Chove-me a alma e é dor que derramo na negra calçada, como negra a vida que suga os sonhos de quem respira e aspira. Não são nuvens, mas ódios encaixotados, que o vento sopra, de sudoeste. Não são ventos mas instruções mecanizadas que trituram os homens e os cospem, na rua molhada de sua dignidade perdida. Escorre-me a força e a vontade, vão dar ao Tejo, esse, ao menos, tem caminho ainda aberto para o mar... até que o desviem, abusem e violem, como ao espírito do homem, actual.
Como, por vezes penso, seria viver dessas vidas que fecham os olhos à realidade, mas ela sempre me perfura, em tom baixo e insinuante, repleto de lugares comuns desmentidos por si mesmos. Como se alheiam em gráficos coloridos e pacotes percentuais sem cabimento, certos esses, pergunto-me, como não se desvanecem no cerne dessas interpretações facciosas, face à crueza de suas implicações? Como lançam seu corpo à cama e se levantam pela manhã, prenhes de optimismo para destruír vidas, vidas de quem não se conhece, vidas por vezes longínquas, outras tão perto, jogadas à rua da desilusão.
Certas vezes olho para o mundo e vejo metade tão pobre que não é home nem é vida, a outra metade, dividida em quem se mata a trabalhar e aufere só para se manter a trabalhar, pagando cada vez mais para ter cada vez menos e outra metade que apenas quer ter um lugar em que possa servilmente dedicar-se também a essa ambição de ser escravo de senhores que lhes cospem em cima, e ser explorado até se conseguir espelhar a China proletária, que estende sua roupa e dá de comer aos filhos entre os motores fabris em produção constante, sem ver o sol dançar no céu, sem sentir chuva no rosto ou o silêncio estrelado da noite.. É isso que querem? Paquistaneses? Ide para o Paquistão, então, eles tem kalashnikovs que tiram muitas ilusões a tanta gente, poderão ter algumas munições só para vós...
No topo desta tripartida humanidade, uma pequena massa humana (pois que de humano pouco têm), de mãos em bolsos recheados, charutos de carne e espirituosas on the rocks, canibalizando seus semelhantes, Mengelesinhos da merda em seus gabinetes duplex, soltando faíscas entre propostas laboratoriais de experimentação social, onde o homem, imerso, caminha, alheio aos bens e males que o atravessam e delimitam, sem que consiga sentir o aperto do cerco, a saída do corredor, o olho do furacão.
Onde estão os Homens, que os não vejo? Onde está essa espécie que conseguiu realizar tantas maravilhas? Perdeu-se, algures, numa translação transladada mais acentuada da Terra? Saíu de circulação? Perdeu a validade? Não estará bem escondido dentro da Humanidade, essa multidão de indivíduos diferenciados que se habituou a ser tratado como massa e já não se reconhece como SER? Se for massa que leve tomate. E natas, com alguns cogumelos, porque não. mas assim, massa branca, fina e crua?
Por onde olho, apenas a depressão espreita, de esquina em esquina, de mão estendida à atenção inusitada de estranhos que se atravessam no seu caminho que não é seu, circulando em suas ruas que não são suas. São vidas esvaídas, entregues em holocausto no mercado, esvaziadas já de tudo o que a superficialidade não trai, pintando em demãos aguadas a sua vida tão desprovida de cor como seu futuro, alimentando com parcos gravetos os sonhos que os mantém, como máquinas de manutenção de vida, seus sonhos são os jardins que plantam e que a realidade não rega, senhos que não fazem lucrar o mercado, que os não consegue provar com a verve, os aromas e a gana de quem os tem. Mas os sonhos não põem pão na mesa, sabes, e de tanto marrar os cornos contra as paredes da vida, às tantas, até parece que estão almofadadas, fadados estamos nós a ver fenecer os sonhos na sarjeta da sociedade fascista que se constroi defronte ao nosso olhar descapitalizado.
Sobem os juros e eu juro que são só os que me cobram, os restantes, juro que descem. E o mercado, que mais não é que uma transposição em entidade sobrenatural de pessoas mais ou menos comuns, mais ou menos pessoas, que para não perderem o que a ganância lhes garantiu, não oscilam quando toca a enfiar um vai bardamerda nas mãos de seu vizinho, enquanto lhes fecha a porta na cara. Ah! Mas para quem marrou nas esquinas da parede da vida tantas vezes, como a madeira da porta é macia.
Querem-nos quebrados, vencidos, derrotados, somos assim uma massa mais fácil de moldar, mais amorfa e se princípios, não viste, em Auschwitz, não reparaste, em Dauchau? Não muito diferente dos campos em que nos encontramos, clorizados, que trabalhar liberta, mas liberta o quê, se cativos estamos?
E somam-se todos os dias, aos magotes, famintos e entrapados, os exemplos de ontem, com suas vidas eram seguras e se perderam, como seus futuros brilhantes, traçados à partida se desfizeram e estilhaçaram. Tão depressa... quase tão depressa como se hipotecam bens que afinal foram só males.
Às vezes, espelham-se homens na rua. Um de fato e gravata, cavalheiro prestável, olha as horas no seu relógio suíço frente a frente com um sem abrigo que lhe mendiga uma moeda, uma côdea dura de pão. Apenas há comunicação de um lado, chocando com a indiferença e desdém do outro. E o que os separa é tão pouco, que nem é quantificável, na análise qualitativa de suas vidas, contudo é como se um fosso intransponível os separasse, barreira que urge desmistificar, com o risco de se perder o que há de humano nuns e noutros, entregues às insanidades relativas de suas vidas alienadas.
Chove e não é chuva, é a tristeza que do céu se desmancha e vem lavar a terra e as almas dos homens da sua iniquidade. Mas os homens, fascinados com o luxo que é lixo, cedo correm para se continuarem a sujar, fechando empresas, baixando salários, cortando apoios e subsídios a quem deles depende, matando à fome o povo e depositando suas doces poupanças na mesa do banqueiro.
Por vezes penso, sinto e sei, que bom que era, numa única rotação em torno de seu eixo, que o mundo mudasse o Homem, o aproximasse de si mesmo e o fizesse reconhecer-se nos outros, essa cintilação que é, de facto, universal e partilhada por todos
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