Só o mar rufa e ressoa
Só o mar é a vida que na espuma se
encontra
Como que presa num sono intranquilo mas
quedo.
Na ilusão da morte reinar sobre a terra,
mas não no Oceano matriz
Sob ela é o mar que lhe fomenta a música
Todos ouvem o mar como que a cantar
E, extasiados, dançam até que sua alma
sua
Cativos desse feitiço de prata e branco
O Mundo, em silêncio, observa o mar
No silêncio, só o vento acorda as pétalas
das flores
As faz tremer, de frio, na noite calma
Só o vento uiva na copa das árvores azuis
É o abraço que lhes oferece é
hipnotizante
Elas acompanham a dança da Lua
Nos andamentos guiados pelas ondas no mar
Mas nem tudo está quieto e silencioso...
Eu também danço e canto
E também eu sonho com esse dia glorioso
Quando todos ao olhar para a Lua e dirão:
Sim, eu também vejo a Lua a dançar.
Observo na andorinha que regressa
A Primavera, de asas coloridas esbatidas no negro
A Primavera, de asas coloridas esbatidas no negro
E nos ziguezagues leio promessas de amor
Esse amor de Mãe, com o aroma da terra
O sabor colorido a flores silvestres
Revejo o Tempo antigo na corça que salta
Sebes que desconhece quem as fez
Porquê aquele muro verde a céu aberto?
Separando terra da terra
No tacto da terra sinto a impermanência
No tacto da terra sinto a impermanência
Da Vida, a velocidade da Terra rebolando
no Espaço
Sinto no vento que sopra o mar que se
levanta
E as raízes contam-me histórias verdes de
homens que partiram
Quando me sento no brilho do Oceano
nocturno
Só a Lua e as estrelas brilham comigo
Nos reflexos multipartidos das ondinas
E apenas o farol quebra a harmonia da luz
e da côr
Com fachos cortantes na noite de veludo
Desvelada, a noite fria, desnuda e sem estrelas
Ali, onde pequenas núvens escondem os
tons mais púdicos de negro
O cinza deslizante acosta a portos
invisíveis.
Toco, ao de leve, em sua tez
surpreendentemente azulada
De súbito, acaricio as leves curvas de seu
corpo celeste
E uma estrela tímida desponta no infinito
tecido
Salto para o ar em cascata de luz,
caçá-las, arremetê-las
Submetê-las a uma vontade criadora a elas
alheia. Sossego.
Encostado a um asteróide pendido,
contemplo sonhos impossíveis
Observo, ao longe, uma estrela que,
decerto, encantada
Dança em volta a uma neblina violácea e a
ela investe
Em seu deambular errante, num gesto
decidido
No desnível do planalto sopra um vento
amigo
Desprende-se de si e traz a névoa
Onde o mar se cruza com o céu, na ténue
linha do horizonte
Inverosímel, escuto a voz que me traz a
chuva a caír
Das ondas a brotar na costa arrependida
Já nem a luz dos pirilampos faisca na
noite velada
Nem o coaxar das rãs me arranca da
paisagem
Apenas uma ou outra ave responde ao meu
tinido
Um ou outro coelho se assusta com ruído
que não há
Desfaço-me nas lágrimas, no sal do mar,
na fonte
Corro a atravessar a terra e, no porvir
Dormir, morrer numa tarde do mundo
escondida
Que irrompe como um fantasma na escuridão
revelada
Assisto, assim, ao fim, e recordo o rumo e a mensagem.
Surge-nos, fugidio, oculto em vagas de eventos
Constituindo existências, acções e
momentos
perguntando «e dentro do nada, o que
resta»?
Participando num banquete de Amor
Amor em taça servido a quem a gesta
continuou
Abraçou intensamente o seu serviço,
missão e destino
Presenteou e Universo com a matiz de sua
cor
O seu sabor e sua nota na sinfonia do
sentir
Uma palavra, uma identidade formada no
real.
Cresce e transforma-se, ganha asas e voa,
ideal
Ultrapassa os limites só por si impostos,
vence, a sorrir.
Quando em si encontra essa voz, esse
alento
O carinho arquetípico, a vida em si
guardada
A chama que o revela abraça-o, numa
redoma perfumada
Que é, em si desponta e busca o
firmamento
O sentido, assim desnudo, sem rito nem
mito
Apenas a força de uma corrente imparável
Que avança nos abismos, tendo apenas um
fito
O conhecimento de si espelha o Universo
palpável.

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