terça-feira, 11 de dezembro de 2012

«É a estupidez, estúpido!» diz o espútrido da esputidão

Sem um pingo de luz. Era assim que o caracterizava um edital . Um perfil obscuro e esquivo, uma face negra, como se o sangue custasse a fluir-lhe pelas artérias vítreas. Uma face fria, um olhar gélido apenas fugazmente aquecido, quando, no auge de discussões peremptórias, se acendiam outros tons de maquiavelismo e ódio visceral ao adversário na contenda, como se reservasse toda a animosidade, ira e conflictualidade num incómodo freio, pronto a libertar os seus preconceitos, ao ver o branco dos olhos de quem à tribuna subia, naqueles tempos de imprecações.

Não possuía, mesmo que mínimo, um porte atlético. As suas costas eram espaldares raquíticos e já com tendência à corcunda realildade, enquanto seu prito se spresentava como que sugado para dentro de uns pulmões, calculava-se que secos e escuros, devido ao tom macilento de sua pele, numa amarelo acastanhado que lembrava vários tons de fezes abaixo do considerado saudável. Vestia sempre um fato impecavelmente negro, engomado na lavandaria situada na esquina de sua praceta de residência, ao lado do café da D. Esmeralda, uma simpática porcina, sempre corada e apressada, que religiosamente lhe servia, todas as matinas, um responsável e carinhoso quebra jejum.
A sua voz, modulada, pausada, arremessando, com uma dicção impenetrável e uma serenidade apenas igualável às monstruosidades que ia ditando, lendo de um discursos densamente elaborado para não permitir o mínimo de intervenção durante o processo de o desfiar, ia alcantilando números, percentagens e lugares comuns à mesma e lenta velocidade com que ia dilacerando etimologicamente o discurso, aberto que estava às mais abstrusas interpretações póstumas, bloqueando qualquer interpelação, blindando o discurso hgermeticamente, fruto de uma demonstração calculista e facciosa da equação proposta.
Os seus dons na oratória tinham ficado célebres por vias das intervenções nas Conferências do Bingo do Belenenses, num tempo em que o Clube apenas podia oferecer à vida desportiva e cultural da capital, numa bilheteira abandonada por falta de procura, uma pequena esquina do parlatório, local frequentado por filósofos e agitadores, que servindo-se do púlpito religiosamente cobiçado, aventavam bitaites de diversificada proveniência e objectivo, alavancando aos ouvidos previamente munidos de aparelhos de audição de qualidade duvidosa de uma multidão de reformados impulsivamente, que dedicavam o debicar constante do tempo ao jogo do dominó e à Liga dos Campeões de Piropos Gentis.
A mensagem era clara e não admitia dúvidas ou outros democráticos cepticismos. Era asséptica, antibiótica e virada para o futuro. Não um futuro desejado por uma larga fatia da população, nem mesmo o apontado por alguns iluminados burgueses, observando o mundo do alto dos seus edifícios de escritórios e restaurantes de luxo. Era uma opção própria, uma teoria congeminada entre dois pires de tremoços e uma imperial, na tasca a jusante do seu local de trabalho favorito, um bebedoiro para pombos erigido numa praça metropolita e esquecida do rebuliço quotidiano das grandes cidades. Era um caminho forçosamente a ser caminhado, ou, na pior das hipóteses, feito de joelhos em sangue.
Na primeira parte do discurso, discorrera um retrato, algo desfocado, adiante-se, da realidade nacional, revisitando os pontos de charneira incontornáveis da história recente do país, onde expunha, não sem uma acidez acutilante, que o processo democrático estaria assente numa libertária abertura do Poder ao Povo, algo que purgado na Constituição escrita após uma revolução, um coup d'État, tinha sido activamente combatida desde a sua instituição, e não menos, durante, ano após ano, legislatura seguindo outra, visando apenas o reapossamento da propriedade nacionalizada a custo zero, ainda acompanhado de inescrupulosamente negociadas indemnizações compensatórias. Acaso sir Robin of Locksley era português? Não? Então fine-se esta cooperativização nacional.
Apoiado necessariamente pela elite financeira do momento, acossado por uma dívida pungente pois que existencial, o país, apoiado na noção facilista do crédito, tinha ficado absolutamente parado, parado e mal parado, tão parado que dir-se-ia quedo, ante o manancial confiscatório que aparecia nos relatórios trimestrais, a mando de uns cavalheiros nórdicos, cientes da sua superioridade económica e convencidos a dar uma luta sem tréguas aos restantes habitantes, não cidadãos, decerto, dos países limítrofes, habituados que estavam a recolher em salvas de prata as esmolas que escorregavam das torneiras excedentárias dos países do centro continental, ociosos da sua sociedade equalitária, como relutantes a estendê-lka para a melhoria da condição de vida dos seus conterrâneos afastados.
Urgia criminalizar o cidadão, para lhe retirar a almofada de confiança cega que o rodeava. Atacava-se então o contribuinte, que tinha dexado à guiza de lanterna à soleira da porta, as obrigações fiscais como extensão da sua qualidade intrínseca de trabalhadores activos e contribuintes consumistas, numa teia de relações que apenas excluía quem, alheio a produzir, acumulava dividendos de certas apostas financeiras, seguramente colocados, em rappels indevidos, em contas fantasma ou discretas, em algum paraíso fiscal, mesmo que seja a temperaturas negativas. Saqueavam-se os reformados, que viviam acima das condições esperadas em meados do século passado. E, a partir daí, espelhando a situação actual com o país à época do crepúsculo medieval, contabilizando todas as conquistas civilizacionbais e colando-lhe os valores económicos calculados para o efeito, desmontando assim, toda uma noção de evolução social enquanto mascara despesas, alocando-as aos itens enumerados.
Estava sentado, e em estudadas pausas gesticulava enquanto bebia dois ou três goles de água fresca, cristalina, não da torneira, essa, reservava-se à ralé. Não. Aquela água tinha acumulado diversos prémios devido à sua qualidade mineral. Serviam as pausas para alinhar as margens coloridas das folhas que trazia e que zurzia em momentos mais ásperos da discrsiva representação. Servia igualmente para equilibrar o machado com que tencionava cortar a raíz á educação, a catana com que contava decepar a Justiça, a braços com casos de corrupção activa, copianço nos exames e inspectores homicidas, e que, ao fim das contas, já ninguém observava que as cacetadas que os polícias distribuem, à laia de dispersão de manifestantes, se deveria apontar abaixo da cintura, como em épocas civilizadas.
Apertava também, nas mãos trémulas, a corda para asfixiar a Saúde e esperava utilizar estes instrumentos de sedição para comprovar os seus pontos de vista. O país concordaria com as opções tomadas e a ideologia que apresentava, na sua voz tépida e ansiolítica. Caso contrário, definharia até ao fim. Coisa que não estava tão distante quanto isso, caso o povo acedesse à sua força motriz, mas era desnecessário confessá-lo. Isso seria problema para outros... os que viriam depois de estar confortavelmente instalado numa suite presidencial no Luxenburgo, ou enquanto degustasse um daqueles charutos caros (charutos, não, que o sabor é acre, algo mais doce, menos subjectivo, talvez cachimbo, bem sentado em peças de mobiliário nórdico e projectado no seu design funcional e de linhas polares.
Passou novamente os olhos pela impávida assistência. nenhum adormecera, mas certas cabeças já cambaleavam no interstício dos parágrafos. «Pérolas a porcos.», pensou. «E que porcos... Até podiam ser pérolas de merda, eles não se moveriam. Para os porcos, se é redondo, é uma pérola, mesmo as caganitas da cabra montês.» E aquele discurso não devia lamber os ouvidos carregados de cera daqueles senis, isto é material para ser dirimido em Bruxelas, pelo menos, entre os fatos de haute couture, as suas palavras teriam um sentido que estes débeis não poderiam ou saberiam arrancar da corrente de palavras que, soltas e avulsas, iam florear com sentidos extremos o exercício narrativo apresentado, de forma tão compacta que se juraria transparente e, no entanto, sincrético e heterogéneo, não seria de fácil desagregação. Quando fosse traduzido e digerido já seria tarde, e nem o Tribunal Constitucional se oporia ao apresentado.
E, retomando a leitura no ponto em que a tinha, momentaneamente, suspenso, dispôs-se a percorrer novamente os acesos locais da memória colectiva onde se acumulavam relatos da guerra, temores ditatoriais, enfunando no hálito sacro da divindade providencial, a definhação que ocorrera durante meio século de pensamento único, partido único líder único. Tentava sempre coadunar a sua apresentação, imbuíndo no estadista renomeado, um halo de religiosidade sentido de tão bacoco, um fulgor de justiça e patriotismo, um aberto sentido de responsabilidade com a nação e a história, mas também não ignorava como soava distante, sua voz, quando se propunha a viajar pelas lembranças fugídias de infância, uma vez que a ouvira, por entre as negras botas cardadas que se despediam do solo pátrio para irem entregar os hospedeiros, seu sangue, tripas e sonhos, lá longe, onde o Império chamava a calar a sublevação de uns quantos escravos mal agradecidos.
Como lhe soara aquela voz que agudizava em simulados estertores clímaxes ensaiados, e, disso recordava-se bem, um ritmo hipnótico ia percorrendo os olhos fixos no Chefe, de ouvidos alerta, preparados para erguer os braços ao sinal premonitado, mas de mente tão impecavelmente limpa de tudo o que não fosse as bolhas discursivas que se iam despregando, como navio cargueiro no cais, ou balão de hélio nas mãos irrepreensíveis de uma criança, que pareciam esvaziadas de conteúdo, plenas de um vácuo conveniente durante as demonstrações públicas de alienação nacionalista, e como o rebanho ensaiado ia desfilando bandeirolas ao vento cortante do cais. Como o Império se desfizera, alheio à vontade e à luta e resistência dos esbirros metropolitanos, nem com napalm calaram o grito de autodeterminação dos povos colonizados.
O momento agora, era outro. Para lá das ruínas da nação, abandonados os escolhos de um Império mais de nome que de facto, redimensionados à área primitiva, o português, de sonhos traídos, de ego desfeito à força de catanadas, soube erguer-se bem alto à luz democrática, para logo reposicionar seus interesses de molde a reintegrar o património entretanto nacionalizado à ordem e posse de seus antigos senhores, tendo a oligarquia do regime anterior mantido os tentáculos disseminados de seu poder bem activos na realidade socioeconómica portuguesa. Bem cedo e seu poderio suplantava o autorizado pelo estado ditatorial anterior. Mas eram os mesmos nomes, os mesmos interesses esquivos e egoístas, a mesma filosofia ladra e baronesa, fruto de quem roubou e estropiou durante gerações o povo exangue que ainda hoje explora.
Era a hora em que as hienas e outros necrófagos nos rodeavam, alertados pelo choro das crianças e os gritos famintos dos reformados. Fazia fila nos Centros de Emprego a força laboral no auge da sua vivacidade, enquanto empurravam os restantes para um futuro decalcado de uma má série B de espionagem. Como num filme de ficção científica sobre um futuro regulado por máquinas ou oligarquias poderosas e mafiosas, assim era e assim fora assumido. O país em saldo, o povo moribundo que teimava em sobreviver. Um deserto climaticamente agradável para ser vendido fatiado aos senhores nórdicos e insulares do turismo de saúde. Afinal, o português faz um bom libré, depois de bem limpo e escovado. De facto, cada vez isso seria mais difícil, com a tendência de emigrar para procurar uma vida condigna, a população activa debandava, deixando para trás velhos, doentes, crianças e uns miseráveis políticos para se governarem à sua custa.
Afinal, a realidade era assim... Depois das empresas voluptuosas partirem para a Holanda e outros destinos fiscalmente paradisíacos, cabia agora a vez dos cidadãos particulares encetarem a via da fuga de capitais para o estrangeiro, assegurando-se que escapavam à rapinagem exclusivista do desgoverno da Nação que, para continuar a usufruir de benesses e prebendas para si e para os acólitos que ia introduzindo com valentia ao peso do estado, logo e prontamente saqueava tudo o que mexesse, excluindo os capitais fruto da especulação e da acumulação de capital. Assim, neste país, quem trabalhava era castigado, em honra dos endeusados investidores. As despesas subiam à velocidade da Luz, e mesmo com toda a sua boa vontade, parecia que tudo mudava antes mesmo de terminar uma frase.
E a crise que se tinha instalado subrepticiamente no mercado imobiliário americano, não contente com o facto, cedo se multiplicou e aparições apocalípticas nos diversos campos de actuação das personalidades mercantilistas, arrojando na sua queda milionária e escroque todo o produto de décadas laboriosas de aproximação societária à equalidade. Também tal não seria problema seu, e nada do que dissesse poderia alterar a noção já instituída de que a culpa de tal ter acontecido residia, não na inalienável ganância porcina dos bancos, mas sim na suprema gula dos aprendizes de feiticeiro financeiro, não sendo mais que simples cidadãos com ensejo de crescimento pecuniário, para o qual, o status é mantido pela demonstração de poder económico, ao invés de sapiência clarificada.
Confortavelmente compenetrado, na terceira fila do auditório, o jornalista exasperava. Era fácil apontar o teorema discursivo, difícil era esperar pelas próximas palavras. Tinha adoptado um sistema de escrever apenas três palavras de cada vez, mas desistira quando já não se conseguia lembrar da primeira. Pausadamente, o fio condutor que se ia desenrolando à velocidade de caracol dava para preencher com temas musicais da época natalícia, não fossem os sinos suplantar o volume oral apresentado. Já tinha fumado quatro cigarros e bebido dois cafés, mas a frase ainda ia a meio. Aproveitara para dar um salto ao aeroporto e comprar uns bilhetes para Nova Iorque, para onde iria passar a Lua de Mel, caso ainda casasse na data marcada. Afinal, só quando o discurso acabasse é que poderia enviar o artigo para a redacção. Seria antes de atingir a reforma? A questão mantinha-se. Voltara atrás e comprara uma bengala, só para o caso...
As palavras iam sendo arrancadas a custo... o crescimento económico seria rápido, o que fazia supôr que, caso acontecesse e fosse este senhor a noticiá-lo, quando terminasse já estaríamos em nova bancarrota. De facto, parecia-lhe que cada palavra realçava o hiato entre a anterior e a seguinte, indo despertando o auditório, mas por pouco tempo. Entre antigos deputados, meia dúzia de jornalistas (aqueles que ainda iam podendo trabalhar) e uns reformados que apenas poderiam justificar a sua presença pela senha carimbada que facilitaria a entrega atempada da compensação reformatória, até as moscas, mais livres que os humanos, já tinham abandonado a sala e atacavam já o beberete preparado na sala do lado. «As moscas não tem etiqueta» lembrou, «aliás, como os políticos». Mas haverá espécie tão necessária à vida como o político? Claro, dirão alguns, até as varejeiras os suplantam em importância e beleza nas cores vistosas que exibem, ou pelo menos, não enganam tanto
Em todo o caso, o títere ia formulando frases que se penduravam nas beiças carnudas e a custo iam desfilando as mais variadas paisagens mentais, tendo por base o tema desértico. Quente, gelado, austral, polar, as cadências de diversos tipos e fenómenos de invariável morte aos pés das forças dinamitadoras da Natureza. Como a Lua, o Espaço sideral, alegadamente estéril, ou com uma contagem de espermatozóides insuficiente. Há quem afirme que tal deriva de sua órbita elipsal atravessar a nuvem de Oort, que deixa a Lua completamente efervescente, e que ejacula longamente durante essa fase. Depois, por entre as crateras da superfície, vai atenuando a ideia obcessiva com jogos de dominó e ténis de mesa, a solo, porque nessas coisas a Terra tem muito mau perder e pode-se zangar com a Lua e isso é coisa que ninguém quer, nem os lunaticos e esses, todos sabemos, sempre com a cabeça na lua, ainda trocavam os pés pelas mãos.
«Nádegas infernais!» Subtraía-se ao ambiente obnóxio, mesmo não consciente e denodadamente deixava passear o olhar pela assistência, por entre as reticências que se repetiam. «Pensava que aquela já tinha morrido»... «Aquela plástica deixou-a que nem um pires de tremoços»... «E lá está aquele velho execrável a simular que cospe a dentadura enquanto tosse, só para se aproximar de umas pernas cruzadas até à cintura». «Malandro do velhote, húbrico...». Mesmo assim, era fácil aceder ao discurso, tal era a demorada explanação e a plasticidade dos pensamentos que enxameavam durante os tempos mortos era tal que se apanhava por vezes a enxotá-los (gesto que disfarçava dizendo que eram moscas), mas ajudavam-no a preencher as lacunas de sentido, pelos menos representando a pausa por cores e os sons, monólitos que zunem e vibram como almôndegas.
E eis que irrompe, em larga cavalgada, um armadurado montado em fulguroso alazão, de lança na mão e penachos no elmo, de escudo impecável, partido, campo azul com cadernas de crescentes em prata e alvo com flores de lis douradas em aspas postas, encimado por uma estrela de oito pontas. Trazia uma donzela desarranjada, seios leitosos de mamilos rosados em riste, esvoaçando a sua longa cabeleira arruivada pelo salão onde decorria o evento. Galgou as últimas filas distribuindo espadeiradas aos tortos e aos mais direitos e, num ímpeto viril perfurou a parca protecção toráxica do ainda mais parco comunicador, espalhando as suas miudezas pela mesa, entornando as garrafas de água, esparrameando a triparia quente, fumegando, escorrendo aos soluços meio solidificados até ao chão axadrezado. Antes que tombasse, numa tentativa de fôlego vão, com o tronco fortemente pregado ao estofo macio da cadeira forrada a cabedal italiano, com um simples e não sei em que sentido, limpo golpe, lhe fez saltar a cabeça dos ombros, a qual foi prontamente agarrada pela peituda ruivaça que se penduravanas crinas suadas do equídeo. Ou então a mão gigante e peluda de um deus misericordioso nos acudia, destapando um invisível ralo que separasse a realidade dos universos alternativos e pouco ecológicos, sugando o orador e uma grossa fatia da plateia que agonizava, mas continuava acenando mansamente a mona, engolindo caramelos narcotizados por substâncias criadas poara fins diversos e divergentes dos utilizados normalmente pelos púberes pós-modernos e aplaudindo ao sinal combinado previamente para não criar ainda mais intervalos na composição da oratória. Ou um Patriot desgovernado, lançado contra o Iraque em 1991, desse cinquenta e sete voltas ao planeta e invadisse o salão pela janela estilhaçada, farpas e vidros em perspectiva explodida esfacelando as carnes macilentas e libertando os corpos de seu sangue exclusivo.
Mais valia terem mandado vir um alfaiate, que este discurso não é lido, é cosido. Assim ficava alinhavada a corrente de pensamento original. Desfilavam, defronte de seus olhos redondamente abertos, estupefactos, espiões massivamente intrincados em personagens chaves do poder, segredos obscuros e tenebrosos sexualmente transmissíveis e de branqueamento não dentário, enquanto espadartes lutavam com caravelas pelo controlo das linhas de costa dos Camarões. Os lavagantes tinham criado uma coligação couraçada contra os gastrópodes que ocupam nichos de mercado asiático que lhes assentam como uma luva quitinosa, acompanhantes coquette acenavam suas plumas carmim antevendo cabarets carnais com grande audiência. O combate entre uma lesma e uma minhoca tibetana de anel dourado transmitido, esta noite, em diferido mundial, em prime time. Uma lágrima ridícula rebola nas macias faces de um golfinho suspenso numa baia humidificadora, enquanto é borrifado por uma solução salina, versão diminuída da essência do Oceano subnutrido.
Sentado, o orador deixava a custo saír a última palavra. O discurso finara-se. Se houvessem perguntas, ficariam por resolver. O dia passra, a noite roncava já pelas colinas densamente iluminadas da cidade, por onde já pululavam os noctívagos e ele sem o jantar feito, a descongelar desde a manhã ainda escura, mal saída da madrugada, na bancada de cozinha, sobre um prato de sopa. «Língua», pensou «de perguntador... ou então deste desgraçado com saliva em processo de secagem ao canto da boca, lambendo a esquina dos lábios com uma língua bífida e ressequida, com ela lambendo igualmente os bolsos, quer os cheios quer os vazios, de todos os que passasse, pela rua, de olhos ávidos escondidos no fumado do Audi do povo. Mais tarde ioria proceder a mais uma alienação patrimonial de todos os nativos, salvaguardando sempre uma promoção laboral póstuma e, oferecendo aos milhões que contribuíram durante décadas a fio para empresas estatais pela venda das mesmas um colossal nada e, se estiverem a pedi-las, mais um fulgurante discurso. Haja tempo para isso...
«Seria sempre outro dia» assumiu «outra oportunidade, para a qual virei equipado de Sudokus, palavras cruzadas, um gelado de quilo de baunilha e uma caixa de fósforos para fazer um modelo da Torre de Belém.

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