Retrato inerte do país:
Uma sarjeta arde, no Chiado
Cão Fantasma ladra entr'esquinas
Os molhos gastronómicos sobem-nos ao nariz
É da azia, que ando aziago, pouco adamado
e uma cigana lê bandas magnéticas, já não sinas
Ergue-se uma voz em surdina, nublada
Era uma andorinha desbragada
Sempre Menos Nunca Mais
Isso, glosavam os pardais
Encantos que tais
A paciência esvai-se em gotículas embrenhadas,
como bugigangas empenhadas
a sorverem-se desnecessariamente nas mãos incúrias
eclipsarem-se em revoltas injúrias
de desmazelados comportamentais e funcionais.
Ou os mais abjectos anormais
e tantos, que tais
Nestes Sábados ruidosos,
lestos e ruinosos,
dos quais apenas sobram vazios invólucros
Soçobram nas calçadas de saco em punho
Dividindo pelas sequelas os lucros
de outrora ostentaram almas,
almas que viveram suas vidas sem nenhum cunho
mas hoje apenas resquícios de impulsos ao consumo,
fazendo o Inferno em fins de tarde calmas,
esvaziados de significado. vacuidades inertes nos campos límbicos
que rodeiam a realidade matricial sem sumo
nem fundações em Casa de Bicos
E é verde...
E é verde...
Devolver toda a propriedade privada à sua origem: a propriedade comum,
E brindar na esplanada com uma garrafa de rum
E as coisas que se me aceleram as construções neuronais
intersinapsiais, e outras, que tais
trazem-me recordações do futuro e o sabor ansioso
de um passado que não se coaduna com a noção de evolução,
sentado no tapete com ar amistoso
nem por isso linear, nem mesmo em quadrículas.
Faz parte das coisas ridículas
das que se vendem em loção.
A evolução é um conto infantil na mesma linha
do «quem diz a verdade não merece castigo»
Que é a gravidade que faz caír a pinha
e não a maturação do pinhão que sigo.
São como o vento brisado que sopra, caliente e dormente,
acordando a tarde que subsiste nas calçadas perfumadas que piso,
essa amálgama que se diz e faz gente
nos intervalos rugosos de um plano liso
pirilampos que faiscam à noite,
como anteprato à delgada e dengosa dança pré-nupcial
que como estrelas riscam a noite.
e nunca andam de avental...
E desfazer-me como uma bolha de sabão ao vento,
desaparecendo num subtil mas convicto puft!
não digo que vôo, é que nem sequer tento
nunca li nada da Lya Luft
Que está calor, queixam-se no Verão
Ai que chove, e que frio que está, lamentam-se no Inverno
O vento sopra muito forte, diz-se, no Outono.
A vida não é uma eterna Primavera
e na Primavera andam cheios de alergias.
Não há quem se decida ou a viver
dentro da bolha ou fora da bolha.
Portugal em dilema:
Ou morremos queimados
ou ficamos à sede.
De olhos fechados
presos na rede.
Sem lei, nem lema
Isto não é um país, é um ramal
A caminho para ir de pior a mal
Esta vertente sobreexplorada
tantas vezes emancipada
da sociedade popcorn instantânea e solúvel,
Admoestado diversas vezes na vara cível
abarcando em arco o drive do medo e da inveja,
proclamando-os como notações financeiras
onde a confiança é medida sem fiança.
A mosca no nosso lixo ataca e vareja
fareja a miséria nas ruas das peixeiras
afia a argúcia enquanto coça a pança.
Se Pitágoras cá voltasse, diria:
(e não sei porque ou se viria...)
«Tudo são números»,
mas teria de inflectir que as conclusões
dão azo a doutas definições
nem sempre literais,
e tantas que tais
que as almas dos números não devem ser assim desvirtuadas,
que não conseguem viver de si apartadas
porque, no fundo, o que interessa
não é fazer de conta que é filme, que é peça
E esta sociedade solipsista
narcísica e hedonista
é o que abandona,
a Humanidade transvestida de pessoa.
E ruge o drag queen e a matrafona
Em voz off por Lisboa:
Não compreendo porque insistem
em querer depenar o porco
e tirar cartolas de coelhos
Dizem que investem
mas se ganham pouco
até nos sugam os pentelhos
que agora posso dizer
depois do Catroga o acender
Digam que estou em Bombaim
e nem estou bem em mim
No âmbito editorial,
comprovar que só há revisores na CP
Que é tudo um Carnaval
Mas não me convidam para o desfile
não é que dance mal
não é que muito refile
só falo do que a consciência vê
E muito não digo, e calo
e já com tanto me ralo
Senhor Ministro, não me lixe
que a falar assim não é fixe
e não me esteja a enganar
não é em si que vou votar
Salvadores da Nação, em fila pirilau
venham, que já nos metemos a pau
Acabou a Revolução das Massas, iniciou-se a dos Arrozes
Eu dou-te o arroz, rangeu... no cabide dela
Portugal não é um país.
É um patíbulo onde a população coloca a cabeça para descapitalizar
Onde o sonho demora a acordar
Asfixiado desde a noção de raíz
atávico xarope de eirozes
que rumou à Índia numa noz à vela
dividiu ao meio o mundo
como sendo um bolo fecundo
Mas isso no tempo dos reis
que agora, são outras as leis
e vendidas as multinacionais
estão as colónias e seus serviçais
A Democracia toca bem,
à lei da bastonada,
contra quem ainda tem
mente e voz que não quer calada
A salubridade de uma economia
avalia-se pelo tempo que consegue sustentar lambões
à custa de quem produz, povo, riqueza.
E toma atenção, sente a certeza
E é essa sugadora e atroz aleivozia
Que sustentas com teu trabalho, roubado pelos patrões
Narcolépticos incorrigíveis.
Gabinetes indirigíveis
Nota pessoal, beleza...
Desistir de procurar a Lógica
onde esta não existe.
Porque se não mantém, foge, insiste
e cá não fica, ó Chica
O empreendedorismo humano fascina-me
Cortem cabeças, que o Orçamento coaduna-se
e a sua descontracção perante a desgraça alheia mina-me
não me anima, mas, por vezes, cura-se.
De enxada na mão é que se sua o pão!
De negro e rubro
a bandeira ergo
e o Estado cai
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário