Para Peres Metêlo, a coisa não era fácil.
Apesar de tudo, a manhã abriu de par em par os braços e correu a abraçar o oceano que agora se levantava, em marés de pureza.
Da pereira, expectantes, quatro flores irrompiam, brancas, como brancos os sonhos acordados das crianças, povoados de civilizações inteiras de personagens que os mitos desenham em tons mais sombrios.
Em todo o caso, pensava, o país fechara-se sobre si mesmo, auscultando as dores que teimava em esconder. Declarara-se a falência obrigacionista do jugo social sobre pactos mal formulados. o povo, nascente máxima e última da soberania que lhe assiste, cansado de entregar em sujas mãos a construção de um porvir radioso, descrente de todas as soluções apresentadas, tantas vezes em nome de ocultos senhores, a mando de faustosas empresas, abraçava o abstencionista anarca que o temperava, esperançoso que a voz sobrasse para chegar à rua, à polis, à praça.
Mas a voz, cujo contexto estava já claramente deficitário, vendida a altos preços nos mercados bolsistas das grandes nações, só chegava, roufenha e monocórdica, desinteressante, mas hipnótica, para soltar uns miados mal amanhados e praticamente inaudíveis, para lá do silêncio introspecto que a angústia estendia em seu redor, por onde reinavam os bulícios de uma sociedade da desinformação, limitava-se a sussurrar, que o medo da censura espreita já aqui, que a liberdade tinha sido adquirida em leasing e que estava na hora de se deixar de ilusões, direitos e pressupostos, a vida estava crua e aldrabona e não havia lugar para a ética ou honestidade. Mesmo que contra o mundo lutasse, de escudo tinha apenas a sua seriedade. Como esta não teria pendor de vendável, era inútil e aberta a desvalorizações indexadas ao valor de referência aproximado, valor esse que seria utilizado, em seguida, para efectuar taxas de cálculo e rumos de esforço expoliando e extorquindo sem piedade o sangue e a vida aos demais cidadãos.
A Europa constroi-se, não em tijolos, mas colada a cuspo, e as clientelas fazem fila nos corredores de Estrasburgo, como uma sopa dos pobres que são ricos, cheia e pulsante, contrabalançando com as mitras fechadas pela ASAE e as sombras humanas que dormitam pela cidade, entre cartões, dependentes de cidadãos avulsos e de seu pendor solidário, abandonados às sortes desnutridas que povoam os recantos escondidos das urbes adormecidas, levantando-se, entre trapos e remendos, antes de raiar o dia, expulsos por jactos que visam limpar as ruas dos dejectos humanos e, na sua robótica missão, acabando por limpar os humanos que, como restos de refeições lançadas aos cães, ainda dormitam, que o medo não deixa dormir e apenas o valor anestésico do alcoól lhes empresta uma solidez que faz lembrar o sono, mas é apenas o adiamento da morte.
«Exijo que no Parlamento, os valores da cantina sejam revistos como as leis do arrendamento o são. Precisam de spreads mais altos nos pratos de tremoços, mais água no porto, menos whisky e mais gelo.»
O serviço pode ser exercido por um taxista de bigode engraxado e o prato do dia seriam rojões e/ou tripas, que a ciência da cozinheira deve ser razoável.»- resmungava, entredentes e duas goladas d'água.
«Que aluguem carroças, que andem de bicicleta, que substituam a frota por artigos de higiene para as crianças carenciadas, que substituam flores naturais por artificiais e comprem pão para os pobres. Que se deixem de discursos vãos e que declinem a imunidade parlamentar.», rematava para os companheiros.
«Onde anda a justiça? A aldrabar nos pesos, como uma feirante fajuta. Os juízes, apoiados nas cábulas em exames, digladiam-se com bandos de salteadores militarizados que, nas estradas portuguesas equivalem aos bandoleiros de outrora, atacando as diligências no Oeste selvagem, desta feita com ATM´s portáteis, perseguindo o cidadão automobilizado como um criminoso recalcitrante e assobiando para o lado ao passar por um meliante profissional. Vendidos, no fundo, que com uma única manifestaçãozeca sacaram 10% de aumento salarial, isto num país que tem como lema financeiro «corta em tudo o que mexe», e , dia seguite, já garantida a maquia, corre a matraquear, sem dó e em qualquer lugar, as costas e cabeças de quem os sustenta, afinal.» era uma dó que se levantava, uma dó que, como mó, girava em nó e reduzia a fina farinha qualquer grão que da engrenagem ia cuspido, dislates e análises eram todas minuciosamente desagregadas e cientificamente desconstruídas até se assemelharem a uma mole pasta de argumentos falaciosos e vazios. Uma técnica que lhe proporcionava dar um rating quase imediato a qualquer locução ouvida ou transcrita, tendo em conta a aldrabice natural do orador e a camada envernizada de populismo qb para fazer passar um camelo por um perú, um pavão por um modesto pardal, enfim, destruía diligentemente qualquer efabulação política que se erguesse ao horizonte, como um sniper bem treinado na arte do assassínio político de esplanada.
Num país de desempregados, Passos assume as portagens, Portas a travessia do Tejo em submarino. Crato fixa-se no continente americano e escreve crónicas para o jornal, a Macedo, dê-lhe um AVC de todo o tamanho e o INEM escreve-lhe a biografia e o requiem antes de enviar ambulâncias.
Os cidadãos, reféns do seu Estado, amordaçados pelo hábito de, calados, se quedarem ante as dificuldades, resignados e estóicos, até comem as solas dos sapatos, para não deixar caír seus familiares na lama, mas ainda hoje os lançam para o Catano em troco de uns tostões...
O Caetano agradece, mas confessa que não é o ramo dele, pessoas.
Durante décadas, mantidos num limbo que os aglomerava na mesma propriedade vedada e lhes lançava magotes de areia para os olhos enquanto que, sem pá ou picareta, abria buracos por todo o lado. O contribuinte, mesclado com o consumidor e o cidadão, cada um acotovelando os outro, e os grupos de pressão compartimentados em lobbys coloridos debatendo os melhores meios de saque, acumulavam os dividendos que cada indivíduo, sendo três pagadores, largava, usufruindo, quanto muito, de apenas uma faceta do proposto, arrastando-se a cumprir contractos falidos de início. A terra conquistada ao uso comum, acumulada pelas instituições do Estado é agora previsivelmente distribuída por quem tem poder de compra para as alienações estatais, acimentando as desigualdades, afunilando as oportunidades. Sempre chamado a pagar, o contribuinte nada recebe. O mercado assim decide:
menos condições para o trabalhador + menos direitos para o consumidor + mais apoios pagos pelo cidadão = maior lucro financeiro - distribuição por accionistas = 0
Isto é de boa vontade... Assim falavra Zara a Truta, capitã da equipa de volley do Bairro da Boavista, durante três anos voluntária para o serviço militar, desistiu sem casar, ainda era Cabo dos trabalhos, embora andasse enrabichada por um sargento e dois tenentes, foi um aspirante a sem abrigo, Caetano de sua graça, na altura, corrector da bolsa, que é coisa que até precisa de muitas correcções, que a conquistou, carregando-a, a galope no seu passo apertado, até a um aeroporto agora comparticipado por capital oleoso e desértico, que voar era o mais perto do céu que a podia levar.
«Boa tarde! Este é o vosso capitão a brincar com o intercomunicador, à vossa esquerda poderão observar manadas de vacas au naturel, enquanto que os passageiros à direita poderão disfrutar de uma visão exclusiva de campos de cultura de esferas rosa e violetas de algodão doce, cultivado por beneficiários do RSI, e, é bom de dizer, a custo zero. Espero que tenha uma viagem tão boa como a de um iaque nos desfiladeiros tibetanos. Over and Out!» Sempre gostava de dizer aquilo, dava ao taxismo um novo panache! Hilário tinha nas nádegas vinte anos de condução nas ruas cada vez mais apinhadas de Lisbos, dizia, «vinte em cada nalga, bem contados, como as chineladas da minha avó, professora primária em tempos que já lá vão e, ah! como eu sabia fazer contas... corrigia em ar zombeteiro.
Após o intervalo insano, enquanto contava em numeração romana os arcos da Velha Aliança que os raios solares iam postando no azul coralino do céu, demarcava-se mentalmente a solução para tantos dos problemas que afligiam as metódicas mentes dos economistas que, fazendo juz ao nome, economizavam tudo menos na estupidez natural, manancial abundante e sempre disponível na verborreia com que nos presenteiam, tendo sempre tanto para dizer menos o que é importante ou significativo, para nos baloiçarem em triviais considerações até que as mentes se aquietem e adormeçam, voluntariosas, à tereceira rotunda..
O homem, de barba composta e chapéu de feltro polido, continuava a observar a traça antiga, intermitentemente, enquanto atravessava a avenida. Chovia copiosamente e as gotas deslizavam como meteoritos límpidos na gabardina escura. Uma bacoca baforada no cachimbo anunciava que se desprendia de algum neurónio indiscreto, uma sinapse incriminatória. O homem abriu um pequeno bloco negro e apontou algumas linhas, não sem antes se certificar que nenhuma gota borrasse o aspecto impecável das folhas virgens. Levantou os olhos duas vezes, devagar, esbarrando sempre com a minha resposta gélida e, no entanto, curiosa.
O que levaria um estranho a tecer considerações acerca daquele local, que poucas vezes se dirige a quem passa por esta zona da cidade? Seria essa a razão? Porventura teriam ressuscitado os velhos mestres da Gestapo e feito um curso de formação para reactivação dos PIDE. Seria este cavalheiro um dos interlocutores que a Guarda preparava, colector de informações avulsas mas incriminatórias a todos quantos levantem sobre si suspeitas ínfimas de alienação social ou parca pertença? Aí, estacou o passo e dirigiu-se para a esquina, onde o distinto cavalheiro mantia a sua escrevinhisse, tão alheado do que o rodeava e confiante de me encontrar já numa outra quadrícula urbana, acabava a sua ilacção e arrancava à caneta um sonoro ponto.
Acercou-se no momento certo, enquanto tacteava com os dedos o bolso para depositar a caneta e o bloco. Sentia-o a arrepiar-se, de surpresa, e duas gotas de receio riscarram-lhe a linha do rosto.
«O que pretende? Porque me observa? Quem é o senhor?» perguntas em catadupas, e ele, calado, ofegava:
«Não, eu... quero dizer, não, eu...»
E aquilo parecia um carrossel, repetitivo e estonteante, e dali não arrancava. Mas , na altura em que estava para pegar-lhe pelos colarinhos e fazer uma carantonha intimidatória, o sujeito é invadido, entre soluços, de um ataque peremptório de riso desalmado e simultaneamente nervoso , o que deixou Peres desarmado.Pois fora através de seu riso puro e singular que a sua memória o reconheceu. Não lhe conseguindo atribuir nome ou faceta mais visual, era o timbre luminoso da sua risada que me transportou aos recreios indefinidos da escola primária, um páteo interno pejado de putos e, mesmo reconhecendo o timbre que o tempo empresta às condições iniciais de cada um, mantinha a imprevidência de não se associar a nome. Além de, pela imagem que transparecia, nunca poderia ser um colega de sala, era demasiado velho para os parâmetros utilizados na altura, e não poderia ser professor, pois não? «Professor Sarzedas?» Pronuncia, balbuciando o seu nome, sílaba a sílaba, como quem vai desfiando a memória e lendo uma fina tira de papel estenografado... «O próprio.»
Naquele momento, esfumavam-se as nomeações ministriais, os especialistas de coisa nenhuma, os bónus sobre desempenhos fraquinho, as reformas antecipadas, toda uma constetação criteriosamente construída, ruía, ante o assombro de trocar impressões com tão notável cidadão.
Sentia-se transportado novamente até à sua infância. A escola, o seu cheiro inigualável, as suas paredes com os trabalhos magníficamente pendurados, atestando a evolução dos alunos. Naquele tempo, os professores usavam bata branca, mas é hoje que a sala de aula parece m manicómio. Por isso a límpida gargalhada soava na sua memória como um rio fresco e caudaloso, fértil e completo... Tinha o hábito, o professor Sarzedas, quando novo, de irromper selvaticamente o seu caudaloso riso, por vezes contagiante e, lembrava-se igualmente, de tantas vezes procurar esse apoio bem positivo, enquanto a sua mão estendida ansiava pelo fim de algum correctivo mais reguado, concentrando-se na estridente risada, por vezes até se esquecia da mão estendida depois das pancadas recebidas, ainda a mão exalava aquele suspiro carregado de alívio, um pouco de dôr e um calor pouco saudável, suspenso o choque palmípede e lenhoso... Convidou-o de imediato a sentar-se na esplanada de um antigo quiosque e, partilhando um chá de ervas e folhas, puseram-se ao corrente dos avanços e recuos da vida de cada um.
Juvenal era um gajo banal, pronto, mediano, considerava-se ele. Altura média, peso médio, inteligência média, a sua vida era uma mediana, um gráfico constante e venial, e ele inserido permanentemente num limbo autodesconhecido, oscilava, entre um êxtase libertário e uma catarse limitada ao stock existente, geralmentre, na média europeia. Não faria dele um bipolar, que, embora na moda, ainda não se encontra num nível de manifestação suficientemente visível para entrar nas estatísticas que construíam a sua vida. Juvenal passeava no jardim, a meio caminho no sopé da colina, entre o miradoiro secular e o vale, outrora confluência de ribeiros e nascentes, hoje, apenas a toponímia desvelando seu ancestral fragor, despido actualmente da identidade que se formou ao longo da história da cidade, sepultado entre os escombros de ruas, cais e ruelas, engenhos de manufacturações perdidas na memória dos tempos e ofícios.
Já Parúsio era um rei. Não, melhor seria dizer que Parúsio era O rei. Não que o fosse, de facto, das mais ternas recordações de infância que guardava religiosamente era a frase «deves ter o rei na barriga», coisa que era, à altura, uma impossibilidade técnica. Mas, com os avanços da ciência e da tecnologia, Parúsio era o rei que o pariu, o que o distinguia dos demais pseudoaristocratas e induatriais d'algibeira, arrogantes e pedantes que se passeavam nas avenidas com ar afectado, era a superioridade do seu nariz empinado e um postura que lhe tinha feito ganhar o epíteto de «pau no cú». No entanto, era dado a acessos explosivos de violência gratuita quando alguma coisa não lhe agradava, o que colocava qualquer interlocutor desatento num alvo passível de ser admoestado à real pancadaria.
Atravessava a rua, quando reparou num transeunte introspecto, com um belo casaco de camurça. Abeirava-se dele e, sem cerimónias, apontava:
- Tem de fazer algo em relação a esse casaco. está curto.
O indivíduo, mirando-se obliquamente, com um ar de «vai-te encher de moscas», ainda justificou:
- Mas não, repare, casaquinho feito à medida, não assenta como luva que não a é, uma cor toda janota, veja, está perfeito.
- Quando digo curto, aceite o que lhe digo, é poque é curto. Eu não o conseguiria vestir, ficar-me-ia apertado. Não serve. Arranje-o ou envio um batalhão de guardas reais com plumas no capacete esquartejá-lo à boa maneira romana.
Logo, o inadvertido compreendeu a mensagem explícita e levou-o momentaneamente dobrado no braço, olhando sempre para trás, não fosse ser abordado por legionários da V Coorte.
«Há provimento? Não? Então, também não tem cabimento. E este provento, acaso é transportado p´lo vento? Ou é retirado do sustento de cada jumento? Ouve-se o gemido lamento, lento, ao soçobrar intentoo e, atento, sábio e bento, tento a tento, recupera o alento e ganha num momento um adiantamento sobre o aviamento, que proporciona crescimento,
Daqui do assento, acento. Não há birra sem birrento nem salário sem aumento. Não é apenas um sentimento, é também um pensamento que se forma no barlavento e é como um alimento, um alinhamento, espelhado na terra o do firmamento.» Assim cantava a poetisa, perto da fonte em pedra manteiga, encostada ao beiral. Todos lhe chamavam Diva, porque era ligeiramente mais pequena que um sofá. de sofá a divã ia um passo, mas deixando-se caír o assento, logo outro fenómeno surgia, despontando no horizonte encaixado nos telhados rubros das casas, as núvens calmas, o reflexo nas janelas
No centro da praça, alheio às teias que o destino vai impondo, um pombo debica os grãos abandonados por um reformado, idoso só de corpo, ainda jovem na maneira de sentir e na gana de viver. Desconhece como se uniram os caminhos destes personagens, tão diferentes e, contudo, partilhando o mesmo espaço humano. Separados, nada seriam, mas juntos... formavam o grupo de Cantares Alentejanos da Praça dos Girassois à Graça
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