A tarde, plácida, convidava à reflexão. O Autor, sentado,
com rio à vista, ponderava.
Os pensamentos assomavam-se-lhe à ideia como subiam as
bolhas carbónicas na beberagem gaseificada que pipocava à sua frente.
Deixava-os soltos, como os pardais chilreantes que se desprendiam das vivas
verdes copas, em bandos à solta pela avenida, dançando em suave brisa de Maio.
Os pensamentos, como os pardais, sem dono e livres demoravam-se na frescura da
sombra, piruetavam nos feixes de sol e picavam, acrobáticos, sobre presas
intangíveis, alheios aos cálculos aritméticos da Bolsa e ao ruído poluto do
tráfego viário.
Como pensamentos livres, se presos por fios inseguros em
arquitecturas ténues e, contudo, assentes na solidez da realidade que os origina,
abarca e parametriza? Serão estes pardais livres ou nós apenas cegos às
correntes electromagnéticas que os cerceiam? E nós, se nos prendemos a eles,
livres seremos de escolher novos que assomem na praça? Seremos nós tão donos
dos pardais como eles de nós, na tecida malha que nos une.
Quem apascentará os
pensamentos nas serras da abstracção? Quem guardará essas nuvens que se
dissipam quando o vento as quer apanhar? Que há lá lobos que as querem comer.
Os lobos das ideias são astutos e nem os pardais estão a salvo do seu apetite.
Bem vestidos e bem falantes, saltam sobre elas e fecham-nas em caves escuras,
para que ninguém as procure, cerradas em torres inexpugnáveis. E os bravos
cavaleiros que se lançam para salvá-las, os que da cultura nos falam os sábios,
os antigos, nada mais que difusas memórias, tangidas melodias, esgares amorfos
que testemunhavam mais de sua demanda que de seu sucesso. No barro se esconde o
gérmen aurífero que o suplanta. No carvão, o diamante se anuncia. E nas cordas
quânticas dedilham sábios dedos, soltando o tom assumido de cada ideia, de cada
pardal, de cada pastor.
O merceeiro deve conhecer bem as suas couves. Conhecerá
igualmente os seus pensamentos? Logo agora, dita era do conhecimento, se funde
o entendimento, flagrante e despido se assoma aos olhos a sensibilidade de
certas ideias face á verdade, aos factos, e assiste-se a uma domesticação
estatística da ideia, como se houvesse um plaffond definido para cada um ter,
um crédito, um débito, um falso ambiente, manipulado ab nauseum.
No caderno aberto, a página fitava-o. Liso, não fora os
vincos, fitava-a de volta. Sem fronteiras que o prendessem, estepe russa,
savana a desbravar, sulcava, lavrando e sachando, enxugando as rugas do esforço
às costas salgadas do empenho. Repousa o arado da consciência quando a luz do
saber dá lugar ao senciente nocturno, sibilante e profético, arrefece-lhe o
ferro da reflexão, que empresta a profundidade ao trilho aberto.
Oxalá socalquem o seu Douro mental, unam as margens dos
graníticos dogmas com pontes suspensas, em arco ou de paralaxes. Num ápice, a
sinapse, abside, dendrite. Não se cortam as raízes a um pardal e nem dois
tomates são iguais.
O merceeiro conhece bem os seus tomates. Por isso é que lhes
dá valor. Venderá também seus pensamentos a granel? Não vai à fruta com um
guarda chuva, nem à fonte de gabardina, não se lava com chouriços e nunca leu
Shakespeare na folha de uma couve, embora suas belas folhas escolhesse nas
primícias de seus agrários fornecedores
Como melros ou verdilhões se levantam, lavrados em carne e
oco osso, nervosos como margens desirmanadas, os versos do jogral, não há, de
todo, igual, e a lira tem o som incensado da parda pena e do carvão que sulca
as ondas lisas do oceano, traineira que pesca à rede os pensamentos em cardume
que rebrilham, prata debaixo da superfície dos indivíduos que se cruzam,
emersos na avenida. Será ele apenas uma estátua, imóvel observador dos
pensamentos que passam e atracam no cais do rio.
O merceeiro conhece bem como se pescam os pensamentos com o
isco adequado. Nunca roubou uma folha de alface nem mexeu na balança. E sempre
deu o troco certo. Costumava, por vezes, naqueles crepúsculos do estio,
confessar:
- Se pusermos sempre à frente um nabo, não saímos deste
molho de brócolos. Da alma das folhas de cálculo nada se sabe, mas mesmo esta
não se pesa ou quantifica, e o que fica, não se sistematiza o orgânico, há que
não ceder ao pânico. Que não reine a mentira, mesmo que cante de doce lira.
E como o pedreiro constrói a sua ideia com os tijolos do
pensamento unidos com sua argamassa moral, também o Autor construía cidades com
as ideias que formulava, enquanto sorvia, tranquilo, o fim de tarde
gaseificado.
Por vezes, apercebia-se que haviam indivíduos que deixavam
cair as suas ideias… perdiam-nas. Outros, carteiristas, tiravam as ideias de
sacão. Havia quem as atirasse, para o chão, assim que as considerava inúteis.
Jantasse fora com elas e as digerisse com um Porto de Honra.
Ainda bem que há quem varra as ideias mortas do chão da
avenida. Tropeçaríamos nos cacos desfeitos das ideias passadas, cairíamos em
ideias já usadas e abusadas, Soube que, a coberto da noite, saem de certas ruas
encapuzados que recolhem algumas e as depositam em prateleiras numeradas, que
as guardam, catalogadas, em museus esconsos das vistas comuns, para que no
futuro as vejam, ideias fantásticas, démodé ou puro lixo, tudo armazenam em
cais de embarque...
Há ideias que queimam, atravessam-nos, ardentes, como ácido.
É preciso manuseá-las com luvas apropriadas, com capacete, com cuidado. Ideias
incendiárias, bombistas e bombásticas. Cujos pensamentos dependentes são como
chamas que se alastram na savana, por vezes tudo queimam em seu caminho
devorador, como se não tivessem limites os apetites fulminantes de sua
execução. Ideias parvas, também… Upa! Isso que havia por aí de estultos
sucedâneos de ideias instantâneas.
E mesmo que acendam luzes a iluminar a noite, que fechem os
olhos ou os tapem com mãos ignaras, que as neguem ou apouquem, não evitam que
as estrelas mantenham a sua presença explosiva e luminescente nos céus, assim
as ideias existam e se manifestam, brotam, saltam, efervescem e adormecem, por
tempos desaparecem. Será que morrem, as ideias, ou se metamorfoseiam ad
infinitum, sobrepostas por camadas, mudando de pele como cobras, tantas não
tecem em casulos as teias do seu irrompimento. Há ideias a que lhes vestiram
burkas azuis, negras sombras indefinidas do que são, de seu papel renovador e
sagrado, ideias que se não vislumbram tornozelos, o suave despontar do tom da
sua pele à pele da ideia, há a ideia da pele, ideias de facínoras, ideias
prostradas, vertidas no deserto ideário, ocultas do mundo por vergonha de ser,
sob pesados mantos sepultada, trocada, vendida, destruída...
Que apenas fraccionarmos vislumbres desse mundo abstracto
das ideias, apenas as compreendemos no ponto em que nos cruzamos com ela. Mesmo o factor tempo faz com que novas
perspectivas se observem nas suas fácies iridescentes. Há ideias que são
difíceis de extirpar, como pregos ferrugentos que destroem a construção a que
são inerentes, por vezes descem a avenida, ribombantes enquanto outros viram o
olhar ou comentam fortuna alheia, pois há os que se sentam sobre as ideias,
como poltronas afanadas com naperons rendilhados minuciosamente, degustando pequenas
deglutições de ideias em chávenas de porcelana. Há quem as veja passar, como
transeuntes curiosos, turistas de países longínquos, pessoas perdidas de sua
ideia, que as procuram em caves de ébrios marinheiros.
Cheio de ideotassincracias vagueiam, náufragos dos porquês
sem resposta, faróis sonoros que atravessam o cerrado nevoeiro,
ideomocraticamente reeleitos em mandatos abstrusos, há ideias que são
verdadeiramente insuportáveis, como birras de príncipes mimados, chorando por
terem perdido um condado como quem perde um doce, ou uma ideia, translúcida,
cravejada em doze secções de igual amplitude. Milimetricamente aplicada, sem
reticências ou outras demências.
Os artistas pintam-na com as cores do universo, mas ninguém
as canta melhor que o poeta, ou as dissolve em suave música, exprimindo-a em
harmoniosas tons e compassos. Há quem delas retire um subtil instante. Há quem
defina o argumento da ideia e a passe, vezes sem conta na sua versão
cinematográfica. Cientificamente falando, a ideia já há muito foi analisada,
biopsias foram efectuadas, dissecações, testes, diagnósticos… relatórios se
acumulam em Kagabytes de memória, o equivalente a três voltas ao sol em
estantes e um queijo da serra. A ideia foi explanada, percutida, extirpada de
suas impurezas, fundida e soldada. Moldada, cozinhada, cunhada. A ideia até já
estava, entretanto, toda estragada. E, contudo, tão plástica, tão viva, vivia
com as outras ideias, brincava, dançava, saía a abraçar tantas ideias quantas
conseguisse, espraiava-se em todas as direcções, vendo toda a paisagem que as
ideias desenhavam no seu bailado antigo, ou então assim se assemelhavam, na sua
mente, as ideias que se apercebia.
Mandou chamar então seus pensamentos, trouxe-os de volta na brisa da tarde, Fê-los pairar e rodopiar e em voo picado retornar. Levantou-se no pensamento a ideia de se levantar e caminhou em direcção ao poente que esmorecia.

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