quinta-feira, 22 de abril de 2010

Pedala, pedala

Por vezes, olho de cima, lá do alto, do castelo entremeado na montanha, através das ameias, local íntimo onde observo a minha vida e deparo-me com imagens hilárias.
Pois que me (a)parecia, sentado no selim de uma dessas bicicletas de manutenção. Sim, dessas sem rodas. E pensei: Há sempre algo de errado com essas coisas. Puseram-me em cima deste objecto e dizem-me: pedala, estúpido! E eu pedalo, realmente, que nem um deles... mas não saio do mesmo lugar. E é como um sonho, daqueles que estamos a correr mas não conseguimos sequer andar, e suamos, como que pisa ovos e almofadas, como quem trepa paredes e cai de cómodas abaixo, espalhando sabe Deus por sabe onde.
E de facto assim é, por vezes, a minha vida. Um estúpido dum objecto que por muito que se pedale, não se sai da cepa torta, cepa essa partilhada, não obstante, por tantos quantos os estúpidos que, como eu, pedalam sem ver mais nada da paisagem que suor, fazendo quilómetros sem avançar um milímetro.
Além disso, estas coisas são, afinal, tão inúteis como outras que vão surgindo, ano após ano, no mercado, entrando nesta secção tão politicamente correcta de coisas sem utilidade abrangente. Falo dos cafés descafeínados (preparem-se para os chás deschazados, são cá uma chazada), da cerveja e champanhe sem álcool (pelamordedeus, quem, no seu perfeito juizo, bebe coisas destas sem ser para se alcoolizar), do sexo virtual (no comment, antes o virtuoso), dos cigarros light (são como os outros, só dão luz à noite),do leite de soja (eu juro, por todos os santos que se vir um feijão de soja com tetas a dar de mamar a outros feijões de soja, eu pergunto-lhe de onde é que lhe vêem os bifes e chamo-o mamífero), e, claro está, das passadeiras e bicicletas de manutenção, dos gelados com sabor a feijoada e bacalhau com grão, pedras de estimação (sim, que também eu tenho as minhas) enfim, toda uma panóplia de embustes na mesma linha.
Se um babuíno dispende 2 horas a procurar os seus meios de subsistência, deixando-lhe um total de 22 horas para catar piolhos, chatear os outros elementos do bando e dormir, como é que um ser inteligente, como nós, passa 10 a 12 horas a trabalhar e a ir ou vir do trabalho, 2horas ou mais a comer, deixando-nos umas meras 10 a 12 horas para fazer tudo o resto (catar piolhos, chatear outros membros e dormir?...
Bem, vou pedalar mais um pouco, a ver se lá chego...

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