Servirá o presente para balizar o leitor entre as esquinas do que surge representado trinchadas vezes em pincleadas desvairadas, ajudar a identificar os crivos etéreos que coadjuvam a realidade como se apresenta, vestido de noite e singular pendente que lhe arrebanha, ao de leve, o seio maroto e de tez aclarada pela sedentária rotina, em clivagens e rupturas imparáveis na inconsequência sempre peregrina que a caracteriza e empresta não só a graça, como igualmente a ansiedade fatal que colhe a mente humana na sua tentativa de apropriação, manipulação e renovação ou reconstrução.
Se por vezes podem qualificar certos ditames como arbitrários, com um pendor marcadamente alheado ou notoriamente aleatório, temos de encarar a fluidez da palavra escrita como um passeio matinal, olhando o sol espreguiçando-se languidamente pelos cumes despidos das montanhas, embora também possa ser classificado como uma caminhada vespertina pelos bosques, quando a escuridão ganha domínio sobre o céu que perde a força luminosa, num recolher mudo e frio, que deixa um aviso violáceo à vida da chegada galopante da noite, com seus demónios montando estrelas inquietas.
Ou como um terno esculpir no mármore delicado, a forma de lascar cuidadosamente a madeira alisada, o guiar lento das mãos experientes do oleiro, esculpindo à razão partilhada entre o desejo do artesão e a alma do barro. Como a lenta construção do invúlucro do caracolídeo, etapa a etapa, no mesmo modelo e intento, endurecido pelo tempo e o arrastar egoísta desenhado ao pormenor babado e milimetrico, em defesa de um modo de vida campestre e mais ligado à livre expressão da natureza pelo ser vivente. Não será também nubente, nas bodas eternas que a vida nos presenteia?
Entendê-lo como o planar falcoeiro, espiralando em ângulos cada vez mais apertados até se abater, garra furando a carne, sobre o alvo determinado. Como uma migração oceânica, ou uma manada de ruminantes pensamentos que se abandonam à reflexão pelos prados apenas divididos com o trinar perdido das aves canoras que esvoaçam, alegadamente livres. Encará-lo como a essência de um cardume ou de uma camada de gnus que pisoteiam o solo e levatam turbilhões de poeira pardando o ar, cascos violentos na terra seca. Como um anel de Saturno, o movimento da Lua em torno da Terra é retratado pela manada que se dessedenta no lago.
Ou como o gorgolejar interno de um copo de vinho a ser sedentamente esvaziado de sua esência e corpo de manifestação, até nada sobrar dele que um odor tanino com pormenores frutados na sua atmosfera endógena, acompanhada de um escorrer que cai como uma membrana rubra, mal dando para emprestar ao vítreo invólucro a opacidade que se adivinha, rubi transparente que se insinua, romântico e impúdico, extrovertidamente deglutido em amena cavaqueira despreocupada em serões pontificados à beira de uma lareira tímida e bruxuleante, sobre um fundo sonoro de harpa indelével que seduz as mentes em oitavas e bemois.
Deito à terra as estrelas que ponteiam o céu, deposito no mar as flores que caíram, ainda vivas, dos sonhoas das cidades, onde estavam encavalitadas em canteiros acimentados. Saúdo sua tenacidade indecorosa que rompe os condicionalismos desoladores do asfalto e que surge à janela, atravessando as paredes devolutas de antigos palacetes burgueses, perdida sua glória e motor interno, afinal, as pessoas ilustres desconhecidas que hoje povoam fantasmagoricamente escadinhas, travessas e becos, acompanhando os trauseuntes e turistas nas suas deambulações incautas, como quem vela por aquilo que não lhe pertence.
A minha sala está toda catita. Bonita e arranjadinha, quase confortável. Só lhe faltava um inopinado ambientador, uma leve brisa marítima previamente desumidificada, um bartender a servir martinis e outras beberagens civilizadas ou mais exóticas, para cambiar em combinado trapezista com uma tailandesa que faça umas massagens fantásticas. Agora, o sol adentra pelas amplas janelas e brinda-nos com sua presença tão amiga, fazendo-se convidar para o almoço que se pretende saboroso e recatado, na companhia saudosista de um ex-líder síndical e de uma copeira abandonada em pequenina à soleira solitária de uma porta de Lisboa e de um embaixador da estepe siberiana, vestido a rigor e montado num ginete.
Tudo dependente de conceitos que funcionam como degraus, plataformas que vão dando os braços e controem uma muralha intransponível de pensamentos que se passeiam como molhos de balões presos por uma corda fina de consciência que os interliga e os faz comunicar com o emissor camuflado, digo fina, maleável, com uma característica de tenacidade, pois que se tem de dividir, digladiada entre a posição de partida do elemento dedutivo, como do trajecto, meta e objectivo a atingir, não deixando de ser forte e até intrínsecamente densa na sua influência, por vezes sofrendo dolorosos desvios, necessários contudo à prossecução efectiva da dissertação eleita pelo momento, sempre diferente, pois que inserido numa contínua metamorfose.
E há uma desigualdade estrutural que teima em manter-se, não obstante as críticas ao desequilíbrio daí advinte, é notoriamente uma estratégia que se demarca da vontade geral de assimilar o mundo sem a sofreguidão desmedida actual, num laissez vivre mais oportuno que o laissez faire que tem caracterizado certos arrojos societários, como se tudo não passasse de um gigantesco laboratório sociopolítico em que, como ratos somos obrigados a seguir determinadas direcções pré-aprovadas por comités tirânicos munidos com o paternalismo oco e supérfluo de quem decide só porque pode, insensível à razão ou emoção. Cada teoria desenvolvida teria, por esse motivo, amplo espaço de manobra para se afirmar.
Cabe agora saber, noves fora nada, em que aspecto é que a textura silábica sobressai da, contabilizemos assim, lisa face polida e artificial da realidade, onde se notam as inoculações de botulina nos cantos arreigados das bocas moles e decrépitas, onde são visíveis as aplicações generosas de baba caracolina de fino traço e colheita extremosa de tão cremosa, uma realidade lipoaspirada, retocada à laia de bisturi, arrendada a sua fútil imagem nos esteticismos de bairro e unhas de gel, coquette retro com laivos inusitados de sobranceria, indo tantas vezes à ficção beber a alma que se lhe escapa por entre os apelos publicitários ruidosos e cintilantes.
Por entre as parcelas do dia, quais clareiras abertas no laborioso e denso sentido vertical da imposição vegetal e frondosa a que poderemos chamar floresta, janelas maduras pendem e nas soleiras despidas de preciosismos, apenas rosas que acusam, sanguíneas, as memórias encaixotadas no sotão empoeirado de eras jactantes e passadas, num misto polinizado de arcanídeas entabulações que travam como cortinas de veludo e a custo, a luminosa espada que do sol se desprende e as trespassa, fustigando nos seus intervalos funcionais a resistência efectiva que afronta os poderes erosivos que o esquecimento impõe.
E há quem, de facto, não queira nem saber das ditosas nuances com que se dotam as palavras aquando do seu desfile primaveril. Como se adequam e ligam, se encadeiam de acordo com normas instituídas pelas leis da física, como se interpenetram em afunilados ângulos, como lagartos expostos ao sol, elementos químicos que se relacionam anonimamente, mas nunca de modo algum de forma anódina, formando numa intrincada tecelagem urdida com ufana oralidade e substancial comportamento analógico e analítico das causas que originam o surto o aparacimento de determinadas identidades em definidos hiatos temporais em que se afirmam, erectas.
Provavelmente, por vezes, é como se distendessemos um painel de azulejos colocado numa parede infinita, onde a gramática do revestimento edificado, peça a peça, insidiosamente se assume central, pela sua distribuição densamente utilizada na composição, em vez de se perder entre outras individualidades cerâmicas, como se se afirmasse continuamente em reprodução fractal, mantendo um refrão característico enquanto rima com o som dos passos na calçada comprimida ao solo, libertando com suas arestas polidamente confinantes as razões geométricas do seu existir poético, logo, fora de considerações orbitais à matemática das soluções urbanísticas aplicadas alusivamente ao tema proposto.
Como uma definição universal que abarcasse a visão paradisíaca de uma selva que luxuriante se espalha em solo fértil e intocado e que, paralelamente consegue discernir e apontar pontos de diferenciação entre cada indivíduo-árvore, no que tem de essencial e acessório, mantendo aberta a análise das respostas estratégicas que utilizam na competição permanente que evocam resistência passiva e por vezes activa aos desestabilizadores regulares que insistem em fazer notar a sua existência, aplicando em deflorestações metódicas e com preocupação científica, fundar um novo conceito, o da selva humanizada.
E o que será essa selva humanizada? Uma selecção biotópica de elementos plausíveis de serem utilizados na indústria farmaceutica? Zonas de conforto e lazer para alguns humanos afortunados irem semeando resíduos libertos de sua funcionalidade primeva pela paisagem? Apenas para estudiosos das relações dinâmicas entre o simbiótico elenco peneirado da vida? Como que alheado da função vital e fundamental que a simples existência fora dos redis impostos pela conquista do ambiente pelo dito animal superior. Quanto tempo nos resta para domesticar a Natureza, violentar a sua inocência e fértil oferta permanente?
Fincando o pé em cada pequeno nada, o Homem cria lendas e constroi, no âmago em que os apreende, esses mitos. No seu sentir os interpreta, os vive. E representa-os em ritos exangues, a um ritmo imponderado e constante, um contínuo holocausto de si mesmo à mudança imposta pelo Tempo. Pelo Tempo, não por uma trela castradora que tantas vezes nos é imposta, como derradeira postura de controlo sobre as mentes e corpos humanos, imunes que estão as matérias constituintes dos estágios da alma para se deixarem enredar. Há. no entanto, nesse apelo sensorial e causístico, uma ambivalente reacção por parte das diversas cambiantes existenciais.
Como que anotando minuciosamente as notas musicais ou da escala dos perfumes em pequenos cadernos de apontamentos, de capa aveludada e cingida pelo tempo, em tabelas e quadros infetisimais desnudada a correlação entre as diversas linguagens melódicas que o cérebro apreende e frutifica, de cada vez que enraíza nova expedição explorativa dos significados inerentes, tantas vezes ocultos apenas por uma pequena divergência tonal, vibracional ou de índice assumido para emissão frequencial, e o universo soa-nos a uma imensa Babel sequencial que nos acode com representações de intérpretes vários numa linguagem acessível a muito poucos.
Daí a intensa dificuldade de traduzir e xavegar as ideias que fluem como se estivessemos imersos num oceano mental e que nele nadássemos, como íctios seres ou análogas entidades, em ambientadoras profundidades e correntes preferenciais, envoltos numa sinfonia a que acedemos, de quando a quando, por processos próprios e ainda mal explanados, embora já explorados, e que tentamos, sob pretextos afins, transferir, converter de modo racional ou sentimental, ou até, como Prometeu, furtar, aos deuses plenos, os pequenos instantes de epifania em que comungamos, mesmo que por breves momentos, o nosso lugar na complexidade mirabolante que é o Cosmos..
Gritavam «Basta!», as paredes brancas, numa negra e desesperada exclamação. «Espero que não seja para mim.» Penso. E não estaria à espera que fosse. fosse lá como fosse, pois que seria assaz difícil conciliar-me com qualquer interferência despótica sobre outrém, não obstante poder, por vezes, confesso, imiscuír-me subrepticiamente em assuntos para os quais não sou tido nem achado, mas tal apenas resulta de uma capacidade mediúnica surpreendente, que me coloca em confraternização permanente e, embora assemelhando o meu estado a uma relevância solitária, cedo surpreendo com diálogos em mesa redonda com um séquito impressionante de sumidades mundiais em diversas áreas do humano saber.
Por estes e outros motivos, cedo esclareço que a presente divagação não ocorre avulsa na perspectiva histórica em qua nos encontramos, numa charneira que cheira a mijo como uma trincheira, aguardamos a ordem que nos fará marchar para sucumbir pouco além, pois é no Inverno que a Guerra reconhece a sua própria idiotice e irracionalidade. Na Primavera desabrocham movimentos populares que procuram abraçar a Liberdade e a Democracia. No Verão as mais sanguinárias atrocidades semenizam o estio. No Outono, os regimes políticos caem, fruto de sua própria perversão e caducidade, catalisados pela sua própria corrupção e decomposição, separatismos fendendo a uniformidade apenas relativa das constituições sociais dominantes.
Decomposto o sacrílego florilégio que se desprende da inamovível absorção pelo despontar orvalhado, pétala a pétala, do labirinto imaginário que é a alma, fora das construições ficcionais a que nos agarramos quando não queremos reconhecer outros pontos de contacto entre o que nos move e o que nos faz mover. Alimenta ainda a ideia de ser um gomo cítrico da lua, ou a resposta que as estrelas dão, encriptada, através do manto escuro, fluídico e vacuoso da matéria desconhecida, plasma no qual se suspendem e viajam, na impermanente tela estelar, faça sol ou chuva faça, e que ricocheteiam nas nuvens mais altas, fora de qualquer razão orbital que o justificasse.
Se há livros que mudam a nossa vida, o livro de cheques é um deles. Desde que não sofra de calvice prematura, ou que tenha cobertura ou cabimento, é um livro com uma utilidade sempre actual, noves fora nada, ter caído em desuso com novas tecnologias créditocraticas, exceptuando o seu uso fraudolento, tão conceituado como qualquer outro, o livro de cheques seria um best seller se fosse contabilizado, como o livro de reclamações (ou ralações), o livro de facturas ou o livro de receitas alquímicas dum charlatão do Martim Moniz, cura quase tudo por um triz. O que faltava realmente era um livro de instruções que explicasse, em linguagem acessível, que o uso continuado da mente para emitir pensamentos nem sempre reune consensos.
A vida leva-se a tiracolo, em certas semanas do ano, oscilando, à bandoleira, espalhando as brasas da animosidade que constitui o cerne da manifestação, feliz ou não, da realidade interior de se sentir vivo, caíndo já num desuso incómodo, isto de viver sem ser vivo, sem se sentir vivo, adiando a despedida à terra quotidianamente, como quem se senta na gare ferroviária porque aprecia o silvo das composições quando arrancam nas frias manhãs nebulosas de Inverno, emprestando à atmosfera férrea e com o sabor metálico do aço anodizado no hálito alaranjado que transpira do motor em esforço crescente, sobre os carris molhados que reflectem a verdade matinal em tom cinza e beige e despedir-se mentalmente aquando do seu desaparecimento. E, continuamente, pedalar.
À noite, meus sonhos, transportados pelo rumor das vagas que se abatem trazidas nas asas assobiantes do vento, saboreio a humanidade salina de suas comunicações, perfumado o quadro em que o esquecimento fustiga ininterruptamente as costas protegidas da memória com o selvático arremessar de hordas ondulantes e turbulentas de capacidades fisiológicas do ponto de vista das arribas infantis da investigação científica dos processos neuronais que dão azo às sinapses fazerem folgas a determinados dias de semana, maioritariamente quando os neurónios decidem dedicar-se à catarse noctívaga de seus pensamentos extenuantes, analisados à luz das fenomenais pedras de Roseta que se vão encontrando, oásis de devaneio nos jardins da cidade em rotundas botelhas de néctares olímpicos.
No fundo, cada sentença é como um faustoso banquete, a ser preciosamente deglutido com a prévia alavancagem do apetite, recorrendo-se ao uso alegórico das metáforas, mesmo as que são notoriamente atravessadas por pormenores surrealisticamente rendilhados, capacitando o teor plasmado com várias optimizações que poderão ser aprimoradas com o exercício permanente da capacidade crítica e da análise profunda e factual do exposto. Assim como exposto aos elementos, o trabalho do poeta ora refulge ora fenece, num ritmo próprio que lhe subjaz, a ele, alheio a tantas manifestações fúteis ou comodamente repetidas ab nauseum por exércitos de cabeças mal agarradas ao corpo que as carrega, sentindo de outro modo as punções que a todos desesperam.
Como uma paisagem reconhecida, interpretada e recolocada à apreensão, imagem pintada com labor e entrega, em tela de cânhamo ou linho branqueado, como o fundo basilar da nascente oculta de onde os pensamentos brotam, indivisos, transmitidos por estações intermédias entre a sensação e a compreensão, observe-se como nasce a composição, primeiro tímida, depois afirmando-se, frenética, para terminar, delicadamente dispensando os apetrechos finais que trancarão, ou o sugerem, futuras intervenções, como um torpor harmonioso e tépido de onde apenas sobressaem as imperfeições a minorar e os detalhes a aprimorar. Odes que da penugem laboriosa das mãos experientes do artista de enlevam, carregando em braços leves berços de utopias a sonhar num longínquo e estranho ponto demarcado no futuro.
É ver a construção imagética da criação do universo, assim despida no atelier criativo do louco pintado que esfrega a imaginação na tela e lhe propõe os filhos a criar. Numa orgia de estimulantes e alucinantes, em vão descobre as certezas da vida que lhe surgem, como foguetes pirotécnicos, alumiando panos negros e reconhece o cerne dos sistemas filosóficos e religiosos em sombras chinesas projectadas nas parecdes caiadas de moinhos alentejanos, vela enfunada em rotação sobre seu eixo inamovível, enquanto tenta montar Roncinante de bragas encharcadas do orvalho da nocturna índole. E, de súbito, lançar-se ao ar, pinceis e materiais, disferir golpes vívidos nas telas, manchas de cor violentamente distribuidas, num massacre em honra à percepção, culminando, em apoteose, com o amanhecer do olhar.
São assim cultivadas, não só as analogias, como as antíteses e as disciplinas orbitais que no seu processo nos surgem como naturalmente dependentes ou complementares, como quem vai raspando a superfície porosa da madeira, e debaixo de cada película anelar ir descobrindo, qual viagem no tempo, estação após estação, a importância relativa e absoluta de uma determinada identidade num determinado habitat, no qual desempenharia função ecologicamente mais viável e louvável que uma mera mesa ou cadeira que, não por desprimor à funcionalidade, perde em alma poética o que ganha em comodidade ergonómica. E, contudo, aquele tronco, outropra vivo, respirando a atmosfera leve da substancial floresta, não deixava para trás aquilo que tinha sido, mas transportava-o, em seu cerne virgem, na memória que de si tinha.
A indecisão é uma raíz caustica que dilacera, usando como sonda a sombra copiosa da dúvida, revolve o solo amargurado da realidade, envolto na senda da verdade. Não desiste enquanto a não descobre, mesmo que oculta em profundas cavernas que se afundam no seio rochoso e milenar da rocha, contorna as plantações cristalinas de quatrzos mutantes enquanto admira os pormenores arquitectónicos que a Natureza vai esculpindo, tendo para tal o tempo requerido, e deixando-a tranquilamente, no seu lento e laborioso criar, sem a intervenção ou interrupção desse bípede que, altercado, se considera superior ao que realmente é. Como um sábio que se afirma como tal para ocultar a sua ignorância, tantas vezes superior ao conhecimento que compilou, mental ou mnemonicamente, em árduos anos de estudo.
A erosão deixa na vida o degradé apenas possível pela acção continuada do efeito tempo sobre o objecto vivo. A dicotómica relação entre dois estranhos elementos. Este, não é apenas o que aparenta, mas principalmente é o que é. Por vezes, a aparência apenas surge para despistar ou iludir, são apenas ligeiros véus ou pesadas cortinas que impossibilitam a exploração daquilo que se estende, calcula-se, para lá daquela barreira opaca a que chamamos corpo. Temos de almejar ser como o fotão e o neutrino, que atravessa facilmente qualquer densidade da matéria, como quem revela o segredo que se quer oculto, como quem descobre terras desconhecidas e mares inexplorados, como quem desmascara uma conspiração de átomos que nos fazem crer sólidos. Aquilo que acreditamos, mesmo que irreal, tem mais peso que a realidade.
No Universo não há paredes, haverá, isso sim, diversos níveis de densidade ou frequência para os quais necessitamos de instrumentos de precisão para os estudar e compreender. Como absorvemos as tonalidades amareláceas e róseas que, difusas, atravessam o nevoeiro, nas íngremes ruas da Lisboa romântica, penduradas as candeias que zunem na noite e asseveram, ao longe, na noite que os montes e a distância escureceu, banhar o recortado horizonte com uma mancha tingindo de identidade cromática laranja a solidão que a Lua interrompe, bailando com as esparsas nuvens apressadas, arremessadas por ventos com cio que lambem as costas litorais, levantando a areia dunal e misturando-a com a humidade salina e fresca..
Escrever com a pena livre, a tinta que o coração verte nas páginas arrancadas à vida, com ganas de a sorver de um trago, mas dividindo-a em sábios momentos apascentados na periferia da mente. Tudo cantando num notório matraquear, como quem finamente cinzela cornucópias vegetalistas em operetas esmaltadas, brilhando ferozmente nos apêndices em que a alma se apoia para extrapolar os horizontes em que se encarna, limitado que se encontra em cada experiência singular. Como garras que esgravatam e esfacelam a realidade para lhe beber do sangue os segredos, esse sangue pastoso, pesado, que gorgoleja, lento, anunciando o bombear indiscriminado do seu motor cardíaco, desmultiplicando-se em sucessivos vasos e canais projectados para essa função distributiva.
É amanhecer a ideia, já a madrugada se despede e os galos anunciam a aurora, concorrendo com o sol pela atenção dos arredores, como quem rema no lago, trepa uma árvores centenária ou adoremece à sombra de um candeeiro, tudo percepções entrecruzadas que suscitam questões de pertinente actualidade. Neste tempo, os valores, rifados e abandonados, reassomem à margem escarpada de seus naufrágios, surgem, sem fôlego, acenando por socorro, por entre destroços, acicando a memória dos factos que transformaram honras em oportunismos, verdade camuflada entre roles de mentiras descaradas e a face oculta dos enganos perpetrados à boca fechada, conluios majestosos e assustadores, que moldam e nos transformam. Não reconheces no teor da palavra e sua nuance expressiva o hiato que revela a sua intenção?
Supôr uma palavra suspensa por molas esterelizadas, analisada através de seu sangue imorredouro, avaliadas as bifurcações que origina, pesar suas raízes e fontes geomânticas, traçar-lhe o mapa astrológico e sua interpretação numerológica e previsão meteorológica. Provar-lhe a seiva e observar microscopicamente o desenvolvimento celular e suas ramificações moleculares. Fazer-lhe uma decocção letra a letra e traçar as comunicâncias e outras libidinosas confabulações quando do encontro de povos se transcende num beijo adocicado de línguas de raíz ambivalente. Onde as palavras se reencontram no alinhamento dos corpos celestes na espiral elíptica do tempo corrente mantendo a sua anima alquímica pulsando, nem sempre flagrante, na semente da comunicação.
Apropriar-se da razão das coisas, para mais sabiamente distribuir a destruição de equívocos, tão em voga, tendo na origem de tal decisão, a desvirtuação que a linguagem sofre nos mais diversos ambientes, camaleando-se quando se bamboleia em salões de chá e baile, dirimindo salamaleques pelas célebres e vacuosas personalidades espelho de uma sociedade aparentada com um saco de lixo insuflado por megalomanias e outras manias de quem tem mais bolso que mãos e mais luxúrua que maturidade espiritual. Como um desfile neurótico de cadafalsos envolvidos em seda e perfumes, para anunciar aos outros que, tendo mais exteriormente que interiormente, não era de bom tom andar por aí, de orgão ao léu, porque além de cheiro, libertam outras metásteses insapientes de futilidade abrasadora.
Ser um alfaiate, agulha na boca, na mão a tesoura, corta o tecido gizado a branco, os panejamentos que irão cobrir o outro, também o carpinteiro, com as medidas correctas, veste o cadáver com um fato de casco de carvalho polido e envernizado, como um gourmet da haute couture desfila criações estilísticas nos becos mal afamados da velha Lisboa, por entre putas e bêbados ressonantes na noite de testículos esvaziada que ainda celebra a vinda da Primavera de 1323 como se fosse hoje, engalanada nas suas avenidas como apenas um arqutecto desmesurado pode cobrir os edifícios com mantos diáfonos de pólen seleccionado das melhores flores silvestres, num elaborado processo de fabrico, sentindo o pulso ao mercado moribundo de afctos e repleto de objectos indefinidamente fálicos na perspectiva de quem os mira.
Rejuvenescer em cada página passada, em cada parágrafo que se expande, no significado suspenso de um epílogo atravessado, um aguaceiro de advérbios cuspidos pela janela de um funicular, adjectivados ao bom gosto mediteranico, berço dos impropérios clássicos e desde sempre na vanguarda das aprimorações injuctivas com ênfase na linguagem corporal das estátuas, fascinantes peças de um puzzle de praça e chafariz, quadrada, inscrita entre as rotas invisíveis que os pombos seguem na urbe e as deambulações das folhas desempregadas aos ventos do mercado do trabalho, sem melhor poiso que os paralelos envastrados, por sorte em motivo vegetal, ou atravacando as sarjetas da rua, por entre beatas e papeis avulso, permitindo inundações de miséria, fresca e preocupante, aquando da dispersão aquosa que a atmosfera realiza quando diz que chove.
Abraçar, assim, a ordem pecaminosa do mundo, sua acepção assética e dissolvente, em sua ascéptica relação com o universo em flor, nas mãos o leme desenvolto, solto, de naus que não partem, face às que não retornam de sua exploração. Afiambrar-me ao sentido da realidade enquanto culminamos o devido apreço por todas as especificidades que a diversidade da vida nos apresenta, admoestando contra certas filosofias de engrandecer todas as nossas aquisições e conquista enquanto se menosprezam a dos outros, como se a vida fosse um jogo de cantarolar gabarolices vazias, e não uma contínua construção acompanhada, onde por vezes perdemos o fio à meada, mas não a nós mesmos, e outras, em que nos encontramos em fases disparatadas da vida, em que o leme não nos pertence, ou nele não influímos com a vontade inerente a obter controlo sobre e essência das coisas.
Observo ainda as planícies autografadas que se estendem no imaginário virtual que nos alimenta, somos frutos de uma clorofila literária que nos envolve, nos copia e cria modelos para que nos fixemos e adornemos as nossas existências com a pueril verdade que a beleza dota os nossos pensamentos, como uma equação matemática que traduzisse todas as formas comunicacionais e seus idiomas, criando assim uma fórmula digital que abarcasse a ânsia humana de se fazer entender pelo outro, como uma florescência que se esvai em odor, um rouxinol que trina sintomas filosóficos em cadência vertiginosa e sinfónica, ou o beijo delongado que as borboletas fascinam na sua cromática explosão prenhe de significados que apenas seus semelhantes se apercebem, pintados que foram pelo Supremo Criador, no seu atelier paradisíaco, ainda o mundo usava fralda.
Em tantos quantos trezentos e sessenta e cinco, por vezes seis, hiatos temporais medidos com umaminúcia desmedida, se dividem os anos, filhos dos opóbrios solares tangenciais à órbita concreta da Terra, assim, também nós nos decantamos em pequenos pedaços acantonados na sua perspectivização, assimilados que fomos pela vida que nos regula, vestida com os mesmos trajes jocosos com que nos brinda, pela manhã, olhar insinuante no sorriso eroticamente disposto de forma a realçar a sublime luminosidade de seu gesto convidativo e premente, e nos convence a saír da cama quente e embrenharmo-nos na floresta construída pelos pesadelos da noite, onde iremos encontrar a refeição fumegante, que nos credita o calor cómodo e enternecedor a que aludimos quando falamos de lar, essa concha íntima e imparcial, nem sempre com contraparte real, em que nos sentimos em nós.
Realço a cor da tua íris que me fita, um lago intenso por onde perco as definições que teço, singelas construções mentais que não resistem a um olhar perscrutador sobre o foco de sua existência, afundo-me na profundidade verraneante e oceânica que me envolve, raiada e com matizes compiladas em enciclopédias que apenas versam sobre o conhecimento da beleza e sua aplicação quotidiana pela simples razão de existires e apareceres, de sorriso em riste, oferecendo-me de tua alavra mais do aque eu posso levar comigo para meu conforto. E me espicaça a dar caça a quem decsca e descansa, pernas cruzadas sobre uma secretária desenhada, lançando aforismos aos sete ventos pela porta envidraçada do escritório povoado por duendes maliciosos e fadas conspurcadas. Existirõ fadas urbanas? Concerteza, responderão os especialistas, a fada surge mesmo quando não existe nada.
E, assim exposto ou desnudado apresentado, parto, de negro sobretudo salpicado pela chuva de fim de tarde, teimosamente se lançando ao chão como que escorrega sem saber, atento a quem passa e agarra na sua mala, como se eu fora de sua laia e lhe quisesse roubar, sequer que fosse, uns momentos de desatenção, deixá-los, na sua imberbe autodivinização, mesquinhas mentes que soçobram ante trivialidades mas que se levantam em indignação por qualquer diatribe manipulada para lhes retirar a paz. Alienado que sou de riquezas exdrúxulas e impróprias, baseadas na fruição do luxo que é uma forma mais aperaltada de lixo, e, mãos nos bolsos e cigarro baforando o arfrio, me despedir do dia, descendo a rua íngreme e rebrilhante, com a esperança de amanhã ser, afinal, como prometido, outro dia.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário