Há uma falaciosa noção que tem ganho relevo na aceitação pública que é a de que as empresas só existem para ou só visam o lucro. Tal acepção parte do pressuposto completamente errado que temo, arraste cada vez mais a sociedade para um trilho autodesagregador.
As empresas só existem porque procuram fornecer uma solução ou serviço a um qualquer mercado. O mercado está inserido na sociedade e a influência na modelação actual do mundo tem sido, não raras vezes, perniciosa. A remuneração que aufere do estabelecimento da sua actividade operacional terá o seu parcelamento estratégico redistributivo baseado em modelos diversos, no qual se insere o lucro da dita operação, além das despesas recorrentes da mesma. O comportamento do lucro emana da implementação no mercado e sua credibilidade junto do mesmo, da inovação e competitividade, da sua gestão estratégica, qualidade e diversos factores que concorrem para a formação do mesmo, incluindo, neste item, a exploração da mão de obra. Parte-se do princípio que, algures no processo, surja um ser humano envolvido, ao qual estão inculcadas determinadas obrigações, tantas vezes partilhadas, de responsabilidade.
Transpor certa desta lógica para este nível produtivo torna-se cada vez mais uma reacção natural e saudável da sociedade dos trabalhadores.
Assim como o investidor dispende dos seus recursos e, em confiança, gere os seus interesses, também o funcionário terá, inclusive na prossecução de suas funções, de gerir o que investe: o seu tempo, disponibildade, labor, criatividade, responsabilidade e tantos outros valores, mais qualificáveis que quantificáveis, que terão de ser espelhadas por uma remuneração adequada e digna à ocupação, que permita ao próprio, além de cobrir as suas despesas operacionais, conservar uma percentagem mais visível que residual em que reside o lucro da sua actividade. Assim como a empresa é paga sobre o produto ou serviço que propõe e concretiza, também o funcionário terá de ser pago tendo em conta as funções que desempenha, cargo que ocupa, ou outras características menos gerais. Tal como a empresa procura resolver os exercícios no tempo retirando lucro, também o trabalhador deverá ver o seu investimento ter retorno lucrativo, assegurando a dignidade, as expectativas e a motivação. Sem esta reciprocidade, está ameaçado o equilíbrio, sempre precário pelo contínuo ataque do capital aos direitos, vistos como regalias, dos trabalhadores, enquanto os sobrecarrega com os deveres e obrigações inerentes à actividade, optimizando a carga exploratória, tendo sempre por base o medo do desemprego para dar seguimento ao seu intuito, esse sim, inalianavelmente apercebido, de sugar o tutano de tudo quanto existe e convertê-lo na mais afamada construção gananciosa, sempre no âmbito especulativo da realidade ficcional que nos é apresentada, entre ratings e cotações, como o deus dos tempos modernos, cego, cruel e frio, a personificção imoderadamente caricatural com que objectivamente se maquilham os interesses dúbios e multifacetados dos denominados investidores financeiros, a grande maioria fundos tendo por base aplicações bancárias e seus derivados.
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Não podia concordar mais. É um tema difícil de abordar, até porque há sempre conotações ideológicas agregadas e que acabam por estragar qualquer discussão. As regras do jogo têm de ser lançadas no tabuleiro e mantidas, e quando alteradas, apenas para o beneficio geral, visto que o que estamos a falar é de essencialmente agentes económicos, pessoas, empresas, trabalhadores, investidores, estado, famílias etc.
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