quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O PROEZAS E SUAS EMPRESAS


Cansado de ser burro de carga, Jó Proezas decidiu embarcar na nova moda e tornar-se definitivamente um empreendedor.
Desde tenra idade, o Proezas sempre esteve atento ao comportamento dos mercados. Da janela de seu quarto observava aquele bulício estonteante da Ribeira, ouvia os pregões e fazia uma viagem dos sentidos, cores, aromas e sabores quando sua avó ia abastecer a despensa. Nos dias em que havia estalada por causa doa súbita subida de algum comodity, um downsizing, um swap mal calculado e era tareia de meia-noite, encontravam-no sempre a tirar notas para levar à Bolsa de Valores, a um cliente da tia, costureira de profissão, que lhe dava bons trocados pela informação do que era naquele dia arremessado, não se perdia tudo.
Aos dez anos era já um dos maiores fornecedores de rosas de Lisboa, até o mercado ter sido invadido por produtos importados. Não havia roseira que se salvasse na cidade e arredores, em todas as saladas de pétala de rosa que as tias deglutiam entre chás de camomila ele tinha direito à comissão correspondente.
As suas últimas experiências de empresário em nome individual não tinham acabado muito bem. Abrira actividade uns anos antes, para não ser acusado de fugir ao fisco. Ele preferia malabará-lo à portuguesa, receita que aprendera na sua longa experiência. Sósaiodaqui quandoderes 5€ até funcionava bem e esteve para ser franchisado. De início era simples: com uma guitarra, um pequeno bombo, um microfone auricular e um amplificador a bateria, fazia a festa. Cantava que berrava pelas ruas da cidade, ora aqui, ora ali, e só de lá saía quando lhe dessem 5€. Depois, ia chatear outros. Sentia-se empolgado com os esgares de espanto e puro terror nos rostos dos transeuntes, quando os abordava e fazia o seu show. Às vezes até lhe davam as notas todas que tinham na carteira, só para ele se calar. Eram dias produtivos, esses.
Ainda tentou o mercado do Metropolitano e esteve para ser linchado várias vezes, não fosse correr tão bem, mesmo às escuras.
Dos locais que mais gostava de praticar a sua actividade empresarial eram as esplanadas da Baixa. Era outra louça. Turistas, gente séria e bem falante, doutores engenheiros arquitectos paisagistas juízes desembargadores da Comarca de Coimbra, políticos e economistas, todos se digladiavam por lhe prestar homenagem, deixando-se estar calado. Em menos de três semanas já tinha vários contractos em carteira, assim que se assomava à entrada da rua, nos dias indicados, logo vinham os moços do café com o valor acordado, várias vezes os 5€. Pudera, ninguém conseguia falar ao telefone quando o Proeza lhes tocava ao colo, e os clientes eram importantes, e não queriam ser incomodados, largavam a nota e ele ia, todo contente, pregar para a próxima freguesia.
Mas as coisas não eram assim sempre fáceis. Clientes mais difíceis, por vezes, chamavam as autoridades para o afastarem dos locais e ele bem se defendia:
- Xô guarda, compreenda, este é o meu trabalho. Tome o meu cartão – Jó Proezas- animações- A via pública é o meu escritório e se o meu ramo de actividade por vezes dá sombra, não deixo de trabalhar, senão, como sustento os meus Proezazinhas? Tire a mão do meu bombo, xô guarda, que se embacia…
Por várias vezes tivera de libertar a guitarra sob caução, o bombo esteve para ser extraditado, salvando-se por ter MADE IN PORTUGAL, AMOR VACUUM 1972 tatuado na pele, bem pagando a advogados que percebiam os meandros da lei, mas, com a crise, foi o descalabro…
A ASAE fechou-lhe o estabelecimento porque o bombo não tinha balcão de alumínio e não havia saída de emergência do som daquela «maldita guitarra», dizia o Juíz. «E o estado das toilettes? Dó! Metiam solidó. A guitarra, essa, que o último cliente tinha partido nas costas, antes de demonstrar com as cordas, a lavagem com fio dental. De bombo apreendido, proibido de efectuar sonorizações acima dos zero vírgula dois decibéis, a sua voz considerada uma arma de destruição massiva, teve de se conformar e deixar, com tristeza e pesar, a sua actividade empresarial e artística.
Mas, nunca desistindo, o Proezas, que era de boa lábia, fez-se à life. Com o advento da era de ouro das telecomunicações, muniu-se de um livro sonoro infantil «O Quim da Quinta» e abriu uma linha telefónica de valor acrescentado, de teor erótico, apontado ao público-alvo dos bestialistas: «444 Pimba na Quinta», era o sonho de qualquer call center. Sempre animado, o contacto iniciava-se invariavelmente por um lavrador da Lourinhã-Sul que apresentava o menu, em entoação serena sobre um chilreio do canário que sofria de Tourette:
«Para sexo com cães, prima 1; gatos, prima 2; cabritas, prima 3»… e assim por diante. No fim, garantíamos que nenhum animal tinha sido molestado ou magoado, e que era tudo consentido. Se carregasse #1 poderia agregar várias espécies animais no celeiro e fazer o que bem entendesse. Eram rios de dinheiro até vir a regulamentação do sector, e as primas que se achavam, sem saber como, metidas naquela confusão...
Infelizmente, a Sociedade Protectora dos Animais obrigou-o a fechar o palheiro, e até o Patriarcado de Lisboa se sublevou, quando recebeu a conta da paróquia da Luz, que o pároco andava embeiçado com uma búfala do zoo e tinha de se aliviar fora das horas de ofício…
Após o término do Quim da Quinta, ainda encetou uma agência de encontros amorosos para siameses, chamou-lhe «Double date Line», fez muita gente feliz ao quadrado, mas a clientela, excepcional, lá foi, também ela, arranjando a sua vida no clube de swing que criaram, os malandros.
Decidiu depois, devido ao nível empresarial e renome internacional angariado, entrar numa nova etapa na sua experiência, sonhar mais alto. Sem hesitar, abriu uma empresa que fazia compras para anões. Correu bem, ele chegava razoavelmente bem às prateleiras superiores dos supermercados, territórios inexplorados pelo mercado, cobrava um extra para os deixar andar às cavalitas, e as coisas iam compostas, até ao dia em que patrocinou uma prova de atletismo no Clube Desportivo do Bairro Dele. Aqueles 500 metros/barreiras foram inesquecíveis, mas o número de clientes, a partir daí, declinou, vá-se lá saber porquê…
Ainda tentara abrir uma empresa-fantasma, mas como tinha medo do escuro e era melhor não brincar com certas coisas, sempre lhe dissera a mãezinha, desistiu logo depois de ter escavado um valente buraco financeiro na dita, aliás, sempre baseado nos bons costumes da área.
Mas o Proezas não se rendia. Era agora que se ia dar bem… Ia ter empregados e tudo, oxalá não fossem mal empregues. Funcionários daqueles que funcionam às mil e uma maravilhas, ia poder, também ele, pôr um martelo a fazer de chave de fendas. 
Entrou na Loja do Cidadão e retirou a senha para a Empresa num Minuto. Estava com pressa.
Aguardou um pouco, ansioso por este novo passo e até passou pelas brasas um quarto de hora, pelo menos, mas quando o sino electrónico bateu o seu número, catapultou-se para o balcão de atendimento.
- Guichet 7. Óptimo. Bom dia. Vinha aqui abrir uma empresa. É aqui? – entregou o cartão de contribuinte, que era o que interessava.
- É, pois. Sente-se, fique à sua vontade. Vem abrir uma empresa? Quer um chá e umas bolachinhas, um viske e um cubano, ou uma coisa mais ligeira? – teclando como quem escava no teclado perro.
- Assim, sim,, que bem servido eu estou, nem sei por onde começar,…
- O sr. Proezas é sempre bem-vindo. O seu currículo parece uma árvore de Natal. Como tem passado? E a esposa e as crianças? Tout va bien?
- Ça va, bien sûr, monsieur. Vão melhores que a minha conta bancária. Adquiri há pouco uma fábrica por 1,50€ num leilão das finanças e ainda ganhei um porco. Assim que o porco entrou na conta, comeu-me o dinheiro todo, e era o Banco que era bom, veja lá, e agora já é mau… espero que não tenha sido do meu porco, parecia-me bem tratado, um pouco fumado, e passava bem, não fora um pouco salgado, o porco…
Posto à vontade, o processo era muito simplex.: Capital social: 1€, que ele não era parvo. Regime de Sociedade Anónima por quotas. Anónima para não irem atrás dele, por quotas que ele tinha todas, que custavam a apanhar, e guardá-las-ia no bolso da camisa, como o merceeiro da rua de cima. Sede fiscal no Luxemburgo, não sem antes sobrevoar a Madeira e fazer três passagens pelos Barbados, Salomão e Caimão, para valorizar nos câmbios e lavar o imposto nos oceanos deste mundo, esperando não o deixar mais poluído do que já está.
- E o meu produto é inovador! - Se é inovador, tem apoios. – Se tem apoios, eu quero!
- Omeu produto vai dinamizar a indústria tradicional e o artesanato. - Se é indústria, tem apoio – Se tem apoio, eu gosto. – Se é tradicional ou artesanal tem uma linha de apoio… - Se tem linha, eu também já tive uma, mais outra não me há-de fazer mossa.
- O meu produto vai-se exportar que nem pêra-rocha – Se é para exportar tem benefícios! – Se tem benefícios, dê cá. Então e de ser rijo? – O seu plano de negócios? – Não é um plano é uma carta marítima. – Se for em águas internacionais, tem isenção. – Isenção. Até lhe beijo os bigodes. Cada vez falamos melhor!
- E o meu produto é tecnológico e trendy e vai bem com qualquer um, ou quase… – Se é isso tudo, melhor ainda, o êxito está garantido e vou já abrir-lhe um corredor directo para o Orçamento de Estado do próximo ano… - Isso é que era. Você é um porreiro, pá!
- Então já temos local de produção e a maioria das bases. Tem mais investidores? – Já os fui buscar ao ninho. São uns anjinhos… - Tem cluster?- Bem, ter, ter, tenho. Quer dizer... Não são como os da Nestlè, porque não quero problemas patenteados, mas os esquilos não se queixam. – Quais esquilos? Sei lá, foi o que me lembrei.- Pensei que estivesse a falar de recursos humanos? Já pensou nisso, Juiz de Linha Proezas? – Sim, sim.
- Já mandei vir três contentores de birmaneses, que estão baratos e um outro de gestores e administrativos mexicanos. Contactei dois tradutores marroquinos que só falam swalihi entre eles, porque senão, já se vê, é uma algarviada que ninguém se percebe.
- Ah! É que com a nova política de apoios aos estagiários… Ficam-lhe de graça, veja lá, se lhe não dão jeito, Capitão Proezas? – Mas eu não sou capitão. – General Proezas, então.
- Ai há apoio? Então eu quero. Mande lá uns desses…para as papeladas e os computadores, dá sempre jeito, que os putos são espertos, percebem é de botões e coisas com luzinhas, que apitam e blipam.- E desempregados de longa duração?- Epá, esses é que não! E se eles contagiam alguém e me fica tudo doente? - Pagamos o ordenado os primeiros meses e pode sempre despedi-los por uma justa causa qualquer depois, não é? Não ficam com subsídio nenhum, e o senhor Ministro ficava-lhe agradecido, que as estatísticas têm sido uma miséria e ele fica todo transtornado, que mal dorme.- E, pois… já se sabe como as coisas são, a competitividade, a produtividade, vendo bem material para ministro, hoje em dia que está tudo precário…- Avie-me, então, dois ou três. Mas chega, que isto não é a Santa Casa. Se precisar de mais, ponho um anúncio no jornal «Procura-se desempregado com experiência».
- Então e ao que é que se vai dedicar, desta feita, Arquitecto Proezas?
- Vou aproveitar esta mania dos cigarros electrónicos e vou fazê-los com um design inovador, estimulante e controverso, à boa maneira das Caldas. Em vários tamanhos e grossuras, vai ser um mimo, vaporizar. E esse pessoal da moda, sempre in (uns mais in do que outros, outros mais in de outros) vai adorar os XXL já projectados, decerto. Prevejo um sucesso. Já vendi trezentos pela internet.
- Isso é excelente! Há apoio para o é-comerce. Você tem faro pá coisa, Engenheiro Proezas, e depois escala isso e invade o mundo de… - Fá-los-ei, meu amigo, Fá-los-ei.

Entretanto, vou colocar a minha secção de Marketing e Aquisições, dois lenhadores russos, a trabalhar no meu próximo projecto. Usam o método indicado para manter as coisas a um nível acessível, se me compreende, com aquelas manápulas e técnicas de arremesso de machado. Vou adquirir uma parcela deste Banco Ainda Mais Novo que aí vem e que vai ter apoios, e se tem apoios, eu quero! Ainda hei-de conseguir um perdão fiscal como os outros, que vou tarde, mas ainda vou a tempo.– Ainda há-de ser ministro, doutor Proezas. – Mas isso é outra história.

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