domingo, 28 de abril de 2013
As 10 regras que um livreiro não deve acordar sem ler
1- «Repôr é vender mais», não é uma simples frase propangandística do comércio avícola. A grande diferença entre um livreiro e uma galinha é que a galinha continua a pôr porque as contas nunca lhe dão certo, e o livreiro volta a botar o livro apenas e porque o mesmo se vende uma vez, logo poderá repetir a façanha. A arte da reposição defende a capacidade multiplicativa da presença sobre o vácuo indefeso ou a substituição desconsiderada. Apologia da repetição activa, demonstra as suas qualidades indexadamente à procura de sua essência desmascarada Ou, como dizia o Noddy: «Melhor que dar uma é dar uma, dar duas, dar três.».
2- Tenho para mim, que «um livro não é um livro». Direi melhor... não é apenas um livro. Se, por um lado, como objecto, poderemos reconhecer as tendências estéticas e a identidade gráfica, por outro lado, um livro não é uma cadeira. Também não é apenas um dispensário de letras enfabuladas narrativamente, ou em moto poético. Uma revista ou um jornal colecciona igualmente teses e intermináveis disposições comunicacionais, mas não se acendem lareiras com livros, embora, neste caso, também tenha grassado por aí que o livro, a seguir à madeira e ao ser humano é um material que arde de bom grado, mas de tal duvido. Considero o Homem surdo para o sofrimento do livro, ou nunca vi criaa nenhuma Associação de defesa dos direitos do livro, que não passam só pelos de autor, mas afundam-se nas sacagens editoriais.
O livro é uma experiência. Uma aventura, viagem imagética, uma donte de riqueza incalculável e não apenas um bom calço para a mesa torta ou travão de porta. O livro deixa-se ler, não grita nem chora, embora se possam reconhecer os traços de sofrimento atroz inculcado nos leitores dos dramas intemporais da Humanidade.
O que faz do leitor, não só um cientista, como um descobridor, um pioneiro, navegador oceânico que dirime suas naus em correntes desconhecidas, buscando um qualquer paraíso que na Terra não se conhece mas que se sabe ainda respirar nas lendas e mitos de quem tem inocência para os tecer, nas longas noites vazias de bulício.
3- «O leitor não é um torresmo», não se trata de uma publicidade enganosa aos benefícios da introdução equídea nos snacks desportivos. Acerque-se dele, abeire-se dele. O que nunca, repito, nunca poderá fazer é abordá-lo. Pela primeira porque o cliente não é um galeão espanhol carregado de ouro das américas, nem um turista sexual. O que se pretende é um livro, não uma aventura com uma bibliotecária (também as há), mas deixaremos tal item para outras núpcias. Quem lê quer ler o que gosta, precisa, deseja, o que tintile as abas de sua imaginação, quer voar, planar ou embicar. O leitor é, acima de tudo, alguém. Denoto a utilização deste termo, pois que há quem prefira negligenciar este facto, há quem queira dissociar a pessoa do leitor, o eleitor do cidadão, o contribuinte do beneficiário, mas tal não resultará melhor, quando separamos a clara da gema, não se pode dizer que continuamos com um ovo..
4- A organização dos diversos exemplares editados é uma temática que absorve muitos estudiosos e bibliógrafos. O tema: «como organizar a sua livraria» poderia contar com dezenas de edições e contam-se entre nós nenhuma dedicada a uma teoria arrumativa da questão. Há quem prefira fazê-lo por editora, o que nos autores inexclusivos poderá significar uma dilatação momentânea, poderemos igualmente fazê-lo, por autor e alfabeticamente, mas cria um grave problema para quem não reconhece a ordem e o alfabeto e considera a arrumação aleatória. Também podemos fazê-lo por colecções, como se entrássemos num valente volume de fascículos, em que a disciplina gráfica editorial é posta à prova (ou em Xeque). Há ainda pioneiros que se dedicam a arrumar os livros por dimensões, em fase crescente, como a Lua, ou decrescente (espelho de uma conta bancária narcísica). Por mim, prefiro por cores, pois que dá ao espaço livreiro uma conotação estética pós-moderna, com laivos surrealistas de expressionismo do dealbar do século. Existem ainda alguns tolos que preferem relembrar subtemáticas e ir decantando as publicações dentro de seu género e ordem, que pode ir dos escritores que fumavam cachimbo aos misóginos que só escreviam com um vestido de noite vermelho com lantejoulas, um turbante rosa e uma garrafa de whisky.
5- «A arrumação de livros é como o sexo, nunca está bom demais.» Senão, vejamos. O livro deve estar apertadinho como o rabinho, mas sem estragar, cabem sempre mais dois ou três, podemos pô-los por cima ou por baixo, à frente ou atrás. Há posições que não são benéficas porque arriscamo-nos a dar um jeito nas costas (humanamente) e os livros podem ficar à rasca das lombadas. (sinceramente). Embora se devam casr, nas últimas décadas tem-se preferido a união de facto por motivos fiscais. Os livros, não tendo essa sorte tributária, podem ser bem mais promíscuos, podendo até, em certos locais estarem orgíacamente aprealtados. Uns gostam de meiguice, outros gostam mais à bruta, há, às páginas tantas, os que preferem umas palmadinhas, mas não são sintomáticos de alguma opção maracdamente dominatrix..
6- «Uma livraria não é um talho», ou uma papelaria. Também não conste que seja tabacaria. Aqui não se vendem automóveis nem frigoríficos e não temos secção de mercearia. Passes sociais, não há (nem aqui, nem lá fora) e não prestamos serviços de manutenção doméstica ou canalização. Sem cavalos ou avestruzes, férias pagas ou leite. Não tendo arsenal nuclear, a livraria é um espaço pacifista, não obstante poder ser atacado por um livro-suicida (por sorte não reunem condições tecnológicas para fabricar cintos ou coletes bombistas, mas se fores atingido por uma edição encadernada de 1575 páginas (fora preâmbulo, epílogo e índice remissivo) no dedinho mindinho do pé, saberás quão perigosos estes exemplares são. Uma livraria não é uma gelataria, uma charcutaria, talho ou retrosaria. Não há-de encontrar, decerto, livros de mortalhas, nem de cheques. E embora possa encontrar suficientes lunáticos, nunca pense que entrou num hospício. os livros emprestam uma saudável aura de loucura a quem com eles priva intimamente os diversificados espisódios da vida.
7- «Um livro é um bom amigo». Acompanha-nos ao longo da vida, é fiel à palavra escrita (pelo menos à palavra que o tradutor utilizar). Nos bons e maus momentos encontrará sempre um livro ao seu lado. Livro de memórias, album fotográfico, recordações de infante, no baptismo, casório, divórcio ou óbito, No livro de alunos de uma escola, num arquivo empoeirado de identidades-sombra, espero que não no livro de calotes. A coisa boa do livro é que ouve sem nada contar, pudera, não pode falar, podemos nele mergulhar e voar, encetar explorações espeleológicas ou submarinas, pode simular diversos comportamentos mentalmente enquanto folheia as páginas que estalam quando novas. A coisa boa das folhas de um livro é que são tendencialmente perenes, não caducando senão quando se trata o livro como há muito a sociedade teima em tratar o ser humano. Sem respeito. Por sinal, paralelamente aos humanos, também os livros se encontram nos itens de fácil combustão, como se pode ainda observar em certos livros de História.
8- A pergunta que nunca deve abandonar um Livreito é: «Que livro és tu?». E é fácil apreender o porquê. Todos nós nos podemos identificar, conscientemente ou não, com um livro, parte ou excerto, podemos identificar-nos muitas vezes com os personagens de um romance, numa paisagem fantástica de Ficção Científica. Podemos até, por vezes, considerar viver dentro de um livro de zoologia. Podendo ser principal ou secundária, podendo até ser apenas um figurante. Nunca se sentiu uma aventura de capa e espada no mundo? Todos nós, secretamente, sabemos viver dentro de um livro que temos a sensação de ir escrevendo, dia a dia. Por vezes, até parece que os capítulos são escritos propositadamente por um mau argumentista. Outras vezes, o nosso papel assenta-nos como uma luva da Ulysses. Esta questão, após ter sido convenientemente respondida, acarreta um único senão. Cedo se cria uma curiosidade atroz de saber qual é o livro dos outros. Mas não podemos ser peremptórios em relação à técnica utilizada. A mesma resulta de uma simbiose entre a identidade própria do terceiro e o modo como o observamos e apenas se adquire empiricamente.
9- «Se gostou do filme, leia o livro» é uma regra dicotómica pois que faz depender de uma adaptação facciosa de uma obra escrita. Compreendida e analisada, a versão cinematográfica ou de mini-série televisiva pode nem sempre despertar em nós esse desejo. Há quem leia um livro e o veja verde, há realizadores que o querem azul... e como é que fica o amarelo? Resumido, talvez, à banda sonora. Mas tendo em consideração que a música cega dos livros não ecoa senão nas notas mnemónicas que a nossa criatividade faz percutir e ressoar na nossa cavidade craniana. Serão, de facto, os realizadores tão confiáveis que possam até adulterar toda uma obra tendo em vista a prossecução de uma visão própria sobre um determinado tema? Assim como o lorde do castelo perceber tanto da vida como da matéria lunar, também o livreiro não se imiscui em matérias cinéfilas. No filme de sua vida as páginas passam, quotidianas, e acenam lá de fora, convidando a viver, e o livreiro tem ânsias de asas e por vezes ressalta de suas ocultas guelras outros universos que se desprendem das páginas perfumadas de um bom livro que lêem na companhia dos espíritos que habitam certas casas de cultura, que não dos ratos e baratas.
10- «Em caso de dúvida, pergunte a um livreiro». O seu livreiro vem equipado com uma mescla extensiva de súmulas do conhecimento vulgar e extraordinário. Não só lhe pode indicar aquele livro que tanto procurava ou que lhe dá senso à existência como pode igualmente aconselhá-lo no seu destino de férias, qual o melhor restaurante de peixe ou o consumo do seu veículo aos 100. Tendo em seu redor uma ampla e até vastíssima rede de conhecimento plasmado em seu redor, está melhor informado para lhe confidenciar as novas leis do mercado, em que economia emergente investir ouq ual o vestido de noite que lhe fará realçar os seus lindos verdes olhos enquanto reune os elementos que lhe permitirão fazer uma omolete e mudar um pneu. Qualquer manual de instruções que se preze vem acompanhado de um. Faz sempre incidir sua atenção sobre aquele elemento que faz falta em qualquer casa de bem, aí está... o livreiro. Pode cantar-lhe serenatas, pode dançar o tango. Consegue pintar uma casa e ainda pagar o seu ordenado com o esforço de seu laborioso ofício. O seu, o dele e de tantos outros quanto uma criteriosa gestão não autorizaria. E tudo isso sem vender um único livro de cheques.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário