quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ó Jumento do Estado

Hoje o meu sujeito passivo acordou todo escavacado. Agora, parecia que não havia mês que não levasse uma porrada. Lavou a cara com água fria e, após os considerandos normais ao início de cada dia, saíu de casa.

Pelas escadas, virou-se, de si para si, para o cidadão, que estava com um problema de (di)gestão e perguntou: Também vais ao enterro dos ossos da democracia?
O cidadão queixava-se: -Se pelo menos tivesse uma personalidade jurídica que se aproveitasse...juro que não ficava assim.
- Pelas quinas de meu peito e as longas barbas de meu avô. Então andámos a distribuir porrada de meia noite durante mil anos para assim sucumbir, como um pedinte, um indigente? Não há quem ponha mão nisto?
Atravessava a rua pela zona demarcada, enquanto um irritante aviso sonoro publicitava que a panela estava cheia de pressão.
A entidade histórica declamou: Portugal já morreu, as quinas quinaram. É apenas o processo de putrefacção inerente a algo que esteve vivo e finou-se...
- Como a democracia, e os Direitos do Homem, ou as convenções...- assimilou a consciência política
- Pavões bailando em salões de chá, maniqueísmos e salamaleques na Terra da Barriguinha Cheia!- escarneceu o poeta: Sendo o sonho que comanda a vida, há-que fazer uma revisão à direcção assistida do veículo, pá!
- O Reino de Deus está próximo, irmãos... andamos todos com o Valha-me Nossa Senhora na boca. Que Santa Dívida nos proteja.- Isto dizia a minha entidade espiritual, que já há muito alertava que a coisa andava mal.
No metropolitano, já vendo aproximar-se a minha força produtiva, ainda foi sublinhada a premência de uma solução pela via dialogal com o autista do manda-chuva.- Digam-lhe que lhe parto os dentes
O meu lado profético, já sentado em volta de uma circular e banal mesa de café, admoestava: - E para o próximo ano, nem vos passa pela cabeça...
- Não passa na cabeça, porque não tem bolsos, mas o Fisco vai-se enfiar em tudo o que é buraco (menos o financeiro, claro, que esse é dos amigos), respingou o meu economista camuflado.
Aí, a minha identidade sexual sobressaíu do burburinho que reinava entre os presentes e, insurgindo-se, inflamado, exclamou: Alto aí, que me aleijas! Não estou acostumado a cultivar determinados hábitos concuspiciosos.
A minha naturalidade, choramingou... «Se, ao menos, tivéssemos um lema do género do «Yes, we can!»
- Do Obama?- perguntei.
- Não! Do Bob o constructor... - atalhou a minha criança interior. «Disparate, o que não falta para aí agora são trolhas com espaço de de manobra temporal... já a massa, essa...» - ironizei, do fundo do meu revolucionário interno.
Não estava a ser optimista, confesso, mas, como poderá compreender, nasci com um instrumento que não só traduz a torrente de informação sensorial fornecida pelos olhos, ouvidos e nariz, tudo analisa, avalia e convém que chegue a conclusões (há quem chame cérebro, eu prefiro falar de consciência, cérebro qualquer idiota tem...).
- E, depois, é o que dá, termos oportunidades suficientes de expressarmos as nossas opiniões... direito de expressão, não é? - era, sem dúvida, o expressionista abstracto em mim que discursava.
Já pelo passeio calcetado, só comigo como com a minha comitiva, neste périplo jungiano, refere ainda o sentido ético
- Mas desde quando é que o direito deixou de o ser e passou a privilégio? Então e os deveres e obrigações das outras partes, dos outros lados da barricada? E o Estado Democrático, e a sociedade, e as empresas, neste espartilho metidos, para onde anda a ser transferida essa gordura toda que temos ouvido falar durante tantos anos, que não há quem a afiambre forte e feio?
E assim, o eu trabalhador por conta de outrém, indago: «Mas eles pensam que eu ando a roubar por conta própria ou fardado e de chapéu engraçado a atacar na via pública? Eu trabalho, sim? Agora, anda tudo ao mesmo, mas pôr mãos à obra, que é bom e sai barato, nada... É que eu não aufiro nada para ir trabalhar, fica lá todo, ir, vir e comer, e o resto? Querem que eu viva de quê? Lamentações governamentais? Dão-me azia, essas lágrimas de crocodilo...
Era altura do meu sujeito passivo não descontar acima das suas possibilidades, e se os reformados estrangeiros podem ter um enquadramento de dupla isenção fiscal, porque é que eu tenho que ficar com duplas tributações fiscais em cima umas das outras. Haja apetite, porque dinheiro, não há...
É como se tivesse de me abrir a uma orgia confiscatória a torto e à bruta, e tudo o que mexe, apanha. Olhando à volta, como tudo se torna caro menos aquilo que é meu...
E ouvindo as multidões a gritar nas ruas ou, em surdina, a sussurrar frases revolucionárias e estremecedoras, continua a caravana insana o seu caminho, ao qual nos atrela, envolto numa escatologia financeira.
A minha memória aponta as percentagens silenciosas da abstenção eleitoral. Soma-lhe os votos brancos e nulos a capacidade algébrica, subtraiem-se dos restantes os votos oposicionistas, fraccionam-se os balanceantes e indecisos destas coisas e fica... uma miséria de vendidos que mandam em nome de todos os outros.
- E a mãezinha não os ensinou a respeitar os outros?- Nunca! E de cada vez que, em criança, sentia alguma compaixão a crescer no seu peito, logo, voluntariosamente, ela lhe atribuía um valente pontapé nos queixos, que o virava, e cedo aprendeu a não se meter nesses assuntos extranumerários.
- No meu entender, andamos todos a usufruír do que é bom. Somos uns bon vivants, marialvas caloteiros, não se vê bem? Senão reparem: isso de comer todos os dias, é um privilégio. Trabalhar? Outro... Folgas, então, e descanso e salário, é uma exploração de tamanha regalia, andar calçado não é para todos e o papel higiénico é um artigo de luxo. Ser reformado é uma mordomia e estar doente é crime. Se estiver reformado e doente ao mesmo tempo, é um parasita.
«Não há desempregados, há é calões. Trabalho não falta, falta só quem o queira pagar. Se possível, condignamente, se não fôr muito Segundo Mundista. Mas já subiram o ranking da nação? Lixo és, escumalha serás, assim como dividiste o Mundo, só, na miséria, morrerás.»- atalhou o revoltado.
Nesta altura, no meio da rua, já reinava a balbúrdia sinfónica. Era o pai, o filho, o neto, era o estudioso e o Marquês do Alegrete, o consumidor e o consumido, nunca almejara, nem sequer prestava tanto valor quanto isso, nunca crescera para se tornar consumista, assim ficava, em austera subsistência, ao qual a actual austeridade apenas se apresentava como uma ligeira queda gradativa.
Todos vociferavam. A algazarra já ia no adro, e eu... calado. Apenas observei, já à funesta entrada onde deposito meu tempo e corpo durante as horas laborais, baixinho: «Eu já vos tinha dito! Eles só querem guito!»

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