Uma frase rasgada no azul
cristalino do céu.
Uma chávena partida.
Três voltas ao bule,
a amante na sala, ao léu,
uma tarde grande como a vida.
Derrama chá ou fotografias
desfocadas no lobo temporal
e irreais no espaço
Era um ver se te avias...
Uma irreal negação do banal
trazer limpidez ao traço, baço.
Espalha-se no chão,
como vassoura ou moinho,
caíndo pelo buraco da fechadura
-como a vida está dura-
antes vida de cão.
Carne, pão, sangue e vinho.
Uma porta sem saída.
Como se fosse molusco
ou procrastinador.
Uma certeza perdida.
Eu, que o sol ofusco,
não fosse mais que um seu coador.
Ilumina as avenidas
e sobrevoa capitais
da luxúria avessa
de mindinho exposto vão ideias tidas,
colégios femininos de freiras fatais,
as paredes escavadas à pressa
em nuances rosadas de enfim.
Como numa aventura do Timtim.
Saltam picaretas em ricochete na janela...
é o universo que se expande,
e o orçamento que retrai.
Traída, a confiança escapa.
O engano espreita, escondido, na viela
ou é o mendigo que implora uma sande?
o Mundo roda, parece que cai,
escorrega como berlinde num pastel de nata.
Paraísos fiscais,
de águas azuis e palmeiras de plástico,
aguardam em postais turísticos.
A Arte do capital viajar.
Para os outros, «temos pena, não há mais»
nem se levantam valores eufemísticos.
Desde que os juros continuem a acumular...
Aqui não há miséria.
Só esperança de viver.
E nas carpetes oleadas e sujas,
os ácaros constroem fábricas de alimento
e cabelos diversos se entrançam
nas autoestradas das Baratas, sem custo
e nas retretes, douradas, cujas
reais cagadeiras vão largar seu lamento,
logo, céleres, prontos se afiançam,
o tótó e o pateta alegre com seu ar vetusto
Há o rumor que entre um e outro,
veio o Diabo e fugiu,
lá para os lados do Bugio.
Caem as capas que tapam as máscaras,
que escondem as faces que se ocultam no escuro.
Onde o significado se demite
dos ladrões que o criam.
À dignidade que se encontre, dão-se alvíssaras.
É grande o barrete, digo e juro,
essa sumidade nossa de elite...
tão burros que arrepiam.
Uma caneta solitária explode
É a tinta que lhe corre na veia.
Mais forte que o recipiente.
É o que devia fazer esta gente,
não cansada de viver vida alheia
grita para o ar: «Quem nos acode?»
Erradicados da vida, juntem-se à fila,
para que a nova zagaia corra.
E os caracois passam a zunir...
E está cara a clorofila...
Está tudo caro mas é, pôrra.
Cambada de pote que não presta a argila.
...tapetes de folhas, Outono,
e a chuva envia panfletos publicitários,
comida para canários
em suaves prestaçoes mensais.
Caganita cool em verde prado,
ou o consciente ausente do presente.
Abraça-me a fíbula que abono,
esses croupiers deflaccionários.
Fartura à mesa dos comensais,
migalhas caem para baixo do estrado
e o misérrimo corre, pois que o pressente.
Seriamente, canta-se o fado,
sempre tão desviado.
É alegre, agora, pois, quem chora,
é um povo sem voz.
Mas quem grava os discos agora,
não canta pelo mesmo que nós.
Flanqueia a codorniz,
(foi por um triz).
O telefone toca e são facas.
Horas de adormecer acordado
em vida sonâmbula e morta.
Prioridade nas rotundas às vacas,
ou o perder-se em nenhum lado,
à janela da porta.
E os poetas atravessam a calçada
como se fossem contar pinhões,
nas veredas serenas da infância nebulosa.
E, em voz de trinado ligeiramente falseada,
vendem-se apartamentos de luxo a feijões,
que a besta tributária é gulosa.
Assumo que tenho sumo.
Arrumo que há rumo.
Abaixo a sociedade de consumo!
Ainda havemos de cozinhar sopas com pedras de rins doados por voluntários.
E na ruptura trazida da verve,
trazem mercadores mambos adulterados,
já o sangue deste povo ferve,
fundidos os créditos dos enganados.
Neste ano o Natal traz barrete,
aldraba-se à vontade do freguês.
Paga vinte e sete,
mas já só leva três.
Reclamações só depois de insolvente.
Até lá, engana-se a gente.
Na esplanada da pastelaria,
esgueiram-se pardais.
Vestidos de jaqueta e cartola.
«Cala-te e come, Maria...
de manhã vais aos estandais,
à tarde, atacas na escola.»
E a vida é uma sucessão de montras a piscar...
e todos os míudos querem é jogar à bola.
Engana o destino, que o destino se vinga.
O vadio não quer a moeda só para a pinga.
Ser o grão de areia no Oceano.
A gota de água na engrenagem
do deserto impaciente da inacção.
Reassumir a essência de ser humano.
Resistir a prestar homenagem
ao crime, ao ódio, à corrupção.
Tubarões metafóricos sentados em jaguares
são como crocodilos alados que escavam,
reunidos em faustosos jantares,
o destino dos homens alinhavam.
A ética, como o polígrafo ou a consciência,
instrumentos que garantem a solidez,
em partituras sequenciais e algorítmicas.
Cheiram aos efusivos vapores da demência,
arranca o carneiro seu arnês,
em piruetas cabriolas e algo gímnicas.
Interligam-se as frequências, esparguete.
Como cordas quânticas desenrolam-se no universo.
Baionetas caladas na noite farpada...
Não quero ser vosso dilacerado joguete,
expiando o prejuízo de vosso engano disperso,
de peito aberto à sórdida espada.
No domínio do Real, tudo se processa assim.
Fito a vida com olhos optimistas,
mas a realidade assim se não descasca.
A realidade será assim, pessimista?
Sem confiança não há quem invista,
quando se conduzem por mentes despesistas,
ter em vista os lucros, não lhes escapa uma lasca,
um sorvedouro, cloaca de apetite sem fim.
No entanto, no vagar dos barcos,
que arpoam baleias imagináveis,
escorre o sangue, rubro como o poente.
Os argumentos afogam-nos mas soam parcos,
números que se contorcem à laia dos colunáveis.
Observa os lábios finos quando a boca mente.
O meu chapéu tem três bicos,
como os cactos têm picos.
Ó Malhão, Malhão!
o Ruca com a guitarra na mão.
Ó trlim tim tim, passear na rua,
pardais ao ninho, que a caravana passa.
Que adianta gritar: «A República vai nua!»,
se continuamos a pagar o pão que o FMI amassa
Á noite vamos ter um dia de sol.
E luzes no túnel são pirilampos despenteados.
Beber a vida num só gole,
travos amargos de filhos e enteados.
No comboio europeu descarrilam para o Mediterrâneo,
carruagens que não se vêem apenas gregas.
Democracia só de quatro em quatro anos
apenas para distribuir e ocupar cargos.
De resto, esquece-se, numa gaveta dum gabinete,
em algum departamento burocrata, em cave difusa.
Dá-se o projecto ao patrício, conterrâneo.
(As justiças, alegadamente,fingem-ce cegas).
E, se à Pátria afligem diversificados danos,
alavancando-se por entre robalos e pargos,
reserva-se ao povo, o rijo cacetete,
enquanto se esquivam com argumentações profusas.
Para tanta vacuidade mental,
fornece bastante verborreia, animal.
E se os sentidos são alterados,
dogmas surgem camuflados como doces para crianças.
Falam mais os silêncios que os períodos frásicos,
mencionam o que a prudência revela esconder.
Falam sozinhos em circuitos fechados,
vão acumulando, roubadas, nossas esperanças,
que surgem em campanhas só em momentos mágicos,
para submergirem, tácticos, à chegada ao poder.
Antes ser um menos Velho do Restelo,
que considerar que nascer com três braços é normal.
E o aldrabão, que se escusa por razões genéticas,
sabe que o acusam por falhas éticas.
E há um caminho que visa o lucro e amordaça o Homem.
«À mulher de César, não basta sê-lo, é preciso parecê-lo.»
E desconhecer o que se come já se tornou banal.
E não é necessário ter ambições proféticas
para ver que a história pode acabar bem mal.
Acorda para o povo que chora, para as gentes que sofrem.
Tecnocrata é sinónimo de sociopata.
Antes neurótico que psicopata.
Ao burocrata, a casa da rata.
Nas ruas ecoa o ribombar de uma surda revolução.
Não se sabe se é murmúrio, se é canção.
O tempo de o povo tomar nas mãos a sua libertação.
De chegar ao poder a sinceridade de sua razão.
O poder do Capital esbarra contra a muralha do pessoal.
Na esfera social, fala-se em concertação,
mas os lugares estão vazios, em representação.
Reformados, estudantes, religiosos, desempregados,
universitários, independentes, deficientes não sindicalizados.
Todos alheios a uma solução eventual.
É um concerto à porta fechada.
Quem está fora, não racha lenha e não interessa nada.
Na vida real as pessoas atravessam
os araútos de castanhas no ar.
Mãos nos bolsos, olhar bicudo,
rasgam a vida, alheios a tudo.
E a maratona prossegue, tostão a tostão...
vais engordando um belo pavão.
E a vida é como um poema que sublinha a intenção,
de que quem rima tem sempre razão
e que com arte se diz a verdade,
escreve-se por amor à saudade.
O que aqui deixo é fruto espontâneo,
não dlui o factor contemporâneo.
À guiza deixo um guizo
A cada qual sua maçã.
Não vá tecê-las a serpente.
Desfolha os livros de repente,
pois a consciência não é vã,
e quanto mais se cresce menos se tem juízo.
Aparentava um teor acrescido de pureza,
uma significativa expressão da beleza,
seu discurso de riqueza incalculável,
era o axioma de uma índole desprezável.
E o taxímetro que teima em transformar tempo em dinheiro.
Numa variante do processo homologador,
heterogéneas as asperezas fractais
reflectem cândidos candeeiros suspensos.
Propensa-se o investigador
a inclinar-se para conceitos actuais,
e distribui pela assistência alguns lenços.
Saltam da cartola pombas, coelhos e esquilos,
desaparecem cartas e são serrados troncos, braços, pernas.
Ao prestigiado ilusionista doi-lhe os inchados mamilos.
São as hormosnas que lhe torna as falas ternas.
Noves fora nada e a coisa estava estragada,
a cântara partida, a sopa entornada.
E a criança fugia, desabregada.
Não era homem, não era nada.
A loucura continua ser doutamente distribuída,
quotidianamente cabal e cientificamente demonstrada,
em belas equações coloridas e inúteis,
não obstante o epíteto multifunções.
Caminha vitupérios de nú tronco e voz doída
ora salta no passeio, ora rebola na estrada.
Pontificando em divergências e dilemas férteis
- mas já nem os peixes querem saber de sermões.
À hora marcada, o pombo atravessa a praça.
Pousa no verdete busto e observa em redor.
No banco, um idoso sua tarde passa,
à sombra do descanso que o que é fresco é melhor.
Relembra-se de brincar ao aro,
há muitos anos, em volta do jardim.
Na altura, esparsava-se um contínuo jasmim.
E até o sabor fresco daquele ar lhe é caro.
Por aquela janela, agora velha e tosca,
espreitara moças e as pessoas que ali escolhiam passar.
Debaixo daquele teixo beijara Elvira, meio vesga, meio tosca,
e o sabor a algodão doce que teimava em aflorar.
Por ali fez gazeta e partilhou saudosas groselhas,
jogou à bola, à macaca e tantas correrias.
Uma vez subiu ao telhado e partiu uma carrada de telhas
(por causa de uma morena que passava a ferro em casa das tias).
Depois, veio a tropa e a guerra.
A guerra levou tudo, sanidade, serenidade,
a noiva chorosa à partida, fugida da terra,
casara entretanto com um doutor da cidade.
Como uma chuva torrencial, levou tudo, a guerra.
Como quando se mistura o sabor acre do sangue com o doce da terra.
A guerra.
Voltando, seu olhar esgazeado,
tinha dificuldade em separar
as ilusões fantásticas da selva austral
no meio de bairros e quarteirões.
Andou anos medicado,
enquanto teve esperança de se curar.
Depois veio o desânimo, apertava o peito, o seu mal,
despejou vinho na vida, aos garrafões.
Agora, só e com uma esmola de vida,
partilha migalhas de afecto com o pombo amigo.
À hora marcada, de forma decidida,
pendura a sua vida no ferrolho do postigo.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário