quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Canto I

Canto de meu Amor profundo


Que clama de meu interior

E se expande no céu, semeando côr

Pois foi o meu Amor que criou o Mundo



Não ouves, tu também, esse clamor

Que se ergue do húmus fecundo

que arde com todo o seu fulgor

O Tempo inteiro, segundo a secundo?



Assumo a Terra que em salto é montanha

Recordo o solo do vale, a extensão plana

Sou a chuva que a terra apanha

o calor que o chão emana



Revolta e oxigenada, leve e ufana,

sinto a terra que o lavrador amanha

não se abandona ao vento colheita insana

pois conquanto o lavrador a terra detenha



Queria pintar, cantar, dançar,

a sabedoria do universo esculpir

pois o amor que m'obriga a este amar

esconde-se na origem e no caminho para o porvir



Quantas epifanias tive que reprimir

Me foram semeando no caminho de meu lar

Na imensidão que cancelei exprimir

sobrou-me a ideia que tive de calar



É esse o amor porque luto e busco

so raiar do dia ao lusco fusco

e à noite consciencializo até despertar

Para no dia seguinte recomeçar



Esse amor é minha concha, fôra eu molusco

São as pegadas que teimo em largar

É o trilho no qual me propus caminhar

no qual tropeço e me lanço, brusco



E quando me perguntam de meu amor

porque me perco, só, no escuro

por vezes em angustiado estertor

são meus pesadelos que esconjuro



Alvo, ao peito, esse amor trago,

candeia interior cuja luz me guia

calor, conforto, mar, rio, lago.

a caverna matricial que se alumia



Meu amor posto no alvo que atingia,

que pulsando me vai mostrando a via

e, que me afastando me encontro aziago

desembocando no mundo tão complexo como vago.



E questionam: «mas que amor é esse?»

que te traz preso, contudo, liberto

porque choras, se tudo te pertence?

- É como se o livro da Vida eu lesse

Como se tudo me aparecesse limpo e aberto

como acção da verdade, que tudo vence



Por meu amor, ganho e perdido em guerra

atravesso oceanos na noite pejada de sonho

suspiro, quando percorro toda a Terra

pois é nesse amor que meu sonho ponho



E é sonhá-lo como quem chora, como quem berra

aos quatro ventos a razão de seu sentir

revê-lo certo que, decerto, também erra

choro quando por vezes me vês sorrir.



E ver-me arrancado essa parte de mim

intrínseca à apreensão da Realidade

durante anos afastado de seu fim

negada que me foi a sua amabilidade



Como não almejar sua presença, assim

Como não me rever na sua identidade?

Acaso não floresço como jasmim?

Reencontro-te passeando pelo campo ou na cidade



O meu amor é alcançar eese píncaro, o Belo

É ter arte para com arte amar a arte

Altura será de tosquiar meu velo

e doar de minha viagem como quem reparte



Meu amor, não quero tê-lo, quero sê-lo

quero todo, não me contenta apenas parte

é meu amor que derrete das calotas, o gelo

a água doce que, fresca, quero dar-te



Procurei pelo cosmos o que me era interno

Como não admitir, sendo o mais correcto,

criamos nós o nosso próprio Inferno

conquanto não seguimos nosso repto



É como buscar calor saindo à neve, no Inverno

abandonando a rubra lareira, o aconchego

como se, vendo, fosse cego

esperando que o frio opressor seja terno



Canto meu amor desolado

que me tenho quedado afastado

Canto igualmente reclamá-lo

reconquistá-lo, recomeçá-lo

Canto contando que mesmo tremendo,

meu caminho não vendo.

Que não me rendo

só a tua voz atendo.



Este amor, persegui-o por páginas por escrever

nos finos pontos de suaves fibras têxteis

pesqei-o no oceano, para o lado do poente

busquei-o nos olhos de toda a gente

no som, no tom, de instrumentos sensíveis

nas telas dos mestres que me não viram nascer



Seu cerne explorei, múltiplas matérias

no barro que se molda com amor e dedos

no metal forjado e recozido, suas asas oxidadas

nas composições musicais mais diversificadas

nas plantas e animais, busquei-o na origem dos medos

entrevi-o medindo distâncias entre estrelas e bactérias



Na terna macia madeira cujo formão impede fender

no toque da pedra , minerais indescritíveis

nas gemas virgens reflexos das sinapses na mente

nas taias migratórias que se alteram milimetricamente

nos momentos regados de belezas inimagináveis

nos saltimbancos fotões do alvorecer



Deste amor, confesso, não faço férias

a ele são alheios todos os degredos

submetem-se a ele todas as coisas inventadas

as aves compõe-lhe árias e, das copas, ofertadas

substituem o assobio das folhas e segredos

encontro-o em frases idiotas e acções sérias



Sei-o vivo junto a mim, esse amor

não sabes já de seu nome?

Não o vês ao acordar?

Não o sentes quando adormeces sem pensar?

Este amor tudo consome

E ele é a semente oculta intrínseca do louvor.



Essa a musa que dos confins do cosmos me fita

ressoando como corda de guitarra

minha essência como um espelho

esse amor me guia de criança a velho

canto-o como ave e não cigarra

amor fecundo de beleza infinita

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