Considerando a tépida realidade que nos aprisiona nas suas teias dissimuladas, entre as névoas, sólidas como altos muros de castelos inexpugnáveis de costas inexploradas, que avançam, avassaladoramente, dedilhando nas cordas da garganta perfilada que se abre em desfiladeiro escarpado e selvagem, num torpor lânguido, húmido e frio, recolhendo no seu manto alvo, cor da neve antes de cair do céu, as primícias desta manhã ensonada, que acorda a custo entre o chilreio atento e azafamado dos tentilhões, que brincam, escondidos de olhares alheios, nas frondosas copas verdejantes dos pinheiros dançando no vento soprado de alma em riste, essa gélida e crua humanidade, feérica e gregária apenas vislumbrada nos momentos fatídicos das horas perscrutadas entre chapéus de palha balneares e a lufa lufa dos pescadores que desenterram do mar errático as íctias e prateadas refeições de estranhos sentados em mesas de esplanada viradas para o horizonte, fino e azul como um colibri que beija flores em doces lufadas ufanas e saudáveis, avermelhada a sua tez ensolarada e ébria de doirados fluidos, frescos e gaseificados, lembrando no seu topo branco as ondas que se esparsam no mar e os cumes apenas visitados por deuses e homens santos nas mais altas cadeias espinhosas das serranias lendárias, nascidas em tempos que os sonhos recordam em ambientes festivos e floridos, nascendo nas primaveras penduradas pelo cosmo arredondado e nunca antes navegado, sigo agora um trilho que escavei eu próprio, afirmando-o com a verve que pulsa nas minhas veias obstruídas de tanta mentira engolida, ostracizado jamais novamente, fechando os olhos e dormindo na posição em que der para adormecer.
Às vezes envio currículos em garrafas de vidro, pelo cosmo, e penso-me na Estação Espacial Europeia, por motivos diversos, creio que encaixava lá muito bem:
Primeiro, estou habituado a flutuar, e gosto de pintar o mundo em três largas pinceladas, apontamentos que inscrevo na ténue atmosfera dos sonhos das coisas. Depois, sou pessoa que não ocupa muito espaço, e capaz de dizer algumas piadas, no salão, para entreter ao serão com estrelas e luzinhas a piscar. Não sei pescar, mas ao que saiba, não há grandes cardumes em órbita, mas é maravilhoso o bailar das poeiras cósmicas iluminadas a reentrar na atmosfera, o perfume da Lua a submergir atrás da Terra, a sugestão dos cometas, que partem à aventura, guiados pela força de seus sonhos. Em ocasiões surpreendentes também posso carregar num ou noutro botão (só para ver o que dá), no entanto, acordo sempre devendo à vida mais do que a vida me deve a mim, pequeno rebento florido que acende a luz no mundo, nascido que fui para criar e indissociavelmente aplicar a Beleza transcendente que sinto brotar do Universo e atravessar a minha radiancia sensorial e espiritual, salpicada com as cores matizadas da Alma peregrina que percorre os trilhos que o Mundo escondeu, longe das estradas movimentadas, acima dos percursos migratórios das aves, sempre em redundantes viagens de exploração oceanográfica que preponderantemente sobrevoam serras mágicas e planícies de sonhos inexplicáveis.
Assim, e trauteando flautices várias, apontadas à noite que lentamente se espraia no horizaonte ainda submisso ao sol que parte, despedindo-se do dia e abençoando a noite, nu como a Lua, lentamente, cai a consciência sobre o sono rendido, e Orfeu adormece, sonhando com musas cantando loas à luz das harpas efémeras baloiçando na noite lisérgica, Eurídice aquiesce e sopra-lhe pétalas perfumadas de flores extinctas enquanto carinhosamente deixa entrever no beijo sussurrando: Boa noite.
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