quarta-feira, 20 de julho de 2011

Desvaneço-me como a espuma do mar soprada contra as falésias da existência

Desvaneço-me como a espuma do mar soprada contra as falésias da existência, em suaves borrifos e salpicos que, quase tão etéreos como a atmosfera iodada que os circundam, plantam, ao de leve, a sua húmida realidade à nossa face imersa no horizonte ondulado. É, em leves manifestações que o mesmo se nos acerca e humidifica as faces enrubescidas, esse espirro molhado e salgado que nos acorda, despertos, ossos na areia dourada, derreendo no sol escaldante que seca e mumifica a vontade e empoeira o desejo, esse desejo de vida e grito, essa libertação ansiada, que se combate passo a passo, dia a dia, nos intervalos das noites pausa, respirações que se amnontoam no chão encerado, entabuado de pinho, suave e anelar, onde mariposas reais pousam suas leves e antenácias pernas enquanto sopra o vento por entre suas asas abertas, mas quedas. Aperta o leme nos escolhos semeados sem sentido pela vida que, de intempérie em intempérie, deixa, suspensas nas nuvens que antecedem tempestades, ou abrigadas nas profundezas abissais por onde se desenrola a alma das coisas, promessas de novas madrugadas onde o sol beija e não queima e o tempo passa e não corta os lábios de quem se dessedenta nos parcos fotões entre a brisa.
Rebolamos como restos de conchas bivalves, como búzios vazios, na praia-mar, alheios à vontade que animava o ser vivente, apenas se deixando transportar até à areia levemente banhada e o leito surdo do mar, embatendo nos pequenos seixos que outrora eram o nosso solo, fixo e férreo, como uma torre horizontal e orientalizante, que se espraiasse, em cúpulas e minaretes, oceano fora, trazendo à Europa montanhosa os ruidos das gaivotas cercando os botes carregados de peixe até aos dentes amarelecidos e prateados. Lembro-me dos chapeus que os aguadeiros marroquinos usam, e eu sou aqueles carmim berloques, suspensos como guizos nas orelhas das caprinas réstias de rebanhos mágicos de outrora. Outrora cantavam grilos na noite e equiparavam-se a cigarras pigarreando em concorrencia aos melros canoros e negros como corvos que rondam o halo da lua em noites despovoadas de estrelas. Pirilampos esvoaçavam em verde luminoso quase solar, torneando caniços envoltos em bruma nas margens das estradas esburacadas e em terra batida, circulando não rotundas, mas crateras nas quais, se debruçados, com cautela e emoção, às suas beiras rasgadas na terra, podemos observar, do outro longínquo lado banhado de imaginações subvertidas e inflexivas, os modelos de organização social dos koala e cangurus que, do outro fuso horário do mundo, penduram-se em eucaliptos ou saltitam entre arbustos ressequidos que apontam seus ramos despidos aos ceus de um intenso azul.
Esse desvanecimento é paralelo ou equiparável apenas à linha luminosa e vertendo cromáticas sensações diurnas e opusculares dos crespúculos incoerentes, silhueta oprimida sobre a cama atlântica pelo intenso negrume pesado da noctívaga presença que a persegue, tal como o último suspiro da noite, largando o último cantar da noite, sob o fogo intenso de vociferação suave e risonha, demonstrando a alegria inequívoca que cada novo dia oferece, alheio ao passado que se esconde nas trevas fugídias que a própria luz atravessa e desnuda, em fiapos que são como longos e finos dedos que tacteiam a escuridão, procurando por algo que possam salientar à luz de suas ciências, interpretando as suas essências, as quais se qproveitam desses hiatos repletos de matéria insondável com a qual o cosmo controi os tijolos e colunas que o sustentam e carregam, sob as alçadas do Tempo e do espaço, até onde a eternidade de sua identidade sucumba ante a curiosidade de ser outro, de morrer e renascer de suas cinzas apocalípticas e originais, repetindo os iniciais momentos da criação original de sua alma e mistério, a todo o instante, em intervalos de incontáveis milénios, para que nada sobre, na memória, de tantos e variados recomeços e soluções dicotómicas, fruto das encruzilhadas miraculosas envoltas nas miragens que bebemos nos desertos arenosos, azul e dourados, do Universo.
Desvaneço-me, então, como pingos de chuva salivando sobre o rio, como reflexos entrecortados de vidas em espelhos cujos cacos abandonados em chão negro e triste repartem, em mil pedaços, as faces que escondemos de nossas existências internas, secretas e eternas como o caminho diabólico da Terra envolvendo o sol com seus laços verdes e vivos, ou as diatribes dos que devaneiam, em alfabetos estranhos e aritméticas antigas, as teorias que nos testam a compreensão, pela sua singela execução, dispersoas em equações que o Homem, ao longo de sua história tantas vezes desconhecida, pintou entre salões e cavernas, ocultos sobre rochas mitificadas, escritos nos mais diversos suportes rijos e moles, papiros, argilas e papel documental, entre portulanos de representação geográfica do planeta e mapas mentais para que não se perca entre demónios no mundo que os espíritos animam, já aqui entretecido e interligados, tão perto que sentimos seu bafejar quente e amargo, que obsta ao doce que exalamos, atentos ao que deixamos perdido, alimentando-se das energias que nos envolvem, mesmo que nos alheemos deles, tão presentes na nossa vida, enfim, como o café que, esfumando, cálido, saboreamos na manhã fria, enquanto nos aquece as pontas enregeladas das mãos presas a seu cálice como à vida.

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