A minha história com a tropa até teria graça se fosse coisa de rir. Mas não foi.
Primeiro que tudo, nunca quis ter 18 anos, porque tinha de ir dar o nome, gíria para que se tinha de apresentar na sua Junta de Freguesia para saber de meu fado. Na altura, nem pensai em objectar a consciência... ela estava mais que objectada, mas lá fui eu. Apresentei o adiamento de incorporação, respondendo com que idade pensava integrar nas Forças Armadas, engajado à força, lá para os 84, assim como assim, a essa altura já deveria estar vacinado. Teria de me apresentar (Olá, o meu nome é Não Tens Nada a Ver com Isso) no Quartel da Ajuda, por cima dos Lanceiros da Rainha, que é coisa que pica em determinada data a determinada hora sob risco e pena de fuzilamento, o que era de facto uma pena porque eu, geralmente, não fico lá muito bem fuzilado. E lá entrei, lembro-me agora como se tivesse sido há pouco. Se havia coisa que fizesse parar um quartel, à falta de uma loura mamalhuda a correr desnuda pela parada, teria sido eu. Em 1994, ou sensivelmente, cabelos longos, rastas e térérés com guizos e conchas, barba do tamanho da do Cristo, com uma indumentária impecável à laia de túnica e casaco marroquin, calça pata d'elefante e sandalita de cabedal, de bolsa em malha colorida, óculos de lentes arroxeadas dei logo nas vistas, por entre os capacetes brancos da PM e dos típicos timidos mancebos.
Fiz testes e mais testes, uns até bem mais psicadélicos do que eu estava à espera numa instituição militar, e, passado o termo da inspecção aos motores, saí para, durante uns bons anos, não mais voltar.
Mas chegou o tempo em que tive de embalar a trouxa e ir para o diabo que me Carregueira, bela serra, colada a Belas, para cerca de um mês de recruta.
A minha recruta foi uma autêntica colónia balnear, mas sem praia, passávamos o tempo a brincar ao Rei Manda (saltar p'rá frente, flexões, correr, marchar, aquelas coisas, quase sempre vestido de verde seco, o que era monótono). Logo pela manhã, após um providencial pequeno almoço, saíamos para a serra, correr pelos trilhos abertos a pé e bota, de calçãozinho paneleiro branco, camisolita refeira e ténis (sapatilhas de ballett, diria) para uma sessão de corrida matinal, seguida por uma rápida em segundos mudança de indumentária e caçar G3 depois dos gansos terem deixado o recinto ao redondel do armário e paiol quáquázando uns atrás dos outros, como nós, em formação e com a asa à bandoleiro. Exercícios de parada se seguiam, até à hora do rancho. Após deglutir as refeições gourmet em louça de Limoges e inox, havia sempre um tempinho para emborcar uns beirões da Beira Alta, ou uns moscateis de Setúbal na maré cheia, bebidas duplas que saíam mais baratas que a chuva. Logo mais exercícios com e sem arma e trólóló, o rei manda isto e aquilo, a torto, a direito, em ziguezague. Nunca tendo eu disparado armas de fogo, foi relutantemente que peguei numa oleada e carregada, para a testar. Em pé, de cócoras, sentado, a fazer o 4, a nadar crawl, a defecar, durante o pino, enfim, parecíamos uns origamis de coice esperado e má pontaria. Pude, no entanto, e sem pedir nada a ninguém diparar uma rajada, antes de flores, e pronto... a partir daí, armas, só facas de cozinha.
A minha tropa acabava às 16h, com banhinho quente e o resto da tarde a passarinhar, pelo bar, a tocar flauta na camarata (encantar a cobra), como dizia, entredentes.
Por vezes, acordavam-nos, noite cerrada e íamos brincar para o mato, sujos de lama e de baioneta e boca calada, jogar às escondidas e coisas assim. Subia sempre às árvores e gabo-me de nunca ter sido apanhado (ninguém olha para cima, é certo).
Ainda tive uma semana de campo, a limpar um forte em terra localizado em Sobral de Monte Agraço. Boa desculpa para banquetes à gaulesa, com direito a leitão e garrafões de tinto, uma balbúrdia campal com a ordem que caracteriza o Exército. Apenas tive um castigo, que acabou por ser fazer salame de chocolate e comê-lo a buer tintol.
Após o furamento da Bandeira (não pude jurar, fiquei com uma coisa presa nos dentes, fui alocado a Sacavém, nos adidos (ou fo), e colocado no melhor sítio para se estar na tropa fandanga, vulgo, o Bar...
Uma bebedeira pegada de cinco meses, foi o que foi, das 7 da matina até às 16... e trouxe dinheirinho comigo, prova que a minha gestão do estaminé deu resultados líquidos positivos. E ainda consegui tirar uma pic com o Batatinha e o Companhia, para a Lux, na Praça do Município, por onde passava para me ir aviar à R.do Arsenal, onde o atum e o bacalhau invade as narinas desavisadas com o seu marítimo e salgado odor.
Daquilo que me ficou destes tempos, foi uma ligeira síndrome de Tourette, que me tem sido impossível de extirpar, bater os pés e calcahares de maneira que se ouça além daquela coisa de andar com as mãos atrás das costas, à guarda Serôdio. A tropa, de facto, não foi, não é e não será para mim.
Contra os cabrões, marchar marchar
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