Para onde ir contigo? Para onde te levar? Uivava à lua sem menção de teu corpo, nú e frio, apascentando pensamentos na nocturna sublevação do corpo. Passearias comigo em veredas que a primavera visita apenas quando se lembra do mundo? Calcorrearias as serras pedregosas pela ânsia de meu espírito, tal como eu prescruto na imagem das estrelas os sonhos que depositaste numa conta a descoberto? Serão meus esses sentimentos que se enlevam na plácida candura dos dias que o Outono murcha? Serão meus os cálidos beijos que perdi naquela noite chuvosa, em que as promessas caíam mais céleres que pingos unilaterais pluviosos? Seria minha, a chuva? Ou seria eu a precipitação oblongada que arrefecia a atmsfera dos serões à lareira a vinho regados?
Que sobrará de mihas memórias em mim? O que sobrará de mim nas minhas memórias? E o tempo que apaga as ligações neuronais e estabelece novas ligações sinápticas, mais lentas e paralelas. Onde te encontro nas parábolas que o céu descreve em línguas mortas?
Onde me perco? Na distância dos parágrafos suspensos... na tragédia de quem espera um navio naufragado. Por onde minha vida me leva, que não paguei bilhete?
Para onde te carregar? Levar-te-ei em ombros ou ao colo? Às cavalitas de minha infância, ou na virilidade do meu forte abraço quente?
Serei eu frio e, como morto, deitado a teu lado na irremediavel noite em que os sonhos povoam as mentes acordadas, fugindo dequem dorme?
Serei eu a noite que se alimenta dos últimos suspiros do sol e que extrai sua calorosa dádiva da terra que respira? Serei o manto que cospe lava do seu abissal oceano? Serei a rocha que te segura as onterias, o rio que atravessas quando quero estar sozinho, serei eu o dia e o sol e a vontade de os ser?
Não mais que pensamentos e emoções colados com o cimento do tempo e do desejo, num corpo bípede e atravessado por veias estonteantes e cabelos ruivos que esvoaçam ao luar. Serei eu calvo?
As palavras que custam a despregar-se da garganta em momentos de abstracção, qe do encéfalo orgão sobressaiem em mensagem luminosas os atalhos cépticos que o pensamento outorga, palavras que são mais que sílabas desconexas cinzeladas em grupúsculos, mais que a sua identificação sintáxica, as palavras que sou são denominações, escondem interpretações várias, ocultam paralelas injunções e raramente são o que aparentam pela distorção da mente que as compõe, mas mantendo-se aberto à mente de quem as lê e se demora nelas mais do que o tempo de seus olhos assimilarem seus caracteres.
As palavras têm carácter, e alma. Ao se desvirtualizar as palavras é como se exércitos de milicianos carrascos, de túnica como a noite e negro capuz arrancassem a verdade às mesmas, lhes confiscassem a identidade, mofassem de sua irrepreensível naturalidade e as acusassem dos mais aterradores atentados à Humanidade.
Mas, e quem usa essas palavras, fora de seu contexto. Se seu objectivo é burlar as consciências, sua palavra se esgota assim que é expressa, morre, pois sem sentido não pode viver. Se a palavra é adulterada para preconizar alguma alteração inconsequente ao seu modus vivendi et operandi, soa a triste, soa a traste.
Mas quando, pelo pendor que a poesia dota o homem, a palavra oculte outras leituras, então, é uma festa nas clareiras da floresta, pois parte à descoberta, o homem, do homem que as dita, e encontram-se, por vezes, nas raras esquinas que a comunicação instantânea permite, ao reconhecer o segredo justaposto, tantas vezes anunciado, e um perfume estival percorre as audiências, e sente-se um paraíso odorífero, qual odor de santidade que resvala numa sensação de pertença inquestionável.
Serei eu a língua que mordo? Serei os dentes que se cerram ao chorar? As lágrimas que se desprendem das globusidades córneas?
Não sou o que pensas que sou... não serei sequer o que penso ser. Mas um intermitente espaço contíguo e comunicante, algo que permeie a realidade e me reconheça como, de facto, sou. Serei?
Serei sereia, se rei o queira, sorrirei pleno como o sol no zénite, pois quantas vezes um sorriso nada mais faz que camuflar a intensa dor que viver me traz sofrendo. E se choro, não serei mais sensível ou menos forte, apenas me aproximo de mim mesmo e analiso, avalio a minha dor, passo-a por um detereminismo que a capacita como real, e aí a assumo, derramando das lágrimas que guardo para certas ocasiões. Mas, por rir, serei um pateta alegre? Tristezas não pagam dívidas e nunca vi um sorriso obter crédito. E será o meu sorriso detentor de algo mais que um ligeiro encolher de ombros? Não comunicará ele na linguagem simples dos pássaros que nem sempre a paciência nos reza na mesma bacoca alternativa, do esgarentre suspiros profundos de sa+iência a falta que nos faz a jumência? E não será essa jumência que nos mantém cativos, não de amor, mas de fé e bolinhos de canela?
Quis saber o comprimento de onda de um abraço e medir o tempo com uma vara verde, apanhada num caniçal mergulhado. Perguntar às estrelas o melhor terraço para jantar e colher flores, questionar aos barcos que encaixam nos jardins, acoplados por sua vez a edifícios de escritórios subalugados, qual o sabor esquecido na receita da bola de berlim, que não há creme que chegue a lagartixa, nem mala de senhora que volte a ser jacaré. É erto, e nem sempre está aqui ao pé.
E não serão já horas de chamar a abóbora? Serei apenas um vocábulo interdito, um retábulo pintado de novo e exposto às arrecuas, um indefectável ser que defeca como os outros, não serei eu como tu? E não serás tu, mesmo assim, um eu que se encontrou em ti?
Não seremos apenas experiências que computadores galácticos armazenas em memória RAM? Seremos binários num ecrã, piscando e ululando como símios superiores nas arborícolas e densas selvas tropicais, ou apenas símios perdidos em selvas densamente arquitectadas, rodeados de roedores e um ou outro rodoendro.
De novo, primo a questão que me move... Para onde? Para quando? Para como?... Serei.
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