Certas manhãs andorinho que nem melro, por entre as copas frondosas dos pinheiros e, ao apelo do cuco respondo que nem tentilhão vibrante, mais vivo que verdilhão, e, se me traz novas, o milhafre, eu recolho em picado de falcão e mergulho, rente à folhagem fetal no estio do Verão. A águia real rotunda e o mergulhão desaparece num flop macio, urge a carpa, prata ao sol, foge o choco, rastreando para trás a negra tinta de sua defesa. Deixa pegadas marcadas na areia humida, a gaivota, enquanto devaneia, atenta aos navios que se protuberam o horizonte. Pernalta, com a graça desgraçada de uma garça, estaca, no tapete por onde dormitam as cegonhas e nadam os patos e corvos do mar. Por vezes oiço o cantar das raposas, tacteando no alvor da madrugada e ao romper da matina, já os pardais salpicam, saltitando, pelo chão de simples verde. Rebanhos indiferentes na pastagem, pairam e poisam carriças em seus costados lustrosos, ou passeiam sob suas lãs de balideiras. Canta o galo e sopra o periquito, arrufa a rola, sem medo, em vôo rasante,esconde-se o ouriço no meu quintal e apanho rondando o néctar da frescura das noites d'Inverno, os batráquios e salamandras que pontilham em tons répteis a visibilidade reduzida, em manchas de cores constratantes e abstractas, exalando o ácido pendor faiscante com que nos brinda, se, incautos.
Galopa o cavalo na duna deserta, salta a lebre, apressada e há uma promessa de texugo naquele campo, para lá do sobral,. pendurado nos estames como um zangão vestido de pólen, espelho a labuta do escaravelho, que luta, e o tolo do besouro, ziguezagueando a sua vontade, como um arganaz que retorna ao caniço, zune, antiaéreo, investindo no ardor do rompante. Como se ergue, ufana, a essência de um botão de rosa que floresce, fragrante, em brisas de rosmaninho selvagem, como eu, figo do cacto, espinafre bravo....
A toupeira espreita, cega como a Europa, cheirando no ar o canídeo que a persegue, já perdido, e felinamente, o tareco rebola-se com roedores, frágeis como as flores de dente de leão, bem que pode rugir, que ninguém tem medo dele... É de tarde e chapinha o chapim, subterfúgio nos ramos, sobre o caminho lambido do caracol, enquanto me deito na areia molhada de fresco e sou molusco, búzio mergulhado na areia e caranguejando como a lua. Recolho-me no abraço nocturno da coruja, no intervalo do ticticar seco do morcego recortando-se nas ondas a roar sob as estrelas, e adormeço em braços de mel e céu limpo na rede do meu quintal. De manhã, amanhã, espera-me a loucura afunilada e gritante, como gélidas facas ensanguentadas, da cidade, suas ruas sujas e apinhadas, o bicho homem e seu universo privado, inferno onde a vida mal respira, por entre os parques e jardins que se sentam à sombra das memorias fenecidas, dos dominós e dos idosos, que entre duas cartadas e um pedaço de pão esmigalhado ao vento para os pombos, respiram a nostalgia dos tempos de antanho, rodeados pelas serras pontilhadas de afloramentos graníticamente rochosos, saudades de mar e de rio, de vida palpitante no peito, alem de belas trigueiras de face sorrindo e pele tisnada, escondendo de si seus mesmos sonhos e pensamentos.enquanto se entrecruzam, migrações titubeantes, como manadas insensatamente insensíveis a si e aos que os rodeiam, estipulando em mapas mentais desactualizados a inacessíveis camadas da realidade eminentemente suicida.
Lá perco-me de mim e o tepo abandona-me, irrequieto. Salvam-me as badaladas do sino vaidoso, que à rectaguarda se afirma e solta-me as molas do partir, regressar ao útero do meu retiro pessoal, e mediando o trilho que percorro automático, recorso-me dos odores da primavera e do sabor acentuado do outono, deixando para trás a maquiavélica pretensão de dominar o universo, que o homem sonha, não cuidando de se dominar a si mesmo, destrói este caldeirão pululante de vida que é o seu inverterado anacónico ser.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário