quarta-feira, 13 de julho de 2011

Agricultor Inteligente e trovadoresco do vale da deusa dos equídeos alados- Take II

Sou eu, um Jardineiro inteligente, que aprendeu a apreciar a serenidade bucólica das paisagens campestres, polvilhadas de flores selvagens que guerreiam pacificamente pela conquista do sol e da água, trampolizando-se para o desconhecido assentes sobre seus caules verdes ou lenhosos, fui assim, criado e educado, para um mundo que ainda não existe, e assomam-se visões utópicas, profecias de bolas de cristal azulada e com toques de verde esmeralda. Semeio, aqui e acolá, em largos apontamentos e imprecisas pinceladas, o que brota além, rego essas sementes com amor, sendo chuva abençoada num ligeiro aspergir, quase goticular,, filtro o orvalho matinal com o coração aberto em dois gomos suculentos e verto a sua luminosa essência na terra que o beija. Por vezes, vejo crescer a alma do mundo, imperceptível, no topo das copas verdejantes que baloiçam, dançando , na brisa salgadas e quente do verão que se tarda a despedir, tímido quando atravessado por frentes mais frias que o desejável.
Vim de um vale, colhido e protegido nos alvores da serra, sobranceira ao mar e triangulei-me em terra de serpentes, de moiras encantadas e castelos invictos, fundados na rocha ígnea e imortal, no topo pedregoso e inóspito da sua crista altaneira. Vim de tão longe que olho para trás e já não me recordo onde e quando comecei, qual o meu primeiro passo, o que deu origem a todos os outros que me encaminharam até este ponto insondável no oceano que se confunde com o universo, espelho das realidades cósmicas que nos escapam, mesmo quando plantadas à nossa frente, nesta corrida para o porvir, frenética e insana com meta em nenhum lado particular, pois todo o espaço é comum e não pode ser obliterado na sua comunitária identidade, baseada no cerne segundo o qual, todos pertencemos è Terra e não podemos chamar de nossa, pois nos suplanta, antes e depois de nossa curta passagem por este jardim à beira cosmos semeado, iniciada eras atrás, neste pulsar cósmico e ardente que nos impele à vida, sendo como pedradas no charco formando ondas no Oceano, continuamente inspirado e aspirando, expirando suavemente, multiplicando-se em moléculas incontáveis, expandindo-se e extraindo à sua alma o cerne pelo qual se processam as vidas que se desenrolarão no futuro que não se depreende mais do que o virar de uma esquina de nevoeiro e bruma, tiquetaqueando no ouvido do Universo.
Não ajardino apenas paisagens naturais, nem tampouco apenas lavro superfícies surreais, ou lembranças de colinas lunares, saltitando de cratera em cratera, mas principalmente, adubo esferas mentais, acantonadas em canteiros e parcelas subdivididas ao Tempo, ao Espaço, ao teor lúbrico da fantasia irremediável e esculpida na matéria verve e solta que reside na origem do sonho, e onde as substâncias fisiológicas atracam nos repositórios hormonais, onde se depositam, por ordem de chegada aleatória, os pequenos quintais à sombra provençal, alcatifados em lavanda roxa e com o perfume aberto em bouquet intrigante. Observo o lento amadurecer de seus frutos, que pela eternidade vão deixando seu apelo intrínseco e imutável, sempre repetindo o chamado primordial da primeira cavidade de luz das auroras que mais ninguém vê, encadeando o Homem no apelo libertário, unânime e vero.
A enxada é a minha vontade indómita e frequentemente adestrada, amestrada, o arado, esse, voa à velocidade do pensamento. Recolho com o ancinho das lágrimas vertidas ou engolidas, as folhas de pensamentos débeis, de sonhos desfeitos, com defeitos e fruto de efeitos longitudinais ou rasantes, entre a realidade e o objecto que a questiona, na sua natureza e em relação a si, recordações perenes que baloiçam ao vento da memória, em luzinhas sonoras que blipam e me piscam os fusíveis à passagem assobiada, atapetando o chão fofo e ligeiramente seco, crocante, e libertando pela acção friccionante, em tons rubros e expansivos. Colo-as em partículas cristalinas, relembrando os perfumes da primavera passada e agora, no solo, pronta a metamorfosear-se em borboletas sem fim, lançadas em voo flagrante pelo opóbrio ruminante que lhe desgasta as asas apolíneas. Penduro-as na cidade adormecida, por entre mosaicos, azulejos, basaltos e calcários, demonstrando a história geológica do chão que piso, onde outros cospem, ou se deitam, em horas de pouco repouso.

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