Há palavras que nos identificam
que nos comunicam, ordenam,
vozes estranhas, estrangeiras.
Vozes que solitárias, pontificam
outras que com ardil nos ordenham
vozes falsas e também as verdadeiras.
Espadas que rocambolescas, o reino apodam
são as rodas que os destinos rodam
Nós, os naufragos
deste país impenitente e burlesco
afirmamos o sal, afogados
neste oceano atroz e dantesco.
Breves datas que se alongam nos tempos
com atenção se ouvem seus lamentos
É este o Reino de Salomão?
Ou o que está mais à mão?
Apenas sua secreta corte
em contínuo desnorte
esconsa por aldeias, oculta nos anos...
Se tropeças em servos, quando chegas aos amos?
Pioneiros de tudo, somos agora nada
sombras de impérios caídos aos pés do Homem
Tomates cerceados em batalhas inomináveis.
Corpos tombados ao tomar a paliçada
ouvem-se as vozes dos passos que aí vêm
rumor de corpos incontáveis
Na Política, na sociedade
o dinheiro sem valor atravessa.
Partidos políticos o sugam
Somos vítimas de sua insaciedade
alocados à sua dívida perversa
sob os juros que nos subjugam.
E o poder de modificar, recriar, mudar
escolta-se pelos conservadorismos tacanhos
E os nacionalismos... de todos para todos
propagandas em chamas, aprisionadas,
solitárias, como hemisférios cerebrais, e, Medo!
Ao povo é tão caro respirar
imersos em esforços tamanhos
mergulhados na origem de todos os lodos
nos pântanos onde nos perdem as fadas
lá onde o escuro anoitece cedo.
A Lei dos Povos assim se apaga
e é o povo que a paga.
Introduzindo-se na política
uma tola desbragada e raquítica
para travar o Apocalipse
os poetas cantam a hipófise
caíndo na teia que o Poder tece.
adormecendo com a sirene sem prece
Buscam-se rumos, partem-se bússolas
a rosa dos ventos do Estado Social, inerte,
somos pessoas ou somos mulas
que o jugo da canga aperte?
Outras dimensões cidadãs se somam
às ideias da Europa que se assomam
Não há vida... sobre o Estado.
assim se canta este Fado
Sobra o autoritarismo democrático
fascismo multicelular e infame
com toques de feudalismo fanático
como bolacha em salame.
A Austera Língua que Camões lambia,
nem sabe o bem que lhe fazia
à Neve, os sonâmbulos em holocausto
escrevem diários de terror
longe do luxo e do fausto
e no alto de rubras fortalezas,
príncepes, condes e outras realezas
guerras gigantes se entornam.
os campos de sangue e crâneos adornam.
Em defesa do futuro, um furo
se houver, de facto, futuro
oportunidades haverão...
aproveitáveis ou não.
Na natureza, o regime que dá à foice
a florida e poderosa memória
desprende-se como folhas outonais,
dá também a mula o coice
e, se bem sabes tua História
vês como o mundo se encheu de coisas banais.
Como mortos, supostamente falecidos
alegadamente morridos.
Catalogam-se ficheiros
esgravatam-se cueiros
pois que homens não se fenecem
como joias de família
em prego alheio.
Mas sim, com anelo, remetem
em nome da sabedoria,
da Verdade, o seio.
Monumentos, que os há, erigidos
cantam as glórias de ancestrais combates
choram víuvas, cantam os vates,
calam-se de cansaço os gemidos,
e sobra beleza no canto do prato
não falta dor no canto do açor
a vida desconhece o hiato
que a consciência chama amor
Na guerra, os homens são sombras que se matam
a bom morrer.
assim as mortalidades dilatam
o que não havia de viver.
Em nome do povo criam as guerras
em nome do anónimo...
seja por ouro ou terras
haja sempre fôlego e ânimo
novas coisas se inventam, para matar
daqui até à China em estertor
Criatividade que não há-de acabar
enquanto louvarmos o estupor.
E os filhos esquecidos na ponte
lançados os corpos a monte
orfãos de todos os inférteis.
avolumam-se, famintos e débeis.
Mulheres, essas, às avessas e arrecuas sorriem
a subtil magia de um sorriso
e aos incaustos que elas fascinem
logo perdem, de todo, o siso.
Um sorriso em alta definição, pausado
resgatado pelas estrelas que despontam,
sem saber do Futuro ou do Passado
descobre velharias que novas nos contam
como ideias gémeas televisivas
novas técnicas invasivas
onde rebeldes estranhos a qualquer causa
mudam, atrevendo-se, focando nos seus instrumentos
alheios a avaria ou pausa,
cérebros que influem com a capacidade gerativa,
deportados da fauna nativa
Caem europas, ásias, mundos.
Saem banqueiros pela porta dos fundos.
Força nas palavras... e nas pernas?
são as facas que te esfaqueiam, ternas?
Somos passageiros de um horizonte mutável,
atentos às mensagens que os anjos deturpam
nem nos digam que o Futuro é inviável
e que outros nosso espaço ocupam
ouvindo os encantamentos com que padecem corações
acreditaste nos mentirosos, nos lambões.
Não aprendeste com a tua mãe?
depressa e bem, não há quem.
No curto prazo estrangulam a tua vida
e segredam-te: «não há saída»
Plutocratas abandonados à sua própria catástrofe
como poeta morrendo em cada estrofe
Há uma casa, posta para lá do inferno
onde escolheste viver.
É quente no Verão e gelada no Inverno
é o que há, o que se há-de fazer...
Dizia-se, baixinho, na minha terra:
A Paz verdadeira acaba com a guerra
como esta, por sua vez, idêntico feito teria,
isso seria a verdadeira alegria
reciprocidades negras, na verdade que ponteia a história
nós não somos a sua escória.
Medo, quem tem? Quem tem?
não há que sentir desdém
Condes a cavalo de burro, e outros pedantes
sensíveis como manada de elefantes.
Factos. Tudo, no fim, são factos.
Entre vistas se entrevista o olhar
Há uma campanha a montar
Os honoráveis assinam os pactos
os restantes saem-se a matar
sem se darem ao trabalho de apontar.
A conquista do sul da Rússia antes do Inverno despontar.
Maluco por maluco, deixem-me cá ficar.
O capitalismo, estéril, sem ética, mas estética,
não deve criar dúvidas à humanidade, céptica.
o holocausto ao curto prazo, para morrer, para matar
sem tempo para um último suspirar.
Haverá a salvação, um banho de ouro, luz e perfumes.
acendem-se nas vilas fogueiras de mil lumes
Há um paraíso, sem cinza ou fumo acre, poluição.
Não é só na minha imaginação
Há quem lhe chame, carinhosamente «A minha terra»
Vinte anos depois já ninguém se recorda
Quanto mais novecentos.
antes era praia, agora é sopé da serra
enquanto o enforcado ajeita a corda
aguarda a visão dos últimos momentos.
Bem hajam os de boa memória
essa noção dominadora, ociosa, dental.
tantas vezes inútil. inglória
afastamento suposto do animal
Haverão direitos para os oprimidos?
Aviam-se em comprimidos
O rugir da batalha. O cheiro do sangue.
estala o osso, o dente range
O som do riso estúpido do chicote que estala.
a voz que, tímida não se cala
E a Mãe reune em si a coragem
onde uns falam, outros agem
coragem em listras opticas que confundem
medos e ansiedades somam-se no produto final
per capita, dá muito. Rija como uma núvem
Em média, nem por isso. Mas é viral.
Ultrapassam as dores da pobreza insubmissa
os coches das princesas cibernéticas.
Enquanto os bispos cospem na missa
fieis vivem suas vidas ascéticas.
Voam sem medo, falcões, agora,
na promessa da viagem com arte
Ouve o sino que lhe confessa a hora
vê que o navio em espuma, parte
mas não há arte na viagem. Apenas no seu usufruir.
A noção que viver é partir.
Crie o seu próprio destino, dizem
como se o destino fosse galinha ou porco,
como se fosse vacas que os prados alisem
vitaminados e vacinados contra a expoliação humana.
como se fosse vinho que sentento, emborco
numa verve bebedeira ufana
Como se semeassem nos campos os destinos e as vidas...
o ouro que desesperava Midas.
Uma vida como a minha,
que nem rimasse nem nada,
mas fosse.
E um futuro perfeito, sem mazelas e com garantia.
Até um seguro de rima se fazia
Sequelas de rituais à beira rio se multiplicam.
Há peregrinos que saltam ao arco, feminino.
Como não sabem, também não explicam
que eu bem pergunto, desde pequenino.
A marca está em graus e mede-se em dólares
Faz a pergunta que o cavaleiro não fez,
é antigo e aceite seu feito trolhado.
Não adianta se ajoelhado orares
se não olhares, nunca mais vês.
O caminho quer-se caminhado
Agora, os segredos das origens dos mundos
encontram-se em cofres obscuros
desvendados apenas em concílios de certas sociedades.
e vestem-se fatos rubicundos
escondem-se em torres por detrás de muros
e falam baixo as verdades.
Na História da minha vida revolucionária
desde época embrionária.
também estive prisioneiro, fui-o a título excepcional,
exemplar. O último legado gizado em relatório
datado de trinta do tal de mil troca o passo e qual
com o seguinte título nomenclatório:
«Tratado da Formação, Construção e Paixão da Palavra»
que bem que o tractor de manhã lavra.
Deixei os ossos em casa e vim de bicicleta.
Ouvi a memória dos bosques livres que caminham connosco
Em pulsações sonhámos à deriva do vazio
escavações éticas e arqueológicas com pompa.
Todos a correr mas só um corta a meta
Geralmente o que é menos coxo, digo, tosco
às vezes tem cara de safio
outras tem uma grande tromba.
De língua pendente, sem papas nem nada
panos de manga para salada de fruta
No botequim bebe-se Liberdade
deita-se na esquina da estrada
e a vida é luta
do campo à cidade.
A crise do caranguejo é boa de perceber
existe esse medo de existir paralelo
nesta vida de entretecer
cada cadeia seu elo
E a loucura de ser humano
tratado como cão
esse argumento insano
de ser migalha de pão
Ouve o silêncio da Linguagem
e boa viagem
Em rigor e espírito científico
não sei se vou, se fico
Palavra de gõndola
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