quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O Mercado Anti-Livreiro


Eu confesso! Juro que tentei provar essa teoria parva que por aí tem andado de que o livro é um produto como outro qualquer. Admito que a ideia logo à partida me causou estranheza, mas, devido à minha elevada educação científica, resolvi testar essa teoria libertadora do Mercado:
-Se o livro é como outra coisa qualquer, porque é que não está a fazer outra coisa qualquer?
Segundo certas mentes iluminadas, vender livros, sabonetes, hamburgers, parafusos ou chouriços é a mesmíssima coisa – decidi então proceder à pesquisa em questão utilizando o método científico mais à mão: a experiência…
Garanto-vos. Foi um pesadelo… Os Lusíadas dão um péssimo sabonete: esfarelam-se muito, deixam a pele seca, entopem o ralo e, ao fim ao cabo, epicamente, continuei a precisar de tomar banho. O pequeno-almoço não correu melhor. O Galveias não é a mesma coisa que um croissant, embora o Café com Leite do Buarque seja apelativo, há algo que falta de acertar para caber numa caneca. Nada que com o tempo não se trate… Adiante.
Montei-me na Volta ao Mundo em 80 Dias, mas eu trabalho em Lisboa, por isso, 80 dias é um desparrame de tempo,  o mundo também é muito (talvez para as férias, dessas, low cost a quatrocentos €uros que vi na capa da revista). Então decidi-me por um Michel Vaillant, mas os combustíveis estão caríssimos. Em todo o caso, não me conseguiu levar a lado nenhum. Que falta de mobilidade. Sinceramente! Nem com rodinhas, nem à vela, dali não me safava. Mandei vir os dragões do George Martin e os Faíscas McQueen do meu filho, mas nada daquilo arrancava e o dia clareava.
 Decidi avisar que pelo andar da carruagem do Expresso do Oriente, ia chegar mais tarde ao trabalho do que previsto. Peguei num Pessoa e mandei a mensagem, mas não tinha rede… Algo tinha de ser feito, por isso, pus-me a caminho por meios próprios, pondo em pausa a experiência e decidindo-me a despachar-me a entrar no automóvel com uma bucha na boca, que, se corresse, ainda chegava a tempo de apanhar o barco. Oxalá não fosse uma Jangada de Pedra.
Entretanto, pela viagem embaladora do ferry, o que eu tenho que não faz falta nenhuma ao sítio para onde ia, pensava…
-Será que para certas pessoas, o livro é como plantações de cana-de-açúcar ou algodão? Se lhes dissessem que o próximo treinador da equipa de futebol percebia era de remo? Jogadores de futebol bons na sueca, sinceramente. Há que haver sensibilidade.
-Se é igual a qualquer outra coisa, o que é que estes parvos andam a fazer há trezentos anos? Irra, que são teimosos!
-O trabalho liberta. Eu também li a Berta e tinha pêlos a mais para o enredo.
A questão teria de ser outra. A premissa não seria esta, e nebulosamente, aglomeravam-se editoras, como se fosse um enxame de moscas e depois, nada… não se via nada. Umas morriam, outras fundiam-se, muitas desapareciam. Algo estava errado, e as razões de tal, ocultas nas raízes de outros paradigmas. Era para acabar. Let it burn!
Havia muito que vinha de trás, bem sabia…
«Nunca olhes de frente para o Grande Líder, que os anjos do Senhor te fulminarão e serás lançado aos abismos do esquecimento até nada mais seres que vermes e terra.», dizem.
«É para isto que andaram a estudar, para destruir valor ao invés de o criar? Ando eu a pagar impostos há mais de cem anos, e só me dão é fezes, estes gatunos da minha saúde!??» perguntava, indignada, D. Arminda, no rádio do navio. «Depois são ministros e secretários de Estado, gestores e advogados, deviam chamar-lhes socioputas, perdoem o meu francês, senhores, narcisistas, chupistas, solipsistas, ou brutos, sei lá… agora, doutores? Doutores é outra loiça. Até há juízes que, se fizessem da cabeça bigorna e a estragassem, também era coisa que não usavam muito, já com aquela idade…!» - Vamos ter de desligar. Obrigado, D. Arminda, os GOE vão já a caminho. Bom dia.
De onde se originava esta teoria, quando se construiu? Quem assim retalha, não retalha, esbardalha. E tal martelava minha mente. Então pus-me a observar os intervenientes de tal imprudência praticamente factual:
Vinham das lixívias e produtos derivados de limpeza, telemóveis, electrodomésticos, dos perfumes e relógios, vinham dos supermercados, seguranças neonazis e incompetentes relacionais. Parecia o Mayflower ou os índios da praia e meia. Às tantas, surgiam de todo o lado, sabe-se lá de onde, saltavam de buracos, andavam ao largo, surgiam municipalizados, mas sempre lá em cima. Todos a correr para o seu lugar, com cargos feitos à medida, em design personalizado e tecido pré-aprovado, à medida de algum freguês. Cada um no seu castelozinho a dar ordens, manientos, a criar obstáculos à prossecução das coisas, pequenas alterações numa cadeia longa pode trazer resultados extraordinários ou só mesmo totós, exigem que os funcionários criem as condições de trabalho como se não fossem obrigação da empresa, cortaram nos direitos, nos prémios, no ambiente, cortaram nas compensações remuneratórias, na autonomia, tudo o que mexesse. Cortaram em tudo, menos no trabalho mecanizado e troglodita, como se fossemos empilhadoras de faxina, papagaios sem vontade, articulando palavras sem nexo ou seriedade, mas com muita atenção às vírgulas. Apoiam-se na coerção para provar os seus pontos de vista, num local de parca efectividade e anedoticamente triste remuneração. E a malta engole em seco e estuga o passo.
Parecem uns putos a jogar à bola no palácio de Cristal, como uma manada de búfalos num campo de túlipas, uma lesma húmida e mole deixando um rasto viscoso à passagem.  
-Se fosse um navio, estávamos bem tramados e naufragados… e nem salva-vidas teríamos, que eram custos inadmissíveis para a operação. Antes, umas caipirinhas no convés encerado. 
«Quem cá está», como diria o saudoso «está para dar nas vistas, e é pago para isso, há quem esteja para ver as vistas, que é para isso que vos pagam. E depois, há os eventuais: na eventualidade de fazerem alguma coisa, eventualmente, fazem asneira.». - Isto não é meu nem do meu pai, ralas-te para quê, se quem é pago para o fazer não o faz. Reza mas é para que dê buraco, que ainda tens direito a uma indemnização. Na pior das hipóteses, compra-te o Azevedo, tarde ou cedo e põe-te a vender salsichas.»
-Quem sabe, não tem como trabalhar, porque quem manda não sabe, e não há quem veja? Nem sabe. Atira a olho. Quando der raia, logo se vê…
 Aumentarmos tudo menos o que ganhamos, esse é o nosso lema. Não somos livres, somos livros, mas como os livros são como o bacalhau e há mil e duas maneiras de fazer bacalhau, estamos feitos ao bife de atum num molho de brócolos. Como os Monos, comamo-los com batatinhas…
- Prefiro o cliente a sério ao cliente mistério, a honestidade, a um prestigiador de vazios. Trabalhar para o boneco não é de todo aprazível, se cá ando há quinze dias, quase, porque é que não percebi, mesmo que fossem parafusos, que haviam de ser todos equivalentes, e não diferentes? Dimensões e materiais, tipos e qualidades, tudo isso era, afinal, igual. Podíamos pôr a Biblioteca de Mafra numa estufa e cultivar prateleiras, como se faz com o tomate.Que se danasse! Eu mesmo sou igual àquele pinheiro. Tal e qual, nem se notam as diferenças, só mesmo olhando de perto, vê-se que ele tem casca de pinheiro e eu camisa de pele de camelo. Seria uma epifania espiritual que lhes estava a dar em spread? Tal, contudo, continuava a soar-me mal.
-Se quiser saber de peixe, pergunto ao trolha. Peço ao taxista que me arranje os dentes e quem construiu a minha casa foi um ardina que fazia umas horas por fora a assar frangos. Deitar-me com uma mulher ou com um helicóptero é a mesma coisa. Vou almoçar à oficina e voto mas é na… coisa que gosto mais do que políticos, e agora, que somos tão adaptáveis à mudança (cada vez que vejo um fatinho a falar em mudança, pergunto-me porque tenho de ser eu a pagar-lhe a cirurgia) somos todos iguais, gado bom, este ano até o PIB tem orgasmos, decerto, de tanto lhe afluírem os capitais, se não nos vissem como lixo financeiro… Talvez devamos mudar de ramo de negócio, para estrume, sempre é um bom aproveitamento bioenergético para o que muito boa gente anda por aí a fazer. É um mercado em crescimento e é melhor que fazer cimento.
 Aí se deu o Eureka da questão, a assomar-se o Terreiro do Paço. Depois do vinho, faz-se o bagaço! E, ao picar o ponto à hora marcada, ri-me à bandeira despegada. Como dizia o cantor, do rádio entremeado com o motor, ao chegar ao ancoradouro, cais do Tejo ou do Douro, perguntando o que é que fazia, «eu cá, nem me mexia». Assim já mereço o salário.
 Mas eu nem na cama estou quieto, o que traz as suas vantagens, mas nem sempre. De neurastenia no bolso, nada a tilintar, de tilt em tilt, é que eu não posso andar. E continuei…
Tentei vender o livro desse modo. Este é bom para as costas, aquele dá 100 aos 8 segundos, este aqui ganhou o prémio da fritadeira do ano, já ouviu falar deste, uma vez caíu, e quem o levantou foi aquele, fica-lhe mesmo bem, a acompanhar um vinho branco. Se comprar este ainda pode-se habilitar à eventualidade de adquirir este outro que já não sabemos o que fazer com ele. Aquela editora trabalha muito bem os azuis, a outra é mais bolos. O seu número de contribuinte, e de leitor, e de leitão da senha nº3, realça-lhe os olhos, tonifica os glúteos, é a melhor solução para os seus problemas com insectos, lava mais branco, é impermeável e redondo, maleável, lavável, móvel, perfumado, aditivado, entornado, palavreado, tudo bem misturado como se fosse um robot de cozinha. Um óptimo nadador-salvador, morenaço e temente a Deus, que leva para casa e lhe faz o jantar. 
 E nem a água pagavam, nem nada, e um gajo suava, e a saliva evaporava-se entre a sauna, o jacuzzi e o forno. Quase preciso requisitar um modelo previamente esquematizado para obter a autorização necessária, dada pelos diversos departamentos envolvidos e preenchido em triplicado para substituir os sucedâneos literários que para cá mandam, como se fosse toros de lenha… e falava e falava. Não dava muito resultado, e os clientes já olhavam para mim de lado. «Mas já leu?- perguntavam…

-Ah! É para ler, o livro? E por isso é que tem letras. Pois… Eu também lia folhas de alface, louro e couve, folhas de chá e borras de café, revistas cor-de-rosa e placcards de publicidade, mas pensava que o livro era para decorar paredes ou mesas, que soubesse tirar cafés, fazer martinis e lavar-me os pés, mas ler, ler, ler, ler, andamos todos, tontos, afinal, ainda cá pastamos por Portugal. Mas aquelas pessoas não sabiam que ler era a mesma coisa que fazer outra coisa qualquer? As pessoas liam mesmo os livros? E eu já a pensar que era para fazer de vasos à janela da sua casa? Ou da casa da vizinha, que era a mesma coisa. Se eu aparecesse lá em casa do doutor para jantar? Decerto me daria chapas de alumínio.

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