Nos termos fendidos
dos confins do mundo
o cerne abissal, profundo,
por entre rios fundidos,
metais e rocha líquida
num caudal de forno
diluem em sua voracidade bífida
os materiais sem retorno.
Nesse poço aberto, ferida ardente,
das caves do Inferno vapores eruptem
anões martelos percutem
na forja penosa, a vontade, premente,
dessas obscuras forças que impelem
revoltas correntes ascendentes
cuspindo fogo por entre dentes
... as fornalhas, a enxôfre fedem.
Antes que nascesse poema
e o homem a pedra esculpisse
não houvera deus que não risse
modelando na rocha líquida arte plena.
E por túneis e galerias, labirintos,
grutas e bocais dos diabos e infernos
vão rectifivcando aprendizes a jacintos
os pináculos de templos quasiternos.
Ganhou raízes na trincheira suja
inglória valeta que sonhos enterra
e na lama de sua identidade de terra
óbuses cantam na noite, a vida, que fuja...
essa malvada traidora, mastiga,
farpada, a vida, doente, demente,
antes clemente quando a esperança miga
e nos engole, mesmo à nossa frente.
Desses céus prenhes de dor mas sem cor,
que traem os mecanismos da memória
Apenas recordo o pungente terror
da macabra ópera da História
O fósforo rasgando a carne quente,
os rastos municiais cortando o crepúsculo,
os olhos virados, o corpo tremente
os deuses de costas para o opúsculo.
O veu, tão belo quanto mortal
da névoa branca e sepulcral se desprende
fantasmas de cores garridas, um farrapal
nuvens verdes e amarelas a noite acende
Na lama se perdem os membros e o medo
caem como tordos, os homens, que não é tarde nem cedo
sobram capacetes ao amanhecer
faltam corpos para a parada encher
Soltam-se genidos em oração
E o céu incendiado explode
ao deus do vento e do trovão
Em cada deflagração a terra sacode
é um zumbido surdo que cala a voz do canhão
é o arco mortal que atravessa o horizonte,
os mortos que se contam em canção,
e que caídos ficam, ao monte.
E as estrelas iluminam a ignorância humana
acesa esta em matizes mortais
o veneno cobre a terra insana
a morte carrega as almas banais
Uma neblina putrefacta se levanta
sobre as entranhas depositadas
e é a humanidade que se desencanta
entre os escombros de cidades destroçadas.
No fim, quando a poeira se dilui
nos sonhos das vésperas estropiados
em espasmos neuróticos o povo rui
na guerra, todos saem derrotados
E se lições aprendeste, homem, na verdade,
na memória não inscreves a sua importância
e logo montas outro conflicto cobarde
tendo por base apenas a vontade da ganância
E velhos generais rodeando mapas cartográficos
Voltam a sonhar campanhas de glória e conquista
onde os jovens fenecem sem esperança
De novo as nações gemem peste e fome
Cheia de ódios e tráficos
A guerra aniquila a vida, egoísta
e suas asas negras abre e lança
o ódio que a terra come.
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