terça-feira, 15 de maio de 2012
Lagoeiro
Ah! Bela Dama...
Tão cedo m'enfeitiçaste.
Musa mia, qua m'encantas,
de azul cetim em campo pinho.
Bem sei que teu coração ama
Poseidon, para quem dançaste,
mas é para mim, que, suave, cantas,
tuas loas de doce carinho.
Filha de mil fontes
qem delta subterrâneo tecidas,
brotando, viva, segue fluindo, desviando...
para em seus braços te lançares.
Encontro-te, desnuda, cantarolando
embalas, terna, a real garça
acaricias as verdes penugens dos negros patos
no texugo que se oculta, à pressa...
És a raposa furtiva solta nos montes
A memória de tantos já esquecidos,
a coruja que ajudo, na caça, alumiando,
no morcego que limpa de melgas meus ares.
Teu louro areal o vento vai penteando
as dunas mimetizando, com graça,
as ondas levantadas, impactos cordatos
teus lábios exultam, oculta, do beijo, a promessa
Buscam-te os sapos, no meu quintal
percorre a floresta o batuque do pica-pau.
Enviei para norte bandos de corvos,gralhas para sul, rapinas,
Leste e Oeste: milhafres, gaios, águias, falcões
majestosas cegonhas e flamingos te procuram, afinal.
A toupeira que escava, o ouriço, manso, nunca mau,
e cucos e rouxinóis e pintarroxos, chapins e cotovias, ninas,
esperanças qe recolho no chilrear dos melros e tentilhões.
E é no silêncio nocturno,
atidas aos ondas na costa,
que ressoa e pulsa, que ecoa
som de mãe que o ventre afaga
E mesmo em dia soturno,
que alegria vê-la, assim disposta,
deitada sobre a dunagem, leoa,
dançando em rodopio a cada vaga.
E, como se levantam
É Neptuno, quem as lança
Investe e revolve, furibundo,
força-se a entrar o teu gineceu
Esse, que proteges e me reservas,
sinto, lento, o teu filtrar para o mar
que mais não quebra tua recusa
e recua, ferido e sentido.
Que fórmula essa, com que me envolves e enguiças?
Oh! Que brilhas, fátua, que me convidas...
repousando em serena sombra, junto a mim,
juntos sob o manto de estrelas que nos cobre.
E vêmo-las, que elas no céu também cantam e dançam,
e em teus olhos se não dilui a esperança
nem o céu te contraria, em teu azul profundo,
ele assumindo-o como seu...
Igualmente debanda, escurece-se entre suas servas
as nuvens, empalidece e rende-se na lua, para ti, que brilhar.
Dedilho teus contornos de forma obtusa,
tantas vezes imerso em mim, forjado e embutido
qual cavaleiro sempre envolto em justas e liças
estendes-te e acenas-me com as verdades escondidas,
em brumosa voz reveladas em tom jasmim,
lembrando-me o quanto minh'alma é nobre.
Espelhas-me, tranquilo e imanente,
vivo, como tu, e pelos bosques corremos,
nús, e dançamos ao teu redor, eternamente,
ou por quanto de mim te lembrares.
Na memória de meus dias, o te ver,
no recorte curvilíneo de teu banhar
m'enche a alma p'los olhos, arcano,
neta de Tágides e Sadinas
ainda tão fresca, adolescente,
ora doce, ora salgada. te beijo eu,
como me deleitas no teu serpentear
como é digna a posse que nos dás.
E quando meu sopro fenecer,
Sei bem que será por Nereu que irás clamar
com ele chorar, mas acompanhár-me-ás, pelo Oceano
pela rota das almas partidas
E com o sol no Ocaso, incadescente,
Lutando contra a noite e Proteu,
dir-me-ás adeus, assim que em minh'ilha aportar
e, embora ouvindo, sumindo-se, mia flauta, partirás.
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