e confortáveis, de música sugerindo paraísos balneares, quantas vezes não largas maquias para adquirir sapatinhos, vestidinhos, malinhas e outros trastes e inutilidades, quanto desse valor não poderia ser melhor aproveitado em agricultura, saneamento básico, educação, apoio a empresas, onde não existem. Até quando a apropriação de propriedade comum pelos privados interesses de grandes companhias, que arrendam, a seu belprazer, por quanto querrem e para que seja feito o que querem, quantos diamantes não sangram no teu pescoço? Nos teus dedos? E como regular esse especulador bastardo que adultera o mercado de alimentação e bens vitais e essenciais, para obterem lucros desmedidos, retiram a comida da boca de crianças como esta, que não choram lágrimas mas apenas o sal, o sol e a fome, o solo pobre e abandonado, seco e gretado, não será esta criança a maior vítima da corrupção do estado, do comportamento bolsístico ou das preferências dos comsumidores de uma nação estranha e longínqua que, mal desconfiando, contribuem quotidianamente para a construção desta sociedade, quer pelo seu trabalho, quer pelo seu consumo, alheios aos tentáculos que debaixo da superfície das coisas as tolhem e colhem. Não sentes esse vórtice desumano que tem guiado a Humanidade nos últimos anos, não reparas como em tantos estágios da nossa vida ainda estamos no neolítico, orfãos do séc. XVIII, perdidos do séc. XX? Não reparas na poluição negra que te asfixia, na cegueira do consumo que te controla e aprisiona, que dita à tua vontade o que lhe apraz vender esta semana? Enquanto exploram massivamente, irresponsavel e irreflectidamente os recursos do planeta, castram a verdadeira acepção de ser humano, matem e esclavizam a vontade, a imaginação, a identidade, formatando rebanhamente a massa amorfa e débil, como gado, avançando para uma abismo insondável e irreparável... até quando te vais deixar guiar por cegos e dementes, qua não respeitam a chama que nos anima r nos faz querer, sonhar, pensar e construir um mundo melhor, que nos mereça e cultive, que nos acarinhe e proteja, qua não nos molde e transforme em ciborgues desprovidos de emoções, buscando apenas sensações efémeras e selvagens, somos também frutos dos nossos desejos. O que preferes tu? Viver no meio de um luxo transitório ou construir um mundo justo e sem fome, um mundo onde a Humanidade se reinvente, evolua e apadrinhe a diversidade como essencial ao desenvolvimento da nossa realidade. Olha o despertador... Há quanto tempo não toca? Duas, três, cinco gerações? E tu, quando acordas para a vida que vieste aqui construir?
Está sentada, desnuda, a boca aberta, escancarada com a fome do mundo, uma caverna insaciável, aleia às moscas que dançam em frente a seus lábios gretados, de seca, de fraqueza, as moscas pousam no seu nariz e ele não tem já força ou vontade de as enxotar, deixa-as morder, comer, sugar, depositam os seus ovos sobre as orelhas feridas e cujas crostas não se fecham, raspando na areia do chão, enquanto adormece, desvanecido. Seus olhos vazios, fixam-me, não sei se pensando em mim como miragem, carrasco ou salvador. Não sei, pois vácuos de sentido de uma vida que sabe tanto a morte, como definir o ambiente entrecortado de guerra e pilhagens, de violações, quantos de seus irmãos não morreram de arma em punho? Quantos não feneceram, desnutridos ou sequiosos, enquanto te resfatelas numa poltrona em esplanadas arejadas e confortáveis, de música sugerindo paraísos balneares, quantas vezes não largas maquias para adquirir sapatinhos, vestidinhos, malinhas e outros trastes e inutilidades, quanto desse valor não poderia ser melhor aproveitado em agricultura, saneamento básico, educação, apoio a empresas, onde não existem. Até quando a apropriação de propriedade comum pelos privados interesses de grandes companhias, que arrendam, a seu belprazer, por quanto querrem e para que seja feito o que querem, quantos diamantes não sangram no teu pescoço? Nos teus dedos? E como regular esse especulador bastardo que adultera o mercado de alimentação e bens vitais e essenciais, para obterem lucros desmedidos, retiram a comida da boca de crianças como esta, que não choram lágrimas mas apenas o sal, o sol e a fome, o solo pobre e abandonado, seco e gretado, não será esta criança a maior vítima da corrupção do estado, do comportamento bolsístico ou das preferências dos comsumidores de uma nação estranha e longínqua que, mal desconfiando, contribuem quotidianamente para a construção desta sociedade, quer pelo seu trabalho, quer pelo seu consumo, alheios aos tentáculos que debaixo da superfície das coisas as tolhem e colhem. Não sentes esse vórtice desumano que tem guiado a Humanidade nos últimos anos, não reparas como em tantos estágios da nossa vida ainda estamos no neolítico, orfãos do séc. XVIII, perdidos do séc. XX? Não reparas na poluição negra que te asfixia, na cegueira do consumo que te controla e aprisiona, que dita à tua vontade o que lhe apraz vender esta semana? Enquanto exploram massivamente, irresponsavel e irreflectidamente os recursos do planeta, castram a verdadeira acepção de ser humano, matem e esclavizam a vontade, a imaginação, a identidade, formatando rebanhamente a massa amorfa e débil, como gado, avançando para uma abismo insondável e irreparável... até quando te vais deixar guiar por cegos e dementes, qua não respeitam a chama que nos anima r nos faz querer, sonhar, pensar e construir um mundo melhor, que nos mereça e cultive, que nos acarinhe e proteja, qua não nos molde e transforme em ciborgues desprovidos de emoções, buscando apenas sensações efémeras e selvagens, somos também frutos dos nossos desejos. O que preferes tu? Viver no meio de um luxo transitório ou construir um mundo justo e sem fome, um mundo onde a Humanidade se reinvente, evolua e apadrinhe a diversidade como essencial ao desenvolvimento da nossa realidade. Olha o despertador... Há quanto tempo não toca? Duas, três, cinco gerações? E tu, quando acordas para a vida que vieste aqui construir?
sábado, 16 de julho de 2011
Toca o clarim, mas não é para mim
A minha história com a tropa até teria graça se fosse coisa de rir. Mas não foi.
Primeiro que tudo, nunca quis ter 18 anos, porque tinha de ir dar o nome, gíria para que se tinha de apresentar na sua Junta de Freguesia para saber de meu fado. Na altura, nem pensai em objectar a consciência... ela estava mais que objectada, mas lá fui eu. Apresentei o adiamento de incorporação, respondendo com que idade pensava integrar nas Forças Armadas, engajado à força, lá para os 84, assim como assim, a essa altura já deveria estar vacinado. Teria de me apresentar (Olá, o meu nome é Não Tens Nada a Ver com Isso) no Quartel da Ajuda, por cima dos Lanceiros da Rainha, que é coisa que pica em determinada data a determinada hora sob risco e pena de fuzilamento, o que era de facto uma pena porque eu, geralmente, não fico lá muito bem fuzilado. E lá entrei, lembro-me agora como se tivesse sido há pouco. Se havia coisa que fizesse parar um quartel, à falta de uma loura mamalhuda a correr desnuda pela parada, teria sido eu. Em 1994, ou sensivelmente, cabelos longos, rastas e térérés com guizos e conchas, barba do tamanho da do Cristo, com uma indumentária impecável à laia de túnica e casaco marroquin, calça pata d'elefante e sandalita de cabedal, de bolsa em malha colorida, óculos de lentes arroxeadas dei logo nas vistas, por entre os capacetes brancos da PM e dos típicos timidos mancebos.
Fiz testes e mais testes, uns até bem mais psicadélicos do que eu estava à espera numa instituição militar, e, passado o termo da inspecção aos motores, saí para, durante uns bons anos, não mais voltar.
Mas chegou o tempo em que tive de embalar a trouxa e ir para o diabo que me Carregueira, bela serra, colada a Belas, para cerca de um mês de recruta.
A minha recruta foi uma autêntica colónia balnear, mas sem praia, passávamos o tempo a brincar ao Rei Manda (saltar p'rá frente, flexões, correr, marchar, aquelas coisas, quase sempre vestido de verde seco, o que era monótono). Logo pela manhã, após um providencial pequeno almoço, saíamos para a serra, correr pelos trilhos abertos a pé e bota, de calçãozinho paneleiro branco, camisolita refeira e ténis (sapatilhas de ballett, diria) para uma sessão de corrida matinal, seguida por uma rápida em segundos mudança de indumentária e caçar G3 depois dos gansos terem deixado o recinto ao redondel do armário e paiol quáquázando uns atrás dos outros, como nós, em formação e com a asa à bandoleiro. Exercícios de parada se seguiam, até à hora do rancho. Após deglutir as refeições gourmet em louça de Limoges e inox, havia sempre um tempinho para emborcar uns beirões da Beira Alta, ou uns moscateis de Setúbal na maré cheia, bebidas duplas que saíam mais baratas que a chuva. Logo mais exercícios com e sem arma e trólóló, o rei manda isto e aquilo, a torto, a direito, em ziguezague. Nunca tendo eu disparado armas de fogo, foi relutantemente que peguei numa oleada e carregada, para a testar. Em pé, de cócoras, sentado, a fazer o 4, a nadar crawl, a defecar, durante o pino, enfim, parecíamos uns origamis de coice esperado e má pontaria. Pude, no entanto, e sem pedir nada a ninguém diparar uma rajada, antes de flores, e pronto... a partir daí, armas, só facas de cozinha.
A minha tropa acabava às 16h, com banhinho quente e o resto da tarde a passarinhar, pelo bar, a tocar flauta na camarata (encantar a cobra), como dizia, entredentes.
Por vezes, acordavam-nos, noite cerrada e íamos brincar para o mato, sujos de lama e de baioneta e boca calada, jogar às escondidas e coisas assim. Subia sempre às árvores e gabo-me de nunca ter sido apanhado (ninguém olha para cima, é certo).
Ainda tive uma semana de campo, a limpar um forte em terra localizado em Sobral de Monte Agraço. Boa desculpa para banquetes à gaulesa, com direito a leitão e garrafões de tinto, uma balbúrdia campal com a ordem que caracteriza o Exército. Apenas tive um castigo, que acabou por ser fazer salame de chocolate e comê-lo a buer tintol.
Após o furamento da Bandeira (não pude jurar, fiquei com uma coisa presa nos dentes, fui alocado a Sacavém, nos adidos (ou fo), e colocado no melhor sítio para se estar na tropa fandanga, vulgo, o Bar...
Uma bebedeira pegada de cinco meses, foi o que foi, das 7 da matina até às 16... e trouxe dinheirinho comigo, prova que a minha gestão do estaminé deu resultados líquidos positivos. E ainda consegui tirar uma pic com o Batatinha e o Companhia, para a Lux, na Praça do Município, por onde passava para me ir aviar à R.do Arsenal, onde o atum e o bacalhau invade as narinas desavisadas com o seu marítimo e salgado odor.
Daquilo que me ficou destes tempos, foi uma ligeira síndrome de Tourette, que me tem sido impossível de extirpar, bater os pés e calcahares de maneira que se ouça além daquela coisa de andar com as mãos atrás das costas, à guarda Serôdio. A tropa, de facto, não foi, não é e não será para mim.
Contra os cabrões, marchar marchar
Primeiro que tudo, nunca quis ter 18 anos, porque tinha de ir dar o nome, gíria para que se tinha de apresentar na sua Junta de Freguesia para saber de meu fado. Na altura, nem pensai em objectar a consciência... ela estava mais que objectada, mas lá fui eu. Apresentei o adiamento de incorporação, respondendo com que idade pensava integrar nas Forças Armadas, engajado à força, lá para os 84, assim como assim, a essa altura já deveria estar vacinado. Teria de me apresentar (Olá, o meu nome é Não Tens Nada a Ver com Isso) no Quartel da Ajuda, por cima dos Lanceiros da Rainha, que é coisa que pica em determinada data a determinada hora sob risco e pena de fuzilamento, o que era de facto uma pena porque eu, geralmente, não fico lá muito bem fuzilado. E lá entrei, lembro-me agora como se tivesse sido há pouco. Se havia coisa que fizesse parar um quartel, à falta de uma loura mamalhuda a correr desnuda pela parada, teria sido eu. Em 1994, ou sensivelmente, cabelos longos, rastas e térérés com guizos e conchas, barba do tamanho da do Cristo, com uma indumentária impecável à laia de túnica e casaco marroquin, calça pata d'elefante e sandalita de cabedal, de bolsa em malha colorida, óculos de lentes arroxeadas dei logo nas vistas, por entre os capacetes brancos da PM e dos típicos timidos mancebos.
Fiz testes e mais testes, uns até bem mais psicadélicos do que eu estava à espera numa instituição militar, e, passado o termo da inspecção aos motores, saí para, durante uns bons anos, não mais voltar.
Mas chegou o tempo em que tive de embalar a trouxa e ir para o diabo que me Carregueira, bela serra, colada a Belas, para cerca de um mês de recruta.
A minha recruta foi uma autêntica colónia balnear, mas sem praia, passávamos o tempo a brincar ao Rei Manda (saltar p'rá frente, flexões, correr, marchar, aquelas coisas, quase sempre vestido de verde seco, o que era monótono). Logo pela manhã, após um providencial pequeno almoço, saíamos para a serra, correr pelos trilhos abertos a pé e bota, de calçãozinho paneleiro branco, camisolita refeira e ténis (sapatilhas de ballett, diria) para uma sessão de corrida matinal, seguida por uma rápida em segundos mudança de indumentária e caçar G3 depois dos gansos terem deixado o recinto ao redondel do armário e paiol quáquázando uns atrás dos outros, como nós, em formação e com a asa à bandoleiro. Exercícios de parada se seguiam, até à hora do rancho. Após deglutir as refeições gourmet em louça de Limoges e inox, havia sempre um tempinho para emborcar uns beirões da Beira Alta, ou uns moscateis de Setúbal na maré cheia, bebidas duplas que saíam mais baratas que a chuva. Logo mais exercícios com e sem arma e trólóló, o rei manda isto e aquilo, a torto, a direito, em ziguezague. Nunca tendo eu disparado armas de fogo, foi relutantemente que peguei numa oleada e carregada, para a testar. Em pé, de cócoras, sentado, a fazer o 4, a nadar crawl, a defecar, durante o pino, enfim, parecíamos uns origamis de coice esperado e má pontaria. Pude, no entanto, e sem pedir nada a ninguém diparar uma rajada, antes de flores, e pronto... a partir daí, armas, só facas de cozinha.
A minha tropa acabava às 16h, com banhinho quente e o resto da tarde a passarinhar, pelo bar, a tocar flauta na camarata (encantar a cobra), como dizia, entredentes.
Por vezes, acordavam-nos, noite cerrada e íamos brincar para o mato, sujos de lama e de baioneta e boca calada, jogar às escondidas e coisas assim. Subia sempre às árvores e gabo-me de nunca ter sido apanhado (ninguém olha para cima, é certo).
Ainda tive uma semana de campo, a limpar um forte em terra localizado em Sobral de Monte Agraço. Boa desculpa para banquetes à gaulesa, com direito a leitão e garrafões de tinto, uma balbúrdia campal com a ordem que caracteriza o Exército. Apenas tive um castigo, que acabou por ser fazer salame de chocolate e comê-lo a buer tintol.
Após o furamento da Bandeira (não pude jurar, fiquei com uma coisa presa nos dentes, fui alocado a Sacavém, nos adidos (ou fo), e colocado no melhor sítio para se estar na tropa fandanga, vulgo, o Bar...
Uma bebedeira pegada de cinco meses, foi o que foi, das 7 da matina até às 16... e trouxe dinheirinho comigo, prova que a minha gestão do estaminé deu resultados líquidos positivos. E ainda consegui tirar uma pic com o Batatinha e o Companhia, para a Lux, na Praça do Município, por onde passava para me ir aviar à R.do Arsenal, onde o atum e o bacalhau invade as narinas desavisadas com o seu marítimo e salgado odor.
Daquilo que me ficou destes tempos, foi uma ligeira síndrome de Tourette, que me tem sido impossível de extirpar, bater os pés e calcahares de maneira que se ouça além daquela coisa de andar com as mãos atrás das costas, à guarda Serôdio. A tropa, de facto, não foi, não é e não será para mim.
Contra os cabrões, marchar marchar
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Lisboa vista do rio
Aproximo-me de Lisboa pelo rio, observo-a subindo a calçada, basalto chovendo em padrões pelo calcário quebrado com mestria por cantoneiros experientes no uso e arte da pedra. Há na atmosfera uma promessa de algo que se pressente mas não se compreende, impresso nas malhas do tempo mítico, que falha aos segundos marcados digitalmente nos relógios de pulso que rebrilham, avessos à emoção que faz os nossos ponteiros galgarem as horas ou pararem os momentos, um misto de Passado, Presente e Futuro, esculpidos em sonho e rocha por amantes luxuriantes, banhando-se, com as Tágides por entre as colunas do cais, dançando com golfinhos luzidios e ninfas de cabelos negro esmeralda.
Lisboa cheira a mijo e a mar, a sardinhas assadas na grelha a carvão, sabe a Fado e a vinho branco fresquinho e traçado, cheira a roupa lavada no estendal, a pingar sobre as sardinheiras, sabe a rosas e cravos, cheira a ruelas caiadas, deixando o sol entar pelos reflexos nas paredes ajaneladas em guilhotina, umas rendadas, outras não, deixando no ar, suspenso, os poemas soltos no vento que enredemoinha as folhas dos plátanos. Lisboa canta a emoção do império ganho no mar e pedido na terra, chorando ainda as lágrimas daquilo que não fez, ainda se lembra dos autos de fé que queimavam almas no Terreiro do Paço, recorda-se de pestes e festas de casamento reais, da escravatura que trouxe de outras terras, entre canelas e tecidos. Lisboa cheira a caril e a jardins a apanhar sol, sabe a miradouros sobre a cidade emoldurada por entre buganvíleas e cachos arroxeados de flores exóticas, tacteia ainda o espaço que merece e lhe não é dado, nos seus prédios devolutos, de casca pintada ou a desfazer-se, como um diospiro esquecido no ramo, doce e suave, forte e erótico, carmim e perfumado, como um ocaso à beira rio.
Lisboa ainda vive, e na sua vida pululam almas que se encontram em esquinas da providência, nos largos, entre os pombos que debicam o que outrora foi milho ou pão, que se reencontra nas calçadas íngremes, nos páteos parados no tempo arrastado até ao presente, cheira a fartura e a miséria, sabe a mendigos sentados nas escadas da igreja e aos católicos, tão universais, que olham para o lado, que fingem não ver e fazem contas de cabeça a esticar ordenados desordenados, desirmanados até ao fim do ano, da vida, do mundo. Lisboa atravessada por avenidas de automóveis por onde antes corriam ribeiros para o Tejo, sabe ao peixe fresco dos avieiros, cheira às hortas de Loures, a alface, leve o seu odor, a limão e flor de laranjeira.
E sente-se no ar a promessa de ser mais que o universo, plasmada por entre as antigas colinas, que foram de deuses e de homens, pelas queias lutaram e morreram gerações de povos estranhos, lutando para não perecer, abrindo as portas de par em par para receber salvadores, escrevendo em si a sua história e escondendo-a em subterrâneos mal guardados pelo homem, mas protegidos pelas teias que o esquecimento tece, por cima dos quais caminham homens sem sentido, turistas maravilhados, por onde a História percorreu o seu caminho, sempre deixando de si uma lembrança, ora doce, ora amarga, com o qual avós de cabelo branco preso por negros ganchos contam aos netinhos, à hora da sesta, nas histórias de moiras encantadas, princesas tristes, cheias do esplendor que ainda se respiram nos palacetes antigos e de altos muros, estabelecendo as fronteiras entre a rua e os cosmos internos da cidade.
Lisboa é multicultural, nmas não cosmopolita, assim como uma vila exaltada a capital, ascendendo a uma cidade tímida, rasgando pouco o céu, optando pelo puzzle calejado da arqutectura histórica, suplantado pelos simetrismos pombalinos, a ordem arquitectada a toque de esquadro e compasso após um terramoto que ainda hoje causa calafrios a quem passa pelo Carmo, a quem olha no chão raso, o rio já aqui, a quem adivinha, sob seus pés, pilares de madeira seculares que sustentam a Baixa, enquanto as obras de toupeiras metropolitanas os não destroem e apodrecem. Lisboa cheira a sol e a podre, podre doce, de fruta caramelizada. Lisboa é lixo? Então venha mais desse lixo quente, que a não quero gélida e alemã, e não há pepinos que nos valham, nem tomates que não se fortaleçam pelos forcados amadores, Lisboa é nossa conquantop a não vendermos a quem quer cá vir, para lhes lavarmos os pés e as nádegas, com água de rosas ou malvas. Lisboa é assim, vista do rio...
Lisboa cheira a mijo e a mar, a sardinhas assadas na grelha a carvão, sabe a Fado e a vinho branco fresquinho e traçado, cheira a roupa lavada no estendal, a pingar sobre as sardinheiras, sabe a rosas e cravos, cheira a ruelas caiadas, deixando o sol entar pelos reflexos nas paredes ajaneladas em guilhotina, umas rendadas, outras não, deixando no ar, suspenso, os poemas soltos no vento que enredemoinha as folhas dos plátanos. Lisboa canta a emoção do império ganho no mar e pedido na terra, chorando ainda as lágrimas daquilo que não fez, ainda se lembra dos autos de fé que queimavam almas no Terreiro do Paço, recorda-se de pestes e festas de casamento reais, da escravatura que trouxe de outras terras, entre canelas e tecidos. Lisboa cheira a caril e a jardins a apanhar sol, sabe a miradouros sobre a cidade emoldurada por entre buganvíleas e cachos arroxeados de flores exóticas, tacteia ainda o espaço que merece e lhe não é dado, nos seus prédios devolutos, de casca pintada ou a desfazer-se, como um diospiro esquecido no ramo, doce e suave, forte e erótico, carmim e perfumado, como um ocaso à beira rio.
Lisboa ainda vive, e na sua vida pululam almas que se encontram em esquinas da providência, nos largos, entre os pombos que debicam o que outrora foi milho ou pão, que se reencontra nas calçadas íngremes, nos páteos parados no tempo arrastado até ao presente, cheira a fartura e a miséria, sabe a mendigos sentados nas escadas da igreja e aos católicos, tão universais, que olham para o lado, que fingem não ver e fazem contas de cabeça a esticar ordenados desordenados, desirmanados até ao fim do ano, da vida, do mundo. Lisboa atravessada por avenidas de automóveis por onde antes corriam ribeiros para o Tejo, sabe ao peixe fresco dos avieiros, cheira às hortas de Loures, a alface, leve o seu odor, a limão e flor de laranjeira.
E sente-se no ar a promessa de ser mais que o universo, plasmada por entre as antigas colinas, que foram de deuses e de homens, pelas queias lutaram e morreram gerações de povos estranhos, lutando para não perecer, abrindo as portas de par em par para receber salvadores, escrevendo em si a sua história e escondendo-a em subterrâneos mal guardados pelo homem, mas protegidos pelas teias que o esquecimento tece, por cima dos quais caminham homens sem sentido, turistas maravilhados, por onde a História percorreu o seu caminho, sempre deixando de si uma lembrança, ora doce, ora amarga, com o qual avós de cabelo branco preso por negros ganchos contam aos netinhos, à hora da sesta, nas histórias de moiras encantadas, princesas tristes, cheias do esplendor que ainda se respiram nos palacetes antigos e de altos muros, estabelecendo as fronteiras entre a rua e os cosmos internos da cidade.
Lisboa é multicultural, nmas não cosmopolita, assim como uma vila exaltada a capital, ascendendo a uma cidade tímida, rasgando pouco o céu, optando pelo puzzle calejado da arqutectura histórica, suplantado pelos simetrismos pombalinos, a ordem arquitectada a toque de esquadro e compasso após um terramoto que ainda hoje causa calafrios a quem passa pelo Carmo, a quem olha no chão raso, o rio já aqui, a quem adivinha, sob seus pés, pilares de madeira seculares que sustentam a Baixa, enquanto as obras de toupeiras metropolitanas os não destroem e apodrecem. Lisboa cheira a sol e a podre, podre doce, de fruta caramelizada. Lisboa é lixo? Então venha mais desse lixo quente, que a não quero gélida e alemã, e não há pepinos que nos valham, nem tomates que não se fortaleçam pelos forcados amadores, Lisboa é nossa conquantop a não vendermos a quem quer cá vir, para lhes lavarmos os pés e as nádegas, com água de rosas ou malvas. Lisboa é assim, vista do rio...
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Agricultor Inteligente e trovadoresco do vale da deusa dos equídeos alados- Take III
Como agricultor inteligente, podo com extremoso cuidado, envolvendo os tenros rebentos, aquecendo-os no forno alquímico, como se fossem gatos que, ronronando, se enroscam nas pernas depiladas e suaves de uma mulher ardente e provocante. Mas, essencialmente, deixo a vida do meu jardim crescer e iluminar as noites desavindas sem estrelas a apontar o caminho que a Lua traça na negra tela que se estende assim que o sol deixa de beijar as altas camadas da atmosfera, para os lados do Ocidente até ressurgir de novo, acendendo a manhã, como quem acorda de um sono revigorante.
E cada livro, gesto, cada flor, promessa, cada toque, sonho ou lágrima tangida pela face, salgada como o oceano que a reclama como sua, cada beijo libertado no éter ou pousado languidamente nos lábios carnudos e entreabertos, cada olhar repercutido e captado, instantaneamente em seu reflexo revela-se na sua essência, experiência única e indivisível, indescritível na capacidade opaca de análise utilizada cientificamente para descrever o azul e suas nuances, somando somaticamente, invariáveis frutos novos no meu coração expectante, que os recolhe em cama para que não se pisem.
Sou agricultor inteligente e canto meus versos aos pássaros que me acordam, pela manhã, em formação auditiva, pendurados nos ramos das árvores, ou atravessando em raios coloridos o ar à minha frente. São gentis e suaves como suas penas, delicadas pinceladas de cor e penugem, de um quente pulsar chilreante, de asas abertas à imaginação que nos invade como os fotões, que nos atravessa e transmorfiza, e descubro no seu trinado insistente os sonhos que não deixo fenecer e recordo.
Deixo-os, por vezes, em estufa, rodeados de atenção e cuidados oferecidos pelas fadas que dormem entre os arbustos, mimo-lhes aos ouvidos harmoniosas escalas flauteadas, melodias melífluas do rio gentil, que vai desembrulhando o seu destino, de calmo leito, até à foz que almeja. Também eu sou como o barco, que onduleia, chapinhando assaz bamboleante e ébrio de vida, levemente, que aporta nos cais vagos de minha história, concebida por deuses loucos e cruéis, e reconheço na face do barqueiro o rosto de quem eu sou, fui e serei, pois sou eu que rio e choro na nascente que dá origem ao rio, que aliso suas escarpas, correndo em gestos largos, lambendo as férteis margens onde me deito, na erva fresca que sou, levando aos lábios um assobio como fio de água cristalina, que se assoma como a nascente na serra pedregosa, suavidade nascendo da terra rugosa e como estrela trauteio ao vento uma canção esquecida, que sou eu como tu também.
E recosto-me na serra agreste banhada pelas formações nebulosas, onde se ouve a voz dura das rochas, seu granular entendimento, de quem observa o mundo, sempre em arco descendente, de quem já viu passar mais homens que humanidades, e ainda, perdido como os rebanhos que salpicam a erva verde, observa o sentido de uma vida sem sentido, sentindo-se, quebrada, como a verdade que almeja e persegue. A vida arqueia até se extinguir, e um som se despede, no suspiro último, para se perder.
Se vires por aí uma flor rasgando o asfalto, se ouvires uma canção trazida pelas ondas do mar, mas não vires sereia que a cante, uma flauta serrana no vento, se sentires ao virares as páginas brancas e caligrafadas de um livro que deixas escapar seu sentido, sabe que sou eu, no vento, no mar e na terra, no crepitar seco do fogo e da labareda bruxuleante e bailarina, a nuvem que sorri e pisca o olho, o perfume que nasce na Primavera para se desvanecer durante o Outono, eu que semeio e planto a vida que se estende a teus pés, passo a passo, no livro que, escrevendo, me coube viver.
E cada livro, gesto, cada flor, promessa, cada toque, sonho ou lágrima tangida pela face, salgada como o oceano que a reclama como sua, cada beijo libertado no éter ou pousado languidamente nos lábios carnudos e entreabertos, cada olhar repercutido e captado, instantaneamente em seu reflexo revela-se na sua essência, experiência única e indivisível, indescritível na capacidade opaca de análise utilizada cientificamente para descrever o azul e suas nuances, somando somaticamente, invariáveis frutos novos no meu coração expectante, que os recolhe em cama para que não se pisem.
Sou agricultor inteligente e canto meus versos aos pássaros que me acordam, pela manhã, em formação auditiva, pendurados nos ramos das árvores, ou atravessando em raios coloridos o ar à minha frente. São gentis e suaves como suas penas, delicadas pinceladas de cor e penugem, de um quente pulsar chilreante, de asas abertas à imaginação que nos invade como os fotões, que nos atravessa e transmorfiza, e descubro no seu trinado insistente os sonhos que não deixo fenecer e recordo.
Deixo-os, por vezes, em estufa, rodeados de atenção e cuidados oferecidos pelas fadas que dormem entre os arbustos, mimo-lhes aos ouvidos harmoniosas escalas flauteadas, melodias melífluas do rio gentil, que vai desembrulhando o seu destino, de calmo leito, até à foz que almeja. Também eu sou como o barco, que onduleia, chapinhando assaz bamboleante e ébrio de vida, levemente, que aporta nos cais vagos de minha história, concebida por deuses loucos e cruéis, e reconheço na face do barqueiro o rosto de quem eu sou, fui e serei, pois sou eu que rio e choro na nascente que dá origem ao rio, que aliso suas escarpas, correndo em gestos largos, lambendo as férteis margens onde me deito, na erva fresca que sou, levando aos lábios um assobio como fio de água cristalina, que se assoma como a nascente na serra pedregosa, suavidade nascendo da terra rugosa e como estrela trauteio ao vento uma canção esquecida, que sou eu como tu também.
E recosto-me na serra agreste banhada pelas formações nebulosas, onde se ouve a voz dura das rochas, seu granular entendimento, de quem observa o mundo, sempre em arco descendente, de quem já viu passar mais homens que humanidades, e ainda, perdido como os rebanhos que salpicam a erva verde, observa o sentido de uma vida sem sentido, sentindo-se, quebrada, como a verdade que almeja e persegue. A vida arqueia até se extinguir, e um som se despede, no suspiro último, para se perder.
Se vires por aí uma flor rasgando o asfalto, se ouvires uma canção trazida pelas ondas do mar, mas não vires sereia que a cante, uma flauta serrana no vento, se sentires ao virares as páginas brancas e caligrafadas de um livro que deixas escapar seu sentido, sabe que sou eu, no vento, no mar e na terra, no crepitar seco do fogo e da labareda bruxuleante e bailarina, a nuvem que sorri e pisca o olho, o perfume que nasce na Primavera para se desvanecer durante o Outono, eu que semeio e planto a vida que se estende a teus pés, passo a passo, no livro que, escrevendo, me coube viver.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Agricultor Inteligente e trovadoresco do vale da deusa dos equídeos alados- Take II
Sou eu, um Jardineiro inteligente, que aprendeu a apreciar a serenidade bucólica das paisagens campestres, polvilhadas de flores selvagens que guerreiam pacificamente pela conquista do sol e da água, trampolizando-se para o desconhecido assentes sobre seus caules verdes ou lenhosos, fui assim, criado e educado, para um mundo que ainda não existe, e assomam-se visões utópicas, profecias de bolas de cristal azulada e com toques de verde esmeralda. Semeio, aqui e acolá, em largos apontamentos e imprecisas pinceladas, o que brota além, rego essas sementes com amor, sendo chuva abençoada num ligeiro aspergir, quase goticular,, filtro o orvalho matinal com o coração aberto em dois gomos suculentos e verto a sua luminosa essência na terra que o beija. Por vezes, vejo crescer a alma do mundo, imperceptível, no topo das copas verdejantes que baloiçam, dançando , na brisa salgadas e quente do verão que se tarda a despedir, tímido quando atravessado por frentes mais frias que o desejável.
Vim de um vale, colhido e protegido nos alvores da serra, sobranceira ao mar e triangulei-me em terra de serpentes, de moiras encantadas e castelos invictos, fundados na rocha ígnea e imortal, no topo pedregoso e inóspito da sua crista altaneira. Vim de tão longe que olho para trás e já não me recordo onde e quando comecei, qual o meu primeiro passo, o que deu origem a todos os outros que me encaminharam até este ponto insondável no oceano que se confunde com o universo, espelho das realidades cósmicas que nos escapam, mesmo quando plantadas à nossa frente, nesta corrida para o porvir, frenética e insana com meta em nenhum lado particular, pois todo o espaço é comum e não pode ser obliterado na sua comunitária identidade, baseada no cerne segundo o qual, todos pertencemos è Terra e não podemos chamar de nossa, pois nos suplanta, antes e depois de nossa curta passagem por este jardim à beira cosmos semeado, iniciada eras atrás, neste pulsar cósmico e ardente que nos impele à vida, sendo como pedradas no charco formando ondas no Oceano, continuamente inspirado e aspirando, expirando suavemente, multiplicando-se em moléculas incontáveis, expandindo-se e extraindo à sua alma o cerne pelo qual se processam as vidas que se desenrolarão no futuro que não se depreende mais do que o virar de uma esquina de nevoeiro e bruma, tiquetaqueando no ouvido do Universo.
Não ajardino apenas paisagens naturais, nem tampouco apenas lavro superfícies surreais, ou lembranças de colinas lunares, saltitando de cratera em cratera, mas principalmente, adubo esferas mentais, acantonadas em canteiros e parcelas subdivididas ao Tempo, ao Espaço, ao teor lúbrico da fantasia irremediável e esculpida na matéria verve e solta que reside na origem do sonho, e onde as substâncias fisiológicas atracam nos repositórios hormonais, onde se depositam, por ordem de chegada aleatória, os pequenos quintais à sombra provençal, alcatifados em lavanda roxa e com o perfume aberto em bouquet intrigante. Observo o lento amadurecer de seus frutos, que pela eternidade vão deixando seu apelo intrínseco e imutável, sempre repetindo o chamado primordial da primeira cavidade de luz das auroras que mais ninguém vê, encadeando o Homem no apelo libertário, unânime e vero.
A enxada é a minha vontade indómita e frequentemente adestrada, amestrada, o arado, esse, voa à velocidade do pensamento. Recolho com o ancinho das lágrimas vertidas ou engolidas, as folhas de pensamentos débeis, de sonhos desfeitos, com defeitos e fruto de efeitos longitudinais ou rasantes, entre a realidade e o objecto que a questiona, na sua natureza e em relação a si, recordações perenes que baloiçam ao vento da memória, em luzinhas sonoras que blipam e me piscam os fusíveis à passagem assobiada, atapetando o chão fofo e ligeiramente seco, crocante, e libertando pela acção friccionante, em tons rubros e expansivos. Colo-as em partículas cristalinas, relembrando os perfumes da primavera passada e agora, no solo, pronta a metamorfosear-se em borboletas sem fim, lançadas em voo flagrante pelo opóbrio ruminante que lhe desgasta as asas apolíneas. Penduro-as na cidade adormecida, por entre mosaicos, azulejos, basaltos e calcários, demonstrando a história geológica do chão que piso, onde outros cospem, ou se deitam, em horas de pouco repouso.
Vim de um vale, colhido e protegido nos alvores da serra, sobranceira ao mar e triangulei-me em terra de serpentes, de moiras encantadas e castelos invictos, fundados na rocha ígnea e imortal, no topo pedregoso e inóspito da sua crista altaneira. Vim de tão longe que olho para trás e já não me recordo onde e quando comecei, qual o meu primeiro passo, o que deu origem a todos os outros que me encaminharam até este ponto insondável no oceano que se confunde com o universo, espelho das realidades cósmicas que nos escapam, mesmo quando plantadas à nossa frente, nesta corrida para o porvir, frenética e insana com meta em nenhum lado particular, pois todo o espaço é comum e não pode ser obliterado na sua comunitária identidade, baseada no cerne segundo o qual, todos pertencemos è Terra e não podemos chamar de nossa, pois nos suplanta, antes e depois de nossa curta passagem por este jardim à beira cosmos semeado, iniciada eras atrás, neste pulsar cósmico e ardente que nos impele à vida, sendo como pedradas no charco formando ondas no Oceano, continuamente inspirado e aspirando, expirando suavemente, multiplicando-se em moléculas incontáveis, expandindo-se e extraindo à sua alma o cerne pelo qual se processam as vidas que se desenrolarão no futuro que não se depreende mais do que o virar de uma esquina de nevoeiro e bruma, tiquetaqueando no ouvido do Universo.
Não ajardino apenas paisagens naturais, nem tampouco apenas lavro superfícies surreais, ou lembranças de colinas lunares, saltitando de cratera em cratera, mas principalmente, adubo esferas mentais, acantonadas em canteiros e parcelas subdivididas ao Tempo, ao Espaço, ao teor lúbrico da fantasia irremediável e esculpida na matéria verve e solta que reside na origem do sonho, e onde as substâncias fisiológicas atracam nos repositórios hormonais, onde se depositam, por ordem de chegada aleatória, os pequenos quintais à sombra provençal, alcatifados em lavanda roxa e com o perfume aberto em bouquet intrigante. Observo o lento amadurecer de seus frutos, que pela eternidade vão deixando seu apelo intrínseco e imutável, sempre repetindo o chamado primordial da primeira cavidade de luz das auroras que mais ninguém vê, encadeando o Homem no apelo libertário, unânime e vero.
A enxada é a minha vontade indómita e frequentemente adestrada, amestrada, o arado, esse, voa à velocidade do pensamento. Recolho com o ancinho das lágrimas vertidas ou engolidas, as folhas de pensamentos débeis, de sonhos desfeitos, com defeitos e fruto de efeitos longitudinais ou rasantes, entre a realidade e o objecto que a questiona, na sua natureza e em relação a si, recordações perenes que baloiçam ao vento da memória, em luzinhas sonoras que blipam e me piscam os fusíveis à passagem assobiada, atapetando o chão fofo e ligeiramente seco, crocante, e libertando pela acção friccionante, em tons rubros e expansivos. Colo-as em partículas cristalinas, relembrando os perfumes da primavera passada e agora, no solo, pronta a metamorfosear-se em borboletas sem fim, lançadas em voo flagrante pelo opóbrio ruminante que lhe desgasta as asas apolíneas. Penduro-as na cidade adormecida, por entre mosaicos, azulejos, basaltos e calcários, demonstrando a história geológica do chão que piso, onde outros cospem, ou se deitam, em horas de pouco repouso.
domingo, 10 de julho de 2011
Agricultor Inteligente e trovadoresco do vale da deusa dos equídeos alados- Take I
Olá!:) Eu sou um agricultor inteligente e gosto de jardinar a terra, sulcar o mar e arar o céu.
Vivo num enorme jardim, numa verde e plácida moldura, mais bonita do que realmente é, vem-me o mar bater nos pés, beijando-os com a sua espuma salgada, enquanto ziguezagueia, interpenetrando-se numa albufeira que é como uma cabaça, de água fresca e cristalina, alma e coração das pequenas ribeiras que nascem da terra arenosa e calcária, de um azul tão profundo como o do horizonte, apenas atravessado por uma língua sinuosa de areia, lambida ao de leve pelas neblinas baixas que atravessam o mar, em vento suavizado pela orla dunar. Vejo a serra recortando o céu emplumado por nuvens lanudas e encaracoladas, e a lua mirando-se nos espelhos da água mansa e harmoniosamente texturada por correntes apenas adivinháveis.
Semeio de meu semear, num jardim de livros, onde flores bonitas e coloridas brotam, corajosas e cintilantes, estrelas bafejadas por sonhos imersos numa magia sem par. Por vezes também vão crescendo ervas daninhas, que se erguem para sombrear a existências das flores mais luminosas, outras vezes para as proteger das geadas, colhendo-as, de tempos a tempos, de forma que a selecção paisagística não se apresente demasiado infestante ou parasitária.
Planto aqui os sonhos que te vão ensinar a escrever e viver o teu livro, quando cresceres, lembrando-te de que o enredo és tu que os escolhes, que o vais desenhando e pintando, em cores de tua escolha, à medida que avanças nos capítulos da tua existência. Aqui estão todas as ideias que brotam das palavras sussurradas que semeiam aos ventos da vida, fruto dos homens que as amenizaram e descobriram, dos que pressentiram e tiveram o embrião de realidades futuras, reais ou virtuais, pois que a ficção entrelaça-se na realidade que lhe empresta tantos motivos de divagação e explanação, incrementando visões idílicas que nos interpelam à consciencialização e introspecção, avaliando o nosso peso e dimensão relativizada com a Natureza, que no seu âmago e colo, nos amamenta e transporta, suave e imperceptivelmente pelo Universo radioso e intenso como o Infinito, banhado em névoas de gases raros e desconhecidos, atento ao nascimento das novas estrelas, sóis que irão fecundar os outros corpos, femininos perante a acção activa e fálica da natureza solar de suas entidades explosivas e quentes.
Aventuras de capa e espada, ilhas e tesouros, piratas e índios espalhando-se como cardumes pela planície primordial, o espaço longínquo modestamente povoado, debilmente explorado por imaginações ciclópicas, sonetos cantados por cordas tangidas de guitarras tocadas ao escuro, em becos recônditos da alma humana, equações complexas que explicam todos os determinismos do Universo e o intricado desenvolvimento e regulação da vida, estruturas geométricas planando pela História Universal, e o ímpeto humano à transformação da realidade e do planeta, outras vezes nem explicam coisa nenhuma, principalmente vazios de nada e são apenas alíneas soltas de teorias rabiscadas em brancos guardanapos de papel e toalhas de mesa de restaurante. Nuns choras, com outros ris, corres, alcanças, perdes-te e voltas-te a encontrar, nadando pelas páginas que viras, como folhas silvestres que se desprendem das árvores que nascem dos pensamentos elevados que o Homem lança à superfície granulada dos sonhos e dos ideais utópicos e sempre por realizar que cabe sempre a outros colher.
Por vezes, penso de como seria bom viver num bom livro, num que escrevesse com a verve e tinta de quem tem sangue nas veias criativas, de acordo com minha vontade. As personagens, essas, seriam sempre aquelas que eram eu. Assim, quando visse o outro, sabia-o uma das minhas multifacetadas realidades e identidades, era eu, embora com outros sonhos e ideias, outra forma, outro sentir e pensar, e ao falar com ele, que era eu, falava comigo, que era sempre um outro mutável, e observávamos o mundo por esse prisma multicéfalo e tolerante perante as impressões captadas, capturadas como rezes que se perdem nas estepes levemente nevadas, como algo de manifestamente real... Os seus defeitos eram os meus mais obscuros temores e minhas qualidades complementando-se com as suas, suadas, num exercício puzzlístico e estilístico da maior relevância. Cada vez que me cruzasse comigo, diria: - Olá!:) e cantávamos uma canção mental de louvor à vida que nos tinha reunido.
O que gosto mesmo é de semear ideias nos corpos transpirados do sonho, cultivar áridas mentes e fertilizá-las pela apresentação de outras perspectivas e noções, que se escapam, por vezes, por entre os neocórtices concentrados nos sinais de perigo exterior, afim de se refugiarem no complexo reptiliano, que continua a dar cartas cá fora, travestidas de límbicas sensações e emoções, primatamente aquiescidas.
colher fisiologicamente retumbâncias glandulares, apenas retirando dessa terra etérea o que me permita viver na felicidade de combater desperdícios e abraçar a minha real maneira de ser, sem ter de olhar nos olhos da fome, vazios como a terra dilacerada com guerras, interpostas à vida e à razão, até à morte triste da imaginação que vai fenecendo a civilização, reservando para o Inverno futuro, o que me aqueça estômago, alma e mente, corpos inclusos na sua identidade sorridente e radiante, luminescente se semicerrares os olhos abertos às experiências que nos escapam à compreensão directa, cujos fundamentos se desvanecem ante a nossa curiosidade de os desvendar, como explorações inéditas e pioneiras de territórios por mapear, circunscritos à densa e contudo, maleável e invisível teia de realidades unificadas num mesmo fio e trilho, acrescentado com pequenas contribuições exógenas. Não negar a quem passa a restauração de sua identidade, o preenchimento de seus mais selvagens e puros sonhos de conquista e liberdade, não negar a que passa à frente de meu lar, a vida que o vai levar, passo a passo, levantando ténue poeira, microscopicamente espalhada à mais pequena movimentação de sua base sedimentar e leve, dançando em voluptuosas colunas de mil pontos opacos à luz.
Este livro que lavro a sonhar, de pena revolvendo-se nos dedos preênsis, o mais importante são as crianças, pois todas são estrelas que nascem no útero negro da anti-matéria, negra e brumosa, E seriam acarinhadas, amadas, apoiadas e cultivadas para o zénite humano, apontando à genialidade inerente em cada um, desenvolvendo os dons que natos receberam, sem saber porquê, mas com a missão de os manifestar e aprimorar, pela sua acção darem relevo e importância a aspectos que atravessamos quotidianamente sem avaliar a sua verdadeira importância e significado. O mais importante eram os avós das crianças, seus ascendentes e antepassados, escurecidos pela ténue mas invariável e incontornável teia do tempo passado, frutos de uma vida de conquista face a tremendas adversidades, vingando por sua completa e interior vontade e preserverança, um dia de cada vez até almejar tocar ao de leve na imortalidade que nos une a todos na cadeia notoriamente arquitectada da Existência múltipla de miríades de unidades homogeneizadas num único ser que as engloba e nutre, bebendo nós do alvo e lácteo sustento que nos rodeia na sua omnipresença.
O mais importante eram ainda os netos dessas crianças, promessas de vida a romper pela abstracção nebulosa que o futuro nos atravessa à frente, qual muro ingalgável, após o qual ecoa a nossa identidade genética e astral, produzindo sempre novas discrepâncias e dicotomias que se apresentam na raiz do tempo a existir, após da nossa entrega as mãos e leis da Morte, rendidos a esse último e desejado suspiro, com o rebrilhar nos olhos de quem sabe que retorna nos próximos episódios. O mais importante era ainda todas as pessoas, jovens, adultos, maduros, verdes e rosé, homens e mulheres, de todas as compleições físicas e estatura estrutural variável, impressos em todas as cores e sabores, filosofias e religiões, que se entreajudavam e solidariamente se apoiavam e guiavam, amparavam e evoluíam juntos, como irmãos, sem se explorarem até à extinção de sua chama anímica, sem se magoarem (porque, afinal, todos eram eu) e ainda considerassem que o mais importante era viver numa terra não conspurcada, num oceano impoluto, respirando os ares revitalizantes das serranias e banhando-se nos tranquilos rios rejuvenescedores e usufruir da natureza, a sua fértil beleza, sua mãe e seu sempiterno amor, o céu limpo e cuidado, perfumado com todos os adocicados odores da vida, fresca, lânguida e sensual, a coreografia das brisas dispersas em redor, o mar dos corais multicolores e peixes escondidos nas profundezas abissais da escura possessão de Poseidon. Importante a terra profícua, o cuidar de seu jardim, sem extinguir as espécies pela pressão que exerce sobre os ecossistemas, por razões que não as naturais, escorraçando-as, perseguindo-as, caçando-as, matando, esfolando, estripando por um casaco ou um par de sapatos, ou a abjecta criação intensiva dos animais até à loucura, aspergindo um massacre sanguinário ao longo de prateleiras iluminadas.
Neste livro, a Humanidade era cultivada para desenvolver os seus dons inerentes e revelar a sua verdadeira natureza nas suas acções, palavras e pensamentos, fruto de uma canalização correcta do seu factor emocional, não cedendo aos desejos mais básicos e abraçando, enfim, o seu destino de ser consciente do Universo em Si, a Humanidade seria Pandora, cumulada de todos os dons, merecedora dos bens adquiridos e dinamizando-se através dos eflúvios cósmicos que se desprendem da Via Láctea, no seu contínuo rodopiar através do Desconhecido, em torno do Sol Interno, almejava apenas a Paz e a Justiça, cultivando a harmonia, e as divergências eram resolvidas com um terno e fraterno abraço.
Tu também podes escolher o teu livro, escrever nele de tua justiça, levando à tua consideração os abruptos contactos que estabeleces com a realidade das coisas no seu fluir interminável e elíptico, espiralando pela eternidade. Fá-lo melhor que eu…
Vivo num enorme jardim, numa verde e plácida moldura, mais bonita do que realmente é, vem-me o mar bater nos pés, beijando-os com a sua espuma salgada, enquanto ziguezagueia, interpenetrando-se numa albufeira que é como uma cabaça, de água fresca e cristalina, alma e coração das pequenas ribeiras que nascem da terra arenosa e calcária, de um azul tão profundo como o do horizonte, apenas atravessado por uma língua sinuosa de areia, lambida ao de leve pelas neblinas baixas que atravessam o mar, em vento suavizado pela orla dunar. Vejo a serra recortando o céu emplumado por nuvens lanudas e encaracoladas, e a lua mirando-se nos espelhos da água mansa e harmoniosamente texturada por correntes apenas adivinháveis.
Semeio de meu semear, num jardim de livros, onde flores bonitas e coloridas brotam, corajosas e cintilantes, estrelas bafejadas por sonhos imersos numa magia sem par. Por vezes também vão crescendo ervas daninhas, que se erguem para sombrear a existências das flores mais luminosas, outras vezes para as proteger das geadas, colhendo-as, de tempos a tempos, de forma que a selecção paisagística não se apresente demasiado infestante ou parasitária.
Planto aqui os sonhos que te vão ensinar a escrever e viver o teu livro, quando cresceres, lembrando-te de que o enredo és tu que os escolhes, que o vais desenhando e pintando, em cores de tua escolha, à medida que avanças nos capítulos da tua existência. Aqui estão todas as ideias que brotam das palavras sussurradas que semeiam aos ventos da vida, fruto dos homens que as amenizaram e descobriram, dos que pressentiram e tiveram o embrião de realidades futuras, reais ou virtuais, pois que a ficção entrelaça-se na realidade que lhe empresta tantos motivos de divagação e explanação, incrementando visões idílicas que nos interpelam à consciencialização e introspecção, avaliando o nosso peso e dimensão relativizada com a Natureza, que no seu âmago e colo, nos amamenta e transporta, suave e imperceptivelmente pelo Universo radioso e intenso como o Infinito, banhado em névoas de gases raros e desconhecidos, atento ao nascimento das novas estrelas, sóis que irão fecundar os outros corpos, femininos perante a acção activa e fálica da natureza solar de suas entidades explosivas e quentes.
Aventuras de capa e espada, ilhas e tesouros, piratas e índios espalhando-se como cardumes pela planície primordial, o espaço longínquo modestamente povoado, debilmente explorado por imaginações ciclópicas, sonetos cantados por cordas tangidas de guitarras tocadas ao escuro, em becos recônditos da alma humana, equações complexas que explicam todos os determinismos do Universo e o intricado desenvolvimento e regulação da vida, estruturas geométricas planando pela História Universal, e o ímpeto humano à transformação da realidade e do planeta, outras vezes nem explicam coisa nenhuma, principalmente vazios de nada e são apenas alíneas soltas de teorias rabiscadas em brancos guardanapos de papel e toalhas de mesa de restaurante. Nuns choras, com outros ris, corres, alcanças, perdes-te e voltas-te a encontrar, nadando pelas páginas que viras, como folhas silvestres que se desprendem das árvores que nascem dos pensamentos elevados que o Homem lança à superfície granulada dos sonhos e dos ideais utópicos e sempre por realizar que cabe sempre a outros colher.
Por vezes, penso de como seria bom viver num bom livro, num que escrevesse com a verve e tinta de quem tem sangue nas veias criativas, de acordo com minha vontade. As personagens, essas, seriam sempre aquelas que eram eu. Assim, quando visse o outro, sabia-o uma das minhas multifacetadas realidades e identidades, era eu, embora com outros sonhos e ideias, outra forma, outro sentir e pensar, e ao falar com ele, que era eu, falava comigo, que era sempre um outro mutável, e observávamos o mundo por esse prisma multicéfalo e tolerante perante as impressões captadas, capturadas como rezes que se perdem nas estepes levemente nevadas, como algo de manifestamente real... Os seus defeitos eram os meus mais obscuros temores e minhas qualidades complementando-se com as suas, suadas, num exercício puzzlístico e estilístico da maior relevância. Cada vez que me cruzasse comigo, diria: - Olá!:) e cantávamos uma canção mental de louvor à vida que nos tinha reunido.
O que gosto mesmo é de semear ideias nos corpos transpirados do sonho, cultivar áridas mentes e fertilizá-las pela apresentação de outras perspectivas e noções, que se escapam, por vezes, por entre os neocórtices concentrados nos sinais de perigo exterior, afim de se refugiarem no complexo reptiliano, que continua a dar cartas cá fora, travestidas de límbicas sensações e emoções, primatamente aquiescidas.
colher fisiologicamente retumbâncias glandulares, apenas retirando dessa terra etérea o que me permita viver na felicidade de combater desperdícios e abraçar a minha real maneira de ser, sem ter de olhar nos olhos da fome, vazios como a terra dilacerada com guerras, interpostas à vida e à razão, até à morte triste da imaginação que vai fenecendo a civilização, reservando para o Inverno futuro, o que me aqueça estômago, alma e mente, corpos inclusos na sua identidade sorridente e radiante, luminescente se semicerrares os olhos abertos às experiências que nos escapam à compreensão directa, cujos fundamentos se desvanecem ante a nossa curiosidade de os desvendar, como explorações inéditas e pioneiras de territórios por mapear, circunscritos à densa e contudo, maleável e invisível teia de realidades unificadas num mesmo fio e trilho, acrescentado com pequenas contribuições exógenas. Não negar a quem passa a restauração de sua identidade, o preenchimento de seus mais selvagens e puros sonhos de conquista e liberdade, não negar a que passa à frente de meu lar, a vida que o vai levar, passo a passo, levantando ténue poeira, microscopicamente espalhada à mais pequena movimentação de sua base sedimentar e leve, dançando em voluptuosas colunas de mil pontos opacos à luz.
Este livro que lavro a sonhar, de pena revolvendo-se nos dedos preênsis, o mais importante são as crianças, pois todas são estrelas que nascem no útero negro da anti-matéria, negra e brumosa, E seriam acarinhadas, amadas, apoiadas e cultivadas para o zénite humano, apontando à genialidade inerente em cada um, desenvolvendo os dons que natos receberam, sem saber porquê, mas com a missão de os manifestar e aprimorar, pela sua acção darem relevo e importância a aspectos que atravessamos quotidianamente sem avaliar a sua verdadeira importância e significado. O mais importante eram os avós das crianças, seus ascendentes e antepassados, escurecidos pela ténue mas invariável e incontornável teia do tempo passado, frutos de uma vida de conquista face a tremendas adversidades, vingando por sua completa e interior vontade e preserverança, um dia de cada vez até almejar tocar ao de leve na imortalidade que nos une a todos na cadeia notoriamente arquitectada da Existência múltipla de miríades de unidades homogeneizadas num único ser que as engloba e nutre, bebendo nós do alvo e lácteo sustento que nos rodeia na sua omnipresença.
O mais importante eram ainda os netos dessas crianças, promessas de vida a romper pela abstracção nebulosa que o futuro nos atravessa à frente, qual muro ingalgável, após o qual ecoa a nossa identidade genética e astral, produzindo sempre novas discrepâncias e dicotomias que se apresentam na raiz do tempo a existir, após da nossa entrega as mãos e leis da Morte, rendidos a esse último e desejado suspiro, com o rebrilhar nos olhos de quem sabe que retorna nos próximos episódios. O mais importante era ainda todas as pessoas, jovens, adultos, maduros, verdes e rosé, homens e mulheres, de todas as compleições físicas e estatura estrutural variável, impressos em todas as cores e sabores, filosofias e religiões, que se entreajudavam e solidariamente se apoiavam e guiavam, amparavam e evoluíam juntos, como irmãos, sem se explorarem até à extinção de sua chama anímica, sem se magoarem (porque, afinal, todos eram eu) e ainda considerassem que o mais importante era viver numa terra não conspurcada, num oceano impoluto, respirando os ares revitalizantes das serranias e banhando-se nos tranquilos rios rejuvenescedores e usufruir da natureza, a sua fértil beleza, sua mãe e seu sempiterno amor, o céu limpo e cuidado, perfumado com todos os adocicados odores da vida, fresca, lânguida e sensual, a coreografia das brisas dispersas em redor, o mar dos corais multicolores e peixes escondidos nas profundezas abissais da escura possessão de Poseidon. Importante a terra profícua, o cuidar de seu jardim, sem extinguir as espécies pela pressão que exerce sobre os ecossistemas, por razões que não as naturais, escorraçando-as, perseguindo-as, caçando-as, matando, esfolando, estripando por um casaco ou um par de sapatos, ou a abjecta criação intensiva dos animais até à loucura, aspergindo um massacre sanguinário ao longo de prateleiras iluminadas.
Neste livro, a Humanidade era cultivada para desenvolver os seus dons inerentes e revelar a sua verdadeira natureza nas suas acções, palavras e pensamentos, fruto de uma canalização correcta do seu factor emocional, não cedendo aos desejos mais básicos e abraçando, enfim, o seu destino de ser consciente do Universo em Si, a Humanidade seria Pandora, cumulada de todos os dons, merecedora dos bens adquiridos e dinamizando-se através dos eflúvios cósmicos que se desprendem da Via Láctea, no seu contínuo rodopiar através do Desconhecido, em torno do Sol Interno, almejava apenas a Paz e a Justiça, cultivando a harmonia, e as divergências eram resolvidas com um terno e fraterno abraço.
Tu também podes escolher o teu livro, escrever nele de tua justiça, levando à tua consideração os abruptos contactos que estabeleces com a realidade das coisas no seu fluir interminável e elíptico, espiralando pela eternidade. Fá-lo melhor que eu…
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Orfeu enquanto rebola na cama sem adormecer
Considerando a tépida realidade que nos aprisiona nas suas teias dissimuladas, entre as névoas, sólidas como altos muros de castelos inexpugnáveis de costas inexploradas, que avançam, avassaladoramente, dedilhando nas cordas da garganta perfilada que se abre em desfiladeiro escarpado e selvagem, num torpor lânguido, húmido e frio, recolhendo no seu manto alvo, cor da neve antes de cair do céu, as primícias desta manhã ensonada, que acorda a custo entre o chilreio atento e azafamado dos tentilhões, que brincam, escondidos de olhares alheios, nas frondosas copas verdejantes dos pinheiros dançando no vento soprado de alma em riste, essa gélida e crua humanidade, feérica e gregária apenas vislumbrada nos momentos fatídicos das horas perscrutadas entre chapéus de palha balneares e a lufa lufa dos pescadores que desenterram do mar errático as íctias e prateadas refeições de estranhos sentados em mesas de esplanada viradas para o horizonte, fino e azul como um colibri que beija flores em doces lufadas ufanas e saudáveis, avermelhada a sua tez ensolarada e ébria de doirados fluidos, frescos e gaseificados, lembrando no seu topo branco as ondas que se esparsam no mar e os cumes apenas visitados por deuses e homens santos nas mais altas cadeias espinhosas das serranias lendárias, nascidas em tempos que os sonhos recordam em ambientes festivos e floridos, nascendo nas primaveras penduradas pelo cosmo arredondado e nunca antes navegado, sigo agora um trilho que escavei eu próprio, afirmando-o com a verve que pulsa nas minhas veias obstruídas de tanta mentira engolida, ostracizado jamais novamente, fechando os olhos e dormindo na posição em que der para adormecer.
Às vezes envio currículos em garrafas de vidro, pelo cosmo, e penso-me na Estação Espacial Europeia, por motivos diversos, creio que encaixava lá muito bem:
Primeiro, estou habituado a flutuar, e gosto de pintar o mundo em três largas pinceladas, apontamentos que inscrevo na ténue atmosfera dos sonhos das coisas. Depois, sou pessoa que não ocupa muito espaço, e capaz de dizer algumas piadas, no salão, para entreter ao serão com estrelas e luzinhas a piscar. Não sei pescar, mas ao que saiba, não há grandes cardumes em órbita, mas é maravilhoso o bailar das poeiras cósmicas iluminadas a reentrar na atmosfera, o perfume da Lua a submergir atrás da Terra, a sugestão dos cometas, que partem à aventura, guiados pela força de seus sonhos. Em ocasiões surpreendentes também posso carregar num ou noutro botão (só para ver o que dá), no entanto, acordo sempre devendo à vida mais do que a vida me deve a mim, pequeno rebento florido que acende a luz no mundo, nascido que fui para criar e indissociavelmente aplicar a Beleza transcendente que sinto brotar do Universo e atravessar a minha radiancia sensorial e espiritual, salpicada com as cores matizadas da Alma peregrina que percorre os trilhos que o Mundo escondeu, longe das estradas movimentadas, acima dos percursos migratórios das aves, sempre em redundantes viagens de exploração oceanográfica que preponderantemente sobrevoam serras mágicas e planícies de sonhos inexplicáveis.
Assim, e trauteando flautices várias, apontadas à noite que lentamente se espraia no horizaonte ainda submisso ao sol que parte, despedindo-se do dia e abençoando a noite, nu como a Lua, lentamente, cai a consciência sobre o sono rendido, e Orfeu adormece, sonhando com musas cantando loas à luz das harpas efémeras baloiçando na noite lisérgica, Eurídice aquiesce e sopra-lhe pétalas perfumadas de flores extinctas enquanto carinhosamente deixa entrever no beijo sussurrando: Boa noite.
Às vezes envio currículos em garrafas de vidro, pelo cosmo, e penso-me na Estação Espacial Europeia, por motivos diversos, creio que encaixava lá muito bem:
Primeiro, estou habituado a flutuar, e gosto de pintar o mundo em três largas pinceladas, apontamentos que inscrevo na ténue atmosfera dos sonhos das coisas. Depois, sou pessoa que não ocupa muito espaço, e capaz de dizer algumas piadas, no salão, para entreter ao serão com estrelas e luzinhas a piscar. Não sei pescar, mas ao que saiba, não há grandes cardumes em órbita, mas é maravilhoso o bailar das poeiras cósmicas iluminadas a reentrar na atmosfera, o perfume da Lua a submergir atrás da Terra, a sugestão dos cometas, que partem à aventura, guiados pela força de seus sonhos. Em ocasiões surpreendentes também posso carregar num ou noutro botão (só para ver o que dá), no entanto, acordo sempre devendo à vida mais do que a vida me deve a mim, pequeno rebento florido que acende a luz no mundo, nascido que fui para criar e indissociavelmente aplicar a Beleza transcendente que sinto brotar do Universo e atravessar a minha radiancia sensorial e espiritual, salpicada com as cores matizadas da Alma peregrina que percorre os trilhos que o Mundo escondeu, longe das estradas movimentadas, acima dos percursos migratórios das aves, sempre em redundantes viagens de exploração oceanográfica que preponderantemente sobrevoam serras mágicas e planícies de sonhos inexplicáveis.
Assim, e trauteando flautices várias, apontadas à noite que lentamente se espraia no horizaonte ainda submisso ao sol que parte, despedindo-se do dia e abençoando a noite, nu como a Lua, lentamente, cai a consciência sobre o sono rendido, e Orfeu adormece, sonhando com musas cantando loas à luz das harpas efémeras baloiçando na noite lisérgica, Eurídice aquiesce e sopra-lhe pétalas perfumadas de flores extinctas enquanto carinhosamente deixa entrever no beijo sussurrando: Boa noite.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
RESPOSTAS NA PONTA DA LÍNGUA II
Contributos para uma acção de desenraizamento sinestésico, apoiado numa noção de realidade virtual exequível, no interior perverso da realidade execrável que se nos apresenta, sem maquilhagem nem ida ao cabeleireiro, ou como diria uma pintora conhecida: «Tenho uma ferida no calo e não me Kahlo»… além disso estou convencido que a Nora Roberts tem uma oficina com um exército de imigrantes clandestinas filipinas que lhe escrevem os livros, e um jardineiro para as capas…
A primeira contribuição é nova, é fresca, é irreverente. E vai daí que se passa assim…
-O seu colega disse que havia o livro
- De facto, devia cá estar, mas não está, lamento, mas deveria ter sido confirmado,
-Então não está mas porquê?
- Acontece a mesma coisa com o meu subsídio de Natal, sabe… também deveria estar, mas não é esse o caso…
- Tem os livros daquela Nobel espanhola, a Sara Mago?- Momento dislexia
- Queria o «Almeida Garrett escrito pelo Frei Luis de Sousa? Momento Fringe
- Olhe, onde que eu apanho p’Almada? - A senhora apanha palmada onde quiser.- momento SadoMaso
- Eu ontem vi uma senhora no autocarro que vinha a ler um livro muito bom, que eu espreitei e li um bocado, mas não sei qual é
- Lembrou-se de perguntar o título? – Não, Não queria abusar (ler os livros dos outros não é abuso?) - Olhe, e já tentou apanhar o mesmo autocarro, a ver se a vê outra vez?
- Tem os livros do José Gil?- Eu tenho alguns, mas ir e vir a casa ainda demora.
- Onde tem os livros do Nicholas Sparks? - Nós aqui só temos os nossos livros, os do sr Sparke estraão lá, na casa dele…
- Onde está o Lobo Antunes? - Provavelmente em casa a beber um chá de pé no chinelo, a afagar o gato e a ler o jornal, sei lá…
- Eu queria um livro…- Pena, nós aqui não temos livros, só frigoríficos e máquinas de lavar. Mercedes só no 1º andar. Livros, não, livre-nos Deus
- Este autor, sai muito - Olhe, não querendo ser inconfidente, sai sim, senhor, ainda ontem percorreu metade das tascas do Bairro Alto, vai para todo o lado, e como é pequenino, praticamente, ninguém nota nele
- Sabe se este livro é bom? - Com duas colheres de maionese marcha que é uma maravilha…
- Sabe se este autor é bom? - Isso, perdoe-me, mas terá de perguntar à digníssima esposa dele, que são informações que não me compete ventilar
- Sabe aquele livro que foi lançado ontem? – Não, minha senhora, mas não deve ter ido longe…
-Um jovem imberbe, cara de totó, óculos fundo de garrafa, buço acentuado, enverga t-shirt branca com patinho amarelo de borracha, daqueles do banho…
-Bom dia. Tem o livro do Engate?
- Glup! Sim
- Queria dois
-Vai precisar
Queria a edição original do Romeu e Julieta…
- Já tentou a Christie’s?
Não há melhor que o cliente que nos conta o enredo do livro, para ver se adivinhamos o título… não gostam?
- Tem livros sobre o Pinochet?
- Quem? O ditador? (Não se fosse dar o caso de ser sobre a bebida, há gente p’ra tudo…)
- Alegadamente…
- Pode-me embrulhar
- Com todo o gosto… deixe-me só colar umas folhas de embrulho…
TRRRing Drring
_ estou sim, boa tarde, trólóló, pardais ao ninho
- Podeia-me dizer o significado da palavra (x)?
- Desculpe?
TRRRing Drring
-É uma livraria, não é ?- Sim… - Então tem dicionários… - Sim. Pode dizer-me o significado?... suspiro… - olhe, sem olhar para nenhum, x é y. – Ah! Eu bem me parecia, mas é sempre melhor confirmar… obrigado. Cling!
- Boa tarde, trololo- Boa tarde, pode-me dizer qual é a hora da sessão do filme não sei o quê na sala 4? – Arroz de cabidela
- Olhe, é da (…)- Sim- Podia dizer aí aos seus vizinhos do lado que eu tinha uma marcação para arranjar as unhas agora às 17h, mas não posso estar aí…
- Claro, minha senhora, e de que editora é que pretende?
- Upa upa, isso é que foi dialogar entre gerações, sim senhor… E desafio que lanço é que alive and kicking é que é coisa de se ver, pergunte a quem quiser
Não perca a próxima contribuição… Será de se dar alvíssaras
A primeira contribuição é nova, é fresca, é irreverente. E vai daí que se passa assim…
-O seu colega disse que havia o livro
- De facto, devia cá estar, mas não está, lamento, mas deveria ter sido confirmado,
-Então não está mas porquê?
- Acontece a mesma coisa com o meu subsídio de Natal, sabe… também deveria estar, mas não é esse o caso…
- Tem os livros daquela Nobel espanhola, a Sara Mago?- Momento dislexia
- Queria o «Almeida Garrett escrito pelo Frei Luis de Sousa? Momento Fringe
- Olhe, onde que eu apanho p’Almada? - A senhora apanha palmada onde quiser.- momento SadoMaso
- Eu ontem vi uma senhora no autocarro que vinha a ler um livro muito bom, que eu espreitei e li um bocado, mas não sei qual é
- Lembrou-se de perguntar o título? – Não, Não queria abusar (ler os livros dos outros não é abuso?) - Olhe, e já tentou apanhar o mesmo autocarro, a ver se a vê outra vez?
- Tem os livros do José Gil?- Eu tenho alguns, mas ir e vir a casa ainda demora.
- Onde tem os livros do Nicholas Sparks? - Nós aqui só temos os nossos livros, os do sr Sparke estraão lá, na casa dele…
- Onde está o Lobo Antunes? - Provavelmente em casa a beber um chá de pé no chinelo, a afagar o gato e a ler o jornal, sei lá…
- Eu queria um livro…- Pena, nós aqui não temos livros, só frigoríficos e máquinas de lavar. Mercedes só no 1º andar. Livros, não, livre-nos Deus
- Este autor, sai muito - Olhe, não querendo ser inconfidente, sai sim, senhor, ainda ontem percorreu metade das tascas do Bairro Alto, vai para todo o lado, e como é pequenino, praticamente, ninguém nota nele
- Sabe se este livro é bom? - Com duas colheres de maionese marcha que é uma maravilha…
- Sabe se este autor é bom? - Isso, perdoe-me, mas terá de perguntar à digníssima esposa dele, que são informações que não me compete ventilar
- Sabe aquele livro que foi lançado ontem? – Não, minha senhora, mas não deve ter ido longe…
-Um jovem imberbe, cara de totó, óculos fundo de garrafa, buço acentuado, enverga t-shirt branca com patinho amarelo de borracha, daqueles do banho…
-Bom dia. Tem o livro do Engate?
- Glup! Sim
- Queria dois
-Vai precisar
Queria a edição original do Romeu e Julieta…
- Já tentou a Christie’s?
Não há melhor que o cliente que nos conta o enredo do livro, para ver se adivinhamos o título… não gostam?
- Tem livros sobre o Pinochet?
- Quem? O ditador? (Não se fosse dar o caso de ser sobre a bebida, há gente p’ra tudo…)
- Alegadamente…
- Pode-me embrulhar
- Com todo o gosto… deixe-me só colar umas folhas de embrulho…
TRRRing Drring
_ estou sim, boa tarde, trólóló, pardais ao ninho
- Podeia-me dizer o significado da palavra (x)?
- Desculpe?
TRRRing Drring
-É uma livraria, não é ?- Sim… - Então tem dicionários… - Sim. Pode dizer-me o significado?... suspiro… - olhe, sem olhar para nenhum, x é y. – Ah! Eu bem me parecia, mas é sempre melhor confirmar… obrigado. Cling!
- Boa tarde, trololo- Boa tarde, pode-me dizer qual é a hora da sessão do filme não sei o quê na sala 4? – Arroz de cabidela
- Olhe, é da (…)- Sim- Podia dizer aí aos seus vizinhos do lado que eu tinha uma marcação para arranjar as unhas agora às 17h, mas não posso estar aí…
- Claro, minha senhora, e de que editora é que pretende?
- Upa upa, isso é que foi dialogar entre gerações, sim senhor… E desafio que lanço é que alive and kicking é que é coisa de se ver, pergunte a quem quiser
Não perca a próxima contribuição… Será de se dar alvíssaras
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