Cansado de ser burro de carga, Jó Proezas decidiu embarcar
na nova moda e tornar-se definitivamente um empreendedor.
Desde tenra idade, o Proezas sempre esteve atento ao
comportamento dos mercados. Da janela de seu quarto observava aquele bulício
estonteante da Ribeira, ouvia os pregões e fazia uma viagem dos sentidos,
cores, aromas e sabores quando sua avó ia abastecer a despensa. Nos dias em que
havia estalada por causa doa súbita subida de algum comodity, um downsizing, um
swap mal calculado e era tareia de meia-noite, encontravam-no sempre a tirar
notas para levar à Bolsa de Valores, a um cliente da tia, costureira de
profissão, que lhe dava bons trocados pela informação do que era naquele dia
arremessado, não se perdia tudo.
Aos dez anos era já um dos maiores fornecedores de rosas de
Lisboa, até o mercado ter sido invadido por produtos importados. Não havia
roseira que se salvasse na cidade e arredores, em todas as saladas de pétala de
rosa que as tias deglutiam entre chás de camomila ele tinha direito à comissão
correspondente.
As suas últimas experiências de empresário em nome
individual não tinham acabado muito bem. Abrira actividade uns anos antes, para
não ser acusado de fugir ao fisco. Ele preferia malabará-lo à portuguesa,
receita que aprendera na sua longa experiência. Sósaiodaqui quandoderes 5€ até
funcionava bem e esteve para ser franchisado. De início era simples: com uma
guitarra, um pequeno bombo, um microfone auricular e um amplificador a bateria,
fazia a festa. Cantava que berrava pelas ruas da cidade, ora aqui, ora ali, e
só de lá saía quando lhe dessem 5€. Depois, ia chatear outros. Sentia-se
empolgado com os esgares de espanto e puro terror nos rostos dos transeuntes,
quando os abordava e fazia o seu show. Às vezes até lhe davam as notas todas
que tinham na carteira, só para ele se calar. Eram dias produtivos, esses.
Ainda tentou o mercado do Metropolitano e esteve para ser
linchado várias vezes, não fosse correr tão bem, mesmo às escuras.
Dos locais que mais gostava de praticar a sua actividade
empresarial eram as esplanadas da Baixa. Era outra louça. Turistas, gente séria
e bem falante, doutores engenheiros arquitectos paisagistas juízes
desembargadores da Comarca de Coimbra, políticos e economistas, todos se
digladiavam por lhe prestar homenagem, deixando-se estar calado. Em menos de
três semanas já tinha vários contractos em carteira, assim que se assomava à
entrada da rua, nos dias indicados, logo vinham os moços do café com o valor
acordado, várias vezes os 5€. Pudera, ninguém conseguia falar ao telefone
quando o Proeza lhes tocava ao colo, e os clientes eram importantes, e não
queriam ser incomodados, largavam a nota e ele ia, todo contente, pregar para a
próxima freguesia.
Mas as coisas não eram assim sempre fáceis. Clientes mais
difíceis, por vezes, chamavam as autoridades para o afastarem dos locais e ele
bem se defendia:
- Xô guarda, compreenda, este é o meu trabalho. Tome o meu
cartão – Jó Proezas- animações- A via pública é o meu escritório e se o meu
ramo de actividade por vezes dá sombra, não deixo de trabalhar, senão, como
sustento os meus Proezazinhas? Tire a mão do meu bombo, xô guarda, que se
embacia…
Por várias vezes tivera de libertar a guitarra sob caução, o
bombo esteve para ser extraditado, salvando-se por ter MADE IN PORTUGAL, AMOR
VACUUM 1972 tatuado na pele, bem pagando a advogados que percebiam os meandros
da lei, mas, com a crise, foi o descalabro…
A ASAE fechou-lhe o estabelecimento porque o bombo não tinha
balcão de alumínio e não havia saída de emergência do som daquela «maldita
guitarra», dizia o Juíz. «E o estado das toilettes? Dó! Metiam solidó. A guitarra,
essa, que o último cliente tinha partido nas costas, antes de demonstrar com as
cordas, a lavagem com fio dental. De bombo apreendido, proibido de efectuar
sonorizações acima dos zero vírgula dois decibéis, a sua voz considerada uma
arma de destruição massiva, teve de se conformar e deixar, com tristeza e
pesar, a sua actividade empresarial e artística.
Mas, nunca desistindo, o Proezas, que era de boa lábia,
fez-se à life. Com o advento da era de ouro das telecomunicações, muniu-se de
um livro sonoro infantil «O Quim da Quinta» e abriu uma linha telefónica de
valor acrescentado, de teor erótico, apontado ao público-alvo dos bestialistas:
«444 Pimba na Quinta», era o sonho de qualquer call center. Sempre animado, o
contacto iniciava-se invariavelmente por um lavrador da Lourinhã-Sul que
apresentava o menu, em entoação serena sobre um chilreio do canário que sofria
de Tourette:
«Para sexo com cães, prima 1; gatos, prima 2; cabritas,
prima 3»… e assim por diante. No fim, garantíamos que nenhum animal tinha sido
molestado ou magoado, e que era tudo consentido. Se carregasse #1 poderia
agregar várias espécies animais no celeiro e fazer o que bem entendesse. Eram
rios de dinheiro até vir a regulamentação do sector, e as primas que se
achavam, sem saber como, metidas naquela confusão...
Infelizmente, a Sociedade Protectora dos Animais obrigou-o a
fechar o palheiro, e até o Patriarcado de Lisboa se sublevou, quando recebeu a
conta da paróquia da Luz, que o pároco andava embeiçado com uma búfala do zoo e
tinha de se aliviar fora das horas de ofício…
Após o término do Quim da Quinta, ainda encetou uma agência
de encontros amorosos para siameses, chamou-lhe «Double date Line», fez muita
gente feliz ao quadrado, mas a clientela, excepcional, lá foi, também ela, arranjando
a sua vida no clube de swing que criaram, os malandros.
Decidiu depois, devido ao nível empresarial e renome
internacional angariado, entrar numa nova etapa na sua experiência, sonhar mais
alto. Sem hesitar, abriu uma empresa que fazia compras para anões. Correu bem, ele
chegava razoavelmente bem às prateleiras superiores dos supermercados,
territórios inexplorados pelo mercado, cobrava um extra para os deixar andar às
cavalitas, e as coisas iam compostas, até ao dia em que patrocinou uma prova de
atletismo no Clube Desportivo do Bairro Dele. Aqueles 500 metros/barreiras
foram inesquecíveis, mas o número de clientes, a partir daí, declinou, vá-se lá
saber porquê…
Ainda tentara abrir uma empresa-fantasma, mas como tinha
medo do escuro e era melhor não brincar com certas coisas, sempre lhe dissera a
mãezinha, desistiu logo depois de ter escavado um valente buraco financeiro na
dita, aliás, sempre baseado nos bons costumes da área.
Mas o Proezas não se rendia. Era agora que se ia dar bem… Ia
ter empregados e tudo, oxalá não fossem mal empregues. Funcionários daqueles
que funcionam às mil e uma maravilhas, ia poder, também ele, pôr um martelo a
fazer de chave de fendas.
Entrou na Loja do Cidadão e retirou a senha para a Empresa
num Minuto. Estava com pressa.
Aguardou um pouco, ansioso por este novo passo e até passou
pelas brasas um quarto de hora, pelo menos, mas quando o sino electrónico bateu
o seu número, catapultou-se para o balcão de atendimento.
- Guichet 7. Óptimo. Bom dia. Vinha aqui abrir uma empresa.
É aqui? – entregou o cartão de contribuinte, que era o que interessava.
- É, pois. Sente-se, fique à sua vontade. Vem abrir uma
empresa? Quer um chá e umas bolachinhas, um viske e um cubano, ou uma coisa
mais ligeira? – teclando como quem escava no teclado perro.
- Assim, sim,, que bem servido eu estou, nem sei por onde
começar,…
- O sr. Proezas é sempre bem-vindo. O seu currículo parece
uma árvore de Natal. Como tem passado? E a esposa e as crianças? Tout va bien?
- Ça va, bien sûr, monsieur. Vão melhores que a minha conta
bancária. Adquiri há pouco uma fábrica por 1,50€ num leilão das finanças e
ainda ganhei um porco. Assim que o porco entrou na conta, comeu-me o dinheiro
todo, e era o Banco que era bom, veja lá, e agora já é mau… espero que não
tenha sido do meu porco, parecia-me bem tratado, um pouco fumado, e passava
bem, não fora um pouco salgado, o porco…
Posto à vontade, o processo era muito simplex.: Capital
social: 1€, que ele não era parvo. Regime de Sociedade Anónima por quotas.
Anónima para não irem atrás dele, por quotas que ele tinha todas, que custavam
a apanhar, e guardá-las-ia no bolso da camisa, como o merceeiro da rua de cima.
Sede fiscal no Luxemburgo, não sem antes sobrevoar a Madeira e fazer três
passagens pelos Barbados, Salomão e Caimão, para valorizar nos câmbios e lavar
o imposto nos oceanos deste mundo, esperando não o deixar mais poluído do que
já está.
- E o meu produto é inovador! - Se é inovador, tem apoios. –
Se tem apoios, eu quero!
- Omeu produto vai dinamizar a indústria tradicional e o
artesanato. - Se é indústria, tem apoio – Se tem apoio, eu gosto. – Se é
tradicional ou artesanal tem uma linha de apoio… - Se tem linha, eu também já
tive uma, mais outra não me há-de fazer mossa.
- O meu produto vai-se exportar que nem pêra-rocha – Se é
para exportar tem benefícios! – Se tem benefícios, dê cá. Então e de ser rijo?
– O seu plano de negócios? – Não é um plano é uma carta marítima. – Se for em
águas internacionais, tem isenção. – Isenção. Até lhe beijo os bigodes. Cada
vez falamos melhor!
- E o meu produto é tecnológico e trendy e vai bem com
qualquer um, ou quase… – Se é isso tudo, melhor ainda, o êxito está garantido e
vou já abrir-lhe um corredor directo para o Orçamento de Estado do próximo ano…
- Isso é que era. Você é um porreiro, pá!
- Então já temos local de produção e a maioria das bases.
Tem mais investidores? – Já os fui buscar ao ninho. São uns anjinhos… - Tem
cluster?- Bem, ter, ter, tenho. Quer dizer... Não são como os da Nestlè, porque
não quero problemas patenteados, mas os esquilos não se queixam. – Quais
esquilos? Sei lá, foi o que me lembrei.- Pensei que estivesse a falar de recursos
humanos? Já pensou nisso, Juiz de Linha Proezas? – Sim, sim.
- Já mandei vir três contentores de birmaneses, que estão
baratos e um outro de gestores e administrativos mexicanos. Contactei dois
tradutores marroquinos que só falam swalihi entre eles, porque senão, já se vê,
é uma algarviada que ninguém se percebe.
- Ah! É que com a nova política de apoios aos estagiários…
Ficam-lhe de graça, veja lá, se lhe não dão jeito, Capitão Proezas? – Mas eu
não sou capitão. – General Proezas, então.
- Ai há apoio? Então eu quero. Mande lá uns desses…para as
papeladas e os computadores, dá sempre jeito, que os putos são espertos,
percebem é de botões e coisas com luzinhas, que apitam e blipam.- E desempregados
de longa duração?- Epá, esses é que não! E se eles contagiam alguém e me fica
tudo doente? - Pagamos o ordenado os primeiros meses e pode sempre despedi-los
por uma justa causa qualquer depois, não é? Não ficam com subsídio nenhum, e o
senhor Ministro ficava-lhe agradecido, que as estatísticas têm sido uma miséria
e ele fica todo transtornado, que mal dorme.- E, pois… já se sabe como as
coisas são, a competitividade, a produtividade, vendo bem material para
ministro, hoje em dia que está tudo precário…- Avie-me, então, dois ou três.
Mas chega, que isto não é a Santa Casa. Se precisar de mais, ponho um anúncio
no jornal «Procura-se desempregado com experiência».
- Então e ao que é que se vai dedicar, desta feita,
Arquitecto Proezas?
- Vou aproveitar esta mania dos cigarros electrónicos e vou
fazê-los com um design inovador, estimulante e controverso, à boa maneira das
Caldas. Em vários tamanhos e grossuras, vai ser um mimo, vaporizar. E esse
pessoal da moda, sempre in (uns mais in do que outros, outros mais in de
outros) vai adorar os XXL já projectados, decerto. Prevejo um sucesso. Já vendi
trezentos pela internet.
- Isso é excelente! Há apoio para o é-comerce. Você tem faro
pá coisa, Engenheiro Proezas, e depois escala isso e invade o mundo de… -
Fá-los-ei, meu amigo, Fá-los-ei.
Entretanto, vou colocar a minha secção de Marketing e
Aquisições, dois lenhadores russos, a trabalhar no meu próximo projecto. Usam o
método indicado para manter as coisas a um nível acessível, se me compreende,
com aquelas manápulas e técnicas de arremesso de machado. Vou adquirir uma
parcela deste Banco Ainda Mais Novo que aí vem e que vai ter apoios, e se tem
apoios, eu quero! Ainda hei-de conseguir um perdão fiscal como os outros, que
vou tarde, mas ainda vou a tempo.– Ainda há-de ser ministro, doutor Proezas. –
Mas isso é outra história.

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