quinta-feira, 16 de junho de 2011

No Camões com um prato de camarões

Como está bonita, hoje, sua montra, relampeja prados floridos em suaves nuances algodoríferas e singulares. Bons olhos a vejam, que meus são, e rebrilham de cada vez que o sol se ergue, detrás de Santa Luzia, de palmas levantada.
Ondina que sobe a calçada, de vontade fintada, por uma sílfide encantada.
As moiras, encantadas, no Castelo dançam, ocultas no halo que sopra, desde a aurora dos Tempos revela, que é por ela, que o rio beija marés no cais das Colunas.
Um Caminheiro arrepia caminho, entre o Carmo e a Trindade, bebe um copo com o Fernando, o Álvaro, ou o Bernardo, nunca sabe bem quem ele escolhe, a cada dia, hora ou estação, enquanto apreende o rumar dos navios no ressoar das gaivotas apresentando-se no rasgo de paisagem vertical.
Um pombo esvoaça e leva a carcaça, foi trapaça, foi trapaça.
No tom terra que sobressai das alvas matinas, coberta com a displicência do barro diluído na Luz que se espelha no Tejo, ergue-se a voz que elabora dos fados, trinados.
O Poeta, sentado sobre o horizonte diagonal de uma calçada, recorda a entrada, e sobre a caniçada ergue seu canto rouco e rompante do alto da estátua equestre mais próxima, ou saltita entre rinocerontes e elefantes, abraça seios marmóreos de ninfas e deidades e suspende, no fio límpido de uma linha, a realidade focal, como quem conta estrelas em noite de eclipse.
Pesquisar tua face na elipse de uma brisa galvanizadora que fura no trânsito, entre as postas azuis dos carros que se empurram na estrada, ziguezagueando por entre as copas floridas e os ramos que projectam as suas dóceis sombras na superfície do lago tranquilo, por onde cisnes da cor da madrugada limpam as asas e passeiam, indolentes, alheios aos barquinhos abandonados numa margem erma e sossegada, fruto da incúria e do desleixo.
Casais despem-se nas artérias pedonais movimentando-se numa dança pausada, sulcando a superfície com um rasto amarelo de azul.
Depois o sol encaminhou-se, lentamente, para o ocaso, e no último momento, antes de desaparecer, lá longe, após o Oceano que nos separa, guardou o último fotão e, sorrindo, disse:
- Vejo-te amanhã…

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