terça-feira, 7 de agosto de 2012

Antes de...pois.

Antes fosse pedra


lasca, areia, calhau

antes primícia mineral

vil metal

sulforeto infernal

Ou madeira, tronco, pau

bacalhau, carapau

antes isso que esta merda

onde o que é bom não medra.



...Melhor ainda, vento

brisa forte soprada com intento

entre o assobio furioso e o lamento

Ser onda e lavrar a costa

limpar o mundo desta bosta

que só o Diabo gosta



E caminhar assim, não sendo

atento para não alugar o que não vendo

ando a ler, sigo lendo

ainda não encontrei a Lei

que seja justa como quero e sei

igual para toda a grei

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Receita Literária à guiza de Novela

Fernando Namora com Florbela, que Espanca e sai à noite, com Antero, pelo Quental. Júlio De Niz almoça com aquela, Eça, que Quer eiroz e sua Pessoa, Fernando, acompanha com Cesar i Ny no jardim, uns absintos


De António, Nobre, o sempre só, pouco se sabe. Apenas que perseguia um Peixoto com Fernando, Dacosta. Aos Domingos, Amaral viajava no tempo curto e com Isabel Fica Bem passeava em Rabelo Pinto, para os lados de Aveiro.

«Aqui, Lino, no Ribeiro», acenavam as três Marias. uma na Horta, outra, mais abaixo, no Barreno, outra ajudava um Velho Ramalho, perdido no Ortigão. Para os lados do Camões, Luís, Bocageava, com soninho, quer já era tarde

E o Berto escrevia cartas de Juízos finais ao Helder do 3º esquerdo. Vinha Ver Gílio, Ferreira de profissão, e Ali, se vieira ou ostra, abria a Portela ao Filho que chegou tarde do trabalho

No bairro, Dava Ares gritava à soleira: «És um Camilo em cima de um Castelo, Branco... e que Pessanha!» - Era em Agustina, estava calor e Bessa Luis sentava-se na sombra fresca das vides despontadas a Verde Cesário, que é um pouc mais claro .

Tia Tónio, Lupino de Antenas era um engenhocas que alugava as águas furtadas que eram de João, que ia Aguiar até ao fim do Mundo, como disse antes de desaparecer na esquina da rua

Com ele vivia um pequeno Agostinho, da Silva, este, e o Ferreira, andava pelo Castro em busca de vestígios arqueológicos que provassem que todos descendiam de uma raça de peixes hominídeos

Já Adolfo, Coelho, saltitava, porque também ele sabia bem o que é ser jantar, e Herculano apresentava-se ipecaelmente pontual à porta, vinha de Almada, e dizia quer a noite eram Negreiros escondidos da Lua.

-Ó Neill! Anda jantar que está na mesa, e traz-me uma Botelho de Inês, para o teu pai. Este era o Meida, Garrett, chamavam.lhe os amigos, ele, sempre de cigarrinho á ponta dos lábios, Alves Redois que prendiam a Correia Clara

António era um Aleixo, ou seja, o contrário do desmazelo, de alça à baptista seguia pelo Areal. Eram Quadros de ramos Rosa, lambia o Santareno,

Sobre um Cruzeiro, Seixas e Gueixas `Cunha, Leal como um Gedeão, e logo Dinis, de Machado sombrio na mão revolve.

Sentados à mesa. postos os talheres de prata assumem, para degustação imperial, um livro normal, de um autor banal, que é top nacional. A eles o esquecimento cobre com manta ileterada, bombeiros de sua língua tão amada.

domingo, 5 de agosto de 2012

Seteais e outros que tais

Retrato inerte do país:


Uma sarjeta arde, no Chiado

Cão Fantasma ladra entr'esquinas

Os molhos gastronómicos sobem-nos ao nariz

É da azia, que ando aziago, pouco adamado

e uma cigana lê bandas magnéticas, já não sinas

Ergue-se uma voz em surdina, nublada

Era uma andorinha desbragada

Sempre Menos Nunca Mais

Isso, glosavam os pardais

Encantos que tais

A paciência esvai-se em gotículas embrenhadas,

como bugigangas empenhadas

a sorverem-se desnecessariamente nas mãos incúrias

eclipsarem-se em revoltas injúrias

de desmazelados comportamentais e funcionais.

Ou os mais abjectos anormais

e tantos, que tais

Nestes Sábados ruidosos,

lestos e ruinosos,

dos quais apenas sobram vazios invólucros

Soçobram nas calçadas de saco em punho

Dividindo pelas sequelas os lucros

de outrora ostentaram almas,

almas que viveram suas vidas sem nenhum cunho

mas hoje apenas resquícios de impulsos ao consumo,

fazendo o Inferno em fins de tarde calmas,

esvaziados de significado. vacuidades inertes nos campos límbicos

que rodeiam a realidade matricial sem sumo

nem fundações em Casa de Bicos

E é verde...

E é verde...

Devolver toda a propriedade privada à sua origem: a propriedade comum,

E brindar na esplanada com uma garrafa de rum

E as coisas que se me aceleram as construções neuronais

intersinapsiais, e outras, que tais

trazem-me recordações do futuro e o sabor ansioso

de um passado que não se coaduna com a noção de evolução,

sentado no tapete com ar amistoso

nem por isso linear, nem mesmo em quadrículas.

Faz parte das coisas ridículas

das que se vendem em loção.

A evolução é um conto infantil na mesma linha

do «quem diz a verdade não merece castigo»

Que é a gravidade que faz caír a pinha

e não a maturação do pinhão que sigo.

São como o vento brisado que sopra, caliente e dormente,

acordando a tarde que subsiste nas calçadas perfumadas que piso,

essa amálgama que se diz e faz gente

nos intervalos rugosos de um plano liso

pirilampos que faiscam à noite,

como anteprato à delgada e dengosa dança pré-nupcial

que como estrelas riscam a noite.

e nunca andam de avental...

E desfazer-me como uma bolha de sabão ao vento,

desaparecendo num subtil mas convicto puft!

não digo que vôo, é que nem sequer tento

nunca li nada da Lya Luft

Que está calor, queixam-se no Verão

Ai que chove, e que frio que está, lamentam-se no Inverno

O vento sopra muito forte, diz-se, no Outono.

A vida não é uma eterna Primavera

e na Primavera andam cheios de alergias.

Não há quem se decida ou a viver

dentro da bolha ou fora da bolha.

Portugal em dilema:

Ou morremos queimados

ou ficamos à sede.

De olhos fechados

presos na rede.

Sem lei, nem lema

Isto não é um país, é um ramal

A caminho para ir de pior a mal

Esta vertente sobreexplorada

tantas vezes emancipada

da sociedade popcorn instantânea e solúvel,

Admoestado diversas vezes na vara cível

abarcando em arco o drive do medo e da inveja,

proclamando-os como notações financeiras

onde a confiança é medida sem fiança.

A mosca no nosso lixo ataca e vareja

fareja a miséria nas ruas das peixeiras

afia a argúcia enquanto coça a pança.

Se Pitágoras cá voltasse, diria:

(e não sei porque ou se viria...)

«Tudo são números»,

mas teria de inflectir que as conclusões

dão azo a doutas definições

nem sempre literais,

e tantas que tais

que as almas dos números não devem ser assim desvirtuadas,

que não conseguem viver de si apartadas

porque, no fundo, o que interessa

não é fazer de conta que é filme, que é peça

E esta sociedade solipsista

narcísica e hedonista

é o que abandona,

a Humanidade transvestida de pessoa.

E ruge o drag queen e a matrafona

Em voz off por Lisboa:

Não compreendo porque insistem

em querer depenar o porco

e tirar cartolas de coelhos

Dizem que investem

mas se ganham pouco

até nos sugam os pentelhos

que agora posso dizer

depois do Catroga o acender

Digam que estou em Bombaim

e nem estou bem em mim

No âmbito editorial,

comprovar que só há revisores na CP

Que é tudo um Carnaval

Mas não me convidam para o desfile

não é que dance mal

não é que muito refile

só falo do que a consciência vê

E muito não digo, e calo

e já com tanto me ralo

Senhor Ministro, não me lixe

que a falar assim não é fixe

e não me esteja a enganar

não é em si que vou votar

Salvadores da Nação, em fila pirilau

venham, que já nos metemos a pau

Acabou a Revolução das Massas, iniciou-se a dos Arrozes

Eu dou-te o arroz, rangeu... no cabide dela

Portugal não é um país.

É um patíbulo onde a população coloca a cabeça para descapitalizar

Onde o sonho demora a acordar

Asfixiado desde a noção de raíz

atávico xarope de eirozes

que rumou à Índia numa noz à vela

dividiu ao meio o mundo

como sendo um bolo fecundo

Mas isso no tempo dos reis

que agora, são outras as leis

e vendidas as multinacionais

estão as colónias e seus serviçais

A Democracia toca bem,

à lei da bastonada,

contra quem ainda tem

mente e voz que não quer calada

A salubridade de uma economia

avalia-se pelo tempo que consegue sustentar lambões

à custa de quem produz, povo, riqueza.

E toma atenção, sente a certeza

E é essa sugadora e atroz aleivozia

Que sustentas com teu trabalho, roubado pelos patrões

Narcolépticos incorrigíveis.

Gabinetes indirigíveis

Nota pessoal, beleza...

Desistir de procurar a Lógica

onde esta não existe.

Porque se não mantém, foge, insiste

e cá não fica, ó Chica

O empreendedorismo humano fascina-me

Cortem cabeças, que o Orçamento coaduna-se

e a sua descontracção perante a desgraça alheia mina-me

não me anima, mas, por vezes, cura-se.



De enxada na mão é que se sua o pão!



De negro e rubro

a bandeira ergo

e o Estado cai

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

«Se ninguém acreditar em ti, os teus sonhos não te levam a lado nenhum.»

«Se ninguém acreditar em ti, os teus sonhos não te levam a lado nenhum.»

Era esta a frase que interruptamente se precutia, indiscreta e invasora, ao pousar o caderno na mesa circular da esplanada, inspirando uma longa fumegação. Recostei-me para apreciar o peso gravitacional desta pueril afirmação, dita e dotada de uma transparência desarmante. Tão real a sua natureza como desesperada na sua identidade, envolta da própria bruma que embaça a vida, trazia nas asas a observação notória que à força de acreditar, a vontade, que se molda de acordo com as leis que regem o pensamento, não altera o valor intrínsecamente quasi nulo que o indivíduo tem no mundo e na realidade...

O peso do esforço próprio colocado na balança da indiferença generalizada, solipsista e narcísica, na sua cambiante mascarada de democracia. Válida no seu cerne avassalador, a frase faz intuír que se com preserverança muito se alcança, no entanto, nunca viste uma vaca voar, não obstante a possibilidade inquívoca dela o sonhar. Também não viverás num castelo de princesas e mordomos, mas queria-lo? Seria esse teu sonho, tão fútil como falido? Apenas quando o sonho sai da individualidade de quem o sonhou e é abraçado por outros é que alcança o nível indicado para se tornar realidade. Mesmo assim, há sonhos que podem ser sonhados por multidões, a Liberdade, por exemplo, sem terem grande conhecimento mdo que esperam, de facto, quais as condicionantes que encontram, geralmente subvalorizadas ou sobrevalorizadas, desembocando no facto de, ao atingirem essa meta idealizada, soçobrar-se a mesma face à impreparação dos indivíduos para a semearem, cultuarem e desenvolverem, podendo-se gerar então uma liberdade que não o é, por não se encontrar a sociedade preparada para ambicioná-la e praticá-la com a desejada imparcialidade. Naturalmente, a liberdade pensa-se para si e todas as leis repressivas para outrém.

Mesmo um simples sonho terá a preponderância que a tua vontade (desejo que se suplanta em si) efectue, aliado a um objectivo exequível ao qual se acede pela acção concertada, independente das tensões externas, não poderás viver um sonho de alguém que te é alheio, contudo poderás fazer parte do seu pesadelo interno. Mas podes partilhar um sonho de alguém com quem te cruzes no metropolitano, se o mesmo te for transmitido. E podes, mesmo tendo em consideração se há, de facto, categoria de sonhos dessa natureza, constar no sonho de alguém, mas decerto só o descobrirás se to contarem, ou se o admitires.

Sendo o sonho uma mentira mental que contamos a nós mesmos, misto de ambição e preponderãncias de personalidade, alimentada pelos impulsos metafísicos que se depreendem das ideias generalistas geradas por si depostas a terceiros, para avalizarem a justiça inerente à realização do mesmo, como quem coloca à consideração de um carrasco o ângulo preciso e óptimo para ser decepado. Apago o cigarro antes que ele se esgote per si, esmagando-o espiralmente no cinxzeiro de alumínio riscado, sacudindo negligentemente dos dedos, a cinza que os borrava, acentuando a dormência que se insinuava, face ao peso real que a sensação de ser queimado pode ter. De acordo com os diversos graus, o de queimar a língua na sopa ultrapassa largamente o de queimar os dedos num ciggaroo, embora a temperatura a que aconteça o segundo seja muitoi maior da que se passa no primeiro caso.

Abaniquei o copo alto, moscatel sem elas e enquanto deitava o olhar à placidez tagina, enterposta no gradeamento do miradouro. Era uma jovem quem o dizia. Não eu, não a mim, mas a sua voz límpida e clara transmitia essa certeza de quem alimenta um sonho e o vê fenecer, ante o tempo e as intromissões da vida. O eco que alimentava fazia sobressaír, com a entoação grave e ponderada, bebendo-a como minha, e no entanto, nossa, conquanto humanos, na nossa facciosa apreciação do sonho de terceiro face às exigências do nosso. Não apreendemos nós, da nossa própria, pessoal e individal maneira, o mundo e a forma como este se nos apresenta, sempre impermanente, principalmente quando a moça vivia, algures, no interior do continente africano, sofrendo dos males incivilizacionais com que os cidadãos (se os há) dessas nações, se habituaram, não se habituando, a viver. Mesmo assim, hospedada num aldeamento sem portas, água, luz, limpeza, janelas, camas, apenas os esqueletos nús e semi derrocados de prédios semeados na savana, lutava com quantas forças tinha, cada vez menos, pelas condições em que era forçada a viver, para defender seu sonho, que era simples da maneira que as pessoas complexas sabem ser: correr.
Porque, correndo, e entrando conscientemente na sua acção, se esquecem todas as outras coisas que não são essenciais, mais conjunturais. E tudo o que não seja trilho, pés e pernas e respiração controlada não entra na equação. Tornava-se assim una- Consigo e com Deus, com o cosmos, com o mundo. Só ola a correr com o vento a massajar a cara tisnada e o passo acelarado a comer metros, léguas, o mundo, na sua ânsia de o atravessar, de o vencer. De, no topo da colina olímpica gritar: Aqui estou eu. Orfã, vendida, violada, escravizada. Aqui estou eu, estigmatizada, sem véu nem hímen, sem nada que não sejam as minhas pernas musculadas e atléticas a reclamar ao mundo a minha vontade sobre a sua má vontade.

Correra pelo seu sonho. Suara, extinguira, quase, a chama que a impelia, tomando opções erradas baseadas e premissas certas, como quem investe em ser explorado. Física, espiritual, psicologicamente ou atleticamente. Perdera condição, perdera saúde, perdera vida. Apenas o sonho não o deixava caír, Apenas o sonho não a deixara caír. E corria, martelando, em cada passada galopante, seu sonho, sua verdade.

Abandonar o alento? Como largar a cor que a vida nos deu para a pintar? Como deixar para trás as pernas que nos elevam e nos permitem caminhar? Não! O sonho de cada um não é palimpsesto medíocre. Será sempre a identificação primeva do labor que a alma trará à terra para efectuar. Deixavas para trás teu coração exangue? Tua mãe e filho? Ou apenas olhas para trás se deixaste caír a carteira, forrageada com cartões de plástico, como de plástico tens, coração e alma. Instantâneo, reciclável, descartável, como um clone abandonado por envelhecer rapidamente. Ao clonares um ser, reproduzes-lhe também os sonhos de infância, ou terás de os inculcar artificialmente, em binário, para que compreenda. E, masmo copmpreendendo e tomando-o como seu, será que se move para o cumprir, ao sonho que a vida desperdiçou?

Ler na vida os sinais que nos peritem balizar a existência tomando por parâmetros a mente e o corpo, o tempo e o espaço. Como um pescador lê o mar e o agricultor as curvas da terra. Como a criança lê a vida sem saber uma letra, como o mendigo lê nos olhos desviados de quem passa o desprezo que sente no esgar facial.

E quando o teu sonho te sussurra, entrelinhas, fados, te inquieta e desfaz as figuras de estilo que constrois, porque és fraco em relação aos temporais, porque és pequeno face ao mundo e à história percorrida por toda uma humanidade desconhecedora de o ser, porque és mudo em terra de surdos e surdo a quem não fala teu idioma.

No amplo espectro ideário que sustém a representação ética da vida, o sonho representa não só a fantasia e a imaginação de se tornar e construír algo melhor, mas igualmente alerta igualmente para a identidade intrínseca, o alento que alimenta a prossecução de destino, imerso nos condicionalismos insondáveis e profíquos, minando ou mimando a realização dos passos efectivos para a correcta instalação e manifestação de algo que se assemelha à vontade elevada, ao caminho a trilhar e à realidade que vem apresentar como sua.


Tão díspare, por vezes, esse sonho, dos oníricos nocturnos, brumosos e enigmáticos, embebidos de uma irracionalidade renitente à análise do raciocínio, mas utilizando os recursos e processos do corpo fisiológico, num mimetismo esquizofrénico da realidade, onde a compulsão neurótica obcessiva se vê de soltas rédeas pela planície da consciência em pausa. Qual é a tua alma que te habita aquando da visita do sonho? Sua etérea influência soporiza-te e procede a uma invasão imagética desconexa e irresponsável, abrindo em toda a sua plenitude ao fluxo constante a que foi bombardeado, sistematicamente, durante o período de vigília.

Aí são povoados nebulosamente os acontecimentos relevantes e aqueles de que a importância ficou relevada. Acumulados os odores e a extensão de novas cores, misturam-se com brisas de brusca solidez com momentos de lucidez, as vozes ecoam e respondemos pela sensibilidade dos sentidos às questões imateriais que se depreendem da mente pilotada automática e conscientemente, numa dialética tempestuosa entre os mais instintivas necessidades, as manifestações límbicas e o processo de raciocínio, tão sobrevalorizado quanto inexplorado, que deveria unir esses diversos impulsos reptilianos e mamíferos e suplantá-los com os instrumentos de compreensão.

E em que medida avalias tu o sabor e o tom do teu sonho, pelo índice de racionalidade embutida, pela notação utópica do mesmo. Líricamente, o sonho é líquido, fresco, abraça as acções que torneias com teu interesse absorvido pela sociedade cega de sentido. Medes em litros, em quilo, ao metro? Que forças gravitacionais ascendem à tua consciência quando à mesma assomam imagens de guerra e destruição, de fome, doença e destruição? Como respondes à produção inigualável de detritos que se acumulam por ainda não estar consagrado o reaproveitamento real, não fracamente percentual, de toda a espécie de invólucros para transportar e guardar a míriade de mercadorias mercantilizadas?

O sonho concorre com as sensações do mundo, no âmbito da construção do ser, utiliza a razão implodida, como trampolim de identificação, aprecia a forma como apreende informações provenientes dos sentidos, efémeros, embora apoiados numa manutenção quase perpétua na amígdala do reconhecimento da espécie, motores instintivos que carregámos por milénios como ferramentas de evolução humana. Teríamos, para tal, de abolir por inteiro o medo, fonte de todas as preocupações passadas, presentes e futuras da Humanidade, desenraizando-se manifesta e concomitantemente nas diversas vertentes a que a acção humana se vai debruçando.

Contudo, suplanta até o Homem, pois ramifica-se pela acção da vontade, do dinamismo, da força que o silencia, na voz que o anuncia, nas canções que embalam as suas representações psicológicas ou sociais. Num sonho revemos todos os outros, na medida em que partilham da matéria original: a imaginação do ser humano convertida a uma vontade superior de glória e triunfo, cúmulo das aspirações humanas mais elevadas, fonte de inspiração de humanidades mais avançadas, justas e equitativas, livres e pacíficas.

Todo o sonho tem uma necessidade imanente e imperativa de almejar o Bem. Não há sonhos que se alimentem das demências fantasmagóricas das mentes bestiais, que visem a destruição ou a tirania sobre o ser humano. Hitler não tinha um sonho, teria uma demência, uma animal sede de sangue, vampírica veia vingativa reminescente do ambiente doentio das trincheiras do início do século, fruto das enfermidades que se originam nos locais e tempos em que ratos e homens partilham mais que uma herança genética comum, partilham igualmente da entropia oníricaalma e espírito ratíneo e acutilante como um relâmpago.

O sonho é alimentado por todas as influências que o sujeito sofre, cria e cultua, no seu percurso único e singular, e vai bebendo do mundo das ideias e dos fascínios, nunca se deixando corromper na sua natureza original, mas somando, como fractais, as diversas capacidades e realidades que depreende do seu existir transversal. No fim, o resultado que nos surge não é o sonho em si, como o sonhámos ou como o desejámos, mas sim naquilo em que se transformou, irreconhecível aos estranhos das nossas razões d'alma, por vezes tão diferente na clara medida em que subsiste no ser o seu valor e avaliada a sua representação  transformadora da realidade a que o sonho subjaz. Se, por vezes esse sonho é individual e resulta das singularidades infinitas que o universo nos presenteia na cadeia evolutiva da existência consciente.
Ao observar na placidez falsa do rio as cores garridas dos navios em marcha, cá e lá, entre margens e ilhéus, depositando nos cais rangentes homens e mulheres, quase dementes. Atravessando a praça os observava, do alto, vendo seus sonhos amachucados, ténues e mesmo cerceados, e via seus olhares nervosos e dormentes, seu caminhar carregado de dúvida e desespero, curvados ante uma sociedade que se ergue sobre as sobras do jantar da civilização de ontem, triturando os ossos ideários, esqueleto, orgãos e musculatura que sustentavam o edifício social. Caminhavam para o patíbulo, diria, mas o carrasco que os espera não tem o saco anóninmo da Justiça da Coroa, mas apenas o machado que o patrão explorador acena aos descontentes.


Espraiava a sua análise pela Praça, quadrada, executada numa escala imperial e comemorativa, quis o Homem, que ampla. No canto escuro, debaixo de uma arcada marmórea e fria, sobre um banco precário, um idoso segue, cego, quem passa, atento às floreações texteis das mulheres, como quem aprecia com o palato treinado as subtis texturas dos tecidos e as formas que os moldam, teria sido alfaiate? Agora apenas faz o fato ao gato, nas festas com que o brinda, arrepiado, nos olhos as lágrimas que o vento que vem do rio seca lentamente, na boca repousam as palavras que se desabituou a falar, alcança ainda o sonho, mas apenas nas memórias que o vinho deixou intactas, os belos tempos da mocidade.

Atravessavam-na, logitudinal e diagonalmente, de quando a quando, pequenos enxames humanos, apressados, alheios ao seu redor, contraídos sobre suas miseráveis existências, no fundo, tão miseráveis como a minha, tão miseráveis como a vida daquela rapariga. Contudo, notavam-se as gradações qualitativas que emprestavam, ora aqui, ora ali, as fraquezas e deficiências da sociedade ao peso pessoal de quem alenta sempre algo melhor, diferente, excepcional, ou somente outro. Entregaram seus sonhos a máquinas que os buscam por eles e desenvolveram toda uma realidade ficcional, porque não material, mas que os conduz e lidera, os suga e explora.

Nos dilemas de quem tem a principal preocupação o espaço, não só a existir, como de igual forma o de sobreviver, liberto numa selva de interesses camuflados, povoada por bárbaros e selvagens, construtores de uma antítese constante à virtude humana, elevando bem alto os valores comercializáveis como únicos a dotarem o homem da satisfação de suas necessidades. Terás assim tanta necessidade de te aperaltares com acessórios e instrumentos? Será esta maior que a necessidade que o velho homem ali sentado sente, no estômago mal forrado a vinho, porque aquece e engana a área do cérebro que comanda os processos digestivos. Será mais necessário que aquele perder a casa, outro o emprego?

Só o sonho suplanta a necessidade. Se alimentares a tua vida com objectos, bens diversos e vazios, servirás apenas de despensa da sociedade mercantil, nada mais que um alvo público, sobreexploradas as tuas tendências e canduras, soterrado em últimos modelos excepcionais e exclusivos, tudo não mais que lixo em diversas fases do processo ou travessia. Rodear-te-às das mais efusivas roupas, dos veículos mais «in», dos gadgets inomináveis e aplicações várias que te preencherão o tempo com luzinhas e sons diversificados, cada qual código imediato de funcionalidades mil, mas nada disso tu podes levar para dentro de ti mesmo, ou adianta não tentar, seja como fôr.

Se a percorres atrás das sensações, ou de suas irmãs mais maduras, as emoções, que não são mais que as sensações educadas, ou a tua formatação à sensação, serás saltimbanco de intuições inexplicáveis, irrepetíveis ou sempre múltiplas na sua apresentação, inagualáveis, incomparáveis, onde nada é o que já foi e jamais o que será. Apontando apenas para uma base de medição e valores com o qual cada sujeito apregoa na sua escala de manifestação, as nunca delas se libertando, pois que imerso na realidade fantasática na qual subterfugiamante se refugia como interpretação última da realidade, escondida no lapso dos lugares comuns que o bom senso entronizou.

Caso a tua existência se prenda com a mais subtil carreira humana, o de analisar e avaliar o cerne intransponível, o processo e identidade das ideias, sendo como modelo actuante da filosofia ou como indutor teórico das insustentáveis alucinações colectivas e mitológicas, pis que por dentro da frequência dos pensaentos, turistas cósmicos que viajam a velocidaes superiores à da Luz, sendo formadas por matérias indeléveis e sem massa, contrriamente aos fotões lançados pelo sol, que nos atravessam diariamente sem que deles nos aprecebamos, continuamente a bombardear no seu raio de acção, os corpos celestes que se encontram na órbita calculada da estrela .

O vento passeava, alheio às letras das páginas que desfolha, deixando em desalinho o coquette penteado da senhora vestida de verde esmeralda, quase da cor da mesa e das cadeiras da esplanada, como se fizesse parte da mesma, uma peça de mobiliário que pigarreava entre o debicar soprado da chávena, rezando a santos que não se encontram mais nos alatres dos templos, decerto, pois que carecia de resposta. Brincava ainda com os fiapos apaixonados de uma jovem priisioneira dos lábios de um moreno distinto que lhe segredava, quiçá, os mistérios do universo, versão Vatsvayana. Ele continuava articulando frases cujo conteúdo me escapava, mas, olhando para a perplexidade estática que ela demonstrava, sua mente estava já bem longe das metáforas linguísticas com que era presenteada.

Ignorava pacientemente as folhas secas que, voluptuosas, se levantavam à sua passagem, redemoinhando alegremente, rindo e cantando com a leveza própria dos infantes sacrificados aos brutais deuses da Morte, senhora de mil faces e de apetite eterno. Vento que acariciava as pernas desnudas da funcionária do quiosque, que na azáfama de recolher copos das mesas ia deixando o vento refrescar as coxas levemente bronzeadas e a testa suada. Recolhi em seu olhar perscutador o sonho que alimentava interiormente, tornando aquela função vácua de poesia num Lago dos cisnes de bandeja na mão. E o olhar do reformado solta do jornal que lê sem atenção para o decote apelativo da garçonette, que suspira, pedindo paciência ao vento que a não traz.

Aproxima-se, vindo do largo arejado da capela oitecentista, um casal de namorados, belos, jovens, cansados de calcorrear, entre ruelas e travessas, atravessaram escadarias rumo ao zénite solar, descobriram becos e exploraram a beleza curvilínea dos muros que foram muralhas, em tempos de homens que guerreavam com ferozes gritos e espadas. Hoje, fazem explosões com futuros e opções, e oi sangue verte-se, dos bancos hospitalares, como fonte única de sobrevivência de certos dadores incertos. Sangue dado para ser vendido. Ela sorria, tímida, ante uma observação indecente, quase obscena, que ele atirara, arrogante, ao trapo humano que lhes pedia uma moeda.


Que se passa com estes humanos, serão cegos perante a miséria humana? Não reconhecerão neles os vagabundos acocorados da madrugada que cantam as canções de ontem? Não tombarão face às evidências de poderem serem eles amanhã? Que um pequeno passo os separa, que mesmo a confiança nada vale contra os ditames e as desditas que a vida nos reserva, não sabendo nós, atrás de que esquina nos saltará o destino atroz que nos atraiçoa e aprisiona? Eram novos doutores, isso, notava-se. Espraiavam-se, apoiados no corrimão, como na vida, do alto das suas alturas mentais, tão baixos quanto a calçada que calcam, desatentos ao ritmos marcados a basalto na branca pauta.

Com tantos anos de formação, poderiam ter ficado com alguma educação, ou terão ficado extenuados sinapticamente com os prazos dos trabalhos. As batinas negras são moda, luxo para quem não vai ao estudo, mas ao copo, quem considera que é tunas e bebedeiras e sexo desenfreado, o obectivo último de um curso superior. A atribuição desmedida de diplomas pouco claros e avaliações de baixa fasquia, continuando a cuspir para a sociedade glosas cada vez mais iluminadas de hienas e raposas, abstrusas, asurdas e mesquinhas gentes, que ao fim do curso que cursaram, ainda não hoens ou mulheres se tornaram, antes um subproduto industrializado e nulo.

Assim temos, presente, o retrato último de uma sociedade apartada de seus valores basilares. A meu ver, não sendo universitário, as bestas actuais que no futuro serão doutores bestas são criados e apaparicados desde tenra idade para exercerm todo o tipo de pressão sobre terceiros. Começam no pré escolar e, não tendo ninguém que lhes parta o focinho com os dentes todos, mantém-se, impune, agregado geralmente a um rol de facínoras como próteses intimidatórias. Não se pense que o facto é exclusivamente asculino, as donzelas conseguem-se comportar como umas verdadeiras javardas, e tal, muitas vezes, é de berço. E mantém comportamentos dúbios, consentidos pela sociedade, alargando-os ao âmbito laboral, onde, salvo raras excepções, singra alheio ao rasto de destruição que vai deixando atrás de si, amálgama de seres e sonhos espezinhados como formigas.

Sendo a Universidade o local por excelência para comprovar e finalizar uma experiência académica, deveriam ter em conta a qualidade de seres humanos que entram e saem de suas portas, analisando os seus diferentes quoficientes e demarcando os que de facto atingem um patamar de excelência, e não regulando para débeis comportamentais os factores sociais que advirão aquando da colocação imperiosa de sr Dr, como se nome de baptismo fosse, gravado em golde letter no golden card de uma conta sem provisão própria que não seja o depósito inemérito do papá. Com o dinheiro dos outros, eu também tenho muita imaginação, mas tocando ao meu, não há criatividade que resista.

Solta então o futuro doutor, tão humano na sua baratice, como se fora uma lampreia: «Não há dinheiro, não há vícios». O teu vício é seres uma amiba mental, reclamei eu, é isso que te ensinaram na escola?... andou teu pai a sustentar a tua gulodice inútil para poderes lançar impropérios destes, como se soubesses o sabor amargo que o dinheiro deixa nas mãos e bocas de quem não o tem, ou o vê passar, fato andante, no bolso de algum corruptor? Acaso o trabalho, que não conheces, te é a ti mais leve que ao estivador? Não consideras adequado o salário do rapaz que te serve à mesa as iguarias cozinhadas por experiente senhora, suada e de bigode arruçado? E se o auferisses tu? Ah! Sim... e se fores médico? É injusto, é degradante, é imoral, será uma catrafada absurda de coisas com as quais a dignidade humana não se coaduna, mas serás tu, senhor doutor, mais humano que o lojista, terás mais importância que um pedreiro, serás mais digno qe um cantoneiro? Porquê? Qual é essa característica fundadora que acenas para te diferenciares de mim ou de outro teu concidadão? Para que aumentes a fasquia do desequilíbrio social... Não sabes tu que teus pais almoçam e passeiam sobre cadáveres por haver, remunerados à maneira das castas indianas, não ignoras que os escravos dos tempos antigos eram menos escravos que o ardina que encontras de matina, a lamber os jornais quentes, porque frescos, para leres mais asneiras que de cátedra são vomitadas por quem se alheia da vida real dos objectos humanos com quem se cruza?

De facto, pontapeei a cadeira que defronte a mim já tremia, se por aí vens, na tua verve é porque teus ancestrais mataram, roubaram e enganaram, muito, pelos vistos, para te proporcionar essa vida que percorres com desdém pelos outros, que não reconheces ou admites, serem tão iguais ou melhores que tu, não sendo apenas patrocinados para viver, como tu, alarve, mas que de seu suor e determinação fazem o quotidiano nefasto que vivem, não o luxo vazio, de ignorâncias cheia, vai-te, que és impotente face à vida, tu, que te rebolas nos sofás almofadados da tua bolha. E arrancava-lhe a língua, silenciada por tamanha explosão no sol alaranjado que cobria o passeio.

Depois, acordei, mas dentro do sonho e, abrindo os olhos internos, vivo-o até hoje (com algumas surtidas ao campo da realidade, fértil em baboseiras várias para me desconcentrar de meus afazeres.