Canto de meu Amor profundo
Que clama de meu interior
E se expande no céu, semeando côr
Pois foi o meu Amor que criou o Mundo
Não ouves, tu também, esse clamor
Que se ergue do húmus fecundo
que arde com todo o seu fulgor
O Tempo inteiro, segundo a secundo?
Assumo a Terra que em salto é montanha
Recordo o solo do vale, a extensão plana
Sou a chuva que a terra apanha
o calor que o chão emana
Revolta e oxigenada, leve e ufana,
sinto a terra que o lavrador amanha
não se abandona ao vento colheita insana
pois conquanto o lavrador a terra detenha
Queria pintar, cantar, dançar,
a sabedoria do universo esculpir
pois o amor que m'obriga a este amar
esconde-se na origem e no caminho para o porvir
Quantas epifanias tive que reprimir
Me foram semeando no caminho de meu lar
Na imensidão que cancelei exprimir
sobrou-me a ideia que tive de calar
É esse o amor porque luto e busco
so raiar do dia ao lusco fusco
e à noite consciencializo até despertar
Para no dia seguinte recomeçar
Esse amor é minha concha, fôra eu molusco
São as pegadas que teimo em largar
É o trilho no qual me propus caminhar
no qual tropeço e me lanço, brusco
E quando me perguntam de meu amor
porque me perco, só, no escuro
por vezes em angustiado estertor
são meus pesadelos que esconjuro
Alvo, ao peito, esse amor trago,
candeia interior cuja luz me guia
calor, conforto, mar, rio, lago.
a caverna matricial que se alumia
Meu amor posto no alvo que atingia,
que pulsando me vai mostrando a via
e, que me afastando me encontro aziago
desembocando no mundo tão complexo como vago.
E questionam: «mas que amor é esse?»
que te traz preso, contudo, liberto
porque choras, se tudo te pertence?
- É como se o livro da Vida eu lesse
Como se tudo me aparecesse limpo e aberto
como acção da verdade, que tudo vence
Por meu amor, ganho e perdido em guerra
atravesso oceanos na noite pejada de sonho
suspiro, quando percorro toda a Terra
pois é nesse amor que meu sonho ponho
E é sonhá-lo como quem chora, como quem berra
aos quatro ventos a razão de seu sentir
revê-lo certo que, decerto, também erra
choro quando por vezes me vês sorrir.
E ver-me arrancado essa parte de mim
intrínseca à apreensão da Realidade
durante anos afastado de seu fim
negada que me foi a sua amabilidade
Como não almejar sua presença, assim
Como não me rever na sua identidade?
Acaso não floresço como jasmim?
Reencontro-te passeando pelo campo ou na cidade
O meu amor é alcançar eese píncaro, o Belo
É ter arte para com arte amar a arte
Altura será de tosquiar meu velo
e doar de minha viagem como quem reparte
Meu amor, não quero tê-lo, quero sê-lo
quero todo, não me contenta apenas parte
é meu amor que derrete das calotas, o gelo
a água doce que, fresca, quero dar-te
Procurei pelo cosmos o que me era interno
Como não admitir, sendo o mais correcto,
criamos nós o nosso próprio Inferno
conquanto não seguimos nosso repto
É como buscar calor saindo à neve, no Inverno
abandonando a rubra lareira, o aconchego
como se, vendo, fosse cego
esperando que o frio opressor seja terno
Canto meu amor desolado
que me tenho quedado afastado
Canto igualmente reclamá-lo
reconquistá-lo, recomeçá-lo
Canto contando que mesmo tremendo,
meu caminho não vendo.
Que não me rendo
só a tua voz atendo.
Este amor, persegui-o por páginas por escrever
nos finos pontos de suaves fibras têxteis
pesqei-o no oceano, para o lado do poente
busquei-o nos olhos de toda a gente
no som, no tom, de instrumentos sensíveis
nas telas dos mestres que me não viram nascer
Seu cerne explorei, múltiplas matérias
no barro que se molda com amor e dedos
no metal forjado e recozido, suas asas oxidadas
nas composições musicais mais diversificadas
nas plantas e animais, busquei-o na origem dos medos
entrevi-o medindo distâncias entre estrelas e bactérias
Na terna macia madeira cujo formão impede fender
no toque da pedra , minerais indescritíveis
nas gemas virgens reflexos das sinapses na mente
nas taias migratórias que se alteram milimetricamente
nos momentos regados de belezas inimagináveis
nos saltimbancos fotões do alvorecer
Deste amor, confesso, não faço férias
a ele são alheios todos os degredos
submetem-se a ele todas as coisas inventadas
as aves compõe-lhe árias e, das copas, ofertadas
substituem o assobio das folhas e segredos
encontro-o em frases idiotas e acções sérias
Sei-o vivo junto a mim, esse amor
não sabes já de seu nome?
Não o vês ao acordar?
Não o sentes quando adormeces sem pensar?
Este amor tudo consome
E ele é a semente oculta intrínseca do louvor.
Essa a musa que dos confins do cosmos me fita
ressoando como corda de guitarra
minha essência como um espelho
esse amor me guia de criança a velho
canto-o como ave e não cigarra
amor fecundo de beleza infinita
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