Ao ver passar, pela rua asfaltada, um Jaguar rugindo, subindo enquanto ronca, deixando no ar o ronco com cheiro a gasóleo fresco, estaco. Logo observo, semicerradamente e quase lacriemjante, uma criança que me firta.
Está sentada, desnuda, a boca aberta, escancarada com a fome do mundo, uma caverna insaciável, aleia às moscas que dançam em frente a seus lábios gretados, de seca, de fraqueza, as moscas pousam no seu nariz e ele não tem já força ou vontade de as enxotar, deixa-as morder, comer, sugar, depositam os seus ovos sobre as orelhas feridas e cujas crostas não se fecham, raspando na areia do chão, enquanto adormece, desvanecido. Seus olhos vazios, fixam-me, não sei se pensando em mim como miragem, carrasco ou salvador. Não sei, pois vácuos de sentido de uma vida que sabe tanto a morte, como definir o ambiente entrecortado de guerra e pilhagens, de violações, quantos de seus irmãos não morreram de arma em punho? Quantos não feneceram, desnutridos ou sequiosos, enquanto te resfatelas numa poltrona em esplanadas arejadas e confortáveis, de música sugerindo paraísos balneares, quantas vezes não largas maquias para adquirir sapatinhos, vestidinhos, malinhas e outros trastes e inutilidades, quanto desse valor não poderia ser melhor aproveitado em agricultura, saneamento básico, educação, apoio a empresas, onde não existem. Até quando a apropriação de propriedade comum pelos privados interesses de grandes companhias, que arrendam, a seu belprazer, por quanto querrem e para que seja feito o que querem, quantos diamantes não sangram no teu pescoço? Nos teus dedos? E como regular esse especulador bastardo que adultera o mercado de alimentação e bens vitais e essenciais, para obterem lucros desmedidos, retiram a comida da boca de crianças como esta, que não choram lágrimas mas apenas o sal, o sol e a fome, o solo pobre e abandonado, seco e gretado, não será esta criança a maior vítima da corrupção do estado, do comportamento bolsístico ou das preferências dos comsumidores de uma nação estranha e longínqua que, mal desconfiando, contribuem quotidianamente para a construção desta sociedade, quer pelo seu trabalho, quer pelo seu consumo, alheios aos tentáculos que debaixo da superfície das coisas as tolhem e colhem. Não sentes esse vórtice desumano que tem guiado a Humanidade nos últimos anos, não reparas como em tantos estágios da nossa vida ainda estamos no neolítico, orfãos do séc. XVIII, perdidos do séc. XX? Não reparas na poluição negra que te asfixia, na cegueira do consumo que te controla e aprisiona, que dita à tua vontade o que lhe apraz vender esta semana? Enquanto exploram massivamente, irresponsavel e irreflectidamente os recursos do planeta, castram a verdadeira acepção de ser humano, matem e esclavizam a vontade, a imaginação, a identidade, formatando rebanhamente a massa amorfa e débil, como gado, avançando para uma abismo insondável e irreparável... até quando te vais deixar guiar por cegos e dementes, qua não respeitam a chama que nos anima r nos faz querer, sonhar, pensar e construir um mundo melhor, que nos mereça e cultive, que nos acarinhe e proteja, qua não nos molde e transforme em ciborgues desprovidos de emoções, buscando apenas sensações efémeras e selvagens, somos também frutos dos nossos desejos. O que preferes tu? Viver no meio de um luxo transitório ou construir um mundo justo e sem fome, um mundo onde a Humanidade se reinvente, evolua e apadrinhe a diversidade como essencial ao desenvolvimento da nossa realidade. Olha o despertador... Há quanto tempo não toca? Duas, três, cinco gerações? E tu, quando acordas para a vida que vieste aqui construir?
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