No protocolo submisso e inerente de uma tarde saturnina, sacudo do capote veraneante o pó seco e invasor que, afundando-se no horizonte líquido e plácido oceânico, transportado pelo vento que sopra longe, levantando as saias marotas e sem lagarto das moçoilas trigueiras que vão na carroça dos poetas e amantes, levar à praia dourada e tórrida as suas presenças entre risinhos nervosos e sussurros, emprestando cores garridas que borboleteiam entre as dunas e os passadiços de madeira tratada salinamente entre as madrugadas e o romper da aurora anunciada pelos melros chilreando, ainda a madrugada avança, pé ante pé, meias de lã e baioneta calada, envolvida no lusco-fusco que a pretende negar, mas não alcança o seu objectivo.
Nos seus cabelos, ondulantes como o mar espumoso e incansável, repousam negros ganchos, lenços atados sob o queixo, e as madeixas brincam por entre os sorrisos, rebeldes como a brisa que os desalinha, verdadeiros como o marfim de seus dentes apontados ao mar. Descendo a ravina pedregosa e barrenta, por entre pequenas cataratas de água adocicada e fresca, entre o escorregando e o rebolando sobre os seixos soltos na rampa tortuosa, por vezes agarrando-se tenazmente aos arbustos bem enraizados na estrutura róchea e arenosa pontilhada de flores brancas, amarelas, outras azuis ou roxas. Sem arranharem sua tez cuidada e trigueira, alcançam a suave orla, baía orfíaca que hipnotiza os navios para seus escolhos mansos mas tão dissimulados como perigosos e sub-reptícios, sofrendo como se uma timidez inconstante em função das marés, resultasse em permanente ressalto das ondas em arco, nos seus dóceis lombos, pejados de moluscos molhados e salgados, aguardando algum intrépido que desafie o mar transparente e frio e os cace, sem correr muito, nas pequenas poças escavadas pela erosão dos milénios, onde descansam entre tocas de caranguejo e ouriços do mar.
Eram estrelas, dessas, que do céu se despedem, caindo em rodopio, até ao mar, e onde se fixam, na superfície subcutânea de seu leito imperscrutável e escuro, iluminando em reflexo pálido, as profundezas abissais que os sonhos povoam de luzes fantasmagóricas e seres luminescentes, quais pirilampos do mar, acendendo e apagando os semáforos aquando de qualquer incursão desavisada e surpresa.
Surpresas reservavam-nas essas cavernas secretas, que escavaram na rocha maleável as identidades cristalinas e multifacetadas que recuam aos tempos em que os jurássicos sáurios passeavam, assobiando para o lado, por entre as florestas laurissilvas já extintas, que ainda nos restam alguns embotados neurónios, perfazendo a ligação sináptica que os une, local de refúgio de criaturas mágicas e tão esquecidas como invisíveis aos habitantes da superfície, cegos para realidades que lhes escapam como água límpida por entre negros dedos.
Ressoam ainda, nas memórias lentas dos idosos da aldeia, aspectos e circuitos lendários, onde se cruzam histórias de piratas mouros, um ou outro cruel drakkar perdido, ou a aportagem à costa dos navios atlantes que fugiam do derradeiro cataclismo. Contam ainda, em noites de fogueira acesa e amena cavaqueira regada a garrafão, que moiras encantadas ainda correm, meio desnudas, meio vestidas com túnicas que se transparecem e dissolvem em dias de chuva intensa, ou voam, aquando das nortadas, como se, penduradas nos penhascos debruçados sobre a espuma do mar, ajudassem a força das marés a derrubar estes Golias que esculpem a costa como poetas românticos escorrem a pena cansada no papiro sedento do negro perfumado da tinta.
Assim como assim, diziam, entredentes, as jovens que passeavam, perfumadas e vistosas, enquanto observavam os mergulhões que afunilavam, descendentes, chapeando alegre e violentamente sobre os cardumes inocentes e distraídos, logo se elevando, com fitas prateadas tremelicando, largando gotas de sal líquido, chovendo-as como em breve despedida: «mesmo quando não há nada a dizer ainda muito se pode escrever.»
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