O sol perfura brumosa matina
entre estacas, pinhos ramos abertos
Nas sombras efectua sua chacina
Perscruta, examina locais cobertos
Bem sabe que as trevas se ocultam
lá, onde a verdade não brilha
e que os adivinhos oscultam
os segredos da Antiga Ilha
Sabei, magos, negros corvos
que a vera alma refulge sem par
resplandece em vivos corpos
tal sua vontade de se manifestar
Faiscam reflexos obsidiana
negros bicos que debicam
a carniça pinga lascas, tutano
Pois que a pensásteis ufana
e frementes, seus olhos fitam
a assombrosa face do arcano
Ricochetam relâmpagos sobre meu escudo
Dardos com veneno, vísceras, bruxedos
caem, serpentíneos, a meus pés alados.
O Inimigo todo ataque observa, mudo
investe então com a tortuosa voz dos medos
para se extinguirem, pétreos, calados.
Exsudam-se vinganças no vítreo rosto
lágrimas, fel que se liberta
vencidas pelo orvalho, fenecem
ante fortalezas que de bem se tecem
frutos de uma consciência que desperta
ergue-se outro rei, estando o velho deposto
Minha espada não corta corpos
Minha lança não fere almas
A seta que aponto é à injustiça
Cambaleiam homens fracos, já torpes
e ainda se ouvem o ecoar das palmas
que a má memória aos homens atiça
Um dos flancos do cerco se levanta
seu líder tomba, carecendo de legitimidade
o araúto, tomado de desgraça, canta
mil vilanagens se mantém nos portões da cidade
mas ainda subsistem salteadores
acossados em avulsas surtidas
à volta da muralha e arredores
reclamando sangue, tomando vidas.
Na caverna, o eremita saúda, rindo
o sol que tacteia seu passo, à boca
Na floresta, o homem verde floresce
É a resposta às tuas preces que vem vindo
mantém sã tua mente louca
Não é primavera mas desflora, cresce
Hirto, alerta e constante...
assim diz o rio da rocha cortante
mas, pelos olhos do tempo, num instante
se desvanece o efémero errante
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