quinta-feira, 14 de julho de 2011

Agricultor Inteligente e trovadoresco do vale da deusa dos equídeos alados- Take III

Como agricultor inteligente, podo com extremoso cuidado, envolvendo os tenros rebentos, aquecendo-os no forno alquímico, como se fossem gatos que, ronronando, se enroscam nas pernas depiladas e suaves de uma mulher ardente e provocante. Mas, essencialmente, deixo a vida do meu jardim crescer e iluminar as noites desavindas sem estrelas a apontar o caminho que a Lua traça na negra tela que se estende assim que o sol deixa de beijar as altas camadas da atmosfera, para os lados do Ocidente até ressurgir de novo, acendendo a manhã, como quem acorda de um sono revigorante.
E cada livro, gesto, cada flor, promessa, cada toque, sonho ou lágrima tangida pela face, salgada como o oceano que a reclama como sua, cada beijo libertado no éter ou pousado languidamente nos lábios carnudos e entreabertos, cada olhar repercutido e captado, instantaneamente em seu reflexo revela-se na sua essência, experiência única e indivisível, indescritível na capacidade opaca de análise utilizada cientificamente para descrever o azul e suas nuances, somando somaticamente, invariáveis frutos novos no meu coração expectante, que os recolhe em cama para que não se pisem.
Sou agricultor inteligente e canto meus versos aos pássaros que me acordam, pela manhã, em formação auditiva, pendurados nos ramos das árvores, ou atravessando em raios coloridos o ar à minha frente. São gentis e suaves como suas penas, delicadas pinceladas de cor e penugem, de um quente pulsar chilreante, de asas abertas à imaginação que nos invade como os fotões, que nos atravessa e transmorfiza, e descubro no seu trinado insistente os sonhos que não deixo fenecer e recordo.
Deixo-os, por vezes, em estufa, rodeados de atenção e cuidados oferecidos pelas fadas que dormem entre os arbustos, mimo-lhes aos ouvidos harmoniosas escalas flauteadas, melodias melífluas do rio gentil, que vai desembrulhando o seu destino, de calmo leito, até à foz que almeja. Também eu sou como o barco, que onduleia, chapinhando assaz bamboleante e ébrio de vida, levemente, que aporta nos cais vagos de minha história, concebida por deuses loucos e cruéis, e reconheço na face do barqueiro o rosto de quem eu sou, fui e serei, pois sou eu que rio e choro na nascente que dá origem ao rio, que aliso suas escarpas, correndo em gestos largos, lambendo as férteis margens onde me deito, na erva fresca que sou, levando aos lábios um assobio como fio de água cristalina, que se assoma como a nascente na serra pedregosa, suavidade nascendo da terra rugosa e como estrela trauteio ao vento uma canção esquecida, que sou eu como tu também.
E recosto-me na serra agreste banhada pelas formações nebulosas, onde se ouve a voz dura das rochas, seu granular entendimento, de quem observa o mundo, sempre em arco descendente, de quem já viu passar mais homens que humanidades, e ainda, perdido como os rebanhos que salpicam a erva verde, observa o sentido de uma vida sem sentido, sentindo-se, quebrada, como a verdade que almeja e persegue. A vida arqueia até se extinguir, e um som se despede, no suspiro último, para se perder.
Se vires por aí uma flor rasgando o asfalto, se ouvires uma canção trazida pelas ondas do mar, mas não vires sereia que a cante, uma flauta serrana no vento, se sentires ao virares as páginas brancas e caligrafadas de um livro que deixas escapar seu sentido, sabe que sou eu, no vento, no mar e na terra, no crepitar seco do fogo e da labareda bruxuleante e bailarina, a nuvem que sorri e pisca o olho, o perfume que nasce na Primavera para se desvanecer durante o Outono, eu que semeio e planto a vida que se estende a teus pés, passo a passo, no livro que, escrevendo, me coube viver.

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