Quando o calor nos bate à porta, invade as janelas e reflecte-se, em ondas tremeluzidas, das paredes caiadas, para a rua forrada a basalto, a vida torna-se pesada e há uma atmosfera quase irrespirável, ascendendo do solo sujo, passando pelas esquinas carregadas de urinas de diversa proveniência, deixando a pairar, no ar, uma atmosfera húmida e desnorteada, que custa a respirar e identificar.
Por vezes, sento-me, despido de roupa e preconceitos, à janela, ou no quintal, esperando que não haja nenhum satélite a recolher imagens. Não querendo chocar ninguém, há uma liberdade intrínseca e inseparável da nossa personalidade e consciência, que advém do facto de nos desnudarmos perante o mundo, mesmo quando escudados por um muro e algumas vedações mais ou menos eficazes, separando-nos das situações onde o nu público não é bem aceite socialmente.
Assim como caminho descalço pelos pinhais das redondezas, sempre atento às poupas e tentilhões, melros e outras aves que, das frondosas copas que me observam lentamente, ansiosos e curiosos, enquanto percorro os trilhos virgens ponteados de cogumelos que se acercam das clareiras abertas na floresta como fogueiras acesas nos céus, pingando sonhos na noite, medusas que semeiam luz pelas profundezas inóspitas dos abismos, sulcando através dos milénios, serpenteantes texturas que invadem os leitos ora abruptos, ora suaves, da geodesia submarina, sempre mutante e passivamente cambiando em estetoscópios alternativos e preponderantemente báricos.
Por vezes, esse calor empresta uma determinada capacidade em que a estupidez natural ou adquirida artificialmente em experiência ganha relevo nas pessoas que circulam em nosso redor, atraídos por magnetos invisíveis e incondicionalmente involuntários, como se nos obrigassem todas as existências frustradas da realidade a obedecermos cegamente aos seus diatribes, exigências, pancadas e opiniões.
Hoje está calor e só me apetece é suar. Queres suar comigo? Perguntava a quem passava, entre as brisas cálidas que anunciavam o crepúsculo regenerador, sem ao menos obter um débil e ténue sorriso, que aligeirasse a noção de invisibilidade que nos cerca, numa muralha impenetrável, na qual a falta de cultura e educação se unem numa parceria ignóbil, com a arrogância inata de quem devia comer abrunhos na boca e não abrunhos com a dita. A mesma resposta, a mesma imanência derrotada, o mesmo esvair dos olhos, como quem cai como anjo nas teias gelatinosas e aderentes da miopia, da inutilidade e da fraca desculpa para existir, pois não há razão ou justificação para se ser assim, com ou sem calor que nos valha.
Haja calor, e que ele não derreta os poucos neurónios dos muitos que por aí andam…
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