Aproximo-me de Lisboa pelo rio, observo-a subindo a calçada, basalto chovendo em padrões pelo calcário quebrado com mestria por cantoneiros experientes no uso e arte da pedra. Há na atmosfera uma promessa de algo que se pressente mas não se compreende, impresso nas malhas do tempo mítico, que falha aos segundos marcados digitalmente nos relógios de pulso que rebrilham, avessos à emoção que faz os nossos ponteiros galgarem as horas ou pararem os momentos, um misto de Passado, Presente e Futuro, esculpidos em sonho e rocha por amantes luxuriantes, banhando-se, com as Tágides por entre as colunas do cais, dançando com golfinhos luzidios e ninfas de cabelos negro esmeralda.
Lisboa cheira a mijo e a mar, a sardinhas assadas na grelha a carvão, sabe a Fado e a vinho branco fresquinho e traçado, cheira a roupa lavada no estendal, a pingar sobre as sardinheiras, sabe a rosas e cravos, cheira a ruelas caiadas, deixando o sol entar pelos reflexos nas paredes ajaneladas em guilhotina, umas rendadas, outras não, deixando no ar, suspenso, os poemas soltos no vento que enredemoinha as folhas dos plátanos. Lisboa canta a emoção do império ganho no mar e pedido na terra, chorando ainda as lágrimas daquilo que não fez, ainda se lembra dos autos de fé que queimavam almas no Terreiro do Paço, recorda-se de pestes e festas de casamento reais, da escravatura que trouxe de outras terras, entre canelas e tecidos. Lisboa cheira a caril e a jardins a apanhar sol, sabe a miradouros sobre a cidade emoldurada por entre buganvíleas e cachos arroxeados de flores exóticas, tacteia ainda o espaço que merece e lhe não é dado, nos seus prédios devolutos, de casca pintada ou a desfazer-se, como um diospiro esquecido no ramo, doce e suave, forte e erótico, carmim e perfumado, como um ocaso à beira rio.
Lisboa ainda vive, e na sua vida pululam almas que se encontram em esquinas da providência, nos largos, entre os pombos que debicam o que outrora foi milho ou pão, que se reencontra nas calçadas íngremes, nos páteos parados no tempo arrastado até ao presente, cheira a fartura e a miséria, sabe a mendigos sentados nas escadas da igreja e aos católicos, tão universais, que olham para o lado, que fingem não ver e fazem contas de cabeça a esticar ordenados desordenados, desirmanados até ao fim do ano, da vida, do mundo. Lisboa atravessada por avenidas de automóveis por onde antes corriam ribeiros para o Tejo, sabe ao peixe fresco dos avieiros, cheira às hortas de Loures, a alface, leve o seu odor, a limão e flor de laranjeira.
E sente-se no ar a promessa de ser mais que o universo, plasmada por entre as antigas colinas, que foram de deuses e de homens, pelas queias lutaram e morreram gerações de povos estranhos, lutando para não perecer, abrindo as portas de par em par para receber salvadores, escrevendo em si a sua história e escondendo-a em subterrâneos mal guardados pelo homem, mas protegidos pelas teias que o esquecimento tece, por cima dos quais caminham homens sem sentido, turistas maravilhados, por onde a História percorreu o seu caminho, sempre deixando de si uma lembrança, ora doce, ora amarga, com o qual avós de cabelo branco preso por negros ganchos contam aos netinhos, à hora da sesta, nas histórias de moiras encantadas, princesas tristes, cheias do esplendor que ainda se respiram nos palacetes antigos e de altos muros, estabelecendo as fronteiras entre a rua e os cosmos internos da cidade.
Lisboa é multicultural, nmas não cosmopolita, assim como uma vila exaltada a capital, ascendendo a uma cidade tímida, rasgando pouco o céu, optando pelo puzzle calejado da arqutectura histórica, suplantado pelos simetrismos pombalinos, a ordem arquitectada a toque de esquadro e compasso após um terramoto que ainda hoje causa calafrios a quem passa pelo Carmo, a quem olha no chão raso, o rio já aqui, a quem adivinha, sob seus pés, pilares de madeira seculares que sustentam a Baixa, enquanto as obras de toupeiras metropolitanas os não destroem e apodrecem. Lisboa cheira a sol e a podre, podre doce, de fruta caramelizada. Lisboa é lixo? Então venha mais desse lixo quente, que a não quero gélida e alemã, e não há pepinos que nos valham, nem tomates que não se fortaleçam pelos forcados amadores, Lisboa é nossa conquantop a não vendermos a quem quer cá vir, para lhes lavarmos os pés e as nádegas, com água de rosas ou malvas. Lisboa é assim, vista do rio...
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