Olá!:) Eu sou um agricultor inteligente e gosto de jardinar a terra, sulcar o mar e arar o céu.
Vivo num enorme jardim, numa verde e plácida moldura, mais bonita do que realmente é, vem-me o mar bater nos pés, beijando-os com a sua espuma salgada, enquanto ziguezagueia, interpenetrando-se numa albufeira que é como uma cabaça, de água fresca e cristalina, alma e coração das pequenas ribeiras que nascem da terra arenosa e calcária, de um azul tão profundo como o do horizonte, apenas atravessado por uma língua sinuosa de areia, lambida ao de leve pelas neblinas baixas que atravessam o mar, em vento suavizado pela orla dunar. Vejo a serra recortando o céu emplumado por nuvens lanudas e encaracoladas, e a lua mirando-se nos espelhos da água mansa e harmoniosamente texturada por correntes apenas adivinháveis.
Semeio de meu semear, num jardim de livros, onde flores bonitas e coloridas brotam, corajosas e cintilantes, estrelas bafejadas por sonhos imersos numa magia sem par. Por vezes também vão crescendo ervas daninhas, que se erguem para sombrear a existências das flores mais luminosas, outras vezes para as proteger das geadas, colhendo-as, de tempos a tempos, de forma que a selecção paisagística não se apresente demasiado infestante ou parasitária.
Planto aqui os sonhos que te vão ensinar a escrever e viver o teu livro, quando cresceres, lembrando-te de que o enredo és tu que os escolhes, que o vais desenhando e pintando, em cores de tua escolha, à medida que avanças nos capítulos da tua existência. Aqui estão todas as ideias que brotam das palavras sussurradas que semeiam aos ventos da vida, fruto dos homens que as amenizaram e descobriram, dos que pressentiram e tiveram o embrião de realidades futuras, reais ou virtuais, pois que a ficção entrelaça-se na realidade que lhe empresta tantos motivos de divagação e explanação, incrementando visões idílicas que nos interpelam à consciencialização e introspecção, avaliando o nosso peso e dimensão relativizada com a Natureza, que no seu âmago e colo, nos amamenta e transporta, suave e imperceptivelmente pelo Universo radioso e intenso como o Infinito, banhado em névoas de gases raros e desconhecidos, atento ao nascimento das novas estrelas, sóis que irão fecundar os outros corpos, femininos perante a acção activa e fálica da natureza solar de suas entidades explosivas e quentes.
Aventuras de capa e espada, ilhas e tesouros, piratas e índios espalhando-se como cardumes pela planície primordial, o espaço longínquo modestamente povoado, debilmente explorado por imaginações ciclópicas, sonetos cantados por cordas tangidas de guitarras tocadas ao escuro, em becos recônditos da alma humana, equações complexas que explicam todos os determinismos do Universo e o intricado desenvolvimento e regulação da vida, estruturas geométricas planando pela História Universal, e o ímpeto humano à transformação da realidade e do planeta, outras vezes nem explicam coisa nenhuma, principalmente vazios de nada e são apenas alíneas soltas de teorias rabiscadas em brancos guardanapos de papel e toalhas de mesa de restaurante. Nuns choras, com outros ris, corres, alcanças, perdes-te e voltas-te a encontrar, nadando pelas páginas que viras, como folhas silvestres que se desprendem das árvores que nascem dos pensamentos elevados que o Homem lança à superfície granulada dos sonhos e dos ideais utópicos e sempre por realizar que cabe sempre a outros colher.
Por vezes, penso de como seria bom viver num bom livro, num que escrevesse com a verve e tinta de quem tem sangue nas veias criativas, de acordo com minha vontade. As personagens, essas, seriam sempre aquelas que eram eu. Assim, quando visse o outro, sabia-o uma das minhas multifacetadas realidades e identidades, era eu, embora com outros sonhos e ideias, outra forma, outro sentir e pensar, e ao falar com ele, que era eu, falava comigo, que era sempre um outro mutável, e observávamos o mundo por esse prisma multicéfalo e tolerante perante as impressões captadas, capturadas como rezes que se perdem nas estepes levemente nevadas, como algo de manifestamente real... Os seus defeitos eram os meus mais obscuros temores e minhas qualidades complementando-se com as suas, suadas, num exercício puzzlístico e estilístico da maior relevância. Cada vez que me cruzasse comigo, diria: - Olá!:) e cantávamos uma canção mental de louvor à vida que nos tinha reunido.
O que gosto mesmo é de semear ideias nos corpos transpirados do sonho, cultivar áridas mentes e fertilizá-las pela apresentação de outras perspectivas e noções, que se escapam, por vezes, por entre os neocórtices concentrados nos sinais de perigo exterior, afim de se refugiarem no complexo reptiliano, que continua a dar cartas cá fora, travestidas de límbicas sensações e emoções, primatamente aquiescidas.
colher fisiologicamente retumbâncias glandulares, apenas retirando dessa terra etérea o que me permita viver na felicidade de combater desperdícios e abraçar a minha real maneira de ser, sem ter de olhar nos olhos da fome, vazios como a terra dilacerada com guerras, interpostas à vida e à razão, até à morte triste da imaginação que vai fenecendo a civilização, reservando para o Inverno futuro, o que me aqueça estômago, alma e mente, corpos inclusos na sua identidade sorridente e radiante, luminescente se semicerrares os olhos abertos às experiências que nos escapam à compreensão directa, cujos fundamentos se desvanecem ante a nossa curiosidade de os desvendar, como explorações inéditas e pioneiras de territórios por mapear, circunscritos à densa e contudo, maleável e invisível teia de realidades unificadas num mesmo fio e trilho, acrescentado com pequenas contribuições exógenas. Não negar a quem passa a restauração de sua identidade, o preenchimento de seus mais selvagens e puros sonhos de conquista e liberdade, não negar a que passa à frente de meu lar, a vida que o vai levar, passo a passo, levantando ténue poeira, microscopicamente espalhada à mais pequena movimentação de sua base sedimentar e leve, dançando em voluptuosas colunas de mil pontos opacos à luz.
Este livro que lavro a sonhar, de pena revolvendo-se nos dedos preênsis, o mais importante são as crianças, pois todas são estrelas que nascem no útero negro da anti-matéria, negra e brumosa, E seriam acarinhadas, amadas, apoiadas e cultivadas para o zénite humano, apontando à genialidade inerente em cada um, desenvolvendo os dons que natos receberam, sem saber porquê, mas com a missão de os manifestar e aprimorar, pela sua acção darem relevo e importância a aspectos que atravessamos quotidianamente sem avaliar a sua verdadeira importância e significado. O mais importante eram os avós das crianças, seus ascendentes e antepassados, escurecidos pela ténue mas invariável e incontornável teia do tempo passado, frutos de uma vida de conquista face a tremendas adversidades, vingando por sua completa e interior vontade e preserverança, um dia de cada vez até almejar tocar ao de leve na imortalidade que nos une a todos na cadeia notoriamente arquitectada da Existência múltipla de miríades de unidades homogeneizadas num único ser que as engloba e nutre, bebendo nós do alvo e lácteo sustento que nos rodeia na sua omnipresença.
O mais importante eram ainda os netos dessas crianças, promessas de vida a romper pela abstracção nebulosa que o futuro nos atravessa à frente, qual muro ingalgável, após o qual ecoa a nossa identidade genética e astral, produzindo sempre novas discrepâncias e dicotomias que se apresentam na raiz do tempo a existir, após da nossa entrega as mãos e leis da Morte, rendidos a esse último e desejado suspiro, com o rebrilhar nos olhos de quem sabe que retorna nos próximos episódios. O mais importante era ainda todas as pessoas, jovens, adultos, maduros, verdes e rosé, homens e mulheres, de todas as compleições físicas e estatura estrutural variável, impressos em todas as cores e sabores, filosofias e religiões, que se entreajudavam e solidariamente se apoiavam e guiavam, amparavam e evoluíam juntos, como irmãos, sem se explorarem até à extinção de sua chama anímica, sem se magoarem (porque, afinal, todos eram eu) e ainda considerassem que o mais importante era viver numa terra não conspurcada, num oceano impoluto, respirando os ares revitalizantes das serranias e banhando-se nos tranquilos rios rejuvenescedores e usufruir da natureza, a sua fértil beleza, sua mãe e seu sempiterno amor, o céu limpo e cuidado, perfumado com todos os adocicados odores da vida, fresca, lânguida e sensual, a coreografia das brisas dispersas em redor, o mar dos corais multicolores e peixes escondidos nas profundezas abissais da escura possessão de Poseidon. Importante a terra profícua, o cuidar de seu jardim, sem extinguir as espécies pela pressão que exerce sobre os ecossistemas, por razões que não as naturais, escorraçando-as, perseguindo-as, caçando-as, matando, esfolando, estripando por um casaco ou um par de sapatos, ou a abjecta criação intensiva dos animais até à loucura, aspergindo um massacre sanguinário ao longo de prateleiras iluminadas.
Neste livro, a Humanidade era cultivada para desenvolver os seus dons inerentes e revelar a sua verdadeira natureza nas suas acções, palavras e pensamentos, fruto de uma canalização correcta do seu factor emocional, não cedendo aos desejos mais básicos e abraçando, enfim, o seu destino de ser consciente do Universo em Si, a Humanidade seria Pandora, cumulada de todos os dons, merecedora dos bens adquiridos e dinamizando-se através dos eflúvios cósmicos que se desprendem da Via Láctea, no seu contínuo rodopiar através do Desconhecido, em torno do Sol Interno, almejava apenas a Paz e a Justiça, cultivando a harmonia, e as divergências eram resolvidas com um terno e fraterno abraço.
Tu também podes escolher o teu livro, escrever nele de tua justiça, levando à tua consideração os abruptos contactos que estabeleces com a realidade das coisas no seu fluir interminável e elíptico, espiralando pela eternidade. Fá-lo melhor que eu…
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