segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ébanidae

Indubitavelmente, a conclusão do facto acercou-se-me como um abismo que se abre, rasgando céu e terra, engolindo a realidade aos ombros da sua singela certeza, e esse contexto reafirmou-se pela manhã, ao fresquinho, entre o chilreio beatífico dos melros e dois aros luminescentes, que sondavam sob a copa dos abetos, acordando os pequenos seres adormecidos na bruma orvalhada e perfumada, gotículas de luz líquida que dos ramos pendiam, em subtis e musgosos braços aquiescentes e silenciosos.
E se, porventura, a reacção pretendida não fora a seguida, invariável o ziguezaguear da consciência, furtando-se a adormecer, na passagem de um obstáculo material e pétreo, escavado na rocha ígnea que brotara, haviam milénios, da superfície conturbada do oceano, primeiro em explosões violentas, depois em suaves golfejos e pequenas porções dessa substância moldável pelo contacto com o frio, prenhes de substâncias secretas e bem escondidas no âmago magmático do planeta, induzido pela sua criatividade mineral e viva. Desconhecem-se ainda as intenções que esta consciência primeva constrói, pois que a capacidade de influenciar a manifestação de sua identidade na realidade, imprime o seu cunho pessoal, demonstrativo da vontade que o anima, e os desejos ambíguos do qual o ser se alimenta, na contínua luta que se desenrola no interior de todos os seres.
A vida de espermatozóide é tão absorvente que, após a fusão com o óvulo conquistado, permanentemente nada anda corre salta, constrói, pões pisca, tira pisca, move-se, caminha, sobe e desce, materializa no universo a rota e o trilho, e na duplicidade triunificada que o compõe, reconhecendo os elementos que em si se conjugam para realizar esse milagre orgânico e puro, e no entanto tão viral, como se a vida fosse contagiosa na sua proporção colonizadora do hospedeiro.
Daí o profícuo desenvolvimento humano acompanhado com a míriade de seres que a ele foi sobrevivendo, por inutilidade desprezo ou exploração, quando assente na ânsia conquistadora e baseando-se na relação competitiva entre si e entre os diversos entes que habitam o seu habitat natural, se torna em si parasitária, aniquilando ora lenta, ora rapidamente, o seu hospedeiro, inofensivo e incauto, evoluindo como uma teia que absorve a Luz e a Vida, espalhando uma quantidade esdrúxula de objectos fúteis e impertinentes, deixando no seu rasto o produto da sua replicação, uma cauda de lixos vários e insanos que reflectem os fotões que nos bombeiam, desde o sol, atravessando o cosmos desde que era ainda um pequeno caos.
Assim compreendi a razão do azul celeste ser mais leve que o de teus olhos, e o seu sabor, mais inefável que o sabor ceregino de teus quentes lábios, até porque não são cien os teus olhos, nem rubro teu beijar.

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